{"id":18985,"date":"2025-06-23T07:00:15","date_gmt":"2025-06-23T06:00:15","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=18985"},"modified":"2025-12-16T13:40:30","modified_gmt":"2025-12-16T13:40:30","slug":"mysterios-lusitanos-contos-texto-e-locucao-13-misterio-na-mina-dos-mouros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/mysterios-lusitanos-contos-texto-e-locucao-13-misterio-na-mina-dos-mouros\/","title":{"rendered":"13 | Myst\u00e9rios lusitanos [contos &#8211; texto e locu\u00e7\u00e3o] | Mist\u00e9rio na mina dos mouros"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><em>Myst\u00e9rios lusitanos<\/em> | A vinte e tr\u00eas (23) de cada m\u00eas, habitamos o mundo pelo imagin\u00e1rio de Alberto Ferreyra&#8230;<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Nos ramos da escrita, repousam, vezes sem conta, as gralhas da distra\u00e7\u00e3o, ocultas, sob m\u00faltiplos disfarces, at\u00e9 que algu\u00e9m as enxote. Alberto Ferreyra contou com o fino olhar da sua amiga Teresa Correia, detentora do segredo da sua identidade, para afastar ou ca\u00e7ar o grasnar das gralhas. Est\u00e1-lhe, por isso, muito grato&#8230;)<\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Alberto Ferreyra*<\/strong><\/p>\n<p><iframe title=\"Mist\u00e9rio na mina dos mouros\" width=\"640\" height='480' src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/XI0mYHwaaIk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Pode l\u00e1 um lugar chamar-se \u2018o que est\u00e1 para al\u00e9m dos limites\u2019?! \u2013 Deixou escapar, muito intrigada, M., quando o ti\u2019 Saul, de queixo pousado sobre o seu tosco cajado, lhe explicou o significado do nome daquele lugar.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o te admires. Os lugares guardam mem\u00f3rias, guardam lembran\u00e7as longas e, tantas vezes, duras. \u00c9 dessas mem\u00f3rias que falam os nomes dos lugares. \u00c9 dessa mem\u00f3ria que fala este lugar: \u2018Cogulo\u2019, \u2018o que est\u00e1 para al\u00e9m dos limites de todas as medidas\u2019, \u2018o que ultrapassa as bordas das rasas\u2019.<br \/>\n&#8211; Vejo mist\u00e9rio, no seu olhar, ti\u2019 Saul.<br \/>\nEncostado ao velho fontan\u00e1rio, ti\u2019 Saul parecia perdido no infinito. Parecia n\u00e3o a ouvir.<br \/>\nE continuou.<br \/>\n&#8211; Um dia, talvez j\u00e1 ningu\u00e9m lembre que eu aqui passava os meus dias. Talvez por aqui passem os apressados da vida, sem se aperceberem do que aqui se guarda do mais profundo da vida. Mas ouvir\u00e3o, sem perceberem, que este \u00e9 o lugar onde as rasas limpavam os excessos, os excessos com que a vida nos testa os limites. N\u00e3o saber\u00e3o que \u00e9 isso que diz o nome singular que estranhar\u00e3o, na maioria das vezes, sem perguntar o que ele diz. Mas aos que arriscarem perguntar, algu\u00e9m recordar\u00e1 que aqui habita, ainda, a sabedoria de um Saul.<br \/>\n&#8211; Fale, Ti\u2019 Saul! Fale!<br \/>\nO ti\u2019 Saul parecia estar mesmo \u00e0 espera deste pedido.<br \/>\nRespirou fundo e lan\u00e7ou-se \u00e0 hist\u00f3ria.<br \/>\n&#8211; Passo os meus dias aqui. Sentado, encostado ao cajado, ou\u00e7o, entre corridas, os mi\u00fados que parecem desejar muito chegar \u00e0 escola. Sei que o fazem por divertimento, porque, da escola, n\u00e3o me parece que queiram muito saber\u2026 V\u00e3o uns atr\u00e1s dos outros. S\u00f3 ou\u00e7o os restos do meu nome, junto \u00e0 curva em que os vejo desaparecer. Fica o \u2018Saul\u2019 a ecoar-me aos ouvidos. De vez em quando, l\u00e1 para um, porque sabe que sempre tenho no bolso um dos caramelos comprados na loja do Baltasar. \u2013 H\u00e1 quanto tempo j\u00e1 foi para a eternidade! Ficaram os filhos com a loja, mas, at\u00e9 quando?! -. Com quem tenho mais longas conversas \u00e9 com os abandonados da vida. Os que correm, seguem para diante\u2026 S\u00e3o o que erram que aqui se alongam no tempo comigo.<br \/>\n&#8211; \u2018Alongam no tempo comigo\u2019, ti\u2019 Saul? Que coisa bonita a que acaba de dizer. \u2013 Espantou-se M.<br \/>\n&#8211; Sim, alongam-se no tempo comigo. \u00c9 isso que acontece com os que se decidem a conversar comigo. O tempo p\u00e1ra para mim. O tempo p\u00e1ra para eles. Alonga-se, junto.