{"id":19486,"date":"2025-06-19T00:15:50","date_gmt":"2025-06-18T23:15:50","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=19486"},"modified":"2025-06-19T00:15:50","modified_gmt":"2025-06-18T23:15:50","slug":"casa-comum-2-pe-joao-santos-vocacao-ao-cuidado-da-criacao-10-anos-da-enciclica-laudato-si","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/casa-comum-2-pe-joao-santos-vocacao-ao-cuidado-da-criacao-10-anos-da-enciclica-laudato-si\/","title":{"rendered":"Casa Comum [2] | Pe. Jo\u00e3o Santos &#8211; Voca\u00e7\u00e3o ao cuidado da Cria\u00e7\u00e3o: 10 anos da Enc\u00edclica Laudato Si&#8217;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right; padding-left: 40px;\"><strong><em>Casa comum<\/em><\/strong> | Por uma ecologia integral<\/p>\n<hr \/>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Pe. Jo\u00e3o Santos*<\/h4>\n<blockquote>\n<h6 style=\"text-align: right; padding-left: 200px;\">* A enc\u00edclica\u00a0<em>Laudato Si&#8217; foi publicada, pelo Papa Francisco, no dia 24 de maio de 2015, replicando-se, no seu t\u00edtulo, o \u00ab<i>LAUDATO SI\u2019, mi\u2019 Signore &#8211; <\/i>Louvado sejas, meu Senhor\u00bb, recolhido do &#8216;C\u00e2ntico das criaturas&#8217; de S. Francisco de Assis [1181\/2-1226]\u00a0<\/em><\/h6>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Celebramos recentemente* o d\u00e9cimo anivers\u00e1rio da publica\u00e7\u00e3o da Enc\u00edclica Laudato Si\u2019, documento marcante do pontificado de Francisco. Este documento teve reconhecidamente um impacto global. Esta obra, cujo centro conceptual \u00e9 a Ecologia Integral, apresenta uma abordagem teol\u00f3gica sobre a crise ecol\u00f3gica. Aqui o Papa, de forma bastante transversal, diagnostica e procura refletir sobre o modo como a Igreja e as religi\u00f5es podem contribuir para superar esta situa\u00e7\u00e3o, a qual, considera, n\u00e3o se pode apenas resolver interven\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas, mas tem de ter uma especial aten\u00e7\u00e3o aos paradigmas de socializa\u00e7\u00e3o, como a arte, a poesia, a vida interior e a espiritualidade (cf. Francisco, <em>Laudato Si\u2019<\/em>, 63). Tatay Nieto, professor na Universidade de Comillas, afirma que este documento foi muito bem acolhido no meio cient\u00edfico e ecologista, com a vantagem de introduzir conceitos teol\u00f3gicos na pra\u00e7a p\u00fablica, criando uma oportunidade para o di\u00e1logo crist\u00e3o com a sociedade ocidental, e convocando as comunidades crist\u00e3s para uma convers\u00e3o ecol\u00f3gica, mediante o servi\u00e7o de prote\u00e7\u00e3o aos mais pobres e ao cuidado da cria\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o v\u00e1rias as an\u00e1lises que nascem deste documento, as quais incluem diferentes perspetivas. Neste sentido, desenvolvemos aqui a tem\u00e1tica do cuidado da cria\u00e7\u00e3o como uma voca\u00e7\u00e3o da humanidade. De facto, a palavra voca\u00e7\u00e3o \u00e9 de origem teol\u00f3gica, designando um chamamento de Deus feito a uma pessoa ou a um Povo. Todavia, esta palavra \u00e9 atualmente das mais carregadas de tens\u00e3o entre a Igreja e o Mundo<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>. Com efeito, o seu uso \u00e9 igualmente muito difundido na psicologia e pedagogia, designando uma forma de vida \u00e0 qual o indiv\u00edduo melhor se adapta, sendo o seu uso frequentemente aplicado no \u00e2mbito de escolha de uma profiss\u00e3o<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<h2 style=\"text-align: justify;\">A raiz b\u00edblica no entendimento de voca\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tema da voca\u00e7\u00e3o no Antigo Testamento diz respeito, em sentido estrito, a uma ac\u00e7\u00e3o de Deus que chama em vista de uma miss\u00e3o, como se verifica no caso dos profetas, acontecimento que transforma a consci\u00eancia mais profunda dos seus destinat\u00e1rios<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>. Todavia, a voca\u00e7\u00e3o pode igualmente ser lida no \u00e2mbito de um chamamento de Deus, de forma mais geral, e nesse caso podemos incluir os relatos da cria\u00e7\u00e3o, em que Deus d\u00e1 o ser e chama todas as criaturas, e de modo especial o homem (<em>adam<\/em>) para dominar sobre os restantes seres (cf. Gen. 1, 26)<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>; neste sentido, o chamamento de Deus \u00e9 criador, n\u00e3o s\u00f3 de novas identidades, mas de vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda no \u00e2mbito do relato da cria\u00e7\u00e3o, importa real\u00e7ar, a partir do relato do G\u00e9nesis, a voca\u00e7\u00e3o do homem ao cuidado, sentido presente na forma hebraica <em>radah<\/em>, usada para expressar o dom\u00ednio do homem, express\u00e3o tamb\u00e9m utilizada na Sagrada Escritura para se referir ao poder do rei, cuja posi\u00e7\u00e3o se traduz em cuidador do povo e n\u00e3o seu explorador<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>; como \u00e9 \u00f3bvio, e para sermos rigorosos, este entendimento nasce da exegese recente, motivada pela atual quest\u00e3o ecol\u00f3gica, e n\u00e3o inclui o