{"id":19698,"date":"2025-08-13T18:21:39","date_gmt":"2025-08-13T17:21:39","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=19698"},"modified":"2025-08-13T18:21:39","modified_gmt":"2025-08-13T17:21:39","slug":"os-sete-dias-da-criacao-4-luis-m-p-silva-o-primeiro-dia-a-luz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/os-sete-dias-da-criacao-4-luis-m-p-silva-o-primeiro-dia-a-luz\/","title":{"rendered":"&#8216;Os Sete Dias da Cria\u00e7\u00e3o&#8217; |4| Lu\u00eds M. P. Silva &#8216;O primeiro dia: a luz!&#8217;"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">(\u2018Os Sete Dias da Cria\u00e7\u00e3o\u2019 | Rubrica dedicada ao di\u00e1logo entre ci\u00eancia e religi\u00e3o)<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo originalmente publicado na revista <a href=\"https:\/\/www.movimento-acr.pt\/historia-mundo-rural\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">&#8216;Mundo Rural&#8217;<\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">Consideremos as etapas anteriores desta nossa reflex\u00e3o como um aut\u00eantico \u2018pre\u00e2mbulo\u2019. \u2018<em>Pre<\/em>ambulare\u2019 significa, literalmente, \u2018antes de come\u00e7ar a andar\u2019\u2026 Prepar\u00e1mo-nos para andar, para caminhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 hora de andar!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pre\u00e2mbulo antecipou o primeiro momento do nosso caminho. A luz, primeiro fruto do ato criador, \u00e9 particularmente simb\u00f3lica e significativa para o que aqui nos traz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diz o autor b\u00edblico<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><sup>\u00ab3<\/sup><strong><sup>*<\/sup><\/strong>Deus disse: \u00abFa\u00e7a-se a luz.\u00bb E a luz foi feita. <sup>4<\/sup>Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas. <sup>5<\/sup><strong><sup>*<\/sup><\/strong>Deus chamou dia \u00e0 luz, e \u00e0s trevas, noite. Assim, surgiu a tarde e, em seguida, a manh\u00e3: foi o primeiro dia.\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vale a pena, antes de come\u00e7ar a deixar que o texto \u2018fale\u2019 connosco, reparar num detalhe intrigante. Diz o autor que \u2018surgiu a tarde e, em seguida, a manh\u00e3: foi o primeiro dia.\u2019 Sempre me intrigou esta sequ\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Uma tarde e, depois, a manh\u00e3?\u2019<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sim, \u00e9 a l\u00f3gica judaica de organiza\u00e7\u00e3o do tempo. O dia come\u00e7a com o p\u00f4r-do-sol. \u00c9 por isso que o s\u00e1bado come\u00e7a na sexta-feira, com o p\u00f4r-do-sol, e, pela morte de Jesus, o seu enterramento teve de ser precipitado, porque se avizinhava o fim daquele dia e, com o p\u00f4r-do-sol, o in\u00edcio do S\u00e1bado da P\u00e1scoa, que \u2018era um grande dia\u2019 (Jo 19,31)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Regressemos, ent\u00e3o, ao que este excerto nos evidencia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sublinhemos o simbolismo que radica neste primeiro ato criador. Deus come\u00e7a a Sua a\u00e7\u00e3o com a \u2018luz\u2019. Bem certo que uma abordagem concordista<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> da B\u00edblia vislumbra neste ato a confirma\u00e7\u00e3o de que o in\u00edcio da cria\u00e7\u00e3o se opera por uma \u2018grande explos\u00e3o\u2019, como que subscrevendo a teoria primeiramente sustentada pelo Pe. Georges Lema\u00eetre e cunhada como \u2018big bang\u2019, pelos seus opositores, entre os quais se destacava, ent\u00e3o, Fred Hoyle, defensor de um universo estacion\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sigo outra linha\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 simb\u00f3lico que a luz seja o primeiro \u2018fruto\u2019 criado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 que o autor b\u00edblico tem o cuidado de registar que esta \u00e9 \u2018separada das trevas\u2019 (estas n\u00e3o s\u00e3o fruto do Criador. S\u00e3o uma mera \u2018aus\u00eancia\u2019 da luz que, essa sim, \u00e9 fruto criado! Santo Agostinho explorar\u00e1 esta constata\u00e7\u00e3o para a sua reflex\u00e3o sobre o mal enquanto aus\u00eancia do bem. O bem, sim, \u00e9 fruto de Deus. O mal, enquanto insufici\u00eancia do bem, \u00e9 mera aus\u00eancia e, por isso, n\u00e3o carece de um criador\u2026).