{"id":19760,"date":"2025-11-07T07:07:47","date_gmt":"2025-11-07T07:07:47","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=19760"},"modified":"2025-09-10T11:27:39","modified_gmt":"2025-09-10T10:27:39","slug":"sabes-leitor-23-marca-de-agua-do-livro-de-gregor-puppinck-a-familia-os-direitos-do-homem-e-a-vida-eterna","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/sabes-leitor-23-marca-de-agua-do-livro-de-gregor-puppinck-a-familia-os-direitos-do-homem-e-a-vida-eterna\/","title":{"rendered":"Sabes, leitor&#8230; | 23 | Marca de \u00e1gua do livro de Gr\u00e9gor Puppinck, &#8216;A fam\u00edlia, os Direitos do Homem e a Vida Eterna&#8217;"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">Rubrica \u2018Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma p\u00e1gina\u2019** | <em>Marca de \u00e1gua de livros que deixam marcas profundas<\/em><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Parceria:<a href=\"https:\/\/www.federacaopelavida.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> <em>Federa\u00e7\u00e3o Portuguesa pela Vida<\/em><\/a> e<em> Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<pre style=\"padding-left: 80px;\"><strong>O(s) autor(es) e a obra<\/strong><\/pre>\n<h5 style=\"text-align: right;\">Gr\u00e9gor Puppinck, A fam\u00edlia, os Direitos do Homem e a Vida Eterna, Cascais, Princ\u00edpia, 2018.<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este j\u00e1 \u00e9 o terceiro livro de Gr\u00e9gor Puppinck que aqui analiso, depois de \u2018Os direitos do homem desnaturado\u2019 (n\u00famero 22 desta rubrica) e \u2018Obje\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia e direitos humanos\u2019 (n\u00famero 19 desta rubrica), todos publicados, em boa hora, pela Editora Principia, com a parceria da Funda\u00e7\u00e3o \u2018A jun\u00e7\u00e3o do bem\u2019. A sua lucidez \u00e9 admir\u00e1vel\u2026 Dar eco do seu legado torna-se, por isso, um dever para quem o l\u00ea: pela clarivid\u00eancia da sua reflex\u00e3o, pela honestidade do seu discurso, pela coer\u00eancia entre a sua escrita e a sua a\u00e7\u00e3o. A nossa d\u00edvida para com Puppinck, mesmo que desconhecida da maioria, \u00e9 enorme. Como recorda Ant\u00f3nio Pedro Barbas Homem, o autor do pref\u00e1cio do livro que, agora, analiso, muito devemos a este doutor em direito e diretor do European Centre for Law and Justice, membro do painel de peritos da OCDE e do Conselho da Europa sobre Liberdade Religiosa, destacando-se o seu contributo para o processo chegado ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem interposto contra o Estado Italiano, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 presen\u00e7a de crucifixos nas salas de aula. Gra\u00e7as ao contributo singular de Puppinck, n\u00e3o saiu vencedora uma leitura laicista que teria terraplanado s\u00e9culos de hist\u00f3ria e contribu\u00eddo para um aprofundar do afastamento entre o territ\u00f3rio p\u00fablico dos Estados e a vida real dos seus povos. Este processo ficou conhecido como \u2018Lautsi v. It\u00e1lia, sendo um de muitos em que o contributo deste eminente jurista impediu decis\u00f5es nefastas para a vida coletiva\u2026<br \/>\nMas, como bem recorda nos seus v\u00e1rios livros, o \u2018bom combate\u2019 continua\u2026<br \/>\nEste livro poderia ter sido o primeiro dos de Puppinck a merecer an\u00e1lise, aqui. Curiosamente, por\u00e9m, segui uma ordem que n\u00e3o \u00e9 a da edi\u00e7\u00e3o, mas a da descoberta. Cheguei a Puppinck pela m\u00e3o de Gabriele Kuby. As circunst\u00e2ncias da discuss\u00e3o nacional (e mesmo internacional) sobre os limites \u00e0 obje\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia levaram-me ao seu livro dedicado a esta mat\u00e9ria. Logo ali percebi e fiquei assombrado com o seu brilhantismo. Parti, por isso, \u00e0 descoberta do segundo, \u2018os direitos do homem desnaturado\u2019, ficando com o desejo de ler este que, agora, analiso, um livro, ali\u00e1s, premiado.Da leitura dos tr\u00eas livros emerge a consci\u00eancia de uma desarmante coer\u00eancia de pensamento que, neste terceiro livro recebe, pela circunst\u00e2ncia em que ele surgiu, um \u2018plus\u2019 a referir.