desenvolvimento hist\u00f3rico da hermen\u00eautica desta express\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tem\u00e1tica da voca\u00e7\u00e3o no Novo Testamento ultrapassou o \u00e2mbito do chamamento para uma dada miss\u00e3o pessoal para um \u00e2mbito comunit\u00e1rio. A consci\u00eancia de voca\u00e7\u00e3o \u00e9 intr\u00ednseca \u00e0 Igreja nascente, como atesta a etimologia da palavra grega <em>ekklesia<\/em>, ou seja, aquela que \u00e9 chamada. Este chamamento constituiu a Igreja como um Povo Santo, como atesta Paulo aos crist\u00e3os de Roma ou de Corinto (cf. Rom 1, 1.7; 1 Cor 1, 1s), chamado por Cristo a uma nova forma de vida<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Primeira Carta aos Cor\u00edntios \u00e9 de singular import\u00e2ncia para o nosso estudo sobre o entendimento cultural de voca\u00e7\u00e3o, em especial o trecho 1 Cor 7, 17-24, onde S\u00e3o Paulo apresenta a voca\u00e7\u00e3o \u00e0 vida crist\u00e3. Neste, o Ap\u00f3stolo explica como articular o chamamento \u00e0 vida crist\u00e3, gra\u00e7a recebida de Cristo por elei\u00e7\u00e3o divina no Baptismo, e o estado de vida da pessoa antes de se integrar na Igreja. No vers\u00edculo 20, S\u00e3o Paulo recorre a palavras da mesma fam\u00edlia de <em>kl\u0113sis<\/em> \u2013 que designa a voca\u00e7\u00e3o ou chamamento \u2013, embora com formas diferentes, implicando sentidos distintos, explicando como o chamamento \u00e0 f\u00e9 (<em>ekl\u0113th\u0113<\/em>), n\u00e3o \u00e9 motivo para mudar a forma de vida (<em>kl\u0113sei<\/em>) em que a pessoa j\u00e1 se encontra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este aspeto tem levado os exegetas a comentarem o texto de modo muito diverso. Alguns consideram que S\u00e3o Paulo emprega a palavra <em>kl\u0113sis<\/em>, tanto no sentido de chamamento divino, como no sentido de exerc\u00edcio de profiss\u00e3o ou estado civil; esta explica\u00e7\u00e3o causa estranheza, uma vez que assim sendo, esta seria a \u00fanica vez em que o Ap\u00f3stolo recorreria a esta palavra com um sentido que n\u00e3o o de chamamento divino; por este motivo, Christiane Frey considera que \u00e9 apenas \u00e0 luz do chamamento divino que pode entender um chamamento humano<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a>. Todavia, este entendimento \u00e9 discut\u00edvel e representou na hist\u00f3ria da cultura religiosa um ponto de diverg\u00eancia entre teologias, em especial aquelas com alcance pol\u00edtico e constituiu um ponto de diverg\u00eancia entre tradi\u00e7\u00f5es cat\u00f3lica e protestante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<h2 style=\"text-align: justify;\">A transforma\u00e7\u00e3o sem\u00e2ntica da palavra \u201cvoca\u00e7\u00e3o\u201d e seu impacto social<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A transforma\u00e7\u00e3o e impacto social da transforma\u00e7\u00e3o sem\u00e2ntica da palavra voca\u00e7\u00e3o e seu impacto no desenvolvimento social foi tema da investiga\u00e7\u00e3o de Max Weber, na sua obra <em>A \u00e9tica protestante e o esp\u00edrito do capitalismo. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No evoluir da tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, a palavra voca\u00e7\u00e3o foi, regra geral, usada restritivamente para designar a vida religiosa e sacerdotal. Todavia, Weber recorda que Lutero, ao fazer a tradu\u00e7\u00e3o da Primeira Carta aos Cor\u00edntios, traduz o estado de vida ou profiss\u00e3o como <em>Beruf<\/em>, express\u00e3o alem\u00e3 para designar voca\u00e7\u00e3o, anteriormente aplicada exclusivamente ao \u00e2mbito consagrado. Deste modo, Lutero considera o exerc\u00edcio do trabalho no mundo como lugar de cumprimento da voca\u00e7\u00e3o e rejeita a valoriza\u00e7\u00e3o da vida religiosa<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com esta tradu\u00e7\u00e3o, Lutero introduziu um espa\u00e7o para uma nova interpreta\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o humana no mundo, pois at\u00e9 esse momento, na cultura germ\u00e2nica, a ordem social era designada por <em>Stand<\/em> e o trabalho individual (<em>officium<\/em>) por <em>Dienst<\/em>, sendo <em>Beruf<\/em> ou <em>Berufung<\/em> aplicadas unicamente \u00e0 vida mon\u00e1stica<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><sup>[10]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta tradu\u00e7\u00e3o, com um acento secularizante, constitui segundo Weber, um dos motivos pelos quais a vida mon\u00e1stica \u00e9 praticamente inexistente no protestantismo, uma vez que Lutero falar\u00e1 de uma voca\u00e7\u00e3o espiritual a acontecer mediante o trabalho<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\"><sup>[11]<\/sup><\/a>, de car\u00e1cter exterior<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\"><sup>[12]<\/sup><\/a>, em que a viv\u00eancia dos conselhos evang\u00e9licos mon\u00e1sticos e ascese correspondente, \u00e9 transformada no cumprimento dos deveres laborais<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\"><sup>[13]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 neste contexto que o contributo de Max