{"id":19712,"date":"2025-08-21T21:51:36","date_gmt":"2025-08-21T20:51:36","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=19712"},"modified":"2025-08-21T21:51:36","modified_gmt":"2025-08-21T20:51:36","slug":"8-1-2-rubrica-de-cinema-religiao-e-cinema-um-namoro-feliz-parte-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/8-1-2-rubrica-de-cinema-religiao-e-cinema-um-namoro-feliz-parte-i\/","title":{"rendered":"&#8216;8 1\/2&#8217; &#8211; Rubrica de Cinema\u00a0| Religi\u00e3o e cinema, um namoro feliz [Parte I]"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: right;\"><em>8 1\/2&#8242; &#8211; Rubrica de Cinema\u00a0<\/em><\/h4>\n<h1 style=\"text-align: center;\">Religi\u00e3o e cinema, um namoro feliz [Parte I]<\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">Pe. Teodoro Medeiros*<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A rela\u00e7\u00e3o entre o cinema e a religi\u00e3o \u00e9 antiga, sendo que a primeira produ\u00e7\u00e3o sobre Cristo pode remontar a 1899 ou 1902. Essa incerteza tem que ver com o fato desses filmes terem cenas id\u00eanticas, o que levanta todo o tipo de hip\u00f3teses. Seja como for, o Jesus de celuloide \u00e9 quase t\u00e3o antigo como a pr\u00f3pria arte das imagens em movimento. Assim como as est\u00f3rias Sans\u00e3o ou de Jos\u00e9, ou de Mois\u00e9s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tend\u00eancia mant\u00e9m-se at\u00e9 aos nossos dias, como demonstram os (repetidos) rumores de um novo filme de Mel Gibson sobre Jesus. Mas \u00e9 preciso notar que falamos a\u00ed apenas de um pequeno ramo de uma \u00e1rvore maior: \u00e9 que os filmes b\u00edblicos, \u00e9picos ou n\u00e3o, constituem uma \u00ednfima parte do \u00e2mbito religioso na s\u00e9tima arte. Basta pensarmos em obras centradas na Igreja Cat\u00f3lica em vez da B\u00edblia: os mission\u00e1rios, padres, bispos e cardeais que pululam muitos filmes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse campo, Robert de Niro j\u00e1 surgiu como ministro ordenado mais do que uma vez (e participou em <em>A Miss\u00e3o<\/em>). Mas, se quisermos chegar j\u00e1 a uma conclus\u00e3o pr\u00e9via, a rela\u00e7\u00e3o entre cinema e religi\u00e3o estende-se at\u00e9 a muitos casos que n\u00e3o t\u00eam nada a ver com ela. O motivo desta realidade \u00e9 estrutural, ou n\u00e3o tivesse existido um te\u00f3rico liter\u00e1rio grego, de seu nome Arist\u00f3teles, e o seu ensaio <em>Po\u00e9tica.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para os nossos prop\u00f3sitos, basta recordar que a <em>Po\u00e9tica <\/em>distingue entre a trama de resolu\u00e7\u00e3o e de revela\u00e7\u00e3o: na primeira, o her\u00f3i alcan\u00e7a um objetivo (como vencer uma batalha) e ent\u00e3o a narrativa acaba, atinge o seu fim; na segunda o ponto final \u00e9 quando se descobre quem \u00e9 o her\u00f3i (como no caso de \u00c9dipo, a sua vit\u00f3ria serve apenas para confirmar a previs\u00e3o do or\u00e1culo: ele \u00e9 o homem que casou com a m\u00e3e depois de matar o pai).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ambas tramas podem ter final feliz (o que Arist\u00f3teles chama de com\u00e9dia): a representa\u00e7\u00e3o deste g\u00e9nero \u00e9 um U, significando que as coisas come\u00e7am bem, conhecem dificuldades (a curva descendente do U), mas tudo acaba em tom positivo (o elevar final na letra U). O contr\u00e1rio acontece na trag\u00e9dia: o U est\u00e1 invertido, porque as coisas come\u00e7am e acabam mal (O <em>Prometeu Agrilhoado<\/em> \u00e9 um bom exemplo, ou \u00cdcaro).