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o autor b\u00edblico acrescenta mais um detalhe que ganha significado quando comparamos o texto b\u00edblico com os textos contempor\u00e2neos de ent\u00e3o e que marcavam as cosmogonias (as teorias explicativas sobre a origem do mundo) desse tempo. O autor b\u00edblico sublinha que \u2018Deus viu que a luz era boa\u2019. A bondade da cria\u00e7\u00e3o \u00e9 uma nota espec\u00edfica do texto b\u00edblico. Contrasta, de forma flagrante e nunca sobejamente recordada, com as vis\u00f5es de ent\u00e3o (e, apetece dizer, com muitas leituras ainda hoje presentes\u2026). Na vis\u00e3o b\u00edblica, o mundo n\u00e3o \u00e9 intrinsecamente mau. O mundo, enquanto fruto da a\u00e7\u00e3o de Deus, \u00e9 desejado como bom, \u00e9 reconhecido como bom.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, e que nos diz de ainda mais relevante o facto de ser a luz o primeiro ato criador?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A luz sempre foi, ao longo dos tempos, sin\u00f3nimo de bem, verdade, sentido, horizonte, conhecimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acrescentemos, para densificar esta \u00faltima nota, que o autor b\u00edblico refere todos os atos de cria\u00e7\u00e3o de Deus como resultando da efic\u00e1cia da Sua Palavra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O autor afirma: \u2018Deus disse: \u00abFa\u00e7a-se a luz.\u00bb\u2019<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E a luz foi feita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 um demiurgo que realiza o mundo, que o concretiza. \u00c9 a pr\u00f3pria Palavra que, na sua efic\u00e1cia, opera o ato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 uma intr\u00ednseca liga\u00e7\u00e3o entre \u2018Palavra\u2019 e \u2018Cria\u00e7\u00e3o\u2019, seja, enquanto \u2018ato\u2019 (o ato de criar), seja enquanto fruto (a obra criada), o que coloca todo o mundo em estreita liga\u00e7\u00e3o \u00e0 verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para percebermos o alcance disto, socorramo-nos do que os gregos diziam sobre a verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para os gregos, a verdade podia ser pensada em tr\u00eas registos: como \u2018orth\u00f3t\u00eas\u2019 (\u2018coer\u00eancia), como \u2018ousia\u2019 (como a \u2018verdade da coisa em si\u2019) e como \u2018al\u00eatheia\u2019 (a verdade no intelecto, entendida como \u2018desvelamento\u2019, como \u2018n\u00e3o esquecimento\u2019).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que importa desta brev\u00edssima s\u00edntese?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta s\u00edntese permite-nos ver que a verdade, como dizia S. Tom\u00e1s \u00e9, bem certo, \u2018a adequa\u00e7\u00e3o entre objeto e entendimento\u2019 (Suma Teol\u00f3gica (<strong>Ia, q. 16, a. 1, sol.<\/strong>), em que subentendem as demais implica\u00e7\u00f5es de \u2018verdade\u2019, mas que a hist\u00f3ria vir\u00e1 a explicitar mais claramente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A verdade dever\u00e1, sempre, naturalmente, dizer-se em rela\u00e7\u00e3o ao sujeito que conhece, mas dever\u00e3o supor-se as outras duas dimens\u00f5es: a verdade da coisa em si e a verdade desta coisa em rela\u00e7\u00e3o ao que Deus quer dela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parece subtil, mas desdobremos a ideia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A verdade deve reconhecer-se ao pensamento que reflete sobre a realidade. Certamente! E tal, num contexto de uma reflex\u00e3o como a que estamos a fazer (em que ci\u00eancia e religi\u00e3o se interrogam sobre o mundo, \u00e9 particularmente implicativo\u2026). O pensamento, para ser v\u00e1lido, tem de ser verdadeiro e, como dizia S\u00e3o Tom\u00e1s, adequar-se \u00e0 realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a pr\u00f3pria realidade \u00e9, isto \u00e9, existe como um algo concreto. O sujeito que pensa, que conhece, interroga-se sobre o mundo em si. N\u00e3o sobre cria\u00e7\u00f5es mentais sem respaldo na realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Resulta daqui um desafio de \u2018regressar \u00e0 realidade\u2019 (Quantas implica\u00e7\u00f5es para os diversos \u00e2mbitos do saber que, fechados hermeticamente em si, se v\u00e3o afastando do mundo, criando ideologias\u2026).