Weber se torna importante para o nosso estudo. Este comenta como esta significa\u00e7\u00e3o religiosa da atividade laboral, baseada num novo entendimento de <em>Beruf<\/em>, transformou a cultura dos povos protestantes. Desta sociedade emergiu uma nova consci\u00eancia escatol\u00f3gica; enquanto que no catolicismo a ocupa\u00e7\u00e3o mundana n\u00e3o era muito relevante para o Reino dos C\u00e9us, a afirma\u00e7\u00e3o luterana da concretiza\u00e7\u00e3o da voca\u00e7\u00e3o pelo trabalho, desenvolveu uma consci\u00eancia religiosa, em que a atividade laboral \u00e9 o lugar concreto que Deus d\u00e1 a cada um para cumprir a sua miss\u00e3o, entendimento que foi ampliado por Calvino pela doutrina da predestina\u00e7\u00e3o, e que, segundo Weber, colocou uma base religiosa importante para a emerg\u00eancia do capitalismo<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\"><sup>[14]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao se afirmar o exerc\u00edcio do trabalho como voca\u00e7\u00e3o (<em>Beruf<\/em>), e ao se tomar o seu sucesso como aferidor da b\u00ean\u00e7\u00e3o divina, desenvolveu-se uma cultura que encara o trabalho, n\u00e3o apenas como uma parte da vida, mas como objetivo em si pr\u00f3prio, levando a que se deva procurar lucro cada vez maior, na medida em que o sucesso laboral \u00e9 aferidor da b\u00ean\u00e7\u00e3o divina<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\"><sup>[15]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este modelo de ac\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica acentuou modelos de desenvolvimento que visavam cada vez maior produ\u00e7\u00e3o, assumindo que a distribui\u00e7\u00e3o desigual de bens era um sinal da b\u00ean\u00e7\u00e3o de Deus a cada um, ao mesmo tempo que defendia uma limita\u00e7\u00e3o aos valores dos sal\u00e1rios a pagar, para estimular os funcion\u00e1rios a quererem trabalhar de forma comprometida<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\"><sup>[16]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Max Weber, no s\u00e9culo XIX, no contexto da crise social gerada pela massifica\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o industrial, constata que j\u00e1 se tinha perdido muito do esp\u00edrito inicial de Lutero, tendo permanecido uma cultura da ac\u00e7\u00e3o e de procura do lucro, cujo impacto sobre a cria\u00e7\u00e3o e vida social, o pr\u00f3prio descreve<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\"><sup>[17]<\/sup><\/a>:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O puritanismo queria ser um homem de profiss\u00e3o \u2013 n\u00f3s temos de o ser. O ascetismo, ao ser transformado das celas conventuais para a vida profissional, come\u00e7ou a dominar a \u00e9tica secular e deu o seu contributo para a forma\u00e7\u00e3o do poderoso cosmos da ordem econ\u00f3mica moderna; esta, vinculada \u00e0s condi\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas e t\u00e9cnicas da produ\u00e7\u00e3o, com uma for\u00e7a irresist\u00edvel, determina hoje o estilo de vida, n\u00e3o apenas da popula\u00e7\u00e3o ativa, mas de todos os indiv\u00edduos que nascem dentro desta engrenagem. E provavelmente, isto poder\u00e1 continuar a acontecer at\u00e9 que o \u00faltimo quintal de combust\u00edvel f\u00f3ssil seja queimado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No final desta obra, Weber alerta, que a perda do esp\u00edrito religioso deste modelo de desenvolvimento, levaria a um estilo de vida em que os homens seriam \u00abespecialistas sem esp\u00edrito, folgaz\u00f5es sem cora\u00e7\u00e3o: estes nadas pensam ter chegado a um est\u00e1dio da humanidade nunca antes atingido\u00bb<a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\"><sup>[18]<\/sup><\/a>; e ainda que o pr\u00f3prio pe\u00e7a para n\u00e3o empolar a sua express\u00e3o, o facto \u00e9 que estas palavras t\u00eam atualidade, as quais previam, em certo modo, n\u00e3o s\u00f3 as injusti\u00e7as sociais, mas tamb\u00e9m o uso exagerado dos recursos do planeta, causadora e perturbador da \u201cCasa Comum\u201d<a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\"><sup>[19]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como veremos de seguida, a teologia cat\u00f3lica ir\u00e1 integrar em si este novo sentido de voca\u00e7\u00e3o, j\u00e1 n\u00e3o restrito da vida consagrada &#8211; algo que j\u00e1 acontece no Conc\u00edlio Vaticano II -, precisamente para explicitar o chamamento de cuidado da cria\u00e7\u00e3o, algo que a <em>Laudato Si\u2019<\/em> desenvolve de modo muito aprofundado.