<br \/>\n&#8211; E de que falam, Ti\u2019 Saul?<br \/>\n&#8211; Quase sempre come\u00e7amos pelas maleitas da vida para nos decidirmos a enfrentar o que as maleitas mascaram: as cicatrizes do tempo. Pensam, os que correm sem rumo, que devo dormir e fazer deste lugar a minha morada. Moro ali em frente\u2026 Naquela janela. \u00c9 ela a minha morada. Aqui, vejo-me morar e vejo morar na vida os que sentem a vertigem do desespero.<br \/>\nMas n\u00e3o moro aqui, nesta fonte sempre a jorrar. Quando se abeiram de mim os que erram, vou, com eles, \u00e0 mina que se esconde atr\u00e1s de mim.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o sabia que havia aqui uma mina. \u2013 M. percebia que vinha a\u00ed hist\u00f3ria\u2026<br \/>\n&#8211; Chamamos-lhe \u2018Mina dos mouros\u2019. Os mouros que, em tempos, por aqui combateram os crist\u00e3os e que partiram, deixando, por\u00e9m, o murm\u00fario de um dia poderem voltar.<br \/>\n&#8211; Poderia ser, ent\u00e3o, a \u2018mina dos murm\u00farios\u2019? \u2013 Perguntou M. de brilho nos olhos.<br \/>\nTi\u2019 Saul fez que n\u00e3o ouviu\u2026 Mas o sil\u00eancio falava.<br \/>\n&#8211; Se reparares, a mina tem forma, mas n\u00e3o v\u00eas que dela possa sair \u00e1gua.<br \/>\nM. olhou, atentamente. A cabe\u00e7a assentia e acompanhava a surpresa dos olhos. N\u00e3o se via que pudesse haver \u00e1gua e que, sequer, pudesse algum dia ter dali sa\u00eddo algo que saciasse sede.<br \/>\nOs olhos de M. eram perguntas.<br \/>\n&#8211; Nesta mina, sacia-se uma sede. Uma sede que, se n\u00e3o saciada, nos mata. Atinge o mais \u00edntimo do nosso \u00edntimo. Morremos de n\u00e3o a saciar. Mas n\u00e3o h\u00e1 bilhas nem c\u00e2ntaros, nem forma de dela tirar \u00e1gua\u2026<br \/>\nM. n\u00e3o percebia. O lugar parecia ter a forma de um rega\u00e7o, mas de \u00e1gua, nem sinal\u2026<br \/>\nTi\u2019 Saul prosseguiu.<br \/>\n&#8211; Um dia, h\u00e1 muitos anos, tendo passado para a escola todos os gaiatos da terra, veio a tia \u2018saura, a quem muitos chamavam \u2018madrinha\u2019. Conhecia-a bem. Vivia do outro lado da terra, na encosta da santa Quit\u00e9ria. Uma mulher sofrida. Sempre bondosa. Tinha um olhar brilhante e um sorriso de quem adivinha as dores dos outros sem eles ainda terem ousado dizer que as t\u00eam. As cicatrizes da vida mantinham crosta na sua pele. Mas escondia-as. Eram suas. N\u00e3o tinha de as fazer sentir aos outros. Era assim a tia \u2018Saura. Perdera um filho, ainda na flor da idade\u2026 Entretanto, o marido. Cuidava dos seus restantes tr\u00eas filhos. Singravam na vida. Mas veio a peste e levou a mulher de um deles. Uma nora amada, muito amada. Dois filhos pediam o colo da m\u00e3e precocemente arrancado. O tempo n\u00e3o esperara muito para lhe levar o filho, entretanto enviuvado. Dois netos sem pai nem m\u00e3e\u2026 Quantas l\u00e1grimas chorar\u00e1 uma m\u00e3e que v\u00ea ser colhido o fruto do seu ventre? Rios de l\u00e1grimas!&#8230;<br \/>\nMulher de f\u00e9, sentira-se tentada a perguntar a Deus, como Job, onde Se escondia quando lhe morrera o primeiro filho e o marido, e a nora e, agora, o segundo filho, deixando \u00f3rf\u00e3os os seus dois netinhos?!&#8230; Vinha, por isso, ali \u00e0 mina. \u00c0quele lugar onde a rasa desvenda o que excede os limites, o cogulo. \u2013 Ah, quantos limites j\u00e1 se excederam na vida daquela mulher! &#8211; Vinha murmurar com Deus. A sede de luz, de esperan\u00e7a, de brilho de aurora, fazia-a vir ali. Ali, depositavam-se as grossas l\u00e1grimas que, terra dentro, chegariam \u00e0 m\u00e3o do Criador de Ad\u00e3o. Aquela entrada de mina em forma de rega\u00e7o colhia as l\u00e1grimas para as levar at\u00e9 ao Oleiro. O barro original empapava-se das \u00e1guas sa\u00eddas dos olhos de todas as m\u00e3es que, antes do tempo, veem os filhos bater \u00e0 porta do eterno.<br \/>\nM. ouvia, enquanto duas grossas l\u00e1grimas desciam, lentamente, pelo seu rosto.<br \/>\nTi\u2019 Saul prosseguiu.