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A distin\u00e7\u00e3o entre revela\u00e7\u00e3o e resolu\u00e7\u00e3o resume a identidade de cada est\u00f3ria, real ou ficcionada, que se conte, todas encaixam num caso ou no outro, ou at\u00e9 nos dois (como se pode dizer de \u00c9dipo: quando alcan\u00e7a o seu objetivo ele torna-se, para sempre, o \u00c9dipo que conhecemos). Quando vemos um document\u00e1rio sobre um rapaz que se tornou rei ou Papa (ou Mois\u00e9s), trata-se do mesmo fen\u00f3meno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As tramas de revela\u00e7\u00e3o s\u00e3o mais envolventes: na resolu\u00e7\u00e3o o personagem j\u00e1 est\u00e1 plenamente realizado e perde interesse. \u00c9 por esse motivo que ver Elias fazer v\u00e1rios milagres torna-se cansativo (ou o Indiana Jones). Quando o personagem se torna previs\u00edvel, quando perde a sua aura de mist\u00e9rio, a est\u00f3ria ganha rotina. As grandes sagas do cinema tentam fugir a isto, mas nem sempre conseguem (<em>Rocky<\/em> e <em>O Senhor dos An\u00e9is<\/em> j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam nada de novo a apresentar).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas Arist\u00f3teles ainda n\u00e3o acabou a sua li\u00e7\u00e3o: nas boas est\u00f3rias, no in\u00edcio tudo \u00e9 poss\u00edvel, a meio tudo \u00e9 prov\u00e1vel, no \u00faltimo ato tudo \u00e9 necess\u00e1rio (como se fosse uma ci\u00eancia exata). No \u00faltimo ato, n\u00e3o deve haver exposi\u00e7\u00e3o, explica\u00e7\u00e3o: o ouvinte j\u00e1 deve conhecer as pessoas, viver a est\u00f3ria por dentro, como se fosse sua. Para o evento decisivo, o ponto alto da est\u00f3ria, que leva \u00e0 sua inevit\u00e1vel e satisfat\u00f3ria conclus\u00e3o, existem dois nomes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No caso da est\u00f3ria de resolu\u00e7\u00e3o, esse ponto chama-se perip\u00e9cia: o ex\u00e9rcito inimigo ataca finalmente e \u00e9 a partir desse ponto que nada volta a ser como antes, s\u00f3 pode haver vit\u00f3ria ou derrota. Mas, nas estruturas centradas sobre a revela\u00e7\u00e3o, esse momento chama-se reconhecimento (anagnorisis). Recordemos Ulisses a quem a criada reconhece na cicatriz antiga, a partir desse momento a est\u00f3ria tem o tempo contado (n\u00e3o h\u00e1 mesmo mais para contar, n\u00e3o pode haver).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 com estas linhas que se cosem at\u00e9 os Evangelhos: n\u00e3o porque estejam a copiar, mas simplesmente porque a est\u00f3ria contada \u00e9 rica, atrativa, irresist\u00edvel, de alto n\u00edvel narrativo e at\u00e9 dramat\u00fargico. Quem \u00e9 Jesus? A resposta n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o linear como poderiam sugerir as primeiras linhas dos diferentes evangelistas, que o chamam de Filho de Deus, Messias (Cristo), filho de David, Emanuel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quest\u00e3o \u00e9 que Jesus \u00e9 o que sobre Ele vamos aprendendo: um Mestre que surge no meio do povo, um curandeiro eficaz, um afrontador das ideias estabelecidas. Ele at\u00e9 acalma as tempestades e os disc\u00edpulos perguntam-se:\u00a0 &#8211;<em>Quem ser\u00e1 este, a quem at\u00e9 os ventos e o mar obedecem? <\/em>N\u00e3o se trata apenas de fazer, vencer, conquistar: trata-se de introduzir um elemento de mist\u00e9rio, de desconhecido, de pergunta identit\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E qual ser\u00e1 a a\u00e7\u00e3o definitiva, o ponto a partir do qual n\u00e3o h\u00e1 retorno? Ser\u00e1 uma perip\u00e9cia? Ou ser\u00e1 um reconhecimento? Ou ser\u00e1, com Arist\u00f3teles, uma coincid\u00eancia dos dois, um reconhecimento decisivo, a marca das melhores est\u00f3rias, as que deixam mais impacto? O momento acontece durante o julgamento de Jesus, na