<\/p>\n<h1 style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<h1 style=\"text-align: justify;\">O uso do conceito de voca\u00e7\u00e3o na enc\u00edclica <em>Laudato Si\u2019<\/em><\/h1>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste contexto, pretendemos explorar este documento pontif\u00edcio de modo a salientar como Francisco aborda a voca\u00e7\u00e3o da humanidade a viver nesta \u201ccasa comum\u201d, dando-lhe um sentido, n\u00e3o segundo uma leitura cat\u00f3lica tradicional de vida religiosa, mas aplicando o conceito de voca\u00e7\u00e3o \u00e0 forma de viver no mundo. A sua abordagem n\u00e3o \u00e9 inteiramente nova, uma vez que j\u00e1 Jo\u00e3o Paulo II o tinha feito, na mensagem do Dia Mundial da Paz em 1990, ao afirmar a nobreza da voca\u00e7\u00e3o da humanidade em participar de modo respons\u00e1vel na ac\u00e7\u00e3o criadora de Deus (cf. Jo\u00e3o Paulo II, <em>Paz com Deus Criador, Paz com toda a cria\u00e7\u00e3o<\/em>, 6; Francisco, <em>Laudato Si\u2019<\/em>, 131). Este aspecto, longe de constituir fonte de pol\u00e9mica, reflecte que o uso do conceito de voca\u00e7\u00e3o \u00e9 relido segundo uma antropologia b\u00edblica da cria\u00e7\u00e3o, segundo o qual a humanidade recebe um chamamento. Ali\u00e1s, a Igreja Cat\u00f3lica Austr\u00edaca, na tradu\u00e7\u00e3o que fez deste documento do Papa Polaco, identifica esta voca\u00e7\u00e3o como \u201c<em>berufung<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\"><sup>[20]<\/sup><\/a>, sinal preciso deste entendimento, em meio germ\u00e2nico, da voca\u00e7\u00e3o de cuidador como sendo de elei\u00e7\u00e3o divina. Neste contexto, a voca\u00e7\u00e3o ao cuidado da terra, segundo uma antropologia b\u00edblica e crist\u00e3, pode constituir uma forma de di\u00e1logo com o mundo secularizado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Enc\u00edclica <em>Laudato Si\u2019 <\/em>permite refletir sobre a voca\u00e7\u00e3o da humanidade na casa comum, sendo poss\u00edvel salientar uma dimens\u00e3o antropol\u00f3gica e uma dimens\u00e3o \u00e9tica, campos que embora se possam distinguir formalmente, n\u00e3o se podem separar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<h2 style=\"text-align: justify;\">A voca\u00e7\u00e3o humana no cuidado da cria\u00e7\u00e3o na Enc\u00edclica <em>Laudato Si\u2019<\/em><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Papa Francisco apresenta uma vis\u00e3o de ecologia integral assente numa perspetiva b\u00edblica, na qual assume o lugar singular da humanidade da cria\u00e7\u00e3o como cuidadora e n\u00e3o segundo uma radical igualdade do ser humano com os restantes seres (cf. Francisco, <em>Laudato Si\u2019<\/em>, 90)<a href=\"#_ftn21\" name=\"_ftnref21\"><sup>[21]<\/sup><\/a>. Todavia, a superioridade do ser humano, como expressa o mandato do G\u00e9nesis (cf. Gen 1, 28) e j\u00e1 analisado anteriormente, traduz-se num cuidado para com os restantes seres vivos e cria\u00e7\u00e3o, que recebemos como dom (cf. Francisco, <em>Laudato Si\u2019<\/em>, 89).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este cuidado \u00e9 ainda marcado de modo mais vincado quando nos referimos aos mais pobres, aspecto sublinhado pelo Papa Francisco, que sustenta que a igual dignidade da condi\u00e7\u00e3o humana se traduz biblicamente na possibilidade de comunh\u00e3o e de amor, e n\u00e3o na capacidade de posse (cf. Francisco, <em>Laudato Si\u2019<\/em>, 66. 90). Este argumento \u00e9 especialmente importante quando lido no nosso estudo. De facto, constatamos como o puritanismo defendia uma procura cada vez maior do lucro como resposta \u00e0 voca\u00e7\u00e3o dada por Deus para o exerc\u00edcio da profiss\u00e3o e que via na possibilidade de acumular muitos bens um sinal de b\u00ean\u00e7\u00e3o divina; e ainda que se defendesse a sobriedade como estilo de vida, em virtude do dinheiro n\u00e3o ser para esbanjar, n\u00e3o se apresentava como esse capital era usado em cuidado dos mais pobres. Pelo contr\u00e1rio, Francisco afirma a tradi\u00e7\u00e3o da Doutrina Social da Igreja, que defende que valor do destino universal dos bens da terra \u00e9 maior que o do direito de posse (cf. Francisco, <em>Laudato Si\u2019<\/em>, 93-95). Esta consci\u00eancia reflecte como o exerc\u00edcio da actividade humana, e neste caso a laboral, n\u00e3o se pode restringir ao campo do lucro, mas na vis\u00e3o da <em>Laudato Si\u2019<\/em>, remete para uma viv\u00eancia em comunh\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta consci\u00eancia \u00e9 um ponto central da reflex\u00e3o antropol\u00f3gica nesta Enc\u00edclica, na medida em que \u00e9 apresentada como voca\u00e7\u00e3o da humanidade a comunh\u00e3o com Deus, com o pr\u00f3ximo e com a terra. Ali\u00e1s, de acordo com o relato do G\u00e9nesis, o ser humano \u00e9 chamado a ser guardi\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o (cf. Gen 1, 28; 2, 15), algo que o Papa apresenta explicitamente como \u00abvoca\u00e7\u00e3o\u00bb (Francisco, <em>Laudato Si\u2019<\/em>, 217), e toma como dimens\u00e3o essencial numa exist\u00eancia virtuosa, que nasce do encontro com Cristo, dando como exemplo S\u00e3o Francisco (cf. Francisco, <em>Laudato Si\u2019<\/em>, 66); em sentido oposto, \u00e9 tamb\u00e9m afirmado que a falta de comunh\u00e3o do humano com os restantes seres \u00e9 motivada pelo pecado e n\u00e3o por des\u00edgnio divino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para a humanidade poder viver a voca\u00e7\u00e3o de guardi\u00e3 da cria\u00e7\u00e3o (cf. Francisco, <em>Laudato Si\u2019<\/em>, 217), \u00e9 necess\u00e1ria uma convers\u00e3o ecol\u00f3gica (cf. Francisco, <em>Laudato Si\u2019<\/em>, 217), ou convers\u00e3o de cora\u00e7\u00e3o e renovada espiritualidade (cf. Francisco, <em>Laudato Si\u2019<\/em>, 218. 