{"id":19395,"date":"2025-06-04T00:46:27","date_gmt":"2025-06-03T23:46:27","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=19395"},"modified":"2025-06-04T00:49:53","modified_gmt":"2025-06-03T23:49:53","slug":"luis-manuel-p-silva-os-muitos-trabalhos-de-leao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/luis-manuel-p-silva-os-muitos-trabalhos-de-leao\/","title":{"rendered":"Lu\u00eds Manuel P. Silva | Os muitos trabalhos de Le\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: center;\">Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta reflex\u00e3o n\u00e3o pretende ser um ponto de chegada. Ser\u00e1, antes, pela inten\u00e7\u00e3o com que a realizei, um ponto de partida para muitas outras reflex\u00f5es que os leitores queiram prosseguir, tomando por refer\u00eancia, eventualmente, o que aqui fa\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este texto nasce de uma constata\u00e7\u00e3o pessoal. Quando me foi enviada a not\u00edcia de que estava eleito um novo Papa e que j\u00e1 escolhera, para nome, Le\u00e3o, logo comentei, quando me perguntaram \u2018porqu\u00ea Le\u00e3o XIV?\u2019, o que vim a verter <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/luis-manuel-pereira-da-silva-o-sinal-que-leao-nos-da\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">para texto<\/a>: \u2018Um Papa da Doutrina Social da Igreja, na linha de Le\u00e3o XIII\u2019, \u2018Papa atento ao mundo e aos problemas dos oper\u00e1rios\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As posteriores explica\u00e7\u00f5es de Le\u00e3o XIV confirmaram esta imediata intui\u00e7\u00e3o, acrescentando-lhe a nota de que estar\u00e1 atento \u00e0 nova \u2018revolu\u00e7\u00e3o em curso\u2019, a revolu\u00e7\u00e3o provocada pela intelig\u00eancia artificial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando, depois desta intui\u00e7\u00e3o que pouco tem de surpreendente para quem conhece um pouco da hist\u00f3ria mais recente da Doutrina Social da Igreja, me propus interrogar a Hist\u00f3ria para saber mais sobre os outros Papas que tinham escolhido o nome de \u2018Le\u00e3o\u2019, \u00e0 constata\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o de \u2018Magno\u2019 de Le\u00e3o, que partilha o t\u00edtulo com apenas um outro Papa, S. Greg\u00f3rio, o Magno (3 de setembro de 590 a 12 de mar\u00e7o de 604), somei a verifica\u00e7\u00e3o de que os pontificados de alguns dos anteriores 13 Le\u00f5es tinham estado associados a momentos marcantes da hist\u00f3ria da Igreja com significativas repercuss\u00f5es, ainda hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Propus-me, ent\u00e3o, realizar esta breve procura que destaca alguns \u2018sinais\u2019 (positivos e, nesse caso, a prosseguir; ou, ent\u00e3o, \u2018sombrios\u2019 e, nesse caso, a superar) que nos deixam os anteriores pontificados leoninos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para tal, segui quatro fontes: (a) Michael Walsh, <em>Dicion\u00e1rio de Papas<\/em><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, (b) Manuel Santos J\u00fanior, <em>Os Pont\u00edfices<\/em><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> e (c) Heitor Morais da Silva, <em>Hist\u00f3ria dos Papas: luzes e sombras<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><strong>[3]<\/strong><\/a><\/em>, confirmando, por fim, os dados em (d) <a href=\"http:\/\/www.vatican.va\">www.vatican.va<\/a>. Refiro estes dados em primeiro lugar*.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No segundo conjunto de informa\u00e7\u00f5es, a cidade indica o local de nascimento, as datas referem-se ao per\u00edodo do pontificado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s uma breve s\u00edntese dos dados mais objetivos, farei a reflex\u00e3o \u2018significativa\u2019, sublinhando o que considero serem os mais reptos que, da \u00e9poca que a nossa analepse revisita, emergem para os nossos tempos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a01- Breves informa\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tr\u00eas constata\u00e7\u00f5es iniciais:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Dos 13 Papas que, at\u00e9 Le\u00e3o XIV, tinham escolhido o nome de Le\u00e3o, apenas um, Le\u00e3o IX, n\u00e3o tem origem na pen\u00ednsula it\u00e1lica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Cinco de entre os Papas de nome \u2018Le\u00e3o\u2019 foram canonizados: Le\u00e3o I, o Magno, Le\u00e3o II, Le\u00e3o III, Le\u00e3o IV e Le\u00e3o IX.