<br \/>\nDado tratar-se de uma obra nascida de uma circunst\u00e2ncia muito precisa \u2013 nasceu como texto de uma interven\u00e7\u00e3o num col\u00f3quio sobre fam\u00edlia e a Igreja, organizado pela Confer\u00eancia Episcopal da Eslov\u00e1quia, no contexto mais amplo do s\u00ednodo sobre os \u00abdesafios pastorais da fam\u00edlia no contexto da evangeliza\u00e7\u00e3o\u2019, &#8211; neste livro o autor permite-se explicitar tra\u00e7os que s\u00f3 implicitamente est\u00e3o presentes nos outros livros.<br \/>\nNa verdade, aqui, Puppinck evidencia o papel \u00edmpar, insubstitu\u00edvel do cristianismo cat\u00f3lico para a \u2018repara\u00e7\u00e3o\u2019 de erros que est\u00e3o a ser cometidos a coberto de uma leitura individualista dos direitos humanos.<br \/>\nPara tal, Puppinck descreve, com clareza, a g\u00e9nese dos erros que est\u00e3o diante de todos (a emerg\u00eancia e estabelecimento de uma leitura voluntarista e individualista do ser humano; ao arrepio da leitura humanista e personalista), denunciando as suas consequ\u00eancias e implica\u00e7\u00f5es (mesmo as ainda n\u00e3o totalmente vis\u00edveis), mas vai mais longe, explicitando o papel que cabe ao catolicismo como garante de que o resvalar individualista n\u00e3o esfrangalhe definitivamente a sociedade.<\/p>\n<pre style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\"><strong>Marcas de \u00e1gua <\/strong>\r\n\r\n<strong>(o que fica depois de se deixar o livro)<\/strong><\/pre>\n<p style=\"text-align: justify;\">No posf\u00e1cio, da autoria de Mons. Aldo Giordano, enuncia-se o esbo\u00e7o de uma met\u00e1fora que nos serve, perfeitamente, para resumir o alcance da abordagem defendida neste livro: a met\u00e1fora da noite e do dia.<br \/>\nA natureza do dia poderia definir-se como a de um tempo em que todos se regem, movem, orientam, por uma luz comum. E isso une todos os \u2018ensolarados\u2019 em torno de algo que \u00e9 comum. As d\u00favidas de uns podem ser esclarecidas por uma \u2018fonte\u2019 que \u00e9 comum a todos. E isso garante a unidade da leitura, a converg\u00eancia das leituras, mesmo que diversas nos detalhes.<br \/>\nA natureza da noite poderia definir-se, pelo contr\u00e1rio, por ser um tempo em que, pela aus\u00eancia de uma luz comum, cada um gera ou recolhe a sua pr\u00f3pria luz, ofuscando as luzes mais fortes a luz dos mais fr\u00e1geis\u2026 Pela aus\u00eancia de uma \u2018fonte\u2019 de luz comum, as possibilidades de choques, conflitos, imposi\u00e7\u00f5es, aumentam.<br \/>\nOs direitos humanos foram vertidos, na d\u00e9cada de 1940, para um documento que pressupunha uma \u2018fonte\u2019 comum: a natureza humana, objetivamente considerada e anterior \u00e0 vontade de cada um. A participa\u00e7\u00e3o de todos nessa natureza universalizou os direitos humanos e permitiu reconhec\u00ea-los como \u2018iguais e inalien\u00e1veis\u2019. Como tantas vezes venho recordando, fez deles \u2018direitos\u2019, mas, tamb\u00e9m, \u2018deveres\u2019 para todos e cada um.<br \/>\nProgressivamente, por\u00e9m, foi-se impondo uma leitura duvidosa sobre a dignidade (que se considerava como pressuposta, para uma outra no\u00e7\u00e3o que a faz depender da perce\u00e7\u00e3o de cada um), assente em axiomas individualistas e voluntaristas: \u00e9 o sujeito individual que passa a ser a \u2018medida de todas as coisas\u2019.