{"id":18662,"date":"2025-01-20T07:00:13","date_gmt":"2025-01-20T07:00:13","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=18662"},"modified":"2025-01-04T13:48:19","modified_gmt":"2025-01-04T13:48:19","slug":"os-sete-dias-da-criacao-1-luis-m-p-silva-antes-mesmo-do-primeiro-dia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/os-sete-dias-da-criacao-1-luis-m-p-silva-antes-mesmo-do-primeiro-dia\/","title":{"rendered":"&#8216;Os Sete Dias da Cria\u00e7\u00e3o&#8217; |1| Lu\u00eds M. P. Silva: &#8216;Antes, mesmo, do primeiro dia\u2026&#8217;"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">(\u2018Os Sete Dias da Cria\u00e7\u00e3o\u2019 | Rubrica dedicada ao di\u00e1logo entre ci\u00eancia e religi\u00e3o)<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo originalmente publicado na revista <a href=\"https:\/\/www.movimento-acr.pt\/historia-mundo-rural\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">&#8216;Mundo Rural&#8217;<\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Os sete dias da Cria\u00e7\u00e3o\u2019 evocam um tempo\u2026 (Para Santo Agostinho, n\u00e3o ser\u00e1 grande o futuro para os que gastam o tempo a interrogar-se sobre o \u2018antes do tempo\u2019. Espero que n\u00e3o me aguarde tal destino por ousar desafiar a conclus\u00e3o agostiniana\u2026) Mas ouso pensar \u2018os sete dias da Cria\u00e7\u00e3o\u2019, muito mais do que um tempo, como um lugar. O lugar ut\u00f3pico que, recuperando o termo criado por S. Tom\u00e1s Moro, nos fala de um \u2018n\u00e3o-lugar\u2019 (utopia \u2013 u+topos \u2013 \u2018n\u00e3o lugar\u2019), pois sonho-o como uma oportunidade para promover um encontro tantas vezes dif\u00edcil e \u2013 estou convencido! \u2013 sustentado em enormes equ\u00edvocos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Os sete dias da Cria\u00e7\u00e3o\u2019 querem definir-se como um are\u00f3pago de di\u00e1logo entre a ci\u00eancia e a religi\u00e3o, entre a religi\u00e3o e a ci\u00eancia. N\u00e3o a ci\u00eancia, bem certo, como a pensavam os pr\u00e9-modernos, que a entendiam como \u2018scientia\u2019, sabedoria e saber sistematizado, de forma dedutiva, mas como, com a modernidade, a pass\u00e1mos a pensar (talvez nos venha a merecer posterior discuss\u00e3o esta mat\u00e9ria, mas, para j\u00e1, bastemo-nos com o conceito moderno\u2026). E n\u00e3o, tamb\u00e9m, toda a religi\u00e3o, mas a que, enquanto crist\u00e3os, se pensa a si mesma como \u2018releitura\u2019 e \u2018religa\u00e7\u00e3o\u2019 assente no pressuposto de que, \u2018no princ\u00edpio era o \u00abl\u00f3gos\u00bb\u2019. N\u00e3o, por isso, uma religi\u00e3o emocionalmente definida, mas que se faz da profunda liga\u00e7\u00e3o \u00e0 racionalidade, n\u00e3o \u00e0 maneira racionalista, mas no pressuposto de que o ser humano \u00e9 racional e relacional. Uma raz\u00e3o, por isso, intrinsecamente definida como \u2018rela\u00e7\u00e3o\u2019. Uma raz\u00e3o marcada pela historicidade e pela encarna\u00e7\u00e3o. N\u00e3o uma raz\u00e3o desencarnada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dizia, acima, que muitos dos desencontros entre ci\u00eancia (\u00e0 maneira antes descrita) e a religi\u00e3o do Verbo encarnado se sustentam em equ\u00edvocos que, por raz\u00f5es espec\u00edficas e concretamente observ\u00e1veis, se tornaram dur\u00e1veis e, em alguns casos, ainda vigentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Veja-se como continua a ser considerada como v\u00e1lida a convic\u00e7\u00e3o de que o cristianismo esteja de costas voltadas para com a ci\u00eancia. \u2018N\u00e3o tivemos n\u00f3s a hist\u00f3ria de Galileu?