{"id":19324,"date":"2025-05-11T16:14:26","date_gmt":"2025-05-11T15:14:26","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=19324"},"modified":"2025-05-11T16:14:26","modified_gmt":"2025-05-11T15:14:26","slug":"luis-manuel-p-silva-e-joao-jose-da-s-p-macedo-esperanca-ou-utopia-fundamentos-para-uma-elpidologia-de-matriz-crista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/luis-manuel-p-silva-e-joao-jose-da-s-p-macedo-esperanca-ou-utopia-fundamentos-para-uma-elpidologia-de-matriz-crista\/","title":{"rendered":"Lu\u00eds Manuel P. Silva e Jo\u00e3o Jos\u00e9 da S. P. Macedo | Esperan\u00e7a ou utopia? Fundamentos para uma elpidologia de matriz crist\u00e3"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Lu\u00eds Manuel P. Silva<\/em> e<em> Jo\u00e3o Jos\u00e9 da S. P. Macedo<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Utopia e esperan\u00e7a n\u00e3o coincidem, no seu significado, como conceitos, como \u2018movimentos\u2019 antropol\u00f3gicos. A utopia (termo cunhado por S. Tom\u00e1s Moro, no seu c\u00e9lebre livro de 1516, cujo t\u00edtulo vale a pena aqui reproduzir &#8211; Libellus vere aureus, nec minus salutaris quam festivus, de optimo rei publicae statu deque nova insula Utopia \u2013 e em que o protagonista \u00e9 um portugu\u00eas de nome Rafael Hitlodeu) \u00e9 um movimento do sujeito em dire\u00e7\u00e3o ao futuro. O sujeito, na utopia, gera o sonho de um outro futuro, de um outro mundo. O sujeito da utopia, cedo ou tarde, descobre, por\u00e9m, que \u00e9 o criador do sonho e, \u00e0 ilus\u00e3o, sente suceder a desilus\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na esperan\u00e7a, o movimento tem o sentido contr\u00e1rio: \u00e9 o futuro que se antecipa no presente. O futuro habita o presente e, de forma prol\u00e9ptica (como recorda, finamente, o te\u00f3logo alem\u00e3o W. Pannenberg), antecipa, no agora, o sentido \u00faltimo. N\u00e3o \u00e9 o sujeito que cria a esperan\u00e7a: \u00e9 tomado por ela que o transcende.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pannenberg v\u00ea, nos in\u00fameros pequenos \u2018lampejos\u2019 (o termo \u00e9 meu\u2026) de sentido \u2013 na linguagem, nas manifesta\u00e7\u00f5es que suscitam espanto e admira\u00e7\u00e3o, nas in\u00fameras circunst\u00e2ncias em que somos invadidos por express\u00f5es de simbolismo, etc. \u2013 o antecipar do sentido \u00faltimo. Entre esses assomos de sentido nos escombros da hist\u00f3ria, o \u2018clar\u00e3o\u2019 maior \u00e9, bem certo, o acontecimento Cr\u00edstico. No agora da Hist\u00f3ria, antecipou-se, de forma m\u00e1xima, o sentido \u00faltimo da hist\u00f3ria que continua a desenrolar-se, j\u00e1 n\u00e3o sem rumo, mas vislumbrando, nessa antecipa\u00e7\u00e3o, que o seu caminhar n\u00e3o \u00e9 um acaso, um errar, um peregrinar sem horizonte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta s\u00edntese permite-nos constatar que ao sujeito imerso na lama do caminho hist\u00f3rico, \u00e9 poss\u00edvel, nos pequenos fogachos de sentido, ir buscar presen\u00e7a desse sentido maior que neles se antecipa. Os sujeitos humanos podem, assim, \u00e0 maneira dos ve\u00edculos h\u00edbridos que, na extin\u00e7\u00e3o de uma fonte de energia, podem socorrer-se de uma outra, procurar outros e outros sinais, sabendo que em nenhum deles se esgota a fonte definitiva de que eles n\u00e3o s\u00e3o os criadores. Essa fonte transcende-os, supera-os, ainda que antecipando-se neles e deixando-se vislumbrar na sua efemeridade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem, por\u00e9m, a seguran\u00e7a que nos vem da experi\u00eancia cr\u00edstica da supera\u00e7\u00e3o da morte pela ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo, estes lampejos de sentido nunca passariam de sinais ut\u00f3picos, vulner\u00e1veis \u00e0 leitura de que poderiam n\u00e3o ser mais do que a express\u00e3o de um poderoso desejo humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa ambiguidade \u00e9, ali\u00e1s, observ\u00e1vel no modo como os gregos &#8211; para quem \u2018esperan\u00e7a\u2019 se dizia com \u2018elp\u00eds, elp\u00eddos\u2019 (donde criamos a palavra \u2018elpidologia\u2019) \u2013 olhavam para a esperan\u00e7a. No mito de Pandora, pela vis\u00e3o de Hes\u00edodo<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, esta abre o vaso onde est\u00e3o todos os males, ficando, no seu fundo, apenas a \u2018esperan\u00e7a\u2019. Ora, a esperan\u00e7a estava no vaso dos males. Ela \u00e9 entendida como um mal, talvez por, ao alimentar o desejo de um futuro diferente, nos poder fazer sonhar para al\u00e9m do que \u00e9 poss\u00edvel concretizar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa ambiguidade desvanece-se com o cristianismo. A esperan\u00e7a tem um fundamento supra-subjetivo, n\u00e3o como resultado de um desejo, mas como manifesta\u00e7\u00e3o subjetiva (no sujeito), de uma realidade antecipada. Gera, por isso, confian\u00e7a e supera o medo. N\u00e3o ser\u00e1, ali\u00e1s, fortuito que uma das mais frequentes afirma\u00e7\u00f5es neotestament\u00e1rias seja \u2018n\u00e3o temais\u2019 (perto de cem vezes).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, onde se supera o medo, habita a liberdade, uma outra condi\u00e7\u00e3o de que toda a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 d\u00e1 eco e vinca como manifesta\u00e7\u00e3o de se ser habitado pelo amanh\u00e3 antecipado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Onde h\u00e1 esperan\u00e7a, n\u00e3o h\u00e1 medo, h\u00e1 liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma aut\u00eantica elpidologia (de \u2018esperan\u00e7a\u2019) cria os fundamentos para uma s\u00f3lida eleuterologia (de \u2018liberdade\u2019).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Sigo a vers\u00e3o descrita por Pierre Grimal, em Dicion\u00e1rio da mitologia grega e romana, Lisboa, Ant\u00edgona Editores, 2020, p. 353.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem: <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Pandora#\/media\/Ficheiro:Pandora_-_John_William_Waterhouse.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pandora<\/a> &#8211; John William Waterhouse [1849-1917]<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Lu\u00eds Manuel<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":19325,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55],"tags":[],"class_list":["post-19324","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19324","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19324"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19324\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19326,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19324\/revisions\/19326"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19325"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19324"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19324"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19324"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}