sala do Sin\u00e9drio, perante o Sumo Sacerdote, as testemunhas que o acusam e o grupo dos anci\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As acusa\u00e7\u00f5es n\u00e3o coincidem, parece que o r\u00e9u ser\u00e1 libertado e voltar\u00e1 a ser o que sempre foi, um Mestre inc\u00f3modo mas livre, cercado pelas multid\u00f5es, pelos disc\u00edpulos, pelo grupo que desceu com Ele da Galileia. Se assim for, a est\u00f3ria n\u00e3o introduz nada de novo, Ele repetir\u00e1 o que sempre fez. Mas n\u00e3o \u00e9 assim que as coisas terminam, uma perip\u00e9cia espreita e vai j\u00e1 manifestar-se.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Sumo Sacerdote pergunta (Evangelho de S. Marcos):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211;<em>\u00c9s Tu o Messias, o Filho do Deus Bendito?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E Jesus responde:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211;<em>Eu sou. E vereis o Filho do Homem sentado \u00e0 direita do Poder e vir sobre as nuvens do c\u00e9u.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste momento, o juiz rasga as suas vestes, manifestando o esc\u00e2ndalo das palavras que acabou de ouvir\u2026 n\u00e3o h\u00e1 mais discuss\u00e3o, todos concordam que Ele merece a morte. \u00c9 neste momento que se sela o seu destino, a est\u00f3ria est\u00e1 tra\u00e7ada. A resposta de Jesus constitui ent\u00e3o uma perip\u00e9cia (precipita os eventos finais), mas \u00e9 sobretudo um reconhecimento, o dos presentes, de que Ele \u00e9 um blasfemo que deve ser executado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No caso de Jesus, h\u00e1 uma outra dimens\u00e3o que desafia o ouvinte, abre-se uma camada mais profunda: o que pensam sobre Ele \u00e9 apenas a porta de sa\u00edda de quem verdadeiramente Ele \u00e9, porque depois da morte a Ressurrei\u00e7\u00e3o faz reler toda a est\u00f3ria, d\u00e1-nos novos olhos sobre Ele. \u00c9 uma identidade t\u00e3o radical que exige a total suspens\u00e3o da descren\u00e7a.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><a href=\"https:\/\/urbaniana.academia.edu\/TeodoroMedeiros\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Padre\u00a0<\/a>da diocese de Angra <a href=\"https:\/\/urbaniana.academia.edu\/TeodoroMedeiros\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">e Diretor<\/a> do Servi\u00e7o Diocesano da Palavra e Apostolado B\u00edblico<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem:<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/A_Miss%C3%A3o#\/media\/Ficheiro:A_Miss%C3%A3o.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> Filme &#8216;A miss\u00e3o&#8217; [Realizador: Roland Joff\u00e9, com Jeremy Irons, Robert de Niro, etc.]<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>8 1\/2&#8242; &#8211;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":19713,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[87,86],"tags":[],"class_list":["post-19712","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-8-1-2-rubrica-de-cinema","category-pe-teodoro-medeiros"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19712","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19712"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19712\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19715,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19712\/revisions\/19715"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19713"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19712"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19712"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19712"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}