<br \/>\nUma tal \u2018revolu\u00e7\u00e3o\u2019 est\u00e1 a conduzir a uma abordagem dos direitos humanos que os vai afastando, mais e mais, da natureza humana. Como o pr\u00f3prio Puppinck sintetiza, \u2018Do ponto de vista individualista, quanto mais antinatural \u2013 isto \u00e9, contr\u00e1rio \u00e0 natureza humana \u2013 for um direito, mais ser\u00e1 visto como uma elevada manifesta\u00e7\u00e3o da liberdade humana, e mais alto se encontrar\u00e1 na nova hierarquia dos direitos.\u2019(pp. 42-43)<br \/>\nE a fam\u00edlia, nisto tudo?<br \/>\nCom o brilhantismo que lhe conhecemos, Puppinck regista que a leitura individualista dos direitos humanos deslocou a abordagem sobre a fam\u00edlia daquilo que ela \u00e9, uma uni\u00e3o que n\u00e3o depende de um s\u00f3 e que carece de prote\u00e7\u00e3o pelos bens que ela comporta (entre os quais merecem particular destaque os filhos), para uma outra linha que coloca o centro no indiv\u00edduo. Como se \u2018algu\u00e9m pudesse casar sozinho\u2019\u2026 Neste novo registo, o centro passaram a ser os direitos dos adultos, deixando em segundo plano os direitos das pr\u00f3prias crian\u00e7as, dependentes de serem desejadas pelos adultos (assim no aborto, nas barrigas de aluguer, na procria\u00e7\u00e3o medicamente assistida, etc\u2026).<br \/>\n\u00c8 neste contexto que ganha particular prem\u00eancia o papel do catolicismo que, de acordo com o autor, deve resistir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de \u2018laicizar\u2019 e neutralizar o discurso explicitamente religioso, evidenciando, pelo contr\u00e1rio, que \u00e9 a certeza da \u2018vida eterna\u2019 (essa nascente comum da luz que a todos iluminar\u00e1, simultaneamente) que pode fazer regressar a humanidade \u00e0 realidade, acordando-a das ilus\u00f5es de autossufici\u00eancia que a p\u00f3s-modernidade (que o autor referencia diversas vezes como sendo um tempo de ilus\u00e3o da dispensabilidade de Deus). O autor lan\u00e7a, por isso, o desafio a que os crist\u00e3os percebam que a estranheza que lhes suscitam as leituras individualistas dos direitos humanos s\u00e3o um convite a que se envolvam na defesa de uma leitura coerente com a originalmente pretendida: a que assenta e pressup\u00f5e a realidade, a natureza humana objetiva e pr\u00e9via, fazendo da liberdade, n\u00e3o um fim em si mesma, mas uma condi\u00e7\u00e3o para a aut\u00eantica liberta\u00e7\u00e3o das ilus\u00f5es.<br \/>\nEste n\u00e3o \u00e9, por\u00e9m, um livro escrito exclusivamente para crist\u00e3os. \u00c9 um livro que, honestamente, explicita como o contributo crist\u00e3o para a aut\u00eantica defesa dos direitos humanos pode agregar e reunir, de forma singular e insubstitu\u00edvel, todos os que se reveem numa leitura que respeita o aut\u00eantico esp\u00edrito que assistiu ao renascer da vida depois dos escombros que a II Guerra Mundial deixou. De outro modo, restar\u00e3o sujeitos fechados sobre si mesmos, sem mem\u00f3ria, sem lastro real, sem corpo, puros esp\u00edritos mon\u00e1dicos, isolados e, como explicita Puppinck, infelizes apesar da ilus\u00e3o da felicidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<pre style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\"><strong>Na mesma p\u00e1gina que o autor (cita\u00e7\u00f5es)<\/strong><\/pre>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Como sublinha o Autor, \u00abo humanismo ateu levou a sociedade a colocar a sua esperan\u00e7a em si pr\u00f3pria; o cristianismo parece, por vezes, ter seguido o mesmo caminho\u00bb, tendo que pagar o pre\u00e7o das esperan\u00e7as n\u00e3o realizadas\u00bb.