\u2019 (Que alguns chegam a \u2018mandar queimar na fogueira pela Inquisi\u00e7\u00e3o\u2019, levando \u00e0 consuma\u00e7\u00e3o algo que n\u00e3o se pode confirmar pela Hist\u00f3ria\u2026). \u2018Ou a hist\u00f3ria de Darwin e a sua recusa pela Igreja Cat\u00f3lica?\u2019 (transferindo para o continente uma discuss\u00e3o que foi verdadeiramente quente, sim, mas em terras de Sua Majestade\u2026). Ou, por fim, \u2018n\u00e3o temos a cereja no topo do bolo que \u00e9 a tese de que o universo come\u00e7ou com um \u2018Big Bang\u2019?\u2019, omitindo-se que foi um padre o primeiro a formular a hip\u00f3tese de o Universo ter come\u00e7ado com uma densa e singular concentra\u00e7\u00e3o de energia, professor na universidade de Lovaina e amigo de Einstein, Georges Lema\u00eetre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os equ\u00edvocos somam-se, de parte a parte, e a estes acrescentam-se, bem certo, tamb\u00e9m conce\u00e7\u00f5es conflituantes. John Haught, um prol\u00edfico autor destas mat\u00e9rias (em portugu\u00eas, est\u00e1 traduzido um dos mais interessantes sobre estas \u2018pontes\u2019, escrito numa linguagem acess\u00edvel e recomend\u00e1vel para todas as gera\u00e7\u00f5es, mas particularmente para as mais jovens: \u2018Cria\u00e7\u00e3o e evolucionismo em 101 perguntas e respostas, Gradiva\u2019) analisa, no seu \u2018ci\u00eancia e f\u00e9: uma nova introdu\u00e7\u00e3o, editora Sal Terrae\u2019, as tr\u00eas mais posi\u00e7\u00f5es fundamentais sobre este assunto: a do conflito, a do contraste e a da converg\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tomarei partido pela terceira destas, ainda que deva sublinhar que, por converg\u00eancia n\u00e3o dever\u00e1 entender-se uma qualquer matiza\u00e7\u00e3o do \u2018concordismo\u2019, que procura na ci\u00eancia as confirma\u00e7\u00f5es para o que uma leitura literalista dos textos sagrados conclui. Antes, dever\u00e1 entender-se como a posi\u00e7\u00e3o que pressup\u00f5e estratos na realidade, leg\u00edveis diversamente, de acordo com o n\u00edvel ou estrato em que se est\u00e1, mas sem que tal signifique a exist\u00eancia de v\u00e1rias verdades, como que revisitando os erros do averro\u00edsmo. Antes, a converg\u00eancia d\u00e1 como pressuposto que, no que for mat\u00e9ria comum, n\u00e3o poder\u00e1 haver contradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para tal ser poss\u00edvel, a atitude, de parte a parte, dever\u00e1 ser a da boa-f\u00e9 e a da disponibilidade para o aut\u00eantico di\u00e1logo, pressupondo, sempre, que, para haver di\u00e1logo, \u00e9 necess\u00e1rio verificarem-se duas condi\u00e7\u00f5es coexistentes: duas identidades (distin\u00e7\u00e3o) dispon\u00edveis para o encontro (converg\u00eancia). Sem distin\u00e7\u00e3o, h\u00e1 mon\u00f3logo; sem converg\u00eancia, h\u00e1 conflito e imposi\u00e7\u00e3o da verdade ao outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A este prop\u00f3sito, evoque-se a f\u00f3rmula encontrada pela Igreja Cat\u00f3lica para assegurar, por um lado, a presen\u00e7a da verdade, mas sem que tal implique a recusa de verdade no caminho percorrido por outras vias. Evocando a ideia da presen\u00e7a de \u2018sementes do Verbo\u2019 em outras experi\u00eancias religiosas e, particularmente, nas comunidades crist\u00e3s n\u00e3o cat\u00f3licas, a Constitui\u00e7\u00e3o Dogm\u00e1tica \u2018Lumen Gentium\u2019, no seu n\u00famero 8, refere que \u2018esta Igreja, constitu\u00edda e organizada neste mundo como sociedade, <strong>subsiste<\/strong> na Igreja Cat\u00f3lica, governada pelo sucessor de Pedro e pelos Bispos em uni\u00e3o com ele, embora, fora da sua comunidade, se encontrem muitos elementos de santifica\u00e7\u00e3o e de verdade, os quais, por serem dons pertencentes \u00e0 Igreja de Cristo, impelem para a unidade cat\u00f3lica.