{"id":18672,"date":"2025-05-20T07:00:01","date_gmt":"2025-05-20T06:00:01","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=18672"},"modified":"2025-01-04T13:41:04","modified_gmt":"2025-01-04T13:41:04","slug":"os-sete-dias-da-criacao-3-luis-m-p-silva-3-continuando-antes-do-primeiro-dia-como-se-construiu-a-fake-de-que-a-idade-media-acreditara-na-planura-da-ter","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/os-sete-dias-da-criacao-3-luis-m-p-silva-3-continuando-antes-do-primeiro-dia-como-se-construiu-a-fake-de-que-a-idade-media-acreditara-na-planura-da-ter\/","title":{"rendered":"&#8216;Os Sete Dias da Cria\u00e7\u00e3o&#8217; |3| Lu\u00eds M. P. Silva: 3 \u2013 &#8216;Continuando antes do primeiro dia\u2026  Como se construiu a \u2018fake\u2019 de que a Idade M\u00e9dia acreditara na planura da Terra\u2026&#8217;"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">(\u2018Os Sete Dias da Cria\u00e7\u00e3o\u2019 | Rubrica dedicada ao di\u00e1logo entre ci\u00eancia e religi\u00e3o)<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo originalmente publicado na revista <a href=\"https:\/\/www.movimento-acr.pt\/historia-mundo-rural\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">&#8216;Mundo Rural&#8217;<\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem nos conta a origem da \u2018fake new\u2019 sobre a \u2018f\u00e9\u2019 da Idade M\u00e9dia na planura da Terra, com o detalhe que n\u00e3o desenvolveremos aqui, \u00e9 Jeffrey Burton Russell, professor da Universidade de Calif\u00f3rnia, no seu livro <em>Inventing the flat Earth: Columbus and modern historians<\/em>, a que cheg\u00e1mos pela m\u00e3o de Jorge Buescu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Importa, desde j\u00e1, clarificar que, na Idade M\u00e9dia, houve dois autores que defenderam a ideia da Terra plana: Lact\u00e2ncio (245-325; Lu\u00eds Filipe Thomaz indica as datas de c. 250-317) e Cosme Indicopleustes (que viveu no tempo de Justiniano (reinou entre 527 e 565). S\u00e3o, por\u00e9m, autores menores, sendo que Lact\u00e2ncio s\u00f3 \u00e9 descoberto pelos renascentistas pela sua ret\u00f3rica (nos s\u00e9culos XV e XVI) e Cosme Indicopleustes s\u00f3 \u00e9 traduzido para latim em 1706 (muito tempo, portanto, depois de qualquer possibilidade de exercer influ\u00eancia nos decisores desta discuss\u00e3o\u2026)<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, como compreender como aqui cheg\u00e1mos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Russell descreve 4 momentos, a partir de in\u00edcios do s\u00e9culo XIX, determinantes para a cria\u00e7\u00e3o deste mito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de os enumerar, constatemos, por\u00e9m, que estamos no rescaldo da Revolu\u00e7\u00e3o da Francesa e em pleno contexto do iluminismo, que consideravam, por um lado, a primeira, que o passado associado \u00e0 Igreja era per\u00edodo tenebroso e que havia que centrar tudo, de acordo com o segundo, o Iluminismo, j\u00e1 n\u00e3o na f\u00e9, tomada como obscura, mas sim na Raz\u00e3o, entendida como a verdadeira fonte da luz\u2026 Em contraste, o passado associado ao cristianismo, o per\u00edodo entre o final da Idade Antiga e o in\u00edcio da Idade moderna, passaria a ser designado como \u2018idade m\u00e9dia\u2019 (a que fica no \u2018meio\u2019) e considerada como \u2018idade de trevas\u2019. Edward Gibbon, na sua obra de grande f\u00f4lego, \u2018Decl\u00ednio e Queda do Imp\u00e9rio Romano, obra de 1788, no fulgor deste esp\u00edrito iluminista, refere-se a \u2018as trevas da Idade M\u00e9dia\u2019<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda hoje, esta \u00e9 a vis\u00e3o. N\u00e3o \u00e9, por isso, fortuito que os historiadores que, honestamente, olham para este per\u00edodo, estejam a tentar reabilit\u00e1-lo, reconhecendo-o, como diz Seb Falk, professor da Universidade de Cambridge, como \u2018a verdadeira idade das luzes\u2019. Mas um pr\u00e9-conceito, lan\u00e7ado sobre um \u2018inimigo\u2019, demora a ser desmontado, se \u00e9 que o ser\u00e1, algum dia!