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Um dos Papas de nome Le\u00e3o, Le\u00e3o VIII, era leigo e teve de ser ordenado para poder assumir a miss\u00e3o de Papa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-19397\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/45_s_leone_I.png\" alt=\"\" width=\"126\" height=\"120\" \/>S. Le\u00e3o I Magno<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[*45.\u00ba Papa] [Nasceu em Tuscia | Pontificado: 29 de setembro de 440 a 10 de novembro de 461]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0(Roma [Manuel J\u00fanior refere Volterra]| 440-461 | 19 de setembro de 440 a 10 de novembro de 461 | 21 anos de pontificado) Segundo Manuel J\u00fanior, tipifica o modelo de sumo pont\u00edfice, sendo tomado como exemplo, nos s\u00e9culos posteriores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-19398\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/80_s_leone_II.png\" alt=\"\" width=\"126\" height=\"120\" \/><\/strong><\/p>\n<p><strong>S. Le\u00e3o II<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[*80.\u00ba Papa] [Nasceu na Sic\u00edlia | Pontificado: janeiro de 681; 17 de agosto de 682 a 3 de julho de 683]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(Sic\u00edlia | 682-683 | 17 de agosto de 682 a 3 de julho de 683 |11 meses de pontificado) Segundo Manuel J\u00fanior, introduziu a \u00e1gua benta nos ritos lit\u00fargicos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-19399\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/96_s_leone_III.png\" alt=\"\" width=\"126\" height=\"120\" \/>S. Le\u00e3o III<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[*96.\u00ba Papa] [Nasceu em Roma | Pontificado: 26\/27 de dezembro de 795 a 12 de junho de 816]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(Roma | 795-816 | 26 de dezembro de 795 a 12 de junho de 816 [Segundo Morais Silva, morreu a 11 de junho de 816] | 21 anos de pontificado)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-19400\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/103_s_leone_IV.png\" alt=\"\" width=\"126\" height=\"120\" \/>S. Le\u00e3o IV<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[*103.\u00ba Papa] [Nasceu em Roma | Pontificado: 10 de maio de 847 a 17 de julho de 855]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(Roma | 847-855 | 10 de abril de 847 a 17 de julho de 855 | 8 anos de pontificado) \u2013 Segundo Manuel J\u00fanior, foi o primeiro a escrever o ano do seu pontificado nos documentos; refere, ainda, que edificou a \u2018cidade leonina\u2019, uma fortifica\u00e7\u00e3o em redor do Vaticano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-19401\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/118_leone_V.png\" alt=\"\" width=\"126\" height=\"120\" \/>Le\u00e3o V<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[*118.\u00ba Papa] [Nasceu em Ardea, sul de Roma | Pontificado: Julho de 903 a setembro de 903]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(Ardea [Sul de Roma?] Agosto e Setembro de 903 [deposto por Crist\u00f3foro (b)\/Crist\u00f3v\u00e3o (a)] | morreu em 904 | Segundo Walsh, o seu pontificado durou cerca de um m\u00eas; Morais da Silva fala em tr\u00eas meses.)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-19402\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/123_leone_VI.png\" alt=\"\" width=\"126\" height=\"120\" \/>Le\u00e3o VI<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[*123.\u00ba Papa] [Nasceu em Roma | Pontificado: Maio\/junho de 928 a dezembro de 928 ou janeiro de 929]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(Roma | junho de 928 a janeiro de 929; Manuel J\u00fanior s\u00f3 refere 928, o que parece confirmar-se com a informa\u00e7\u00e3o recolhida de Morais da Silva que refere que morreu em dezembro de 928 | 7 meses de pontificado)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-19403\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/126_leone_VII.png\" alt=\"\" width=\"126\" height=\"120\" \/>Le\u00e3o VII<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[*126.\u00ba Papa] [Nasceu em Roma | Pontificado: janeiro de 926 a 13 de julho de 939]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(Roma | 3 de janeiro de 936 a 13 de julho de 939 | 3 anos de pontificado)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-19404\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/131_leone_VIII.png\" alt=\"\" width=\"126\" height=\"120\" \/>Le\u00e3o VIII<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[*131.