{"id":19701,"date":"2025-09-20T07:00:42","date_gmt":"2025-09-20T06:00:42","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=19701"},"modified":"2025-08-13T18:30:48","modified_gmt":"2025-08-13T17:30:48","slug":"os-sete-dias-da-criacao-5-luis-m-p-silva-ainda-o-primeiro-dia-no-principio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/os-sete-dias-da-criacao-5-luis-m-p-silva-ainda-o-primeiro-dia-no-principio\/","title":{"rendered":"&#8216;Os Sete Dias da Cria\u00e7\u00e3o&#8217; |5| Lu\u00eds M. P. Silva &#8216;Ainda o primeiro dia: \u00abNo princ\u00edpio\u2026\u00bb&#8217;"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">(\u2018Os Sete Dias da Cria\u00e7\u00e3o\u2019 | Rubrica dedicada ao di\u00e1logo entre ci\u00eancia e religi\u00e3o)<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo originalmente publicado na revista <a href=\"https:\/\/www.movimento-acr.pt\/historia-mundo-rural\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">&#8216;Mundo Rural&#8217;<\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma grande finalidade assiste \u00e0 escrita destas linhas: contribuir para o reconhecimento de que a rela\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia e religi\u00e3o (em especial, a religi\u00e3o crist\u00e3) n\u00e3o tem de se fazer de conflito. E pretendo cumpri-la, concretizando dois objetivos: superar os preconceitos com que \u00e9 lida a religi\u00e3o (evidenciando a pertin\u00eancia da sua leitura e da sua vis\u00e3o sobre o mundo e o Homem) e contrariando a convic\u00e7\u00e3o de que, ao ser-se cientista, tem, necessariamente, de se assumir um qualquer ate\u00edsmo de princ\u00edpio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para a concretiza\u00e7\u00e3o desta finalidade, com os seus dois objetivos associados, j\u00e1 demos alguns passos que nos permitiram evidenciar que a perman\u00eancia de alguns equ\u00edvocos continuam a perturbar a s\u00e3 rela\u00e7\u00e3o entre estes dois modos de aceder ao conhecimento que n\u00e3o s\u00e3o disjuntivos, mas complementares, porque no sujeito humano muitas s\u00e3o as moradas das perguntas. Pretender esgotar, numa s\u00f3 dessas moradas, todo o habitar humano \u00e9 empobrecedor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Socorro-me, para guiar esse caminho de reflex\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o de pontes, do dinamismo que o pr\u00f3prio relato b\u00edblico, estruturado em torno da met\u00e1fora dos sete dias, nos proporciona.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inici\u00e1mos, no momento anterior da nossa reflex\u00e3o, essa condi\u00e7\u00e3o de viandante que segue o ritmo dos dias. Depois de nos prepararmos, come\u00e7\u00e1mos. Acolhemos a luz\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas h\u00e1 um aspeto que nos obriga a determo-nos, por mais algum tempo, nesse primeiro dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O texto b\u00edblico come\u00e7a com uma palavra que n\u00e3o temos como traduzir sen\u00e3o pela locu\u00e7\u00e3o \u2018no princ\u00edpio\u2019. Em hebraico, a palavra \u00e9 \u2018b<sup>e<\/sup>r<sup>e<\/sup>shit\u2019 que, no seu uso adverbial, deve ser traduzido, precisamente, por \u2018no princ\u00edpio\u2019<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Curiosamente, o evangelho de S. Jo\u00e3o, o mais elaborado dos quatro evangelhos e, tamb\u00e9m, o mais tardio, come\u00e7a com a express\u00e3o correspondente, em grego, \u2018en arkh\u00ea\u2019: \u2018no princ\u00edpio\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A frequ\u00eancia da utiliza\u00e7\u00e3o da express\u00e3o, por tantas vezes a ouvirmos na liturgia, faz-nos, eventualmente, perder a frescura da sua originalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas tenha-se em conta que o que, para n\u00f3s, \u00e9 \u00f3bvio (houve um princ\u00edpio) n\u00e3o o foi ao longo dos tempos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Valer\u00e1 a pena, ali\u00e1s, recordar que a quest\u00e3o 46 da Suma Teol\u00f3gica<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> de S. Tom\u00e1s, no s\u00e9culo XIII, incide, entre outras coisas, precisamente, sobre a