{"id":18615,"date":"2024-12-05T11:36:43","date_gmt":"2024-12-05T11:36:43","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=18615"},"modified":"2024-12-23T11:46:10","modified_gmt":"2024-12-23T11:46:10","slug":"luis-manuel-pereira-da-silva-o-elogio-do-assentimento-para-uma-sociedade-da-confianca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/luis-manuel-pereira-da-silva-o-elogio-do-assentimento-para-uma-sociedade-da-confianca\/","title":{"rendered":"Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva | O elogio do assentimento: Para uma sociedade da confian\u00e7a!"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo originalmente publicado na <a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-elogio-do-assentimento-para-uma-sociedade-da-confianca\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ag\u00eancia Ecclesia<\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>(Car\u00edssimo leitor, antes de iniciar a leitura deste artigo, solicito-lhe que verifique a sua respira\u00e7\u00e3o. D\u00ea-se conta de que respira.<\/p>\n<p>Assegurado dessa condi\u00e7\u00e3o, pode, ent\u00e3o, prosseguir, lendo esta reflex\u00e3o\u2026)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A modernidade, particularmente ap\u00f3s a convic\u00e7\u00e3o cartesiana de que precisamos de nos certificar, em cada momento, da verdade das nossas convic\u00e7\u00f5es, gerou na humanidade uma atitude de desconfian\u00e7a constante.<\/p>\n<p>Para mais, Descartes, n\u00e3o satisfeito com essa pretensa seguran\u00e7a, deslocou a fonte da certeza e da confian\u00e7a para o sujeito individualmente considerado e solipsisticamente isolado.<\/p>\n<p>O fil\u00f3sofo franc\u00eas lan\u00e7ou, de uma assentada, um duplo envenenamento na estrutura mais basilar da condi\u00e7\u00e3o humana: gerou-lhe, por um lado, uma condi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o de d\u00favida met\u00f3dica, como dizia pretender, mas de d\u00favida sistem\u00e1tica, e, por outro, convenceu-nos de que a sua resolu\u00e7\u00e3o s\u00f3 poderia operar-se rompendo os la\u00e7os com os demais.<\/p>\n<p>Ficou o sujeito isolado, na sua d\u00favida e busca de certezas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>(Car\u00edssimo leitor, recordo que dever\u00e1 assegurar-se das boas condi\u00e7\u00f5es respirat\u00f3rias. Inspire\u2026 Expire\u2026<\/p>\n<p>Verificadas as condi\u00e7\u00f5es, prossiga com a leitura.)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sobrou uma solid\u00e3o suicida, em que os outros se afiguram como estorvo e impedimento. Se a d\u00favida s\u00f3 se resolve na busca interna de ideias claras e distintas, o outro, diante de mim, para al\u00e9m de poder ser nada mais do que uma proje\u00e7\u00e3o, \u00e9 dispens\u00e1vel e, no limite, um aut\u00eantico obst\u00e1culo \u00e0 minha busca de me realizar, sendo, no dizer de Sartre, muitos s\u00e9culos depois, um inferno (\u2018o inferno s\u00e3o os outros\u2019, conclu\u00eda\u2026).<\/p>\n<p>Os esfor\u00e7os por resolver este n\u00f3 g\u00f3rdio que herd\u00e1mos de Ren\u00e9 Descartes t\u00eam falhado, muito provavelmente porque se prop\u00f5em desfaz\u00ea-lo mantendo a convic\u00e7\u00e3o mais estruturante do pensamento cartesiano. Quem procura desfazer o n\u00f3 mant\u00e9m-se convicto de que o pensamento humano s\u00f3 \u00e9 seguro se for c\u00e9tico, se partir, a cada momento, da estaca zero, sem nada pressupor como merecedor de confian\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>(Meu bom amigo leitor, n\u00e3o avance sem voltar a verificar que respira. Inspire\u2026 Expire\u2026<\/p>\n<p>Agora, avance\u2026)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Um tal quadro promoveu a convic\u00e7\u00e3o societ\u00e1ria de que a aut\u00eantica conviv\u00eancia entre os humanos s\u00f3 poderia garantir-se, j\u00e1 n\u00e3o assente em pressupostos tomados como seguros e universalmente aceit\u00e1veis, mas sobre uma neutralidade a-hist\u00f3rica considerada a \u00fanica condi\u00e7\u00e3o poss\u00edvel para que sujeitos isolados pudessem entender-se, pois de nenhum se pressup\u00f5e o que quer que seja.<\/p>\n<p>O corol\u00e1rio deste processo est\u00e1 diante de todos.<\/p>\n<p>Vivemos em sociedades em que nem a hist\u00f3ria pessoal de cada indiv\u00edduo, mesmo quando acompanhado pelos seus progenitores que o viram nascer (menino ou menina), mas que desconhecem em que \u2018ideias claras e distintas\u2019 vai assentar a sua vida, pode ser tomada como pressuposta ou confi\u00e1vel. O sujeito, isolado e solit\u00e1rio, \u00e9 que tem o poder de dizer que identidade o define. Os outros n\u00e3o lhe podem aceder, oculto que est\u00e1 no seu pensamento fechado e hermeticamente enclausurado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>(Amigo leitor, fa\u00e7a uma \u00faltima verifica\u00e7\u00e3o da sua respira\u00e7\u00e3o. Inspire\u2026 Expire\u2026<\/p>\n<p>Pode avan\u00e7ar\u2026)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O percurso, presum\u00edvel desde o in\u00edcio, pois as sementes permitiam vislumbrar a natureza da \u00e1rvore que delas brotaria, deveria ser suficiente para que as sociedades devessem ter h\u00e1 muito abandonado os pressupostos cartesianos aqui enunciados.