\u2019 Ant\u00f3nio Pedro Barbas Homem, pref\u00e1cio, p. 12.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Dar testemunho voltou a ser essencial, como no cristianismo primitivo. E \u00e9 isso que Gr\u00e9gor Puppinck vem fazer e s\u00f3 podemos felicit\u00e1-lo, a ele, pela escrita, e a n\u00f3s, por o podermos ler.\u2019 Ant\u00f3nio Pedro Barbas Homem, pref\u00e1cio, p. 13<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Do ponto de vista humano, a situa\u00e7\u00e3o na Europa \u00e9 muito m\u00e1. Encontramo-nos num per\u00edodo de charneira marcado pelo esgotamento da sociedade nascida na d\u00e9cada de 1960: esgotamento demogr\u00e1fico, esgotamento econ\u00f3mico e esgotamento pol\u00edtico, mas tamb\u00e9m esgotamento espiritual e at\u00e9 ecol\u00f3gico. O projeto pol\u00edtico europeu est\u00e1 a ser fortemente posto em causa, incluindo os direitos do homem; o sonho humanista moderno que promoveu este projeto degenerou numa p\u00f3s-modernidade individualista e niilista.\u2019 (Introdu\u00e7\u00e3o, p. 17)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Nesta situa\u00e7\u00e3o, em que o indiv\u00edduo liberto de si mesmo se encontra perante o seu pr\u00f3prio nada e o absurdo da vida, a Igreja tem um papel prof\u00e9tico. E esse papel n\u00e3o consiste em ir ao encontro do mundo na escurid\u00e3o da p\u00f3s-modernidade, mas, pelo contr\u00e1rio, em puxar o mundo para cima, revelando-lhe o C\u00e9u, a vida eterna.\u2019 (Introdu\u00e7\u00e3o, p. 18)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Na grande Europa do Conselho da Europa (incluindo a R\u00fassia), mais de um ter\u00e7o das gravidezes termina em aborto (num total de 4,5 milh\u00f5es de abortos por ano, face a 8,5 milh\u00f5es de nascimentos). Em Fran\u00e7a, uma gravidez em cada cinco termina em aborto (o correspondente a um total de 220 000 abortos por ano). No futuro pr\u00f3ximo, v\u00e1rios Estados assistir\u00e3o ao decl\u00ednio da sua popula\u00e7\u00e3o, em consequ\u00eancia da fraca taxa de natalidade.\u2019 (Introdu\u00e7\u00e3o, p.19)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Os dados estat\u00edsticos que acabamos de enunciar revelam uma derrocada do casamento e da fam\u00edlia, derrocada essa que tem causas m\u00faltiplas e complexas; uma das mais importantes poder\u00e1 ser designada por \u00abrevolu\u00e7\u00e3o individualista\u00bb. Uma an\u00e1lise do direito, em particular dos direitos do homem, revela a evolu\u00e7\u00e3o que ocorreu na nossa sociedade; com efeito, os direitos do homem s\u00e3o uma express\u00e3o da antropologia dominante no seio de uma sociedade, porque pressup\u00f5em uma certa conce\u00e7\u00e3o do Homem.\u2019 (p. 21)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Os direitos do homem, tal como foram enunciados ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, eram a express\u00e3o de uma antropologia fundada na natureza humana, tal como a descrevia a filosofia humanista e personalista. A universalidade desta antropologia natural estava, ali\u00e1s, na origem da universalidade dos direitos do homem.\u2019 (p. 22)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] se o direito ao casamento n\u00e3o \u00e9 um direito subjetivo que pertence \u00e0 pessoa enquanto indiv\u00edduo, como s\u00e3o as liberdades, \u00e9 porque pertence antes de mais ao casal; ningu\u00e9m pode casar-se sozinho.\u2019 (p. 23)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] o direito ao casamento alcan\u00e7a tr\u00eas protagonistas: o homem, a mulher e a sociedade; e visa um bem que \u00e9 comum aos tr\u00eas; a fam\u00edlia e, atrav\u00e9s dela, a transmiss\u00e3o da vida e do patrim\u00f3nio material e imaterial. Este bem comum \u00e9 realizado pelos filhos que, consequentemente, ocupam um lugar central da mesma fam\u00edlia, sendo protegidos, em particular, por meio do casamento.