{"id":19321,"date":"2025-05-10T15:26:07","date_gmt":"2025-05-10T14:26:07","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=19321"},"modified":"2025-05-26T15:08:33","modified_gmt":"2025-05-26T14:08:33","slug":"luis-manuel-pereira-da-silva-o-sinal-que-leao-nos-da","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/luis-manuel-pereira-da-silva-o-sinal-que-leao-nos-da\/","title":{"rendered":"Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva | O sinal que \u2018Le\u00e3o\u2019 nos d\u00e1\u2026"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: center;\">Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Habemus Papam\u2019. A boa not\u00edcia ecoa como sinal do fim de uma provis\u00f3ria orfandade a que se sucede um jorrar de renovada esperan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao an\u00fancio da escolha concretizada, sucede o an\u00fancio do nome escolhido e, com ele, como que um \u2018programa\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O inusitado nome de \u2018Francisco\u2019 deixara vislumbrar a ousadia e radical pobreza do \u2018poverello\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Le\u00e3o\u2019 traz um outro sinal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E \u00e9 esse que me proponho interpretar, sem a veleidade de pretender esgotar a sua significa\u00e7\u00e3o e, muito menos, enclausurar nos estafados chav\u00f5es de progresso ou tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Igreja ser\u00e1, sempre, lugar e comunidade em que confluem a mem\u00f3ria do percorrido e a prol\u00e9ptica saudade do futuro. Por isso, querer encaixar um Papa no preconceito de ser \u2018tradicionalista\u2019 ou \u2018progressista\u2019 \u00e9 tenta\u00e7\u00e3o a que n\u00e3o cederei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes, lan\u00e7o-me ao caminho, sem medos nem receios: livre! Com a liberdade que nos vem do Mestre que, divers\u00edssimas vezes, nos lembrou, principalmente ap\u00f3s a sua ressurrei\u00e7\u00e3o, o seu \u2018n\u00e3o temais\u2019. Porque, como tantas vezes recordava um dos bispos de Aveiro, \u2018n\u00e3o morreremos nem que nos matem\u2019 (D. Ant\u00f3nio Baltasar Marcelino).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Superados medos e preconceitos, olhemos para o que nos diz Le\u00e3o XIV ao apresentar-se com este nome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Regressemos, pela m\u00e3o de Le\u00e3o, ao seu hom\u00f3nimo antecessor, Le\u00e3o XIII. Teve um dos mais longos pontificados (o quarto mais longo, ap\u00f3s o do pr\u00f3prio S. Pedro, o de Pio IX e Jo\u00e3o Paulo II). Ultrapassou os 25 anos de miss\u00e3o pontif\u00edcia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a sua marca fundamental n\u00e3o adv\u00e9m da sua longevidade, antes de duas marcas que gostaria de destacar, neste contexto: o seu olhar \u00e0 causa oper\u00e1ria e a sua aten\u00e7\u00e3o \u00e0s solu\u00e7\u00f5es que para ela eram apontadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o pode olhar-se para Le\u00e3o XIII apenas porque trouxe a causa social para o interior da reflex\u00e3o crist\u00e3. Isso j\u00e1 n\u00e3o seria pouco, ainda que ela nunca tivesse estado ausente, faltando-lhe, por\u00e9m, a sistematiza\u00e7\u00e3o que a <em>Rerum Novarum<\/em> (15 de maio de 1891) permitiu. Estar atento \u00e0s \u2018coisas novas\u2019 era importante\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas n\u00e3o apenas\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso faria da Doutrina Social da Igreja um mero laborat\u00f3rio de diagn\u00f3sticos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Le\u00e3o XIII diagnosticou com olhar fino, viu a dor dos oper\u00e1rios, acorreu \u00e0 sua inquieta\u00e7\u00e3o, mas ousou interrogar as solu\u00e7\u00f5es que, ent\u00e3o, eram apresentadas, com um equil\u00edbrio que matizou, definitivamente, a doutrina social da Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembremos que o s\u00e9culo XIX fervilhava\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao mesmo tempo que se sentia a efervesc\u00eancia resultante das oportunidades abertas pela revolu\u00e7\u00e3o industrial, que parecia colocar a ci\u00eancia ao servi\u00e7o da efici\u00eancia produtiva, as respostas aos problemas que tal realidade fazia emergia pareciam um \u2018combate de boxe\u2019 sem concilia\u00e7\u00e3o poss\u00edvel sen\u00e3o pelo \u2018knock out\u2019 de uma das partes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre a vis\u00e3o liberal, em que assentava uma abordagem \u2018selvagem\u2019 (termo utilizado duas vezes na enc\u00edclica), e a via socialista parecia ser imposs\u00edvel qualquer concilia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Le\u00e3o XIII vislumbra uma via \u00e9tica, moral, de fortes implica\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas, em que a