{"id":19428,"date":"2025-06-11T11:37:18","date_gmt":"2025-06-11T10:37:18","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=19428"},"modified":"2025-06-11T11:37:35","modified_gmt":"2025-06-11T10:37:35","slug":"tiago-ramalho-em-dias-de-guerra-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-em-dias-de-guerra-ii\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | Em dias de guerra (II)"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right; padding-left: 440px;\"><em><strong>Directo ao contradit\u00f3rio<\/strong><\/em> | Uma rubrica dedicada \u00e0 reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre as certezas de sociedade tidas como insofism\u00e1veis<\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perante um conflito como o que neste momento se assinala em Gaza, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil, a um crist\u00e3o, decidir-se por que lado tomar partido: h\u00e1-de tomar o lado das pessoas atingidas pelo conflito, o lado da paz. Decis\u00e3o nada f\u00e1cil, por\u00e9m, pois as pessoas n\u00e3o s\u00e3o <em>tabulae rasae, <\/em>mas apresentam-se com as suas bandeiras, ou sob bandeiras, ou contra bandeiras. Pode estar-se com a pessoa e n\u00e3o com a causa que diz sua? Ou recusar receber a causa \u00e9 j\u00e1 trair a pessoa? Ou deve jurar-se fidelidade \u00e0 causa mesmo em sacrif\u00edcio da pessoa?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 c\u00f3moda, n\u00e3o \u00e9 confort\u00e1vel, a posi\u00e7\u00e3o que um crist\u00e3o \u00e9 chamado a assumir neste estado de coisas. \u00abEnvio-vos como ovelhas para o meio dos lobos; sede, pois, prudentes como as serpentes e simples como as pombas\u00bb (<em>Mt <\/em>10, 16). Por um lado, a prud\u00eancia reclamar\u00e1 que se observe a realidade com os olhos bem abertos, medindo e sopesando, julgando e discernindo. Exigir\u00e1 tamb\u00e9m que se conserve certa suspeita em rela\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3prio ju\u00edzo, recusando sacrificar a complexidade da realidade ao crudel\u00edssimo altar da simplicidade da ideia. Mas, por outro, h\u00e1-de o crist\u00e3o manter-se manso, decidindo-se por esse sinal de contradi\u00e7\u00e3o de uma vida de paz mesmo num mundo inflamado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas quem arrisca esta radicalidade? \u00abIde! Envio-vos como cordeiros para o meio de lobos. N\u00e3o leveis bolsa, nem alforge, nem sand\u00e1lias (\u2026)\u00bb (<em>Lc <\/em>10, 3-4a). D\u00e1-se uma dist\u00e2ncia entre a condi\u00e7\u00e3o actual \u2013 n\u00e3o s\u00f3, mas tamb\u00e9m, com viol\u00eancia, com rivalidades, com inseguran\u00e7as \u2013 e a plena realiza\u00e7\u00e3o de uma escatologia de paz, dist\u00e2ncia que s\u00f3 a muito custo pode ser estreitada. E por isso se erigem estruturas temporais, que condescendem no exerc\u00edcio daquilo \u2013 o poder, a viol\u00eancia \u2013 que na plenitude da paz messi\u00e2nica ser\u00e1 superado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1-de o crist\u00e3o exercer a virtude que lhe vem da f\u00e9 para justificar as op\u00e7\u00f5es que se hajam de tomar neste tempo interm\u00e9dio? H\u00e1-de substituir a confian\u00e7a na escatologia da paz em favor de uma novel teologia pol\u00edtica, ressacralizando o poder que na f\u00e9 fora denunciado como simples produto do s\u00e9culo? A tenta\u00e7\u00e3o \u2013 a de colocar a f\u00e9 ao servi\u00e7o de realidades meramente pen\u00faltimas \u2013 est\u00e1 \u00e0 porta. Tenta\u00e7\u00e3o em que, ali\u00e1s, a Igreja j\u00e1 caiu por demasiadas vezes nos seus dois mil anos de peregrina\u00e7\u00e3o \u2013 e uma s\u00f3 vez j\u00e1 seria muito. Por mais piedosas que sejam as inten\u00e7\u00f5es, ao Evangelho n\u00e3o interessa ser mais uma bandeira ao servi\u00e7o dos que se digladiam violentamente entre si: o Evangelho apenas combate com as for\u00e7as do Evangelho, pois quaisquer outras, mesmo que em seu nome, mesmo que com aparente sucesso, s\u00e3o j\u00e1 a sua pervers\u00e3o. <em>Corruptio optimi quae est pessima.