{"id":18618,"date":"2024-12-23T11:53:57","date_gmt":"2024-12-23T11:53:57","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=18618"},"modified":"2024-12-23T12:01:07","modified_gmt":"2024-12-23T12:01:07","slug":"luis-manuel-pereira-da-silva-natal-2000-anos-depois-o-escandalo-continua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/luis-manuel-pereira-da-silva-natal-2000-anos-depois-o-escandalo-continua\/","title":{"rendered":"Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva | Natal: 2000 anos depois, o esc\u00e2ndalo continua\u2026"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo originalmente publicado no <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/correiodovouga\/?locale=pt_PT\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Correio do Vouga<\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018N\u00e3o temais, pois anuncio-vos uma grande alegria que o ser\u00e1 para todo o povo: hoje, na cidade de David, nasceu-nos um Salvador que \u00e9 o Messias Senhor!\u2019 (Lc 2, 10)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A frequ\u00eancia da escuta embotou-nos os ouvidos que j\u00e1 amenizaram o esc\u00e2ndalo, como se de um lugar-comum tratassem as palavras que recordam o mist\u00e9rio. (Ou teremos levado t\u00e3o a s\u00e9rio o convite a que n\u00e3o tiv\u00e9ssemos medo que, efetivamente, o super\u00e1mos?)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mist\u00e9rio evoca sempre a ideia de uma realidade diante da qual cabe fazer sil\u00eancio, emudecer-se. Mas o mist\u00e9rio crist\u00e3o, escandaloso como sempre, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9, apenas, uma realidade diante da qual cabe fazer sil\u00eancio. \u00c9 um desvendar da realidade que, de t\u00e3o denso, nos interpela a reler a exist\u00eancia e reconfigurar o nosso olhar. O mist\u00e9rio crist\u00e3o define-se, essencialmente, como realidade que, de t\u00e3o densa, \u00e9 paulatinamente desvend\u00e1vel, mas nunca suficientemente abarc\u00e1vel: tomamos parte mas muito mais \u00e9 o que nos escapa. O que se capta, por\u00e9m, \u00e9 j\u00e1 suficientemente significativo para nos dar novo sentido \u00e0 exist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deste modo de pensar o mist\u00e9rio se trata ao falar do da Encarna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dois mil anos volvidos, o que aconteceu em Bel\u00e9m continua, aos ouvidos atentos de hoje, a ser motivo de esc\u00e2ndalo e estonteamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao tempo, fora-o para judeus, incapazes de aceitar que o distant\u00edssimo Deus, de que s\u00f3 nos poder\u00edamos acercar pela Sua Lei, pudesse tornar-se humano. Essa kenose, t\u00e3o sublimemente enunciada pelo tamb\u00e9m judeu Paulo de Tarso, no seu hino cristol\u00f3gico feito ep\u00edstola aos Filipenses, era inaceit\u00e1vel para os ouvidos judaicos. N\u00e3o o era porque a corporeidade n\u00e3o pudesse ser abarc\u00e1vel pela sua compreens\u00e3o de Deus, mas pela insignific\u00e2ncia do humano, perdido desde o para\u00edso e errante pelo mundo. Ver a Deus era de todo imposs\u00edvel. Encarnar era, ent\u00e3o, inadmiss\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fora-o, tamb\u00e9m, para os gregos e todos os que, na senda do esp\u00edrito hel\u00e9nico, reduziam o homem ao seu esp\u00edrito, encarcerado que estava num corpo material, essencialmente mau e de que se pretendia a liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As duas retic\u00eancias permaneceram, ao longo da hist\u00f3ria\u2026 A retic\u00eancia judaica e a retic\u00eancia grega.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A encarna\u00e7\u00e3o, para os que n\u00e3o a anestesiam sob a capa da habitua\u00e7\u00e3o, constituiu-se, ao longo dos tempos, esc\u00e2ndalo maior, seja pela via judaica, seja pela grega.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pela judaica, pela natureza de Deus; pela via grega, pela natureza do homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, o p\u00eandulo continua a oscilar entre os dois \u00edmanes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tende, por\u00e9m, a ser mais fortemente atrativo o \u00edman grego, nestes tempos que voltam a reduzir, gnosticamente, o homem ao seu pensamento e \u00e0 sua alma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A encarna\u00e7\u00e3o e a sua celebra\u00e7\u00e3o como natal continua a escandalizar estes tempos para quem alguns de entre n\u00f3s dizem habitar corpos que n\u00e3o s\u00e3o os seus. Como se n\u00e3o nos fiz\u00e9ssemos do encontro indissoci\u00e1vel entre mat\u00e9ria e forma, impossibilitada que \u00e9 a exist\u00eancia de uma ess\u00eancia (forma) sem a sua materializa\u00e7\u00e3o (mat\u00e9ria).