\u00ba Papa] [Nasceu em Roma | Pontificado: 4\/6 de dezembro de 963 a mar\u00e7o de 965]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(Roma |4 de dezembro de 963 a fevereiro de 964 [deposto] | morreu a 1 de mar\u00e7o de 965 \/ Manuel J\u00fanior refere \u2018963-965\u2019 | cerca de dois meses de pontificado, entre Jo\u00e3o XII, que fora eleito com apenas 18 anos, e Bento V, aclamado pelo povo contra a vontade do imperador Ot\u00e3o I). Segundo Morais da Silva, era leigo, tendo recebido, no mesmo dia, os diversos graus da ordem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-19405\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/152_s_leone_IX.png\" alt=\"\" width=\"126\" height=\"120\" \/>S. Le\u00e3o IX<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[*152.\u00ba Papa] [Nasceu na Als\u00e1cia | Pontificado: 2\/12 de fevereiro de 1049 a 19 de abril de 1054: Nome de nascimento: Brunone dos Condes de Egisheim]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(Egisheim [Als\u00e1cia] | 2 de fevereiro de 1049 a 19 de abril de 1054 | 5 anos de pontificado)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-19406\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/217_leone_X.png\" alt=\"\" width=\"126\" height=\"120\" \/>Le\u00e3o X<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[*217.\u00ba Papa] [Nasceu em Floren\u00e7a | Pontificado: 11\/19 de mar\u00e7o de 1513 a 1 de dezembro de 1521: Nome de nascimento: Giovanni de&#8217; Medici]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(Floren\u00e7a | 11 de mar\u00e7o de 1513 a 1 dezembro de 1521 | 8 anos de pontificado)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-19407\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/232_leone_XI.png\" alt=\"\" width=\"126\" height=\"120\" \/><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Le\u00e3o XI<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[*232.\u00ba Papa] [Nasceu em Floren\u00e7a | Pontificado: 1\/10 de abril de 1605 a 27 de abril de 1605: Nome de nascimento: Alessandro de&#8217; Medici]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(Floren\u00e7a | 1 de abril de 1605 a 27 de abril de 1605 | morreu por queda de um cavalo; 27 dias de pontificado)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-19410\" style=\"text-align: justify;\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/252_leone_XII-2.png\" alt=\"\" width=\"126\" height=\"120\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Le\u00e3o XII<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[*252.\u00ba Papa] [Nasceu em Monticelli di Genga (Fabriano) | Pontificado: 28 de setembro\u00a0\/ 5 de outubro de 1823 a 10 de fevereiro de 1829: Nome de nascimento: Annibale della Genga]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(Castello della Genga [perto de Spoleto] | 28 de setembro de 1823 a 10 de fevereiro de 1829 | cerca de 6 anos de pontificado)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-19411\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/256_leone_XIII.png\" alt=\"\" width=\"126\" height=\"120\" \/>Le\u00e3o XIII<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[*256.\u00ba Papa] [Nasceu em Carpineto Romano| Pontificado: 20 de fevereiro\/3 de mar\u00e7o de 1878 a 20 de julho de 1903: Nome de nascimento: Vincenzo Gioacchino Pecci]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(Carpineto Romano | 20 de fevereiro de 1878 a 20 de julho de 1903; Morais da Silva refere 20 de junho| 25 anos de pontificado)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2 &#8211; \u2018Brilhos e trevas\u2019 \u2013 os herc\u00faleos trabalhos de \u2018Le\u00e3o\u2019<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(Uma nota pr\u00e9via: evoco a figura m\u00edtica de H\u00e9rcules, transfigurando o mito, que descreve, entre as doze miss\u00f5es (ou trabalhos) de H\u00e9rcules, precisamente vencer um le\u00e3o. Aqui, ser\u00e1 Le\u00e3o o protagonista e vencedor\u2026)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2.1. \u2013 A luta contra os \u2018\u00c1tilas\u2019 e os desafios ecum\u00e9nicos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A reflex\u00e3o a que, agora, me proponho, nasceu da constata\u00e7\u00e3o de que, aos pontificados de Papas de nome Le\u00e3o, a Hist\u00f3ria permite-nos associar momentos particularmente significativos para os nossos tempos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre estes, destaco, de imediato, tr\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para a relev\u00e2ncia do primeiro, evoco a circunst\u00e2ncia de vivermos tempos com marcas de beliger\u00e2ncia e animosidade (latente e patente: o mundo vive situa\u00e7\u00f5es de conflito armado em mais de 40 pontos do planeta). Mediaticamente, tem merecido particular destaque o conflito na Ucr\u00e2nia, resultante de uma invas\u00e3o de territ\u00f3rio soberano por um vizinho gigante. A situa\u00e7\u00e3o pode ser iluminada pelo ocorrido no tempo do pontificado de Le\u00e3o I, Magno, que, segundo a lenda, ter\u00e1 conseguido travar os avan\u00e7os, em 452, sobre Roma do sanguin\u00e1rio \u00c1tila, \u2018o flagelo de Deus\u2019, \u00e0 frente dos Hunos. Ontem, como hoje, talvez Le\u00e3o possa fazer deste um legado vivo, travando as hordas que, de forma desumana, avassalam povos e gentes inocentes. Talvez hoje, como ontem, os novos \u2018\u00c1tilas\u2019 se deixem impressionar pela presen\u00e7a do Sumo Pont\u00edfice e recuem na sua decis\u00e3o de tomar terras alheias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os dois seguintes merecem destaque pela aten\u00e7\u00e3o que venho dedicando a mat\u00e9rias de natureza ecum\u00e9nica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 de hoje a minha convic\u00e7\u00e3o de que, se nos momentos de rutura, na Igreja, tivesse havido serenidade e abertura dispon\u00edvel para a escuta, talvez o desfecho tivesse sido distinto do que a Hist\u00f3ria veio a reservar-nos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre esses momentos, merecem um regresso da mem\u00f3ria os ocorridos em 1054 e 1517. No primeiro destes momentos, ocorre o cisma do Oriente, com que se consuma a separa\u00e7\u00e3o entre as Igrejas de confiss\u00e3o Ortodoxa e a Igreja Cat\u00f3lica. O encontro entre Miguel Cerul\u00e1rio e o Cardeal Humberto (mandatado pelo Papa Le\u00e3o IX) revela-se agreste e consuma-se uma rutura que vinha, bem certo, a ser preparada desde, dizem os analistas, a queda de Roma, em 476 (e, com ela, do Imp\u00e9rio Romano do Ocidente). O Papa era, como dito, Le\u00e3o IX que, por\u00e9m, morre sem saber do desfecho desse encontro. Talvez, se tivesse recebido a informa\u00e7\u00e3o, outra fosse a atua\u00e7\u00e3o. O seu temperamento conciliador faz crer que pudesse reverter o processo. Mas o que \u00e9 certo e fica para a Hist\u00f3ria \u00e9 a consuma\u00e7\u00e3o de uma rutura que, levantadas as excomunh\u00f5es rec\u00edprocas, em 1966, continua, por\u00e9m, a exigir caminho de encontro e di\u00e1logo. Talvez Le\u00e3o XIV olhe para este momento da Hist\u00f3ria e queira prosseguir, quem sabe se at\u00e9 uma unidade definitiva, o caminho ecum\u00e9nico que, desde a <em>Unitatis Redintegratio<\/em>, tem foros de determina\u00e7\u00e3o oficial conciliar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um outro Le\u00e3o, desta feita, j\u00e1 no s\u00e9culo XVI, e numerado como d\u00e9cimo, pontifica quando se opera a reforma protestante, em outubro de 1517, sob a lideran\u00e7a de um monge agostinho: Martinho Lutero. Curiosamente, como Le\u00e3o XIV que t\u00e3o bem conhece o pensamento do grande Bispo de Hipona que Lutero radicaliza\u2026 Mas seria necess\u00e1rio ter-se consumado uma rutura quando, s\u00e9culos volvidos, ambos (Cat\u00f3licos e Luteranos) reconhecemos que houve responsabilidades repartidas?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vale a pena, a este prop\u00f3sito, recuperar o que afirma, no Conc\u00edlio do Vaticano II, o decreto sobre o ecumenismo, \u2018Unitatis Redintegratio\u2019, n.\u00ba7: \u00abTamb\u00e9m das culpas contra a unidade, vale o testemunho de S. Jo\u00e3o: \u00abSe dissermos que n\u00e3o temos pecado, fazemo-lo mentiroso e a sua palavra n\u00e3o est\u00e1 em n\u00f3s\u00bb (1 Jo. 1,10). Por isso, pedimos humildemente perd\u00e3o a Deus e aos irm\u00e3os separados, assim como tamb\u00e9m n\u00f3s perdoamos \u00e0queles que nos ofenderam.\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De Le\u00e3o X a Le\u00e3o XIV, quanto caminho j\u00e1 se percorreu, seja no reconhecimento cat\u00f3lico do sacerd\u00f3cio comum dos fi\u00e9is ou da centralidade da Palavra de Deus ou, ainda, da legitimidade de se celebrar na l\u00edngua dos povos, assim como anterioridade e gratuitidade da salva\u00e7\u00e3o (nunca, por\u00e9m, posta em causa, efetivamente, pela teologia cat\u00f3lica), seja na constata\u00e7\u00e3o protestante da equivocidade na interpreta\u00e7\u00e3o das indulg\u00eancias como se estas tivessem sido um ato de simonia ou na verifica\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da convers\u00e3o operada no exerc\u00edcio da miss\u00e3o pontif\u00edcia! Mas o caminho ainda \u00e9 longo e exigentemente dif\u00edcil, mas n\u00e3o