\u2019 (p. 23)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Com a revolu\u00e7\u00e3o individualista ocidental, a fam\u00edlia deixou de ser a c\u00e9lula fundamental da sociedade, posi\u00e7\u00e3o em que foi substitu\u00edda pelo indiv\u00edduo. [\u2026] O indiv\u00edduo \u00e9 distinto da pessoa; o indiv\u00edduo \u00e9 uma pessoa cuja humanidade consiste em definir-se a si mesmo, enquanto a pessoa \u00e9 um indiv\u00edduo cuja humanidade procede da natureza humana. Assim, a pessoa reconhece que \u00e9 dependente, enquanto indiv\u00edduo pretende ser aut\u00f3nomo.\u2019 (p. 25)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Se os direitos do homem protegem o que distingue o Homem do animal, os direitos p\u00f3s-modernos do indiv\u00edduo asseguram a preval\u00eancia da liberdade do indiv\u00edduo em si mesma, abstraindo-se das suas rela\u00e7\u00f5es com outros indiv\u00edduos.\u2019 (p. 29)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018A separa\u00e7\u00e3o do biol\u00f3gico (ou natural) do social levou o tribunal Europeu a separar, nomeadamente, o casamento da fam\u00edlia, a fam\u00edlia da alteridade sexual, a filia\u00e7\u00e3o da biologia, a orienta\u00e7\u00e3o sexual do sexo, a \u00abqualidade de vida\u00bb da vida, e ainda a pessoa do ser humano.\u2019 (p. 30)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018A unidade entre individualismo, subjetivismo e relativismo torna-se ent\u00e3o manifesta: os tr\u00eas conspiram para a nega\u00e7\u00e3o do primado da realidade; \u00e9 que o primado da realidade \u00e9 visto como a nega\u00e7\u00e3o da liberdade individual.\u2019 (p. 35)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Atualmente, o respeito pela liberdade individual sobrep\u00f5e-se a todos os outros valores, incluindo a vida, o que abre caminho, por exemplo, ao direito ao suic\u00eddio assistido.<br \/>\nA aten\u00e7\u00e3o central que \u00e9 concedida \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o de si \u00e9 relevante para a interpreta\u00e7\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de dignidade. De facto, se, na Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos do Homem, esta \u00faltima era descrita como inerente \u00e0 pessoa humana, atualmente \u00e9 vista mais como reflexiva, ou seja, individual e subjetiva. Pass\u00e1mos, pois, de uma conce\u00e7\u00e3o da dignidade fundada na natureza humana- uma dignidade que est\u00e1 presente em cada homem pelo facto de ser homem, e que \u00e9 exterior ao agir individual \u2013 para uma conce\u00e7\u00e3o relativa da dignidade, que \u00e9 determinada pela perce\u00e7\u00e3o que cada indiv\u00edduo tem de si pr\u00f3prio.\u2019 (pp. 38-39)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Cada pessoa \u00e9, pois, o juiz da sua dignidade individual, a qual deixa de ser inerente e absoluta, tornando-se subjetiva e relativa, estreitamente relacionada com a \u00abqualidade de vida\u00bb; e a sociedade est\u00e1 obrigada a respeit\u00e1-la, como estava obrigada a respeitar a antiga dignidade ontol\u00f3gica inerente \u00e0 pessoa humana.\u2019 (p. 39)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Do ponto de vista individualista, quanto mais antinatural \u2013 isto \u00e9, contr\u00e1rio \u00e0 natureza humana \u2013 for um direito, mais ser\u00e1 visto como uma elevada manifesta\u00e7\u00e3o da liberdade humana, e mais alto se encontrar\u00e1 na nova hierarquia dos direitos. Assim, o direito \u00e0s uni\u00f5es entre pessoas do mesmo sexo, o direito ao aborto, o direito ao suic\u00eddio assistido e \u00e0 eutan\u00e1sia, embora se oponham \u00e0 Conven\u00e7\u00e3o, t\u00eam o potencial de se tornar \u00absobredireitos\u00bb, dado que s\u00e3o direitos sobre-humanos que exaltam o indiv\u00edduo e a sua capacidade de dominar a natureza; na verdade, estes direitos transformaram-se em dogmas.