possibilidade de o mundo ter existido desde sempre (e, a t\u00ea-lo acontecido, como articular isso com o texto b\u00edblico que falava de \u2018princ\u00edpio\u2019), se o ter princ\u00edpio era artigo de f\u00e9 e como deveria, perante estas d\u00favidas, acreditar-se que Deus tinha criado o c\u00e9u e a terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Genialmente, o Aquinate (cognome de S. Tom\u00e1s por ser de Aquino) n\u00e3o recusa que possa admitir-se a possibilidade de o mundo ser eterno, por tal ser indemonstr\u00e1vel, mas que sempre se teria de falar de um \u2018princ\u00edpio\u2019 considerado metafisicamente, isto \u00e9, o mundo tem origem na vontade de Deus que, se o pretendesse, faria com que o mundo deixasse de o ser, concluindo-se daqui que \u2018cria\u00e7\u00e3o\u2019 \u00e9 um conceito que n\u00e3o nos fala do modo \u2018como\u2019 o mundo \u00e9 feito, mas sim do facto de o mundo ser originado, do nada, pela Vontade de Deus, sua Origem sem origem. \u2018Cria\u00e7\u00e3o\u2019 diz, assim, que a criatura n\u00e3o \u00e9 o Criador, mas d\u2019Ele depende, de modo absoluto, em termos ontol\u00f3gicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem nos alongarmos nesta reflex\u00e3o, detenhamo-nos na constata\u00e7\u00e3o de que a condi\u00e7\u00e3o de \u2018ter princ\u00edpio\u2019 \u00e9, consequentemente, n\u00e3o \u00f3bvia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ali\u00e1s, a hist\u00f3ria mais recente demonstra-o, cabalmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 conhecido de poucos que a formula\u00e7\u00e3o da hip\u00f3tese de o universo ter come\u00e7ado com uma grande explos\u00e3o se deve a um presb\u00edtero, professor da Universidade de Lovaina: Georges Lema\u00eetre. \u00c0 sua hip\u00f3tese deu o nome de \u2018\u00e1tomo primitivo\u2019. (\u00c9 a Fred Hoyle, que se lhe opunha, a express\u00e3o \u2018big bang\u2019, utilizada para ironizar e apequenar.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria da rece\u00e7\u00e3o desta hip\u00f3tese evidencia como a ideia de um princ\u00edpio n\u00e3o era \u00f3bvia, nem para os maiores f\u00edsicos. O pr\u00f3prio e genial Albert Einstein recusa, num primeiro momento, a possibilidade e altera as suas f\u00f3rmulas para que \u2018estabilizem\u2019 a imagem de universo que delas se recolhia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do mesmo modo, quando a possibilidade de o universo poder estar em expans\u00e3o e ter tido uma origem, encaminhando-se, por isso, tamb\u00e9m, para um fim, parecia absurda aos l\u00edderes sovi\u00e9ticos que, quando a hip\u00f3tese foi tendo acolhimento junto dos cientistas russos, se encarregaram de os perseguir e impedir de difundirem tais teorias que, naturalmente, poriam em causa a ideia da eternidade da mat\u00e9ria, necess\u00e1ria \u00e0 leitura dial\u00e9tica do pensamento marxista-leninista. (Esta hist\u00f3ria \u00e9 detalhadamente contada no muito oportuno livro de Michel-Yves Bollor\u00e9 e Olivier Bonnassies, <em>Deus, a ci\u00eancia, as provas: alvorada de uma revolu\u00e7\u00e3o<\/em>. Uma obra de leitura altamente recomend\u00e1vel\u2026).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o deixa de merecer aten\u00e7\u00e3o, por isto que acabo de referir, constatar que, de facto, a rela\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia e religi\u00e3o tem sido marcada por in\u00fameros equ\u00edvocos e mal-entendidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Veja-se como \u00e9 referido, hoje em dia, que os supostos opositores da hip\u00f3tese de o universo ter tido um in\u00edcio (com um big bang) sejam os crentes (os crist\u00e3os, para ser mais preciso). Curiosamente, por\u00e9m, tendo a hip\u00f3tese sido proposta, primeiramente, por um padre (que, inclusive, cedo encontrou apoio da parte do Papa Pio XII que, ap\u00f3s di\u00e1logo sincero, percebeu que deveria deixar \u00e0 ci\u00eancia que fizesse o seu caminho, sem cair na tenta\u00e7\u00e3o do concordismo), e constatando-se que a hip\u00f3tese se afigurava de f\u00e1cil instrumentaliza\u00e7\u00e3o para fins concordistas (ent\u00e3o, a ci\u00eancia confirma o que a B\u00edblia diz\u2026), o que