<br \/>\n&#8211; Haver\u00e1 maior dor do que a de uma m\u00e3e ou de um pai de cujos bra\u00e7os \u00e9 levado para sempre um filho? Chamo-lhes \u2018al\u00edberas\u2019, aquelas que j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam filho. Como uma m\u00e3e, outrora, junto ao seu filho tratado como rebelde\u2026 Devolveram-lho, sim, mas j\u00e1 cad\u00e1ver. Do lado trespassado, jorrava sangue e \u00e1gua\u2026 e quantas l\u00e1grimas?! As de todas as m\u00e3es e pais al\u00edberos. As de todos os filhos \u00f3rf\u00e3os\u2026 As de todos os massacrados de ontem, de hoje e de sempre. As dos rostos j\u00e1 sem l\u00e1grimas, ressequidos pelo g\u00e9lido vento da morte.<br \/>\nTi\u2019 Saul fez um longo sil\u00eancio\u2026<br \/>\nM. solu\u00e7ava.<br \/>\nTi\u2019 Saul secou-lhe as duas l\u00e1grimas com a manga do casaco. Olhou-a, fixamente, e sussurrou-lhe.<br \/>\n&#8211; Para os errantes desta vida, chagados e cicatrizados pelo tempo, deve haver sempre um Ti\u2019 Saul que lhes desvende a mina dos mouros, a mina dos murm\u00farios. Podes s\u00ea-lo tu, tamb\u00e9m?<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/tumisu-148124\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4203628\">Tumisu<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4203628\">Pixabay<\/a><\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align: justify;\">*Alberto Ferreyra diz que as suas letras habitam a mente e saem da m\u00e3o de algu\u00e9m nascido em terras gaulesas, ainda que afirme, em sussurro, que o seu real nascimento ocorreu nas margens do Antu\u00e3, em abril de 2024. \u00c9, por isso, um prematuro autor liter\u00e1rio, germinado da inspira\u00e7\u00e3o que a realidade proporciona quando se tem a companhia, nos livros, de g\u00e9nios como Jorge Luis Borges, Miguel Torga, Gabriel Garc\u00eda Marquez ou personagens como Poirot ou Padre Brown.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Na sua escrita, cruzam-se o real e o imaginado, o fict\u00edcio e o hist\u00f3rico, numa embrenhada teia em que o leitor continua a ler, mesmo j\u00e1 depois de fechado o conto. O real continua a fecundar hist\u00f3rias na mente de quem l\u00ea Ferreyra. Cada conto, feito dos mist\u00e9rios desvelados, aproxima o tempo e distancia o espa\u00e7o, esticando-o at\u00e9 ao eterno e ao infinito. Ao ler Ferreyra, faz-se &#8216;sil\u00eancio&#8217; (&#8216;myst\u00e9rio&#8217; alude \u00e0 etimologia grega da palavra, que remete para o &#8216;fazer sil\u00eancio&#8217;, &#8216;emudecer-se&#8217;&#8230;) para que possam ecoar as palavras, para que possa desenovelar-se o enredo sucintamente desvelado.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">J. e M., protagonistas de cada um dos contos, acompanhados, em alguns deles, pelo seu periquito &#8216;branquinho&#8217;, fazem emergir, do real em que se enredam, hist\u00f3rias que, nascendo da imagina\u00e7\u00e3o de Ferreyra, permanecem como realidades poss\u00edveis, deixando a suspeita de terem mesmo ocorrido.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Se n\u00e3o foi real, Ferreyra o criar\u00e1, inspirado numa cosmovis\u00e3o que tanto deve \u00e0quela religi\u00e3o que fez do encarnado a condi\u00e7\u00e3o fundamental do existir.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A vinte e tr\u00eas (23) de cada m\u00eas, habitaremos o mundo pelo imagin\u00e1rio de Alberto Ferreyra&#8230;<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Myst\u00e9rios lusitanos |<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":17814,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[208,209],"tags":[],"class_list":["post-18985","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-alberto-ferreyra","category-mysterios-lusitanos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18985","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18985"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18985\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20095,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18985\/revisions\/20095"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17814"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18985"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18985"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18985"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}