{"id":19704,"date":"2025-11-20T07:00:16","date_gmt":"2025-11-20T07:00:16","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=19704"},"modified":"2025-11-15T20:37:28","modified_gmt":"2025-11-15T20:37:28","slug":"os-sete-dias-da-criacao-6-luis-m-p-silva-ainda-o-primeiro-dia-no-principio-criou-deus-o-ceu-e-a-terra-espaco-e-tempo-unidos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/os-sete-dias-da-criacao-6-luis-m-p-silva-ainda-o-primeiro-dia-no-principio-criou-deus-o-ceu-e-a-terra-espaco-e-tempo-unidos\/","title":{"rendered":"&#8216;Os Sete Dias da Cria\u00e7\u00e3o&#8217; |6| Lu\u00eds M. P. Silva &#8211; Ainda o primeiro dia: \u2018No princ\u00edpio criou Deus o C\u00e9u e a Terra\u2019 \u2013 espa\u00e7o e tempo unidos."},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">(\u2018Os Sete Dias da Cria\u00e7\u00e3o\u2019 | Rubrica dedicada ao di\u00e1logo entre ci\u00eancia e religi\u00e3o)<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo originalmente publicado na revista <a href=\"https:\/\/www.movimento-acr.pt\/historia-mundo-rural\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">&#8216;Mundo Rural&#8217;<\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">Regressemos ao primeiro vers\u00edculo da B\u00edblia, a Gn 1,1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O texto diz, literalmente, \u2018no princ\u00edpio, criou Deus o C\u00e9u e a Terra, e a Terra estava ca\u00f3tica e vazia\u2026\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Habitualmente, as tradu\u00e7\u00f5es t\u00eam optado por \u2018no princ\u00edpio, quando Deus criou o C\u00e9u e a Terra, a Terra estava ca\u00f3tica e vazia&#8230;\u2019<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, favorecendo o risco de uma \u2018rece\u00e7\u00e3o\u2019 do texto que faz crer a anterioridade da Terra, o que suscita reservas quanto \u00e0 coincid\u00eancia com a pretens\u00e3o do autor b\u00edblico de se demarcar das narrativas contempor\u00e2neas do texto b\u00edblico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(Para melhor compreender esta \u00faltima ideia, tenha-se em conta que a per\u00edcope de Gn 1,1-2,4a ter\u00e1 sido redigida no per\u00edodo ex\u00edlico e p\u00f3s-ex\u00edlico [que ocorreu entre 587 e 537 a.C., sob o dom\u00ednio do imp\u00e9rio babil\u00f3nico], tendo o povo b\u00edblico contactado com as narrativas m\u00edticas dos povos mesopot\u00e2micos. Nestes textos, \u00e9 pressuposta a anterioridade de uma mat\u00e9ria \u00e0 a\u00e7\u00e3o criadora. Tal n\u00e3o ser\u00e1 a vis\u00e3o b\u00edblica. Deus \u00e9 o Criador de tudo. N\u00e3o apenas o \u2018modelador\u2019 de mat\u00e9ria incriada.)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Constatemos que o texto utiliza termos que nos falam de \u2018tempo\u2019 [no princ\u00edpio] e de \u2018espa\u00e7o\u2019 [c\u00e9u e terra].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma tal constata\u00e7\u00e3o permite-nos estabelecer mais uma ponte interessante entre ci\u00eancia e religi\u00e3o. Vejamos\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Intuitivamente, tendemos a separar o tempo do espa\u00e7o e o espa\u00e7o do tempo. Movemo-nos no espa\u00e7o, para a frente e para tr\u00e1s, para os lados, o que nos parece, de todo, imposs\u00edvel, em termos de tempo. O tempo \u00e9, como nos diz a nossa intui\u00e7\u00e3o, uma linha reta. \u2018Envelhecemos\u2019 e n\u00e3o \u2018rejuvenescemos\u2019 ou \u2018reinfantilizamos\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estas constata\u00e7\u00f5es fazem-nos dissociar, sem qualquer nexo ou liga\u00e7\u00e3o, espa\u00e7o e tempo. N\u00e3o nos parece que tenham nada a ver um com o outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O texto b\u00edblico, de forma quase contraintuitiva, obriga-nos, por\u00e9m, a ser mais atentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Logo na primeira afirma\u00e7\u00e3o, tempo (\u2018no princ\u00edpio\u2019) e espa\u00e7o (\u2018C\u00e9u e Terra\u2019) ficam unidos. Deus \u00e9 o criador de ambos. N\u00e3o, apenas, do espa\u00e7o, como, tantas vezes, tendemos a ler.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tempo e o espa\u00e7o d\u2019Ele dependem e n\u00e3o existem sen\u00e3o como criaturas suas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, esta intui\u00e7\u00e3o b\u00edblica antecipa, curiosamente, uma das descobertas mais fascinantes da f\u00edsica contempor\u00e2nea, poss\u00edvel a partir das teorias da relatividade de Albert Einstein.