{"id":19493,"date":"2025-06-25T14:00:51","date_gmt":"2025-06-25T13:00:51","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=19493"},"modified":"2025-06-20T14:10:46","modified_gmt":"2025-06-20T13:10:46","slug":"luis-manuel-p-silva-temos-um-problema-com-a-liberdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/luis-manuel-p-silva-temos-um-problema-com-a-liberdade\/","title":{"rendered":"Lu\u00eds Manuel P. Silva | Temos um problema com a liberdade"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: center;\">Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na discuss\u00e3o sobre a liberdade cruzam-se os maiores problemas da condi\u00e7\u00e3o humana. Ela \u00e9, de facto, um elemento de charneira, um gonzo definidor da condi\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica, o eixo em torno do qual giram os demais assuntos humanos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9, por isso, importante que a definamos com precis\u00e3o para que, pela sua condi\u00e7\u00e3o fontal, dela n\u00e3o derivem \u2018nados-mortos\u2019 ou degeneresc\u00eancias que n\u00e3o pretend\u00edamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eis uma primeira constata\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas somemos, a esta primeira constata\u00e7\u00e3o, uma segunda: n\u00e3o parecem restar d\u00favidas de que o modo como geramos os conceitos se repercute no modo como vivemos. \u00c9 uma ideia que venho vincando, repetidamente e que aqui retomo, agora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O modo como viveremos a liberdade ser\u00e1 deveras condicionado pelo modo como a concebermos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas poder\u00e1 continuar a n\u00e3o ser claro o alcance deste axioma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018N\u00e3o pensamos todos o mesmo sobre o que \u00e9 liberdade? N\u00e3o \u00e9 a liberdade a condi\u00e7\u00e3o de quem \u00e9 livre?\u2019<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parece \u00f3bvio, mas \u00e9-o tanto como uma peti\u00e7\u00e3o de princ\u00edpio. \u2018Ser livre \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o de quem participa da liberdade como a liberdade \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o de quem \u00e9 livre.\u2019<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E n\u00e3o sa\u00edmos daqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A an\u00e1lise tem de ser mais fina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A conce\u00e7\u00e3o de liberdade parece faz\u00ea-la derivar da ideia de aleatoriedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta abordagem, a liberdade \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o de um ser imprevis\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parece ser suficiente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rapidamente, por\u00e9m, esbarrar\u00e1 com uma insufici\u00eancia: uma pedra que rola pela montanha \u00e9 de rumo imprevis\u00edvel mas n\u00e3o se ousaria design\u00e1-la como livre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A aleatoriedade continua, por isso, a n\u00e3o ser suficiente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um olhar ainda mais fino constatar\u00e1 que a sua (da liberdade) atribui\u00e7\u00e3o dever\u00e1 s\u00ea-lo, apenas, do ser humano e, apenas por analogia, aplicada a outros seres, mas com a consci\u00eancia dos limites da op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta observa\u00e7\u00e3o mais fina j\u00e1 nos auxilia na busca do que deveremos considerar como sendo \u2018liberdade\u2019. Ser\u00e1 uma condi\u00e7\u00e3o de que, em rigor, na hist\u00f3ria, s\u00f3 os humanos participam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos animais e demais seres animados ou, ainda menos, aos seres n\u00e3o vivos, s\u00f3 por compara\u00e7\u00e3o poder\u00e1 dizer-se \u2018serem livres\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas sabemos algo faltar para que a atribui\u00e7\u00e3o seja precisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Concentrados nos humanos, caber\u00e1, ent\u00e3o, perceber de que falamos ao referir-nos \u00e0 liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A etimologia poder\u00e1 ajudar-nos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 curioso que a palavra latina \u2018liber\u2019, com que se refere \u2018homem livre\u2019, sirva, simultaneamente, para \u2018livro\u2019, mas tamb\u00e9m para ideia de \u2018homem honrado\u2019, \u2018homem nobre\u2019. E, n\u00e3o menos interessante, a palavra \u2018liberi\u2019 refere-se a \u2018filhos\u2019. De qualquer modo, a palavra remete para \u2018libra\u2019, uma balan\u00e7a de dois bra\u00e7os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cruzamento destes dados etimol\u00f3gicos permite-nos constatar que a aleatoriedade n\u00e3o era, de modo algum, o elemento definidor da ideia de liberdade, para os latinos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m para os gregos, a \u2018liberdade\u2019, dita com a palavra \u2018eleuther\u00eda\u2019 remetia para a ideia de nobreza, generosidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O termo, numa