aconteceu foi o contr\u00e1rio. Quem se op\u00f4s \u00e0 hip\u00f3tese de um in\u00edcio para o universo foram, precisamente, os descrentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pretendo, ent\u00e3o, recuperar a frase de Werner Keller (\u2018A B\u00edblia tinha raz\u00e3o\u2019), e sustentar um qualquer requentado concordismo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o o pretendo e n\u00e3o o defendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os terrenos da ci\u00eancia e da religi\u00e3o s\u00e3o distintos, mas, na minha perspetiva, complementares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sujeito humano \u00e9 muito rico, nas suas interroga\u00e7\u00f5es e n\u00e3o se basta em procurar respostas para uma compreens\u00e3o de \u2018como\u2019 se chegou ao que hoje temos. Quer, tamb\u00e9m, compreender \u2018porqu\u00ea?\u2019, \u2018para qu\u00ea?\u2019, \u2018com que sentido?\u2019\u2026 H\u00e1, afinal, intelig\u00eancia, amor, rumo, na realidade de que emergimos, n\u00f3s, seres capazes de pensar, amar, dirigir a nossa vida para um determinado fim?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Constatar que \u2018no princ\u00edpio\u2019 nos fala de algo que a ci\u00eancia hoje tem como certo, mas que ao judeo-cristianismo primeiramente se deve n\u00e3o \u00e9 de somenos import\u00e2ncia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diz-nos que muito se pode esperar da f\u00e9 e que a ci\u00eancia n\u00e3o tem, afinal, que tem\u00ea-la, pois quem faz a ci\u00eancia s\u00e3o indiv\u00edduos com d\u00favidas, interroga\u00e7\u00f5es, desejo de amar e ser amado, e n\u00e3o c\u00e9rebros repousados sobre ombros. Ao todo do ser humano falam ci\u00eancia e religi\u00e3o. Muito pouco ficaria se apenas uma das dimens\u00f5es restasse\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De outras constata\u00e7\u00f5es nos falar\u00e3o pr\u00f3ximas etapas e dias do nosso rumo.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Sugest\u00f5es bibliogr\u00e1ficas:<\/p>\n<p>Colin Stuart, <em>Tempo: 10 coisas que deve saber<\/em>, Lisboa, Vogais, 2024.<\/p>\n<ol start=\"2017\">\n<li>Tom\u00e1s de Aquino, <em>Suma de Teolog\u00eda<\/em>, Madrid, Biblioteca de Autores Cristianos, 2017.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Michel-Yves Bollor\u00e9 e Olivier Bonnassies, <em>Deus, a ci\u00eancia, as provas: alvorada de uma revolu\u00e7\u00e3o<\/em>, Alfragide, Publica\u00e7\u00f5es Dom Quixote, 2024<sup>2<\/sup>.<\/p>\n<p>Luis Alonso Sch\u00f6kel, <em>Dicion\u00e1rio B\u00edblico Hebraico-Portugu\u00eas<\/em>, S\u00e3o Paulo, Paulus, 2014<sup>6<\/sup>.<\/p>\n<hr \/>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Cfr. Luis Alonso Sch\u00f6kel, <em>Dicion\u00e1rio B\u00edblico Hebraico-Portugu\u00eas<\/em>, S\u00e3o Paulo, Paulus, 2014<sup>6<\/sup>, p. 601.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Sigo, nas minhas an\u00e1lises, a edi\u00e7\u00e3o da BAC referida nas sugest\u00f5es bibliogr\u00e1fica.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;, &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/striewa-11945054\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=8689740\">Juergen Striewski<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=8689740\">Pixabay<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(\u2018Os Sete Dias<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":19702,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,214],"tags":[],"class_list":["post-19701","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-os-sete-dias-da-criacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19701","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19701"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19701\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19703,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19701\/revisions\/19703"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19702"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19701"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19701"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19701"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}