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As suas conclus\u00f5es permitem constatar que, se nos desloc\u00e1ssemos, no espa\u00e7o, a velocidades pr\u00f3ximas da velocidade m\u00e1xima que existe no universo (sim, no universo n\u00e3o h\u00e1 velocidades absolutas. Todas t\u00eam um limite m\u00e1ximo: a da luz, que \u00e9 de cerca de 300 mil Kms por segundo), alterar\u00edamos o tempo e poder\u00edamos viajar neste, atras\u00e1-lo. Se algu\u00e9m se deslocasse (n\u00e3o se preocupe, caro leitor; as constru\u00e7\u00f5es de tais meios est\u00e3o atrasadas\u2026) a tal velocidade e regressasse \u00e0 terra, aqui, o tempo teria levado centenas ou milhares de anos, enquanto no interior dessa m\u00e1quina o tempo teria decorrido mais lentamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Colin Stuart, um autor prol\u00edfico de livros sobre estas mat\u00e9rias, e em cuja homenagem j\u00e1 foi atribu\u00eddo o nome a um asteroide, conta, no seu \u2018Tempo: 10 coisas que deve saber\u2019, \u2018digamos que viajamos atrav\u00e9s da gal\u00e1xia numa grande volta a 99,9999 por cento da velocidade da luz [\u2026] durante 10 anos. Regressa uma d\u00e9cada mais velho, mas ter\u00e3o passado sete mil anos na Terra enquanto esteve fora.\u2019<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para melhor se perceber a ideia, fa\u00e7a-se um exerc\u00edcio simples que permite dar conta de como as no\u00e7\u00f5es de espa\u00e7o e tempo dependem do \u2018mundo\u2019 em que se est\u00e1 e pode haver mudan\u00e7as distintas, de acordo com esses \u2018mundos\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Imagine-se algu\u00e9m dentro de um comboio, a velocidade constante. Se essa pessoa deixar cair uma bola de t\u00e9nis, ela cair\u00e1 na vertical.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, se algum observador com vis\u00e3o larga, acompanhar o percurso do comboio, e este for totalmente transparente, o movimento da bola formar\u00e1 uma linha diagonal desde a m\u00e3o at\u00e9 ao ch\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Vertical\u2019, se vista dentro do comboio; \u2018diagonal\u2019, se vista de fora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, tamb\u00e9m, com o tempo. O tempo n\u00e3o \u00e9 vivido todo de modo igual. H\u00e1 um nexo estreito com o espa\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, tal intui\u00e7\u00e3o \u00e9 j\u00e1 vislumbr\u00e1vel no texto de g\u00e9nesis que une \u2018tempo\u2019 (\u2018no princ\u00edpio\u2019) e espa\u00e7o (\u2018c\u00e9u e terra\u2019).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Curioso\u2026<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sugest\u00f5es bibliogr\u00e1ficas:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Colin Stuart, <em>Tempo: 10 coisas que deve saber<\/em>, Lisboa, Vogais, 2024.<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"2017\">\n<li>Tom\u00e1s de Aquino, <em>Suma de Teolog\u00eda<\/em>, Madrid, Biblioteca de Autores Cristianos, 2017.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Michel-Yves Bollor\u00e9 e Olivier Bonnassies, <em>Deus, a ci\u00eancia, as provas: alvorada de uma revolu\u00e7\u00e3o<\/em>, Alfragide, Publica\u00e7\u00f5es Dom Quixote, 2024<sup>2<\/sup>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Luis Alonso Sch\u00f6kel, <em>Dicion\u00e1rio B\u00edblico Hebraico-Portugu\u00eas<\/em>, S\u00e3o Paulo, Paulus, 2014<sup>6<\/sup>.<\/p>\n<hr \/>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Reproduzo a tradu\u00e7\u00e3o proposta a discuss\u00e3o em 1 de junho de 2025 pela equipa de tradutores da B\u00edblia, sob a coordena\u00e7\u00e3o da CEP.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Colin Stuart, <em>Tempo: 10 coisas que deve saber<\/em>, p. 72.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;, &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/geralt-9301\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=5842395\">Gerd Altmann<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=5842395\">Pixabay<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(\u2018Os Sete Dias<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":19705,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,214],"tags":[],"class_list":["post-19704","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-os-sete-dias-da-criacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19704","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19704"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19704\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19964,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19704\/revisions\/19964"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19705"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19704"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19704"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19704"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}