226), que reconhe\u00e7a a comunh\u00e3o com o mundo criado (cf. Francisco, <em>Laudato Si\u2019<\/em>, 220) e que transforme o paradigma da correria do consumismo e do individualismo em sobriedade, alegria e paz (cf. Francisco, <em>Laudato Si\u2019<\/em>, 222-227). Este caminho de espiritualidade \u00e9 descrito por Francisco como um caminho de voca\u00e7\u00e3o que leva \u00e0 uni\u00e3o com Deus, pelo exerc\u00edcio do amor, vivido tamb\u00e9m no \u00e2mbito tamb\u00e9m civil e pol\u00edtico (cf. Francisco, <em>Laudato Si\u2019<\/em>, 231. 238). Francisco coloca que para a convers\u00e3o acontecer, urge mudar a forma de agir, a qual se encontra enraizada num paradigma tecnocr\u00e1tico desordenado que tende a substituir o trabalho humano, aspecto que nos remete para a an\u00e1lise \u00e9tica, que trabalhamos de seguida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<h2 style=\"text-align: justify;\">A dimens\u00e3o \u00e9tica da voca\u00e7\u00e3o humana no cuidado da cria\u00e7\u00e3o na Enc\u00edclica <em>Laudato Si\u2019<\/em><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como j\u00e1 compreendemos a Sagrada Escritura permite defender uma superioridade da humanidade na cria\u00e7\u00e3o. Todavia, na raiz da actual crise ecol\u00f3gica est\u00e1 o antropocentrismo moderno, que ao exacerbar a t\u00e9cnica, conduziu a uma situa\u00e7\u00e3o que debilita o valor intr\u00ednseco da cria\u00e7\u00e3o, alheando o homem do dom que lhe foi confiado, levando ao surgimento de uma imagina\u00e7\u00e3o, na qual ele se toma como senhor absoluto, substituindo o lugar de Deus, e criando condi\u00e7\u00f5es para o desprezo do valor da vida humana em si, como no caso do aborto (cf. Francisco, <em>Laudato Si\u2019<\/em>, 115-116. 120).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo Francisco, o antropocentrismo desordenado conduziu a um consumismo obsessivo, apresentado mediaticamente como uma forma de liberdade, em que uma elite minorit\u00e1ria prop\u00f5e (ou imp\u00f5e) uma s\u00e9rie de objectos comuns \u00e0 sociedade, mediante a sugest\u00e3o da suposta necessidade desta os ter, suscitando um comportamento social de consumismo, que acentua uma l\u00f3gica de produ\u00e7\u00e3o com elevado impacto no meio ambiente (cf. Francisco, <em>Laudato Si\u2019<\/em>, 203-204). Como tal, \u00e9 fundamental que haja uma convers\u00e3o ecol\u00f3gica, mudando h\u00e1bitos de consumo para fazer alterar modelos de produ\u00e7\u00e3o, superando o individualismo, mas sobretudo desenvolvendo uma maior consci\u00eancia de acolhimento ao outro (cf. Francisco, <em>Laudato Si\u2019<\/em>, 206. 208).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O exerc\u00edcio do trabalho, tema particularmente importante no \u00e2mbito protestante e tomado como <em>Beruf<\/em>, foi perdendo o car\u00e1cter de elei\u00e7\u00e3o divina em virtude do acentuar da deteriora\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho. O tema do trabalho foi abundantemente j\u00e1 reflectido em pontificados anteriores a Francisco e na Doutrina Social da Igreja; todavia, constitui lugar importante na reflex\u00e3o sobre a voca\u00e7\u00e3o humana nesta Enc\u00edclica, sinal da necessidade do nosso tempo encontrar caminhos de cultura salutar para a sua viv\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos pontos mais relevantes nesta tem\u00e1tica vocacional \u00e9 o exerc\u00edcio do trabalho e a proposta de altera\u00e7\u00e3o do modelo de desenvolvimento econ\u00f3mico, pois este deve centrar-se na dignidade do ser humano, que impede que este seja reduzido a um objecto produtivo (cf. Francisco, <em>Laudato Si\u2019<\/em>, 81). O trabalho constitui uma voca\u00e7\u00e3o para a humanidade, afirma o Papa, partindo n\u00e3o da Primeira Carta aos Cor\u00edntios como Lutero, mas do plano original de Deus na cria\u00e7\u00e3o (cf. Francisco, <em>Laudato Si\u2019<\/em>, 128); a par desta afirma\u00e7\u00e3o, Francisco descreve igualmente a actividade empresarial como nobre voca\u00e7\u00e3o para produzir riqueza e melhorar as condi\u00e7\u00f5es de vida, por exemplo pelo aumento do emprego (cf. Francisco, <em>Laudato Si\u2019<\/em>, 129). O trabalho aqui entendido pressup\u00f5e \u00abqualquer actividade que implique alguma transforma\u00e7\u00e3o do existente\u00bb (Francisco, <em>Laudato Si\u2019<\/em>, 125), sendo necess\u00e1rio a contempla\u00e7\u00e3o e respeito pela cria\u00e7\u00e3o, sob pena de se desfigurar o seu sentido, com vista ao desenvolvimento pessoal integral, onde possam ser integradas muitas dimens\u00f5es da vida: \u00aba criatividade, a projec\u00e7\u00e3o do futuro, o desenvolvimento das capacidades, a exercita\u00e7\u00e3o dos valores, a comunica\u00e7\u00e3o com os outros, uma atitude de adora\u00e7\u00e3o\u00bb (Francisco, <em>Laudato Si\u2019<\/em>, 127). Esta l\u00f3gica faz brotar uma concep\u00e7\u00e3o de trabalho como caminho de realiza\u00e7\u00e3o e n\u00e3o de opress\u00e3o por outrem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como \u00e9 evidente, n\u00e3o