\u2019<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta ideia de que a verdade \u2018subsiste na Igreja Cat\u00f3lica, embora fora da sua comunidade se encontrem elementos de santifica\u00e7\u00e3o e de verdade\u2019, assegura, por um lado, que n\u00e3o se redunde num relativismo, mas sem que tal comporte a legitima\u00e7\u00e3o de uma qualquer imposi\u00e7\u00e3o ou, no limite, de uma recusa de acolhimento dos elementos de verdade presentes no outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma tal abordagem coloca-nos em atitude de genu\u00ednos peregrinos da Verdade. Wolfhart Pannenberg, por muitos considerado o mais cat\u00f3lico dos te\u00f3logos protestantes, ao falar da condi\u00e7\u00e3o prol\u00e9ptica da realidade, afirmando que, no concreto da Hist\u00f3ria, se antecipam lampejos do sentido definitivo, enuncia, precisamente, esta tens\u00e3o entre os escolhos do relativismo (ao afirmar a \u2018Verdade\u2019 antecipada) e o do objetivismo absolutizante (ao falar da condi\u00e7\u00e3o prol\u00e9ptica da verdade aqui antecipada\u2026).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ser\u00e1 entre estes Cila e Car\u00edbdis (os dois mostrengos entre os quais teve de passar Ulisses, na sua viagem de regresso a \u00cdtaca) que tentaremos navegar\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>Bibliografia:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">John F. Haught, <em>Ciencia y fe: una nueva introducci\u00f3n<\/em>, Madrid\/Malia\u00f1o, Universid Pontificia Comillas\/Sal Terrae, 2018.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">John F. Haught,<em> Cria\u00e7\u00e3o e evolucionismo em 101 perguntas e respostas,<\/em> Lisboa, Gradiva, 2009.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dominique Lambert, <em>Ciencia y fe en el padre del\u00a0Big Bang, Georges Lema\u00eetre<\/em>, Madrid\/Malia\u00f1o, Universid Pontificia Comillas\/Sal Terrae, 2015.<\/p>\n<p>Lu\u00eds M. P. Silva, <em>Teologia, Ci\u00eancia e Verdade: Fundamentos para uma defini\u00e7\u00e3o do estatuto cient\u00edfico da Teologia, segundo W. Pannenberg<\/em>, Coimbra, Gr\u00e1fica de Coimbra, 2004.<\/p>\n<p>Ronald L. Numbers (org.), <em>Galileu na pris\u00e3o e outros mitos sobre ci\u00eancia e religi\u00e3o<\/em>, Lisboa, Gradiva, 2012.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;, &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/anassar-421921\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=436007\">Andres Nassar<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=436007\">Pixabay<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(\u2018Os Sete Dias<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":18665,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,214],"tags":[],"class_list":["post-18662","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-os-sete-dias-da-criacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18662","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18662"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18662\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18675,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18662\/revisions\/18675"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18665"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18662"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18662"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18662"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}