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas h\u00e1 um outro desafio: o de a pr\u00f3pria realidade ser de acordo com o que Deus pretende para ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aplicando ao ser humano, \u00e9 vis\u00edvel a consequ\u00eancia disto\u2026 Ser-se humano \u00e9 corresponder \u00e0 humanidade desejada por Deus. O pr\u00f3prio S. Tom\u00e1s tem isto em conta ao falar do dever de corresponder ao \u2018entendimento de Deus\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vincar, como afirmava o autor b\u00edblico, que \u2018Deus disse\u2026 e foi feita\u2019 \u00e9 vincar que a natureza das coisas realiza-se e f\u00e1-las verdadeiras se elas corresponderem ao que Deus quis e quer que elas sejam\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assegurada a \u2018luz\u2019, iluminados pela \u2018Verdade\u2019, prossigamos, nas pr\u00f3ximas etapas, os \u2018dias da cria\u00e7\u00e3o\u2019\u2026 \u2018Desvelando\u2019, levantando o v\u00e9u de trevas que sempre tenta abater-se sobre a realidade, sobre a identidade da realidade e sobre o discurso acerca da mesma realidade.<\/p>\n<hr \/>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Sigo a tradu\u00e7\u00e3o de https:\/\/www.paroquias.org\/biblia\/<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> O di\u00e1logo entre ci\u00eancia e religi\u00e3o pode operar-se de muitos modos. No que respeita \u00e0 leitura do que deva recolher-se da leitura b\u00edblica, muitos s\u00e3o os que a interpretam procurando confirmar, na letra do texto, o que as ci\u00eancias v\u00e3o estabilizando como saber comummente aceite pela comunidade cient\u00edfica. A esta leitura que coloca em \u2018concord\u00e2ncia\u2019 a letra da B\u00edblia com as teorias cient\u00edficas designa-se como \u2018concordismo\u2019.<\/p>\n<p>Defendo, por\u00e9m, que outra deva ser a leitura. \u00c0 B\u00edblia n\u00e3o devem fazer-se as perguntas a que a ci\u00eancia pretende responder. Outro \u00e9 o objetivo dos textos b\u00edblicos. Como sintetizava, sabiamente, Galileu, n\u00e3o deveremos perguntar-nos, a partir da B\u00edblia, \u2018como\u2019 \u00e9 o c\u00e9u, mas sim como se vai \u2018para\u2019 o C\u00e9u. A B\u00edblia \u00e9 a hist\u00f3ria de Deus com os Homens e, por isso, narra-nos o olhar de Deus sobre o sentido da Hist\u00f3ria e sobre o sentido do agir humano.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;, &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/elg21-3764790\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4566021\">Enrique<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4566021\">Pixabay<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(\u2018Os Sete Dias<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":19699,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,214],"tags":[],"class_list":["post-19698","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-os-sete-dias-da-criacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19698","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19698"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19698\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19709,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19698\/revisions\/19709"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19699"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19698"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19698"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19698"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}