poder\u00e1 parar-se, pois a divis\u00e3o entre os irm\u00e3os crist\u00e3os constitui-se como contratestemunho, nestes tempos t\u00e3o suscet\u00edveis ao fechamento \u00e0 experi\u00eancia religiosa e, particularmente, \u00e0 crist\u00e3. A unidade a que apela a Unitatis Redintegratio, que n\u00e3o \u00e9 nem fus\u00e3o, nem falso irenismo, nem, tamb\u00e9m, redut\u00edvel a encontros marcados no calend\u00e1rio, deve ser um desiderato sempre presente e a Le\u00e3o XIV poder\u00e1 constituir-se como marca de um pont\u00edfice que, por provir da matriz agostiniana (t\u00e3o cara ao protestantismo), mais facilmente se dispor\u00e1 a caminhar com os se irmanam com ele nessa \u2018paternidade\u2019 comum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2.2. \u2013 Novos \u2018monofisismos e monotelismos\u2019<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a nossa leitura da hist\u00f3ria dos Papas de nome \u2018Le\u00e3o\u2019 permite-nos fazer outras verifica\u00e7\u00f5es e \u2018ilumina\u00e7\u00f5es\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Regressemos a Le\u00e3o Magno. Se, no s\u00e9culo anterior, o s\u00e9culo dos conc\u00edlios de Niceia e Constantinopla, enfrentaram o desafio do arianismo e, com ele, da redu\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo \u00e0 mera condi\u00e7\u00e3o humana, inferior a Deus, (quando muito, adotado por Deus, mas n\u00e3o da Sua natureza, como afirmavam os adocionistas), o s\u00e9culo V depara-se com um novo desafio, de sentido contr\u00e1rio. Eutiques, monge de Constantinopla, defende a redu\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo a uma s\u00f3 natureza, a divina, que funde em si a natureza humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Le\u00e3o Magno, perante este desafio, redige a \u2018Epistola Dogmatica\u2019 com que responde ao monofisismo de Eutiques, que, por\u00e9m, mobiliza o imperador no Oriente, para que convoque um s\u00ednodo, em \u00c9feso, que vem a ser rejeitado como heterodoxo, s\u00ednodo em que foi recusada a carta do Papa. Le\u00e3o Magno qualifica o \u2018s\u00ednodo como um latroc\u00ednio\u2019, criando-se um per\u00edodo de alguma tens\u00e3o entre Roma e Constantinopla (sublinhe-se que ainda estamos longe de 1054, data do cisma do Oriente). O imperador morre, abruptamente, e a irm\u00e3, Pulqu\u00e9ria, sucede-lhe, regressando \u00e0 fidelidade a Roma e sugere ao Papa a convoca\u00e7\u00e3o de um Conc\u00edlio que vem a concretizar-se em Calced\u00f3nia, em 451, onde fica sublinhada a dupla natureza (humana e divina) de Jesus Cristo, contra a tenta\u00e7\u00e3o monofisita de o reduzir (neste caso) \u00e0 natureza divina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O desafio monofisita \u00e9 revisitado e condenado, j\u00e1 no s\u00e9culo VII, por ocasi\u00e3o do Papa Le\u00e3o II, que sucede a S. Agat\u00e3o, em cujo pontificado ocorre o III conc\u00edlio de Constantinopla que condena o monotelismo. O monotelismo era uma esp\u00e9cie de tentativa de revisita\u00e7\u00e3o do que \u2018sobrara\u2019 do monofisismo: este fora condenado, mas os monotelitas defendiam que havendo duas naturezas em Jesus Cristo, s\u00f3 poderia haver uma vontade: a divina. Em Constantinopla, evidenciava-se que, a ser assim, a afirma\u00e7\u00e3o de que, na pessoa de Jesus Cristo, havia duas naturezas, ficava sem sustenta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o passava de afirma\u00e7\u00e3o vazia. O monotelismo sa\u00eda, assim, derrotado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ontem, como hoje, o p\u00eandulo da leitura cristol\u00f3gica ora pende para a exacerba\u00e7\u00e3o humana (reduzindo-o a um \u2018her\u00f3i\u2019 meramente humana), ora pende para a exacerba\u00e7\u00e3o divina (recusando, entre outras coisas, que tenha sofrido ou que, inclusive, tenha morrido, reduzindo a sua morte a uma apar\u00eancia de falecimento. Le\u00e3o XIV tem grandes desafios, nesta mat\u00e9ria. Um e outro movimento do p\u00eandulo s\u00e3o observ\u00e1veis, nestes tempos. Ent\u00e3o, como hoje, a sedu\u00e7\u00e3o de reduzir o que somos \u00e0 nossa \u2018alma\u2019, ao nosso \u2018pensamento\u2019, ao \u2018g\u00e9nero que constru\u00edmos na nossa mente, como se n\u00e3o nos pertencesse a condi\u00e7\u00e3o corp\u00f3rea\u2019 s\u00e3o outros \u2018monofisismos\u2019 com que Le\u00e3o ter\u00e1 de se defrontar\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2.3. Tamb\u00e9m as sombras falam da luz\u2026<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao pontificado de Le\u00e3o III podemos ir