\u2019 (pp. 42-43)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O individualismo atomiza a sociedade; visto como uma situa\u00e7\u00e3o que promove a liberdade, a verdade \u00e9 que \u00e9 tamb\u00e9m uma causa de sofrimento, de pobreza e de isolamento, a ponto de esta liberdade ser, as mais das vezes, um logro. Quantas pessoas se divorciam para serem libres e acabam pobres e solit\u00e1rias! O individualismo libert\u00e1rio n\u00e3o torna as pessoas felizes e as suas mais recentes conquistas culturais s\u00e3o m\u00f3rbidas: eutan\u00e1sia, aborto, direito aos filhos (gesta\u00e7\u00e3o de substitui\u00e7\u00e3o), eugenismo, div\u00f3rcio. Ao distanciar as pessoas dos seus prolongamentos naturais (fam\u00edlia, comunidades diversas), e sobrenaturais (religi\u00e3o), este individualismo esvazia as exist\u00eancias, tornando-as absurdas.\u2019 (p. 44)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018A seculariza\u00e7\u00e3o n\u00e3o afetou apenas as obras sociais cat\u00f3licas (escolas, hospitais, obras de caridade), mas tamb\u00e9m a sua atitude pol\u00edtica. Com efeito, no campo pol\u00edtico e moral, o discurso da Igreja foi laicizado, quis ser fundado na raz\u00e3o e na moral natural, com exclus\u00e3o, a maioria das vezes, de qualquer refer\u00eancia religiosa, quer se tratasse de defender os imigrantes ou de condenar o aborto. A Igreja tentou convencer o mundo sendo mais humanista ou mais racional que ele; deste modo, o conjunto dos cat\u00f3licos passou a evitar dar testemunho expl\u00edcito da f\u00e9, como se tivesse integrado o argumento laico da inadmissibilidade dos argumentos religiosos no debate p\u00fablico.\u2019 (p. 51)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018A aceita\u00e7\u00e3o do Criador leva, necessariamente \u00e0 aceita\u00e7\u00e3o da realidade, voltando a situar o Homem na medida e na perspetiva do seu Criador. Assim sendo, anunciar o Criador, dar a conhecer a ternura do amor que nasce da sua contempla\u00e7\u00e3o permite-nos aceder a uma delicada humildade relativamente \u00e0 sua cria\u00e7\u00e3o.\u2019 (p. 53)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O humanismo ateu levou a sociedade a colocar a sua esperan\u00e7a em si pr\u00f3pria; o cristianismo parece, por vezes, ter seguido o mesmo caminho. E tanto o humanismo como o cristianismo pagam o pre\u00e7o das suas esperan\u00e7as n\u00e3o realizadas. Porque, tal como o cristianismo, tamb\u00e9m o humanismo \u00e9 posto em causa pelo individualismo e o relativismo.\u2019 (p. 56)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] dado que a sociedade ocidental sofre de um excesso de individualismo [\u2026] \u00e9 necess\u00e1rio antes de mais [\u2026] voltar a desenvolver as dimens\u00f5es sobrenaturais e sociais de cada exist\u00eancia individual, dimens\u00f5es que foram atrofiadas no homem ocidental.\u2019 (p. 56)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Sem a perspetiva da vida eterna, uma vida boa consiste na satisfa\u00e7\u00e3o das pr\u00f3prias puls\u00f5es, na realiza\u00e7\u00e3o pessoal, mas sem possibilidade real de conhecimento pr\u00f3prio. Assim, h\u00e1 muitas pessoas que desejam divorciar-se para serem felizes, pessoas para quem permanecer ao lado do c\u00f4njuge at\u00e9 \u00e0 morte equivale a um fracasso, porque, a partir do momento em que a vida conjugal deixa de corresponder \u00e0s suas expectativas, o esfor\u00e7o de a manter \u00e9 v\u00e3o; o div\u00f3rcio permite-lhes, pois, retomarem a posse de si pr\u00f3prias. \u00c9 a aus\u00eancia de perspetiva de vida eterna que torna absurdo o esfor\u00e7o de toda uma vida e justifica a separa\u00e7\u00e3o dos c\u00f4njuges.