<\/p>\n<p>Nenhum ser humano se estrutura, saudavelmente, sobre os pressupostos em que Descartes fez assentar a (sua) modernidade.<\/p>\n<p>Uma outra modernidade deveria t\u00ea-la suplantado, imediatamente.<\/p>\n<p>Uma outra assente sobre a \u2018ideia clara e distinta\u2019 \u2013 sim! \u2013 de que a primeira certeza que temos \u00e9 a da exist\u00eancia dos outros. Eles est\u00e3o a\u00ed, diante de n\u00f3s, e \u00e9 deles que herdamos todas as sementes que, em n\u00f3s, germinar\u00e3o com os tra\u00e7os que lhes acrescentaremos, com o avan\u00e7ar da nossa exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Herdamos deles a biologia, a nossa base psicol\u00f3gica, a descoberta do \u2018tu\u2019 diante do qual nos tornamos \u2018eu\u2019, a l\u00edngua, a cultura, etc.<\/p>\n<p>Herdamos e \u00e9 diante da heran\u00e7a que nos diferen\u00e7amos e n\u00e3o, como Descartes pressup\u00f5e, somos uma t\u00e1bua rasa em que, posteriormente, se \u2018colam\u2019 os elementos vindos do exterior.<\/p>\n<p>N\u00f3s somos n\u00f3 de encontros e, nesse pressuposto, distinguimo-nos, num segundo momento (num movimento de exterioriza\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>O primeiro momento n\u00e3o \u00e9, por isso, o da reflex\u00e3o \u2018clara e distinta\u2019. O primeiro momento \u00e9 o do assentimento, o da anu\u00eancia, o do acolhimento do que recebemos e diante do qual, num segundo momento, nos distinguimos.<\/p>\n<p>Uma sociedade assim, uma sociedade do assentimento, \u00e9 uma sociedade baseada na confian\u00e7a, ao inv\u00e9s da sociedade cartesiana, estruturada sobre a desconfian\u00e7a e a d\u00favida sistem\u00e1tica.<\/p>\n<p>Como defendi, j\u00e1 h\u00e1 algum tempo, urge inverter a \u2018d\u00favida met\u00f3dica\u2019 para um registo de \u2018confian\u00e7a met\u00f3dica\u2019, o assentimento que pressup\u00f5e que o outro n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 um inferno, como \u00e9, inclusive, a condi\u00e7\u00e3o de possibilidade de existirmos.<\/p>\n<p>Sem o outro, diante do qual nos tornamos \u2018eu\u2019, jamais emergiria a consci\u00eancia de n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>Esse assentimento n\u00e3o \u00e9, por\u00e9m, fruto de uma reflex\u00e3o discursiva, racional, mas \u00e9 meta-racional, anterior \u00e0 pr\u00f3pria racionalidade.<\/p>\n<p>\u00c9, ali\u00e1s, semelhante ao que acontece, biologicamente, com cada ser humano.<\/p>\n<p>N\u00e3o estamos, permanentemente, a verificar a nossa respira\u00e7\u00e3o (como \u2018teimosamente\u2019, fui solicitando, ao longo deste texto). S\u00f3 quando estamos doentes ou a precisar de reparar desvirtua\u00e7\u00f5es \u00e9 que nos detemos no respirar. Que o digam os que, por doen\u00e7as pulmonares, precisam de aux\u00edlio para este t\u00e3o b\u00e1sico ato! Quanto desejam n\u00e3o ter de pensar no respirar!<\/p>\n<p>Mas, sem ser por situa\u00e7\u00e3o patol\u00f3gica, a nossa exist\u00eancia n\u00e3o precisa de estar a racionalizar o seu respirar. Pressup\u00f5e-no!<\/p>\n<p>Dir-nos-\u00e1 esta necessidade cartesiana de sempre p\u00f4r em causa os pressupostos, com tantos custos societ\u00e1rios, que esta \u00e9, afinal, uma \u2018modernidade\u2019 doente?<\/p>\n<p>Exigem-nos que sempre nos fixemos na \u2018inspira\u00e7\u00e3o\u2019 \u2013 \u2018expira\u00e7\u00e3o\u2019\u2026 Quando poderemos, afinal, viver como humanos?&#8230;<\/p>\n<p>S\u00f3 quando aceitarmos que a vida se baseia, afinal, num genu\u00edno e \u2018met\u00f3dico\u2019 assentimento, o reconhecimento de que, para sermos acolhidos temos de estarmos dispostos a acolher o outro.<\/p>\n<p>Respire fundo, caro leitor. Pode, finalmente, viver!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;, &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/dmz-254927\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=1662614\">D Mz<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=1662614\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo originalmente publicado<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":18616,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,14],"tags":[],"class_list":["post-18615","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-temas-para-debate"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18615","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18615"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18615\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18617,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18615\/revisions\/18617"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18616"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18615"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18615"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18615"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}