existe uma novidade absoluta nas afirma\u00e7\u00f5es de Francisco, mas \u00e9 poss\u00edvel constatar como a crise ecol\u00f3gica actual levou a que se aprofundasse a rela\u00e7\u00e3o \u00edntima entre a terra e o homem, sendo de crucial import\u00e2ncia o relato b\u00edblico das origens, o qual n\u00e3o foi suficientemente tido em conta na hist\u00f3ria da Igreja Cat\u00f3lica<a href=\"#_ftn22\" name=\"_ftnref22\"><sup>[22]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 interessante constatar que o Papa n\u00e3o exclui a necessidade de um desenvolvimento permanente, mas rejeita o paradigma tecnocr\u00e1tico, que promove um modelo de desenvolvimento homog\u00e9neo, unidimensional, globalizante e massificante e acentua a degrada\u00e7\u00e3o do ambiente. Este modelo reduz tamb\u00e9m as capacidades humanas de criatividade, da capacidade de decis\u00e3o e de liberdade (Francisco, <em>Laudato Si\u2019<\/em>, 106.108), o qual se centraliza no lucro e leva a dinamismos de exclus\u00e3o dos mais pobres e fr\u00e1geis, temas que surgem na an\u00e1lise de Weber, que identificava a extin\u00e7\u00e3o de formas de trabalhos mais simples por press\u00e3o das mais capitalistas, e impunha novos modelos sociais, fazendo que os camponeses se tornassem oper\u00e1rios<a href=\"#_ftn23\" name=\"_ftnref23\"><sup>[23]<\/sup><\/a>. Nesta linha, Francisco coloca a necessidade de se colocarem limites ao desenvolvimento t\u00e9cnico e cient\u00edfico, quando atentam contra a dignidade humana e a sustentabilidade, sendo necess\u00e1ria uma revolu\u00e7\u00e3o cultural que fa\u00e7a mudar o modelo actual (Francisco, <em>Laudato Si\u2019<\/em>, 114).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deve-se tamb\u00e9m reconhecer que o modelo econ\u00f3mico actual evolui cada vez mais depressa, numa \u00ab<em>rapidaci\u00f3n<\/em>\u00bb (Francisco, <em>Laudato Si\u2019<\/em>, 18) no sentido de uma automatiza\u00e7\u00e3o do trabalho, dispensando empregados sempre que poss\u00edvel, numa l\u00f3gica de mercado de competi\u00e7\u00e3o para fazer baixar pre\u00e7os para atrair consumidores. No fundo, \u00e9 aos consumidores finais que pertence a op\u00e7\u00e3o de escolher, ainda que estes sejam induzidos a comprar por diversos mecanismos (cf. Francisco, <em>Laudato Si\u2019<\/em>, 206).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em forma de apelo, Francisco descreve uma voca\u00e7\u00e3o de cuidado para a humanidade:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Somos chamados a tornar-nos os instrumentos de Deus Pai para que o nosso planeta seja o que Ele sonhou ao cri\u00e1-lo e corresponda ao seu projecto de paz, beleza e plenitude. O problema \u00e9 que n\u00e3o dispomos ainda da cultura necess\u00e1ria para enfrentar esta crise e h\u00e1 necessidade de construir lideran\u00e7as que tracem caminhos, procurando dar resposta \u00e0s necessidades das gera\u00e7\u00f5es actuais, todos inclu\u00eddos, sem prejudicar as gera\u00e7\u00f5es futuras. (Francisco, <em>Laudato Si\u2019<\/em>, 53).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta leitura da voca\u00e7\u00e3o da humanidade insere-se numa cultura de cuidado a construir, na qual, segundo Francisco, os crist\u00e3os devem contribuir mediante a sua ac\u00e7\u00e3o no mundo, em favor de uma casa comum. \u00c9 evidente que o uso presente do conceito de voca\u00e7\u00e3o por Francisco \u00e9 de ac\u00e7\u00e3o no mundo, tendo pouco a ver com a voca\u00e7\u00e3o religiosa. N\u00e3o podemos deixar de sublinhar que o uso de uma categoria de voca\u00e7\u00e3o, como chamamento divino para o cuidado da cria\u00e7\u00e3o, sendo biblicamente fundamentado, \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o ousada e consciente da necessidade clara diante de uma emerg\u00eancia ecol\u00f3gica. Esta posi\u00e7\u00e3o \u00e9 extremamente relevante, pois o acentuar de uma voca\u00e7\u00e3o divinamente inspirada para o exerc\u00edcio de uma profiss\u00e3o em vista de um lucro cada vez maior foi certamente um factor cultural importante no modelo de desenvolvimento econ\u00f3mico que Francisco contesta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<h1 style=\"text-align: justify;\">Conclus\u00e3o<\/h1>\n<p style=\"text-align: justify;\">Celebrar os 10 anos da enc\u00edclica <em>Laudato Si\u2019<\/em> \u00e9 uma data marcante na vida da Igreja e na forma como esta contribui para a crise ecol\u00f3gica, a qual \u00e9 tamb\u00e9m uma crise social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste contexto desta enc\u00edclica, compreendemos como o entendimento de voca\u00e7\u00e3o foi aceite na sua transforma\u00e7\u00e3o mais secularizante e menos indicativa de um chamamento religioso de consagra\u00e7\u00e3o. Ali\u00e1s, tal parece ser o esp\u00edrito b\u00edblico do lugar da humanidade no plano original de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 precisamente este o uso de voca\u00e7\u00e3o que ocorre na <em>Laudato Si\u2019<\/em> e que nos leva a refletir sobre o mandato divino de sermos cuidadores da cria\u00e7\u00e3o, independentemente do credo professado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta voca\u00e7\u00e3o estende-se igualmente ao valor do trabalho \u2014 aspeto de singular import\u00e2ncia, dada a nossa an\u00e1lise de <em>Beruf<\/em> \u2014 sendo que Francisco sustenta esta afirma\u00e7\u00e3o no relato das Origens e n\u00e3o na Primeira Carta aos Cor\u00edntios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todavia, o exerc\u00edcio do trabalho e da produ\u00e7\u00e3o est\u00e1 intimamente ligado aos padr\u00f5es de consumo, os quais tendem, na sociedade atual, n\u00e3o s\u00f3 a massificar e eliminar os sectores mais pequenos, mas tamb\u00e9m a substituir o trabalho humano por automa\u00e7\u00e3o \u2014 algo que Francisco rejeita, por privar as pessoas de viverem a sua voca\u00e7\u00e3o ao trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste sentido, faz parte da voca\u00e7\u00e3o empresarial \u2014 considerada nobre atividade \u2014 promover a sustentabilidade e a voca\u00e7\u00e3o humana ao trabalho, sem se deixar enredar por crit\u00e9rios de lucro absoluto, aspeto que atenta contra a dignidade humana e que podemos interpretar implicitamente como uma rejei\u00e7\u00e3o absoluta de uma voca\u00e7\u00e3o humana centrada no lucro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim, partindo da <em>Laudato Si\u2019<\/em>, podemos descrever a voca\u00e7\u00e3o ao cuidado como uma resposta de gratid\u00e3o a Deus, a ser cultivada numa espiritualidade salutar e integrante de uma vida virtuosa \u2014 aspeto que, a nosso ver, constitui uma oportunidade de di\u00e1logo e de an\u00fancio evang\u00e9lico para a Igreja, por tocar uma realidade comum \u00e0 humanidade, abrindo portas para uma maior fraternidade e amor social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como tal, vemos, nesta enc\u00edclica, o Papa Francisco a associar o cuidado da cria\u00e7\u00e3o a uma voca\u00e7\u00e3o, a qual se alimenta de uma espiritualidade pr\u00f3pria, com implica\u00e7\u00f5es seculares, tanto nas rela\u00e7\u00f5es fundamentais como na atividade humana sobre a cria\u00e7\u00e3o. E esta \u00e9 a heran\u00e7a que fica assumida na enc\u00edclica, que agora celebra os 10 anos da sua publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Cf. Jaime Tatay Nieto, \u00abDe la cuesti\u00f3n social\u00bb a la \u00abcuesti\u00f3n s\u00f3cio-ambiental\u00bb em Enrique Sanz Gim\u00e9nez-Rico, <em>Cuidar de la Tierra, cuidar de los pobres: Laudato si\u2019 desde la teolog\u00eda y con la ciencia<\/em> (Santander: Sal Terrae, 2015), 181-184.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Cf. Christiane Frey, \u00ab\u039a\u03bb\u03b7\u0303\u03c3\u03b9\u03c2\/Beruf: Luther, Weber, Agamben\u00bb, <em>New German Critique<\/em> 35, n. 3 (2008): 35, https:\/\/doi.org\/10.1215\/0094033X-2008-012.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Cf. A. Ferraz, \u00abVoca\u00e7\u00e3o\u00bb em <em>Enciclop\u00e9dia Luso-Brasileira da Cultura<\/em>. Vol. 18 (Lisboa: Verbo, 1977), 1363.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Cf. Jacques Guillet, \u00abVoca\u00e7\u00e3o\u00bb, em Vocabul\u00e1rio de Teologia B\u00edblica, ed. X. L\u00e9on-Dufour <em>et al.<\/em>, (Petropolis, RJ: Vozes, 1972), 1099-100.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> Cf. Tullio Citrini, \u00abVoca\u00e7\u00e3o (Teologia da)\u00bb, em <em>Dicion\u00e1rio de Orienta\u00e7\u00e3o Vocacional<\/em>, trad. por Ant\u00f3nio Rocha e Porf\u00edrio Pinto, (Prior Velho: Paulinas, 2008), 1446.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> cf. James R. Peters, \u00abSaint Augustine, Patron Saint of the Environment\u00bb em John Doody, Paffenroth, e Smillie, <em>Augustine and the environment<\/em>, 128.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> Cf. Jacques Guillet, \u00abVoca\u00e7\u00e3o\u00bb, 1101-2.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> Frey, \u00ab\u039a\u03bb\u03b7\u0303\u03c3\u03b9\u03c3\/Beruf\u00bb, 38.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> Cf. Max Weber, <em>A \u00e9tica protestante e o esp\u00edrito do capitalismo<\/em>, trad. Ana Falc\u00e3o Bastos e Lu\u00eds Leit\u00e3o (Barcarena: Principia, 2001), 64-65.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\"><sup>[10]<\/sup><\/a> Cf. Frey, \u00ab\u039a\u03bb\u03b7\u0303\u03c3\u03b9\u03c3\/Beruf\u00bb, 43.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\"><sup>[11]<\/sup><\/a> Cf. Tullio Citrini, \u00abVoca\u00e7\u00e3o (Teologia da), 1450.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\"><sup>[12]<\/sup><\/a> Cf. Jeffrey Scholes, \u00abVocation: Vocation\u00bb, <em>Religion Compass<\/em> 4, n. 4 (abril de 2010): 212, https:\/\/doi.org\/10.1111\/j.1749-8171.2010.00215.x.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\"><sup>[13]<\/sup><\/a> Cf. Weber, <em>A \u00e9tica protestante e o esp\u00edrito do capitalismo<\/em>, 61.