\u2019 (p. 57)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Sem a luz de Deus, o mundo n\u00e3o passa de um conjunto de fen\u00f3menos, de um fechamento na escurid\u00e3o inferior, e a vida mais n\u00e3o \u00e9 que ilus\u00e3o fugaz, uma consci\u00eancia dolorosa no nada.\u2019 (p. 58)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O ensino da verdade \u00e9 a maior das caridades com que a Igreja tem o dever de servir o mundo, a exposi\u00e7\u00e3o da verdade em toda a sua luz, a fim de que os indiv\u00edduos possam sair do impasse escuro da p\u00f3s-modernidade.\u2019 (p. 59)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018\u00c9 o medo de que n\u00e3o haja nada para al\u00e9m de n\u00f3s que nos faz querer existir desesperadamente; e \u00e9 o absurdo de tal exist\u00eancia que torna absoluta a nossa vontade individual. S\u00f3 ela plana sobre as \u00e1guas.<br \/>\nMas ver o C\u00e9u permite-nos conhecer algo que \u00e9 maior do que n\u00f3s \u2013 a ordem do universo -, que se deduz do todo e n\u00e3o se constr\u00f3i a partir de n\u00f3s. Amar o C\u00e9u pelo pr\u00f3prio C\u00e9u, preferi-lo a n\u00f3s por amor \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o, reordena-nos para o bem universal e faz-nos participar desse bem, abandonando as outras liberdades \u00e0 sua vacuidade mentirosa.\u2019 (p. 71)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Ser livre para nada \u00e9 simplesmente desesperante. [\u2026] A liberdade n\u00e3o tem condi\u00e7\u00e3o para se autossalvar. A salva\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode vir de um Outro. Decidir confiar num Outro, no Pai, que tem a capacidade de realizar a aspira\u00e7\u00e3o do divino, ao eterno, \u00e0 beleza, \u00e0 verdade, ao amor, \u00e9 o grande ato de intelig\u00eancia da liberdade.\u2019 Mons. Aldo Giordano, Posf\u00e1cio, pp. 76.77)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<hr \/>\n<h5 style=\"text-align: right;\"><strong>**(T\u00edtulo retirado de Daniel Faria, <em>Dos l\u00edquidos<\/em>, Porto, Edi\u00e7\u00e3o Funda\u00e7\u00e3o Manuel Le\u00e3o, 2000, p. 137)<\/strong><\/h5>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217;, &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Foto recolhida do site <a href=\"https:\/\/www.principia.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/9789897161964.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">editora Princ\u00edpia<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rubrica \u2018Sabes, leitor,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":19761,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,198],"tags":[],"class_list":["post-19760","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-sabes-leitor-que-estamos-ambos-na-mesma-pagina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19760","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19760"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19760\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20029,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19760\/revisions\/20029"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19761"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19760"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19760"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19760"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}