&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, como cheg\u00e1mos, de facto, \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de um tal mito que deturpou o que era \u00f3bvio (que os autores lidos e seguidos, na Idade M\u00e9dia, defendiam a esfericidade da Terra a que as decis\u00f5es mais determinantes dos imp\u00e9rios de ent\u00e3o tinham sido tomadas com este pressuposto), sem que se tenha contestado?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como diz\u00edamos, acima, esta \u00e9 uma \u2018trag\u00e9dia\u2019 em quatro atos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No primeiro, h\u00e1 um romance da autoria de Washington Irving (1783-1859) que ficciona, no seu <em>Hist\u00f3ria da vida e Viagens de Crist\u00f3v\u00e3o Colombo<\/em>, publicado em 1828, todo um enredo em que Crist\u00f3v\u00e3o Colombo tem de enfrentar o obscurantismo inquisitorial, convicto da planura da Terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, neste primeiro ato, estamos perante um romance\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O assunto ganha outros contornos quando esta tese que, aqui, era liter\u00e1ria, passa a ser defendida, em letra de artigo com pretens\u00f5es cient\u00edficas, pela pena de um reconhecido ge\u00f3grafo e eminente cientista de ent\u00e3o, Antoine-Jean Letronne (1787-1848). Em 1834, publica \u2018Sobre as opini\u00f5es cosmogr\u00e1ficas dos padres da Igreja\u2019, onde branqueia (n\u00e3o menos obscurantisticamente do que os \u2018tenebrosos medievais\u2019!) a hist\u00f3ria verdadeira, e considera que s\u00e3o mais relevantes Lact\u00e2ncio e Cosme Indicopleustes do que o que, de facto, s\u00e3o, vincando que at\u00e9 Colombro e Magalh\u00e3es, se acreditava na planura da terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O terceiro ato tem em cena um outro livro, desta feita de um professor de Biologia e Qu\u00edmica da Universidade de Nova Iorque, John Draper que, no calor da discuss\u00e3o sobre a rela\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia e religi\u00e3o, afirma, em \u2018Hist\u00f3ria do conflito entre Religi\u00e3o e Ci\u00eancia\u2019 (1873) que as universidade medievais negavam a esfericidade da Terra. Observa Jorge Buescu (p. 179) que esta obra teve 50 edi\u00e7\u00f5es nos Estados Unidos, 21 no Reino Unido, tendo sido traduzida para todo o mundo. O impacto n\u00e3o podia deixar de se esperar e o resultado est\u00e1 \u00e0 vista de todos. Mesmo os que n\u00e3o lemos esta obra continuamos, mais de 100 anos depois, a defende a mentira ali veiculada\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Falta o quarto ato\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1896, Andrew DIckson White (1832-1918) retoma a mesma tese, confere a Cosme Indicopleustes m\u00e9ritos e reconhecimentos que n\u00e3o tem, definindo-o como \u2018t\u00edpico e influente\u2019, e sustenta que a maioria (j\u00e1 vimos que \u00e9 falso) dos padres da Igreja tinha a opini\u00e3o contr\u00e1ria a Agostinho, Or\u00edgenes, Isidoro de Sevilha, Beda, o vener\u00e1vel, que ele reconhece que defendiam a esfericidade. A mentira n\u00e3o podia ser maior e obviamente contradit\u00f3ria, pois qualquer leitura honesta constataria que os desconhecidos Cosme Indicopleustes e Lact\u00e2ncio n\u00e3o podem ter tido maior influ\u00eancia do que a de Agostinho, Or\u00edgenes ou, ainda que n\u00e3o citado nesta \u00faltima lista, S\u00e3o Tom\u00e1s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">White conseguiu uma influ\u00eancia que suplantou a de Draper, atrav\u00e9s da Universidade de Cornell que ele mesmo fundou\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bem certo que, no contexto portugu\u00eas, poderemos somar a esta hist\u00f3ria posterior \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o francesa, a cria\u00e7\u00e3o de uma ambi\u00eancia defensora de um obscurantismo crist\u00e3o que tem como momento de maior corol\u00e1rio o per\u00edodo pombalino e a sua campanha negra contra a Igreja, em geral, e os jesu\u00edtas, em