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, celebrar o Natal volta (continua, talvez!) a escandalizar porque se aceitou como verdadeira a afirma\u00e7\u00e3o de que algu\u00e9m pudesse pensar-se sem se pensar no aqui e agora. O poder que tem o pensamento de voar convenceu alguns de que o voo fosse uma abstra\u00e7\u00e3o e n\u00e3o movimento do pensamento concreto de algu\u00e9m, situado e situ\u00e1vel. O pensamento \u00e9 sempre de algu\u00e9m, com toda a sua hist\u00f3ria, feita de ch\u00e3o e habitar lugares concretos. \u00c9 identidade feita caminho, feita de hist\u00f3ria, de tempos e lugares finitos de que se guardam lugares vividos, para abrir, antecipando, lugares a poder viver. Mas \u00e9 um sujeito concreto, real, corporeamente real, que mora o passado, o presente e se lan\u00e7a para o futuro. \u00c9 indissoci\u00e1vel do seu realizar-se concreto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o \u00edman grego continua a atrair\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O esc\u00e2ndalo crist\u00e3o continua a dar atualidade ao an\u00fancio de que \u2018hoje nasceu-vos o Salvador\u2019, que \u00e9 o verdadeiro \u2018Emanuel\u2019, \u2018Deus connosco\u2019. Apesar de instados a n\u00e3o temer, continuamos a ter medo e a recusar\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos nossos olhos de vidas t\u00e3o curtas, 2000 anos j\u00e1 seriam tempo suficiente para se esperar que o esc\u00e2ndalo se tivesse suplantado. Mas Deus \u00e9 paciente e, aos seus olhos, nunca \u00e9 tarde.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deus continuar\u00e1 a precisar de nos anunciar, pela voz daquele que traz a mensagem, que, de uma s\u00f3 vez, Ele mesmo encarnou. N\u00e3o como quem reencarna, para o repetir vezes sem conta, mas como quem assume, de uma s\u00f3 vez, de forma singular e irrepet\u00edvel, a hist\u00f3ria \u00fanica do encontro entre o Eternamente Outro e aquele em quem quis refletir-se como imagem e Sua semelhan\u00e7a. Os primeiros crist\u00e3os sabiam da natureza escandalosa de t\u00e3o denso mist\u00e9rio e das suas implica\u00e7\u00f5es para o reconhecimento da unidade indissol\u00favel do humano. Por isso o quarto evangelho utiliza o termo grego \u2018l\u00f3gos\u2019 (cuja tradu\u00e7\u00e3o para portugu\u00eas por \u2018Verbo\u2019 \u2013 do termo latino \u2018verbum\u2019\u2013 atenuou a for\u00e7a do significado), em que se congregam ideias como a de \u2018palavra\u2019, \u2018pensamento\u2019, mas tamb\u00e9m \u2018a\u00e7\u00e3o\u2019 e, numa densifica\u00e7\u00e3o da etimologia, podemos chegar \u00e0 ideia de \u2018reunir\u2019, \u2018recolher\u2019, \u2018juntar\u2019 (\u2018Logos\u2019, in <em>Logos, <\/em>vol. 3, p. 475<em>). <\/em>Jo\u00e3o sabe que Aquele que \u2018recolhe\u2019, junta, re\u00fane\u2019 \u00e9, Ele mesmo o \u2018Reunido\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No mist\u00e9rio do Natal, afirma-se, enfim, que a realidade \u00e9 toda ela &#8211; face \u00e0s for\u00e7as que pretendem cindir, separar, dividir &#8211; intrinsecamente simb\u00f3lica, isto \u00e9, agregadora, unitiva. O Natal supera, por isso, a tenta\u00e7\u00e3o de Ad\u00e3o: queria ser, unidimensionalmente \u2013 s\u00f3 ele, fechado em si, autossuficiente, uma s\u00f3 dimens\u00e3o. O Natal \u00e9 a explicita\u00e7\u00e3o de que a realidade se define, essencialmente, como unidade da alteridade, como encontro, como \u2018lan\u00e7ar juntamente\u2019 e n\u00e3o como separa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 por isso (e precisamente por isso!) que a religi\u00e3o que nasceu deste mist\u00e9rio fundamental foi a criadora da ideia de pessoa. N\u00e3o somos indiv\u00edduos fechados, autossuficientes, mas \u2018pessoas\u2019, seres intrinsecamente defin\u00edveis a partir do encontro, do ver-se e compreender-se a partir do tu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo isto est\u00e1 em causa, nestes tempos em que o Natal voltou a densificar-se como esc\u00e2ndalo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Verdadeiramente, \u00e9 preciso voltar a anunciar que um Salvador nos nasceu, de uma vez por todas, para nos salvar do risco e da tenta\u00e7\u00e3o da divis\u00e3o, da dissolu\u00e7\u00e3o da unidade incind\u00edvel que define o ser humano, feito de \u2018h\u00famus\u2019, de terra, de p\u00e9s no ch\u00e3o real\u2026 Somos o que Deus quis ao criar-nos como Ad\u00e3o: imagem e semelhan\u00e7a no facto de sermos rela\u00e7\u00e3o, encontro, real e feito do p\u00f3 e da terra onde nos realizamos. Somos um fazer-se\u2026 N\u00e3o um pensamento e alma imut\u00e1vel e definitivamente realizada e implantada num corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Natal restaura a humanidade como humana, contra a sedu\u00e7\u00e3o dos \u00edmanes judaico e grego.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;, &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/cdd20-1193381\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=7004820\">\u611a\u6728\u6df7\u682a Cdd20<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=7004820\">Pixabay<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo originalmente publicado<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":18619,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,14],"tags":[],"class_list":["post-18618","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-temas-para-debate"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18618","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18618"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18618\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18620,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18618\/revisions\/18620"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18619"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18618"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18618"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18618"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}