{"id":18669,"date":"2025-03-20T07:00:29","date_gmt":"2025-03-20T07:00:29","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=18669"},"modified":"2025-01-04T13:37:55","modified_gmt":"2025-01-04T13:37:55","slug":"os-sete-dias-da-criacao-2-luis-m-p-silva-ainda-antes-do-primeiro-dia-a-terra-plana-a-fake-antes-de-todas-as-fakes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/os-sete-dias-da-criacao-2-luis-m-p-silva-ainda-antes-do-primeiro-dia-a-terra-plana-a-fake-antes-de-todas-as-fakes\/","title":{"rendered":"&#8216;Os Sete Dias da Cria\u00e7\u00e3o&#8217; |2| Lu\u00eds M. P. Silva: &#8216;Ainda antes do primeiro dia\u2026 \u2018A terra plana\u2019: a \u2018fake\u2019 antes de todas as \u2018fakes\u2019&#8217;"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">(\u2018Os Sete Dias da Cria\u00e7\u00e3o\u2019 | Rubrica dedicada ao di\u00e1logo entre ci\u00eancia e religi\u00e3o)<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo originalmente publicado na revista <a href=\"https:\/\/www.movimento-acr.pt\/historia-mundo-rural\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">&#8216;Mundo Rural&#8217;<\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das maiores dificuldades no estabelecimento do di\u00e1logo \u00e9 a supera\u00e7\u00e3o dos pr\u00e9-conceitos para com o outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No seu livro \u2018construir o inimigo\u2019, Umberto Eco chega a afirmar que \u2018ter um inimigo \u00e9 importante, n\u00e3o apenas para definir a nossa identidade, mas tamb\u00e9m para arranjarmos um obst\u00e1culo em rela\u00e7\u00e3o ao qual seja medido o nosso sistema de valores, e para mostrar, no afronta-lo, o nosso valor. Portanto, quando o inimigo n\u00e3o existe, h\u00e1 que constru\u00ed-lo.\u2019 (Umberto Eco, <em>Construir o inimigo e outros escritos ocasionais, <\/em>p. 12) E acrescenta, ao longo das cerca de trinta p\u00e1ginas que constituem a confer\u00eancia que abre este livro, que o inimigo \u00e9 sempre \u2018feio\u2019, \u2018malcheiroso\u2019, \u2018monstruoso\u2019, \u2018inferior\u2019, \u2018pouco inteligente\u2019, etc.. O inimigo, enfim, nunca \u00e9 um de n\u00f3s\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parece uma inevitabilidade com que, por\u00e9m, n\u00e3o me identifico. Defendo, desde h\u00e1 muito, que n\u00e3o nos definimos pela competi\u00e7\u00e3o, mas, antes, pela coopera\u00e7\u00e3o que nos permite fazer render os talentos de acordo com uma f\u00f3rmula matem\u00e1tica de soma criativa: 1+1 n\u00e3o \u00e9 igual a 2, mas a 3 ou 4 ou 5 ou muito mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quantas vezes, a soma da criatividade de duas pessoas ultrapassa tudo o que ambas puderam algum dia imaginar!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o tem sido, infelizmente, imune a esta constata\u00e7\u00e3o de Eco (que ele pretende que seja intranspon\u00edvel, mas a que tentaremos n\u00e3o nos render\u2026) a hist\u00f3ria da rela\u00e7\u00e3o entre a ci\u00eancia e a religi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E conta-se entre as mais significativas hist\u00f3rias dessa narrativa de encontros e desencontros, a que nos acompanhar\u00e1, ao longo desta etapa da nossa reflex\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era lugar-comum, no tempo da minha forma\u00e7\u00e3o, enquanto adolescente e jovem, a afirma\u00e7\u00e3o de que a Idade M\u00e9dia acreditara na terra como sendo plana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acrescentava-se, inclusive, para fundamentar esta convic\u00e7\u00e3o, a ideia de que Crist\u00f3v\u00e3o Colombo n\u00e3o fora financiado pela corte portuguesa por nela vigorar esta ideia, e que fora Fern\u00e3o de Magalh\u00e3es a demonstrar a condi\u00e7\u00e3o esf\u00e9rica da Terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tese tinha tudo para ser cred\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E somava-se \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de veracidade a nossa acriticidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Curiosamente, por\u00e9m, facilmente se constatar\u00e1 que algo n\u00e3o est\u00e1 bem nesta convic\u00e7\u00e3o quase universalmente difundida quando uma r\u00e1pida visita \u00e0 obra maior da teologia medieval (importante por repercutir o pensamento consolidado e, tamb\u00e9m, por ser a obra de maior refer\u00eancia ent\u00e3o e posteriormente), a <em>Summa Theologica<\/em>, de S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino, nos leva a encontrar, logo na primeira parte, quest\u00e3o 1, artigo 1, na resposta \u00e0 obje\u00e7\u00e3o 2, o seguinte: \u2018A diversos modos de conhecer, diversas ci\u00eancias. Por exemplo, tanto o astr\u00f3logo [de acordo com o pensamento medieval, o termo ainda designa o astr\u00f3nomo] como o f\u00edsico podem concluir que a terra \u00e9 redonda. Mas enquanto o astr\u00f3logo o deduz por algo abstrato, o f\u00edsico f\u00e1-lo por algo concreto, a mat\u00e9ria.\u2019 [E prossegue, debatendo quest\u00f5es de epistemologia, ali\u00e1s muito oportunas para a reflex\u00e3o que aqui nos traz, a saber, a da legitimidade da autonomia das ci\u00eancias e a da sua complementaridade, na sua especificidade.]