buscar duas notas de reflex\u00e3o muito oportunas<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. \u00c9 no tempo de Le\u00e3o III que \u00e9 coroado, em 25 de dezembro de 800, o imperador Carlos Magno. Muitos recordar\u00e3o deste momento a marca que se prolongar\u00e1, na hist\u00f3ria, com o sacro imp\u00e9rio romano-germ\u00e2nico: a de uma rela\u00e7\u00e3o, nem sempre f\u00e1cil e nem sempre equilibrada, entre o poder religioso e o poder pol\u00edtico. Os relatos registam, por\u00e9m, que Le\u00e3o III conseguiu um equil\u00edbrio de respeito e m\u00fatua compreens\u00e3o que nem sempre se manteve, ao longo da hist\u00f3ria. E, da parte do imperador, se \u00e9 certo que, em alguns momentos (como em 798, em que insta Le\u00e3o III a convocar um conc\u00edlio para condenar o adocionismo do bispo de Urgel) o imperador mostra querer exceder os seus limites e intrometer-se nos assuntos do \u00e2mbito eclesial, Le\u00e3o III revela capacidade de assegurar a independ\u00eancia da Igreja, assim como a legitima separa\u00e7\u00e3o do \u00e2mbito pol\u00edtico. A coopera\u00e7\u00e3o e respeito rec\u00edprocos s\u00e3o desafios oportunos, nestes tempos de, por um lado, \u2018laicismos\u2019 e \u2018indiferentismos\u2019 conflituais ou, por outro, de promiscuidades que desrespeitam a legitima\u00e7\u00e3o separa\u00e7\u00e3o desejada por Jesus, no seu \u2018dai a C\u00e9sar o que \u00e9 de C\u00e9sar e a Deus o que \u00e9 de Deus\u2019. Sinais interessantes e revisit\u00e1veis, permanentemente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do mesmo modo, merece aten\u00e7\u00e3o a segunda marca a destacar neste pontificado. Apesar de insistentemente, ter sido persuadido a incluir no credo a refer\u00eancia ao Filioque (o Espirito procede do Pai e do Filho), Le\u00e3o III resiste, n\u00e3o porque duvidasse da legitimidade em que tal ocorresse, mas para preservar a unidade com as igrejas orientais, para quem no credo se referia que \u2018o Esp\u00edrito Santo prov\u00e9m do Pai pelo Filho\u2019. Esta refer\u00eancia ser\u00e1 introduzida apenas dois s\u00e9culos depois, j\u00e1 na imin\u00eancia do cisma do Oriente, por Bento VIII. A prud\u00eancia \u2018ecum\u00e9nica\u2019 (avanta la lettre, bem certo; o cisma do oriente e a rutura com a Ortodoxia s\u00f3 ocorre em 1054) \u00e9 uma marca merecedora de replica\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do pontificado de Le\u00e3o IV, valer\u00e1 a pena destacar um momento particularmente significativo. Perante o perigo de invas\u00e3o de Roma pelos \u00e1rabes, Le\u00e3o IV manda edificar as muralhas a que se conferiu o nome que o homenageia &#8211; a cidade leonina -, cercada pelas muralhas conclu\u00eddas em 852, e inauguradas numa cerim\u00f3nia em que \u2018o Papa, bispos, clero e monges percorrem, descal\u00e7os, o circuito em prociss\u00e3o de penit\u00eancia\u2019<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. Os tempos eram outros. A defesa do cristianismo exigia muralhas. Hoje, a rela\u00e7\u00e3o \u00e9 feita de encontros e n\u00e3o de conflitos. Aos ent\u00e3o invasores, hoje deveremos considerar irm\u00e3os. E s\u00e3o-no, de facto. Irm\u00e3os pela f\u00e9 do mesmo patriarca, o pai Abra\u00e3o. Mas o caminho dever\u00e1 fazer-se nos dois sentidos: de irm\u00e3os para irm\u00e3os. Nos tempos de Le\u00e3o IV, na pen\u00ednsula Ib\u00e9rica, recrudesceram as condi\u00e7\u00f5es de vida para os crist\u00e3os. A convers\u00e3o for\u00e7ada fazia-se a troco da vida ou do decepar de m\u00e3os e p\u00e9s. Ainda hoje, no mundo, continuam a repetir-se esses modelos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do lado crist\u00e3o, a hist\u00f3ria est\u00e1 aprendida: a um irm\u00e3o n\u00e3o se lhe corta a m\u00e3o; n\u00e3o se lhe fere o cora\u00e7\u00e3o. Estende-se-lhe um abra\u00e7o! Poder\u00e3o cair as muralhas com que se teve de defender, outrora, a f\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desafios para um Le\u00e3o que j\u00e1 n\u00e3o se obrigue a proteger-se do medo e esconder-se sob a defesa de grossas muralhas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De Le\u00e3o V, VI, VII e VIII deveremos guardar uma mem\u00f3ria e um desejo: o s\u00e9culo em que pontificaram mostra-nos o que jamais deveremos repetir, na Igreja. Estes pontificados enquadram-se no chamado \u00abs\u00e9culo de ferro\u00bb da Igreja. Um per\u00edodo sombrio, marcado por lutas de poder. O caso de Le\u00e3o V \u00e9 particularmente ilustrativo deste retrato. Tem um pontificado curt\u00edssimo, e, ainda que sendo retratado como um homem