e noutra culturas, remetia para a ideia de uma capacidade de se elevar, de se projetar para al\u00e9m de si mesmo (ideia que fa\u00e7o decorrer de \u2018liberi\u2019, \u2018filhos\u2019 \u2013 aqueles que nos repercutem no futuro\u2026). A liberdade remetia, bem certo, para a ideia de independ\u00eancia, mas uma independ\u00eancia por se ser capaz de \u2018equilibrar\u2019 a \u2018libra\u2019, a balan\u00e7a. O homem nobre, o homem generoso \u00e9 aquele que sabe, por si mesmo, equilibrar a balan\u00e7a, buscar determinar-se pela lei e n\u00e3o, simplesmente, ser o criador aleat\u00f3rio da mesma lei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui est\u00e1 o bus\u00edlis da quest\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma certa modernidade (n\u00e3o toda a modernidade; defendo, ali\u00e1s, que preservemos a modernidade evitando aquela que estou a denunciar e salvaguardando a aut\u00eantica modernidade\u2026) confundiu \u2018liberdade\u2019 com \u2018aleatoriedade\u2019. E fez a pedra rolar, monte abaixo\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa confus\u00e3o nasceu de uma desloca\u00e7\u00e3o do conceito de liberdade do \u00e2mbito em que ele sempre estivera \u2013 ser livre \u00e9 deixar-se iluminar pela luz da verdade (vinda da raz\u00e3o e da f\u00e9; em grego, \u2018verdade\u2019 pode dizer-se com o termo \u2018al\u00eatheia\u2019. Designo, por isso, esta conce\u00e7\u00e3o como \u2018alethe\u00edsta\u2019, sustentada na import\u00e2ncia da ilumina\u00e7\u00e3o da verdade.) \u2013 para um outro em que o que grassa \u00e9 a aleatoriedade \u2013 a vontade. De facto, a vontade \u00e9 indeterminada e indetermin\u00e1vel. A vontade tudo quer, tudo pensa poder e tudo pretende poder. Quem a deve iluminar e orientar \u00e9 a luz da verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a tal linha moderna recusou essa \u2018submiss\u00e3o\u2019 da vontade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, ao recus\u00e1-lo, f\u00ea-lo com um outro custo. \u00c9 que, enquanto a luz da verdade une os humanos que a buscam, comummente, criando um conceito de liberdade \u2018comunitarista\u2019 (somos livres enquanto seres intrinsecamente relacionais), a aleatoriedade da vontade \u00e9 intrinsecamente individualista e solipsista \u2013 s\u00f3 o sujeito sabe, a cada momento, o que quer a sua vontade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta \u00faltima linha conceptual fechou os sujeitos, isolou-os. E, por consequ\u00eancia, fez dos outros \u2018um inferno\u2019, um estorvo que cabe limitar. Os sujeitos humanos, nesta conce\u00e7\u00e3o de liberdade, limitam-se uns aos outros, fazendo desta uma condi\u00e7\u00e3o que acaba onde come\u00e7a a condi\u00e7\u00e3o livre do outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por contraposi\u00e7\u00e3o, a vis\u00e3o comunitarista presume que as liberdades n\u00e3o se anulam nem estorvam, mas, antes, projetam-se e realizam-se nos entrecruzar de umas com as outras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os sinais est\u00e3o a\u00ed\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A eleuterologia de tipo voluntarista est\u00e1 a fechar-nos numa solid\u00e3o em que apenas somos casualmente contempor\u00e2neos uns dos outros. Ningu\u00e9m sabe quem \u00e9 o outro e s\u00f3 o conhece se ele lhe permitir a entrada. Haveremos de chegar a n\u00e3o nos reconhecermos se tal n\u00e3o nos permitir cada \u2018outro\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A eleuterologia de tipo \u2018alethe\u00edsta\u2019 reconhece-nos intrinsecamente relacionais, geneticamente abertos aos outros e em condi\u00e7\u00e3o inerentemente \u2018indigente\u2019 \u2013 nada somos sem o outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De que futuro falam as nossas escolhas de hoje?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que humano resistir\u00e1 \u00e0 escolha que estamos a fazer de entre estas duas matrizes?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Levar-nos-\u00e1, monte abaixo, a pedra que fizeram rolar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;, &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/souandresantana-61090\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=7998693\">Andr\u00e9 Santana Design Andr\u00e9 Santana<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=7998693\">Pixabay<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lu\u00eds Manuel Pereira<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":19494,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55],"tags":[],"class_list":["post-19493","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19493","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19493"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19493\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19495,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19493\/revisions\/19495"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19494"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19493"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19493"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19493"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}