legitimidade e import\u00e2ncia da posse de propriedade privada (como condi\u00e7\u00e3o de liberdade) n\u00e3o pode concretizar-se sem o respeito pelo princ\u00edpio que vir\u00e1 a designar-se como o do \u2018destino universal dos bens\u2019. O que nos pertence deve ser possu\u00eddo com um sentido comum e com forte sentido de justi\u00e7a. Somos administradores de bens de que n\u00e3o somos os donos absolutos, mas recetores de dons concedidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com efeito, o s\u00e9culo XIX vira emergirem os movimentos influenciados pelo socialismo ut\u00f3pico, pelos movimentos an\u00e1rquicos e pelas correntes de influ\u00eancia marxista e engeliana. E percebera a tenta\u00e7\u00e3o da abordagem liberal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perante estas duas linhas, a Igreja, pela palavra e pena de Le\u00e3o XIII, reconhecia e assumia a import\u00e2ncia da aten\u00e7\u00e3o que lhe deram esses movimentos (como podiam ficar sem resposta crist\u00e3 os esmagados oper\u00e1rios?), mas divergia das solu\u00e7\u00f5es que, entretanto, tinham emergido, por recusarem, uns, o direito \u00e0 propriedade privada ou assentarem numa vis\u00e3o conflitual das rela\u00e7\u00f5es (a tenta\u00e7\u00e3o da vis\u00e3o da rela\u00e7\u00f5es de sociedade como assentes numa permanente luta de classes continua, hoje, disseminada por todos os \u00e2mbitos da realidade social, carecendo de nova leitura e novas propostas\u2026) e, outros, uma adequada compreens\u00e3o da liberdade como condi\u00e7\u00e3o que deve encaminhar-se para a busca da verdade\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Le\u00e3o XIII afirmava-se, assim, como um fino analista da sociedade e das suas mais candentes dificuldades (colocando-se do lado dos mais fr\u00e1geis e \u2018impoderosos\u2019), mas recusava que a solu\u00e7\u00e3o passasse pelas vias que os movimentos emergentes propunham.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sendo que havia, ainda, que ter em conta que, sob as solu\u00e7\u00f5es de pendor socialista (assim eram designadas sem as distin\u00e7\u00f5es que posteriormente, vieram a fazer-se entre a linha mais moderada e a de teor marxista), deslizava um len\u00e7ol fre\u00e1tico de ate\u00edsmo que imanentizava o ser humano, reduzindo-o \u00e0 dial\u00e9tica hist\u00f3rica. Le\u00e3o XIII percebia que as solu\u00e7\u00f5es humanas sem o horizonte divino tendiam a diluir a humanidade numa vertigem sem rumo, potenciando a sua anula\u00e7\u00e3o em nome do coletivo an\u00f3nimo e despersonalizante que mata a esperan\u00e7a. A hist\u00f3ria veio a dar-lhe raz\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Retemos, por isso, de Le\u00e3o XIII, a preocupa\u00e7\u00e3o com a causa dos mais fr\u00e1geis da sociedade, a aten\u00e7\u00e3o fina \u00e0s solu\u00e7\u00f5es que, seja pela hiperboliza\u00e7\u00e3o da liberdade, seja pela fus\u00e3o do indiv\u00edduo no coletivo, esquecem o ser humano integralmente considerado, se t\u00eam revelado insuficientes e incapazes e, por fim, a afirma\u00e7\u00e3o de que a humanidade n\u00e3o nasce de si, mas encaminha-se para a eternidade, horizonte sem o qual se aniquila em lutas fratricidas\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ontem, como hoje, de Le\u00e3o (de XIII a XIV) espera-se um alargado abra\u00e7o aos que a sociedade esquece, n\u00e3o se satisfazendo com as vozes que, em nome de sedutoras \u2018melodias\u2019 que inebriam, apontam solu\u00e7\u00f5es provis\u00f3rias como se pudessem ser definitivas, mas apontando rumos que se h\u00e3o de configurar como respostas sempre capazes de acolher o todo e n\u00e3o se ficando pela parte. Porque \u00e9 isso ser cat\u00f3lico: n\u00e3o se ficar pela parte, mas ter uma vis\u00e3o que olha o todo, o universal, o integral\u2026 O Homem todo\u2026 Os Homens todos\u2026 A realidade toda! O horizonte todo!<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;, &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lu\u00eds Manuel Pereira<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":19322,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[225,55],"tags":[],"class_list":["post-19321","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-desafios-de-leao","category-luis-manuel-pereira-da-silva"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19321","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19321"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19321\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19355,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19321\/revisions\/19355"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19322"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19321"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19321"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19321"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}