piedoso, v\u00ea-se envolvido em lutas de poder em que sucumbe aos desmandos de um tal \u2018Crist\u00f3v\u00e3o\u2019 ou \u2018Crist\u00f3foro\u2019 (a grafia diverge, de acordo com as fontes), que pretende ocupar a c\u00e1tedra de Pedro, sucumbindo este mesmo \u00e0 a\u00e7\u00e3o de um outro pretendente. Tempos verdadeiramente escuros, a recordar, para que jamais os repitamos. Ter\u00e1 sido, em toda a hist\u00f3ria crist\u00e3, o s\u00e9culo mais manchado pela decad\u00eancia humana. Em cerca de um s\u00e9culo (entre 891 e 1003), pontificaram mais de 30 Papas, muitos deles por per\u00edodos extremamente curtos (de meses ou escassos anos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, como sempre, na hist\u00f3ria, os per\u00edodos de sombras s\u00e3o, tamb\u00e9m, per\u00edodos em que emergem luzeiros. Este \u00e9 o s\u00e9culo em que se prepara, no pontificado de Le\u00e3o V, a importante reforma de Cluny, que vem a ter um importante impulso no pontificado de Le\u00e3o VII.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 de um destes Papas a situa\u00e7\u00e3o rara de ser eleito um leigo que, para poder exercer a miss\u00e3o de Bispo de Roma, recebe as diversas ordens no mesmo dia, sendo a sua condi\u00e7\u00e3o de Papa leg\u00edtimo s\u00f3 verific\u00e1vel ap\u00f3s a morte do seu antecessor, Jo\u00e3o XII. Um per\u00edodo de grande desordem que nos cabe manter vivo, na nossa mente, para que, como fez S. Jo\u00e3o Paulo II, possamos fazer a \u2018purifica\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Revisitar este tempo deve ser motivo de regresso \u00e0 consci\u00eancia de existir um modo de ser Igreja que n\u00e3o queremos repetir: aquele em que ser \u2018ministro\u2019 n\u00e3o foi entendido como \u2018servi\u00e7o\u2019, mas como poder que se pretende possuir e manter sem limites. O verdadeiro poder da Igreja est\u00e1 em servir \u00e0 maneira do Seu Mestre. O s\u00e9culo de ferro esqueceu-o! Temos, por isso, de o lembrar. E lembr\u00e1-lo ser\u00e1 miss\u00e3o maior de um Papa Le\u00e3o que, no sombrio s\u00e9culo facilmente oxid\u00e1vel, pode encontrar, nos lampejos das reformas mon\u00e1sticas sinais maiores para um agir perante as sombras que, tamb\u00e9m, hoje, se abatem sobre a Igreja, na forma de \u2018abusos\u2019 ou de \u2018excessos\u2019\u2026 Ent\u00e3o, como hoje, cabe refontalizar, regressar \u00e0 Fonte, ao agir do Mestre humilde e servo, Aquele que primeiro desceu (kenoticamente) para nos elevar. Mas n\u00e3o h\u00e1 eleva\u00e7\u00e3o sem o reconhecimento da fragilidade e fraqueza\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De Le\u00e3o IX e X j\u00e1 abord\u00e1mos os principais desafios, em passo anterior, sendo que, de Le\u00e3o XI h\u00e1 a registar tratar-se de um pontificado de escassa dura\u00e7\u00e3o, interrompido que foi por fatal acidente equestre do Pont\u00edfice.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tomemos, por isso, em m\u00e3os, a an\u00e1lise de desafios que dimanam do pontificado de Le\u00e3o XII. Eleito como \u2018um Papa cuja caridade, vasta como o mundo, atra\u00edsse os mais afastados e tocasse os mais rebeldes e soubesse preservar, curar e conciliar\u2019<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>, revela-se muito atento aos desafios de ent\u00e3o, seja na forma de indiferentismo religiosa, materialismo, racionalismo e ocultismo, desafios que, ontem como hoje, pedem aten\u00e7\u00e3o e criatividade de resposta. Para tal, refor\u00e7ou a import\u00e2ncia da forma\u00e7\u00e3o do clero e denunciou a a\u00e7\u00e3o das sociedades secretas, o que lhe rendeu dissabores e oposi\u00e7\u00e3o e contribui para a leitura pouco favor\u00e1vel com que \u00e9 abordado o seu pontificado. A leitura atenta do seu pontificado dever\u00e1 reter a precis\u00e3o do diagn\u00f3stico, mas a inabilidade na resposta, exigindo-se, hoje, maior criatividade e originalidade, capaz de tornar eficaz a a\u00e7\u00e3o sem que a rudeza dos meios iniba a possibilidade do sucesso. Um desafio a que, em tempos de comunica\u00e7\u00e3o, se saiba ser eficaz n\u00e3o s\u00f3 nos objetivos, mas tamb\u00e9m nos meios a utilizar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para a leitura dos desafios decorrentes do Pontificado de Le\u00e3o XIII, remetemos para o nosso artigo <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/luis-manuel-pereira-da-silva-o-sinal-que-leao-nos-da\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00abo sinal de \u2018Le\u00e3o\u2019\u00bb<\/a>, sem que tal iniba de acrescentar, por\u00e9m, uma nota