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\"><sup>[14]<\/sup><\/a> Cf. Weber, <em>A \u00e9tica protestante e o esp\u00edrito do capitalismo<\/em>, 61-66. Scholes, \u00abVocation\u00bb, 212-3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\"><sup>[15]<\/sup><\/a> Cf. Weber, <em>A \u00e9tica protestante e o esp\u00edrito do capitalismo<\/em>, 49. Ainda assim, Weber, que escreve esta obra no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, reconhece que a cultura predominante n\u00e3o reconhecia que a liga\u00e7\u00e3o destas atitudes fosse com o protestantismo, mas com o iluminismo (Cf. Weber, <em>A \u00e9tica protestantes e o esp\u00edrito do capitalismo<\/em>, 55).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\"><sup>[16]<\/sup><\/a> Cf. Weber, <em>A \u00e9tica protestante e o esp\u00edrito do capitalismo<\/em>, 153.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\"><sup>[17]<\/sup><\/a> Weber, <em>A \u00e9tica protestante e o esp\u00edrito do capitalismo<\/em>, 155.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\"><sup>[18]<\/sup><\/a> Weber, <em>A \u00e9tica protestante e o esp\u00edrito do capitalismo<\/em>, 156<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\"><sup>[19]<\/sup><\/a> Jens Borchert, ao estudar a tradu\u00e7\u00e3o norte-americana desta obra de Weber aponta precisamente a renit\u00eancia dos seus tradutores, em traduzir <em>Beruf<\/em> por <em>vocation<\/em>, algo que acabou por suceder, tendo sido muito equacionado que esta fosse traduzida por <em>profession<\/em>, sinal de que este termo alem\u00e3o tinha sido muito desvalorizado conceptualmente, indicando o desligar do trabalho e voca\u00e7\u00e3o. Cf. Jens Borchert, \u00abFrom Politik Als Beruf to Politics as a Vocation\u00bb, <em>Contributions to the History of Concepts<\/em> 3, n. 1 (1 de abril de 2007): 52, https:\/\/doi.org\/10.1163\/180793207X209075.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\"><sup>[20]<\/sup><\/a> Jo\u00e3o Paulo II, <em>Paz com Deus Criador, Paz com toda a cria\u00e7\u00e3o<\/em>, 6,\u00a0 <a href=\"https:\/\/www.katholisch.at\/aktuelles\/2017\/01\/09\/botschaft-zum-weltfriedenstag-1990\">https:\/\/www.katholisch.at\/aktuelles\/2017\/01\/09\/botschaft-zum-weltfriedenstag-1990<\/a>, acedido em 22 de Junho de 2022<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref21\" name=\"_ftn21\"><sup>[21]<\/sup><\/a> Cf. Rosi Braidotti, <em>Lo posthumano<\/em>, trad. Juan Vitale (Barcelona: Gedisa, 2015), 71-72.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref22\" name=\"_ftn22\"><sup>[22]<\/sup><\/a> Na procura da raiz da crise ecol\u00f3gica \u00e9 de destacar a interven\u00e7\u00e3o de Bento XVI, que num encontro com o clero de Bolzano-Bressanone, em 2008, reconhecia que na hist\u00f3ria da Teologia, nem sempre se teve suficientemente em conta a teologia da cria\u00e7\u00e3o, algo que pode ter contribu\u00eddo para a crise ecol\u00f3gica (cf. Bento XVI, <em>Encontro com o clero de Bolzano-Bressanone<\/em>, 2008).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref23\" name=\"_ftn23\"><sup>[23]<\/sup><\/a> Cf. Weber, <em>A \u00e9tica protestante e o esp\u00edrito do capitalismo<\/em>, 46-53.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"padding-left: 240px; text-align: justify;\">* Jo\u00e3o Santos nasceu em Canedo, Santa Maria da Feira, 1981. Padre da Diocese de Aveiro. Em 1999, ingressou em Engenharia do Ambiente na Universidade de Aveiro, tendo conclu\u00eddo os estudos de licenciatura em Engenharia do Ambiente em 2004. Ap\u00f3s algumas experi\u00eancias profissionais, foi Bolseiro de Inicia\u00e7\u00e3o \u00e0 Investiga\u00e7\u00e3o em Aveiro e em Viseu, desde 2006, na \u00e1rea da sa\u00fade e do ambiente, tendo terminado o Mestrado em Engenharia do Ambiente pela Universidade de Aveiro em 2007, ano em que entrou para o Semin\u00e1rio. Em 2014, concluiu o Mestrado em Teologia. Em Julho de 2015, foi ordenado padre, tendo estado, desde ent\u00e3o, ao servi\u00e7o no Semin\u00e1rio de Aveiro, onde atualmente \u00e9 o Reitor. \u00c9, desde setembro de 2024, P\u00e1roco da Branca e da Ribeira de Fr\u00e1guas, no arciprestado de Albergaria-a-Velha.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"padding-left: 240px; text-align: right;\">Imagem de <a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/gdj-1086657\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2789601\">Gordon Johnson<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2789601\">Pixabay<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Casa comum |<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":19490,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[155,154],"tags":[],"class_list":["post-19486","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-casa-comum-por-uma-ecologia-integral","category-pe-joao-santos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19486","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19486"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19486\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19491,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19486\/revisions\/19491"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19490"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19486"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19486"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19486"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}