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Olha-se para o conflito de Gaza e n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas: \u00e9 do lado das pessoas que se h\u00e1-de estar. Mas o que implica semelhante posi\u00e7\u00e3o? E se estar com as pessoas, e se estar pela paz, significar o fim da ocupa\u00e7\u00e3o de Gaza? E se, pelo contr\u00e1rio, significar o fim da Palestina enquanto unidade pol\u00edtica? Dir\u00e3o muitos: tal hip\u00f3tese (a primeira ou a segunda: que importa!) \u00e9 intoler\u00e1vel. Mas n\u00e3o equivale essa recusa da hip\u00f3tese \u00e0 confiss\u00e3o de que a fidelidade fundamental est\u00e1 a ser dada a ideias, e n\u00e3o a pessoas?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estou bem longe de saber qual a melhor sa\u00edda para o conflito de Gaza. \u00c9 muita a dist\u00e2ncia geogr\u00e1fica, religiosa, vivencial. N\u00e3o sei o que \u00e9 ter fome. Ou viver em vigil\u00e2ncia e humilha\u00e7\u00e3o cont\u00ednuas. Ou sentir-se sob cerco. N\u00e3o sei o que \u00e9 \u2013 ao contr\u00e1rio das raposas, que t\u00eam tocas, e das aves do c\u00e9u, que t\u00eam ninhos \u2013 n\u00e3o ter onde reclinar a cabe\u00e7a. Tamb\u00e9m n\u00e3o sei o que \u00e9 sentir-se profundamente odiado apenas por causa da m\u00e3e de que se nasceu. Estou por isso distante de Gaza, muito distante. Mas vejo de perto muitos outros que, t\u00e3o distantes de Gaza como eu, contudo n\u00e3o hesitam em n\u00e3o perdoar a um Estado, apenas a um s\u00f3 Estado, muitas das precisas pr\u00e1ticas que consentem, defendem, exigem at\u00e9, que qualquer outro respeit\u00e1vel Estado do mundo adopte. Vem-me uma certa n\u00e1usea ao reconhecer um cap\u00edtulo mais de uma hist\u00f3ria que se prolonga por demasiado tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E algures aqui no meio se descobre uma pequena e sofrida comunidade crist\u00e3, a de Gaza, fr\u00e1gil minoria entre gigantes contendores. De quando em vez temos dela not\u00edcia: vive padecendo todas as dores dos que s\u00e3o esmagados pelos grandes senhores da hist\u00f3ria; mas mant\u00e9m-se de p\u00e9, com mansid\u00e3o e paci\u00eancia, aben\u00e7oando e santificando. \u00c0 sua cabe\u00e7a encontra-se um prelado que, com aquela desconcertante loucura de S\u00e3o Francisco que se fez irm\u00e3o de todos, chegou j\u00e1 a disponibilizar a sua vida para resgate de outros. Era para esta comunidade que um outro Francisco, agora da cadeira de S\u00e3o Pedro, ligava todos os dias em sinal de reconfortante presen\u00e7a paterna e de fraternidade partilhada. Ligava ao cair do dia, na hora em que o Sol declina e em que a noite se aproxima: a hora de V\u00e9speras em que, como incenso, sobe esse agradecido e esperan\u00e7oso <em>Magnificat <\/em>que glorifica Aquele que dispersa os soberbos, que derruba os poderosos dos seus tronos e exalta os humildes, que aos famintos enche de bens, que aos ricos despede de m\u00e3os vazias.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Foto recolhida da Funda\u00e7\u00e3o Ajuda \u00e0 Igreja que Sofre<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Directo ao contradit\u00f3rio<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":19429,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[157,144],"tags":[],"class_list":["post-19428","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-direto-ao-contraditorio","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19428","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19428"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19428\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19433,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19428\/revisions\/19433"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19429"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19428"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19428"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19428"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}