complementar. Le\u00e3o XIII percebe que deve escolher, na rela\u00e7\u00e3o com o mundo, um modo de atuar distinto do seu antecessor, Pio IX. Este escolhera a via da confronta\u00e7\u00e3o, de que o \u00abSyllabus\u00bb \u00e9 sinal particularmente ilustrativo. Le\u00e3o XIII opta pela via do di\u00e1logo e da diplomacia, de que s\u00e3o expressivas as melhoras nas rela\u00e7\u00f5es com diversas na\u00e7\u00f5es com quem estas se tinham degradado: Espanha, Reino Unido, Estados Unidos, Fran\u00e7a, pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, etc<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9, tamb\u00e9m, com Le\u00e3o XIII que ganha particular impulso o estudo da obra de S. Tom\u00e1s (come\u00e7a a organizar-se a edi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica das suas obras, o que ainda n\u00e3o est\u00e1 terminado) e a cria\u00e7\u00e3o de escolas e institutos para o seu estudo, e, em coer\u00eancia, a ado\u00e7\u00e3o de medidas para uma positiva rela\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia e religi\u00e3o, merecendo-lhe aten\u00e7\u00e3o a reorganiza\u00e7\u00e3o do observat\u00f3rio astron\u00f3mico do Vaticano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 um Papa atento aos desafios efetivos do mundo. Posiciona-se, em rela\u00e7\u00e3o ao laicismo, \u00e0 crise decorrente da revolu\u00e7\u00e3o industrial, \u00e0 escravatura, que repudia, \u00e0s respostas dadas perante os desafios sociais, demarcando-se de perspetivas coletivistas ou liberais. Os extremos n\u00e3o se lhe afiguram lugar de virtude\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9, n\u00e3o s\u00f3, certeiro nos diagn\u00f3sticos, mas eficaz nas respostas. Um Papa, cuja aten\u00e7\u00e3o aos desafios dos tempos se consubstancia em 86 enc\u00edclicas, 24 cartas apost\u00f3licas, 120 cartas, etc., evidenciando uma atitude diligente e preocupada que, s\u00f3 por si, se constitui como desafio \u2018leonino\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os tempos, de ontem e de hoje, pedem atitude humilde como cordeiro, mas firme como le\u00e3o\u2026<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Michael Walsh, <em>Dicion\u00e1rio de Papas<\/em>, Lisboa, Edi\u00e7\u00f5es 70, 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Manuel Evangelista dos Santos J\u00fanior, <em>Os Pont\u00edfices<\/em>, S\u00e3o Paulo, Edi\u00e7\u00f5es Loyola, 2001.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Heitor Morais da Silva, S.J., <em>Hist\u00f3ria dos Papas: luzes e sombras<\/em>, Braga, Editorial A.O., 1991.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Cfr. Heitor Morais da Silva, <em>Hist\u00f3ria dos Papas: luzes e sombras<\/em>, pp. 112-114.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Ibidem, p. 120.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Segundo Heitor Morais da Silva, <em>Hist\u00f3ria dos Papas: luzes e sombras<\/em>, p. 313.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Cfr., Ibidem, p. 325.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;, &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Foto: Por Edgar Beltr\u00e1n, The Pillar, CC BY-SA 4.0, <a href=\"https:\/\/commons.wikimedia.org\/w\/index.php?curid=165193103\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/commons.wikimedia.org\/w\/index.php?curid=165193103<\/a><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">As imagens dos Papas s\u00e3o recolhidas de <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/vatican\/pt\/holy-father.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.vatican.va\/content\/vatican\/pt\/holy-father.html<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lu\u00eds Manuel Pereira<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":19396,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[225,55],"tags":[],"class_list":["post-19395","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-desafios-de-leao","category-luis-manuel-pereira-da-silva"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19395","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19395"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19395\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19416,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19395\/revisions\/19416"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19396"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19395"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19395"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19395"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}