particular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Henrique Leit\u00e3o, pr\u00e9mio Pessoa em 2014, em confer\u00eancia proferida em Aveiro, em 2019<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, contou que o Marqu\u00eas de Pombal, para poder desenvolver a sua campanha de persegui\u00e7\u00e3o aos Jesu\u00edtas, ordenou que fossem destru\u00eddos os in\u00fameros azulejos que, nas paredes da Universidade de \u00c9vora, apresentavam os diversos passos do tratado da Esfera e outros tratados astron\u00f3micos, pois n\u00e3o era enquadr\u00e1vel com a sua tese de que a Igreja era obscurantista, a exist\u00eancia de tais pain\u00e9is, numa universidade coordenada por Jesu\u00edtas\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Est\u00e1vamos na segunda metade do s\u00e9culo XVIII:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em in\u00edcios do s\u00e9culo XXI, j\u00e1 com a experi\u00eancia de desencontros que nos deveriam ter acordado para o dever de servir a verdade, sem pr\u00e9-conceitos nem entrincheiramentos, continua o Marqu\u00eas de Pombal a mandar picar os azulejos com que se tornaria \u00f3bvia a nossa mentira? E quem tem na m\u00e3o a picareta com que se executa a sua demanda?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O nosso intuito \u00e9 promover o encontro. Pousem-se, sobre a bancada, os martelos e picaretas e abramos, em conjunto, um ateli\u00ea de restauro. Os azulejos devem voltar a luzir e, com eles, a luz que n\u00e3o se faz, apenas, de raz\u00e3o iluminadora, pois qual lua, ela n\u00e3o \u00e9, ainda, a nascente e a fonte da luz: reflete-a, apenas. A aut\u00eantica demanda \u00e9 a da verdade de que s\u00f3, como lampejos, nos aproximamos, qual peregrinos\u2026<\/p>\n<hr \/>\n<p>Seb Falk, <em>A Idade M\u00e9dia: a verdadeira idade das luzes<\/em>, Lisboa, Bertrand Editora, 2021.<\/p>\n<p>Umberto Eco, <em>Construir o inimigo e outros escritos ocasionais<\/em>, Lisboa, Gradiva, 2011.<\/p>\n<p>Jorge Buescu, <em>Da falsifica\u00e7\u00e3o dos euros aos pequenos mundos<\/em>, Lisboa, Gradiva, 2003.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Filipe F. R. Thomaz, <em>O drama de Magalh\u00e3es e a volta ao mundo sem querer<\/em>, Lisboa, Gradiva, 2019<sup>2<\/sup>.<\/p>\n<ol start=\"2017\">\n<li>Tom\u00e1s de Aquino, <em>Suma de Teologia<\/em>, Tomo I (Parte 1), Madrid, Biblioteca de Autores Cristianos, 2017.<\/li>\n<\/ol>\n<hr \/>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Cfr. Jorge Buescu, <em>Da falsifica\u00e7\u00e3o dos euros aos pequenos mundos, <\/em>pp. 173-174.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Cfr. Seb Falk, <em>A Idade M\u00e9dia: a verdadeira idade das luzes<\/em>, p. 21.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Cfr. https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/aveiro-ciencia-tecnologia-etica-e-cristianismo-encerram-o-ciclo-de-tertulias-a-quarta\/<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;, &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/geralt-9301\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=257160\">Gerd Altmann<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=257160\">Pixabay<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(\u2018Os Sete Dias<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":18673,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,214],"tags":[],"class_list":["post-18672","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-os-sete-dias-da-criacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18672","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18672"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18672\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19697,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18672\/revisions\/19697"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18673"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18672"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18672"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18672"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}