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Importa, por\u00e9m, sublinhar a \u2018espontaneidade\u2019 com que o Aquinate se refere ao car\u00e1cter \u2018rotundo\u2019 da terra, deixando pressupor que o assunto era lugar-comum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa conclus\u00e3o sai confirmada quando nos damos conta de que, como afirmam alguns dos historiadores da ci\u00eancia que se t\u00eam dedicado a este tema (recordo, a t\u00edtulo ilustrativo, alguns livros onde esta mat\u00e9ria \u00e9 abordada: Seb Falk, <em>A Idade M\u00e9dia: a verdadeira idade das luzes; <\/em>Jorge Buescu, <em>Da falsifica\u00e7\u00e3o dos euros aos pequenos mundos; <\/em>Lu\u00eds Filipe F. R. Thomaz, <em>O drama de Magalh\u00e3es e a volta ao mundo sem querer<\/em>, etc.), um dos tratados de astronomia mais estudados, durante a idade m\u00e9dia, era o Tratado da Esfera, de Jo\u00e3o Sacrobosco, publicado em 1231 (segundo Seb Falk, p. 144; Jorge Buescu data-o de 1250). Como recorda Jorge Buescu, outros autores medievais tinham, inclusive, tratados que abordavam, j\u00e1 n\u00e3o apenas a quest\u00e3o da esfericidade da terra, mas a da sua rota\u00e7\u00e3o: Jean Buridan (1300-1358) e Nicolau Oresme (1320-1382). Acrescenta Jorge Buescu, no livro com que despertei, no j\u00e1 distante ano de 2003, para esta enorme \u2018fake new\u2019, que \u2018Roger Bacon (1220-1292) afirmou a esfericidade da terra utilizando os argumentos cl\u00e1ssicos (os mastros dos navios, as diferentes constela\u00e7\u00f5es vis\u00edveis em diferentes partes do mundo, o facto de a vista do cimo de uma montanha ser maior) [e que] o pr\u00f3prio Tratado da Esfera do matem\u00e1tico portugu\u00eas Pedro Nunes, publicado em 1537, \u00e9 uma tradu\u00e7\u00e3o anotada e comentada do Tratado da Esfera de Sacrobosco.\u2019 (Jorge Buescu, <em>Da falsifica\u00e7\u00e3o dos euros aos pequenos mundos, <\/em>p. 171<em>).<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Luis Filipe Thomaz pergunta, com gra\u00e7a: \u2018se a Terra n\u00e3o fosse redonda, como poderia Colombo, trinta anos antes de Magalh\u00e3es, intentar descobrir as \u00cdndias Orientais navegando para Ocidente? E como poderia o cosm\u00f3grafo florentino Paolo del Pozzo Toscanelli (1397-1482) ter sugerido o mesmo a D. Afonso V logo em 1474? E como poderia ter o papa Alexandre VI dividido a Terra em dois hemisf\u00e9rios, atribuindo um a Castela e outro a Portugal, se aquela n\u00e3o fosse esf\u00e9rica? E como se teria podido em Tordesilhas tra\u00e7ar uma linha de p\u00f3lo a p\u00f3lo sobre uma superf\u00edcie plana? Porventura t\u00eam p\u00f3los os rect\u00e2ngulos?\u2019 (Lu\u00eds Filipe F. R. Thomaz, <em>O drama de Magalh\u00e3es e a volta ao mundo sem querer, <\/em>pp 33-34) Explica, por seu turno, Jorge Buescu que a corte portuguesa n\u00e3o investiu em Colombo, n\u00e3o porque acreditasse na Terra como plano, mas sim porque, pelas suas contas (corretas, enquanto a corte espanhola as tinha erradas), a dimens\u00e3o da Terra tornava um investimento sem retorno a aposta na chegada \u00e0 \u00cdndia pelo Ocidente. A sorte de Colombo foi ter encontrado, no caminho, a desconhecida Am\u00e9rica\u2026 (cfr. Jorge Buescu, <em>Da falsifica\u00e7\u00e3o dos euros aos pequenos mundos, <\/em>pp. 176-177)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perante isto, \u00e9 \u00f3bvia a pergunta paradoxal: como cheg\u00e1mos aqui? Como p\u00f4de tornar-se uma convic\u00e7\u00e3o comum uma tal mentira? E, ainda pior: porque continua a fazer-se sil\u00eancio sobre tamanha falsidade?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">V\u00ea-lo-emos, no pr\u00f3ximo passo da nossa reflex\u00e3o\u2026<\/p>\n<hr \/>\n<p>Seb Falk, <em>A Idade M\u00e9dia: a verdadeira idade das luzes<\/em>, Lisboa, Bertrand Editora, 2021.<\/p>\n<p>Umberto Eco, <em>Construir o inimigo e outros escritos ocasionais<\/em>, Lisboa, Gradiva, 2011.<\/p>\n<p>Jorge Buescu, <em>Da falsifica\u00e7\u00e3o dos euros aos pequenos mundos<\/em>, Lisboa, Gradiva, 2003.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Filipe F. R. Thomaz, <em>O drama de Magalh\u00e3es e a volta ao mundo sem querer<\/em>, Lisboa, Gradiva, 2019<sup>2<\/sup>.<\/p>\n<ol start=\"2017\">\n<li>Tom\u00e1s de Aquino, <em>Suma de Teologia<\/em>, Tomo I (Parte 1), Madrid, Biblioteca de Autores Cristianos, 2017.<\/li>\n<\/ol>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;, &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/ylanite-2218222\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2946959\">Ylanite Koppens<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2946959\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(\u2018Os Sete Dias<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":18670,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,214],"tags":[],"class_list":["post-18669","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-os-sete-dias-da-criacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18669","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18669"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18669\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18671,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18669\/revisions\/18671"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18670"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18669"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18669"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18669"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}