{"id":186,"date":"2017-01-19T15:21:17","date_gmt":"2017-01-19T15:21:17","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=186"},"modified":"2017-12-20T10:01:45","modified_gmt":"2017-12-20T10:01:45","slug":"uma-homenagem-sempre-insuficiente-e-um-testemunho-sentido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/uma-homenagem-sempre-insuficiente-e-um-testemunho-sentido\/","title":{"rendered":"Uma homenagem sempre insuficiente e um testemunho sentido"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\">A pretexto da condecora\u00e7\u00e3o do professor Daniel Serr\u00e3o, a t\u00edtulo p\u00f3stumo, com\u00a0Gr\u00e3-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, atribu\u00edda pelo senhor Presidente da Rep\u00fablica, republicamos artigo sobre a obra \u00edmpar deste insigne m\u00e9dico e defensor da dignidade da vida humana.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: center;\">Daniel Serr\u00e3o &#8211; Uma vida pela vida<\/h2>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Uma homenagem sempre insuficiente e um testemunho sentido<\/strong><\/p>\n<p>As palavras s\u00e3o escassas quando a obra \u00e9 imensa. E a vida do Professor Daniel Serr\u00e3o \u00e9 uma imensa obra jamais acabada, porque defender a dignidade da vida humana \u00e9 conquista nunca garantida, de que ele sempre teve consci\u00eancia. Atestam-no a sua entrega e dedica\u00e7\u00e3o sem limites. Todos os que, pelo pa\u00eds fora, se sentem lutadores pela causa da defesa da dignidade da vida humana reconhecem-se, nesta hora de perda deste s\u00e1bio \u00edmpar, como \u2018an\u00f5es aos ombros de um gigante\u2019. Daniel Serr\u00e3o \u00e9 um dos gigantes da nossa hist\u00f3ria e a mem\u00f3ria saber\u00e1 honrar essa sua condi\u00e7\u00e3o. A Daniel Serr\u00e3o devemos a uni\u00e3o dos esfor\u00e7os em horas em que o Pa\u00eds pareceu sucumbir perante dinamismos que pretendiam ofuscar a consci\u00eancia de que a dignidade humana n\u00e3o se perde, quaisquer que sejam as circunst\u00e2ncias. Uma uni\u00e3o que se fez de sabedoria, sensatez, clarivid\u00eancia e honestidade intelectual. Nunca vacilou, nunca desistiu, nunca parou.<\/p>\n<p>Qualidades que lhe valeram o reconhecimento nacional e internacional de que s\u00e3o exemplo a perten\u00e7a \u00e0 Academia Pontif\u00edcia para a Vida, a convite do Papa S. Jo\u00e3o Paulo II, ao Conselho Nacional de \u00c9tica para as Ci\u00eancias da Vida em representa\u00e7\u00e3o da Academia das Ci\u00eancias, ao Comit\u00e9 Internacional de Bio\u00e9tica da UNESCO, ao Comit\u00e9 Diretor de Bio\u00e9tica do Conselho da Europa, entre tantos outros cargos.<\/p>\n<p>Mas o professor Daniel Serr\u00e3o \u00e9 muito mais do que um curr\u00edculo \u00edmpar, invulgar, singular. Surpreendia a sua total disponibilidade, mesmo quando se sabia que muitas eram as solicita\u00e7\u00f5es. Um dia, em Aveiro, no CUFC, por ocasi\u00e3o da apresenta\u00e7\u00e3o do seu livro \u00abAqui diante de mim\u00bb, resultado de entrevistas dadas a Henrique Manuel, quando lhe perguntaram como conseguia corresponder a tantos desafios, confidenciou que nunca adiava nada. Tudo era feito no tempo devido.<\/p>\n<p>Aceitava todos os convites para partilhar o seu enorme saber, a sua inteligente leitura dos desafios. E quem o convidava tinha uma certeza: o professor Daniel Serr\u00e3o falava com a seguran\u00e7a de quem tem autoridade! Nenhuma afirma\u00e7\u00e3o era infundada. A l\u00f3gica perpassava o seu discurso com a humanidade de algu\u00e9m que se sabia um defensor da vida, particularmente quando mais fragilizada.<\/p>\n<p>A sua liga\u00e7\u00e3o a Aveiro e disponibilidade para visitar a cidade e o seu distrito eram not\u00f3rias e come\u00e7am bem cedo na sua vida. Em 1944, completou, em Aveiro, o curso geral dos liceus. Talvez tal ajude a compreender que tenha tido sempre uma palavra de prontid\u00e3o perante os muitos convites com que as institui\u00e7\u00f5es a que tive a honra de pertencer lhe foram formulando.<\/p>\n<p>A minha rela\u00e7\u00e3o com o professor Daniel Serr\u00e3o come\u00e7a em 1998. Eu estava ainda a completar o curso, na Universidade Cat\u00f3lica, no Porto, e fazia parte do grupo de base da Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica Rural que o convidou para, em 13 de maio de 1998, falar, em Pessegueiro do Vouga, sobre \u00abvida, um valor a amar\u00bb. Aqui come\u00e7ava um caminho e uma rela\u00e7\u00e3o de amizade que se estendeu pelo tempo. Mais ainda. Esta sua pronta resposta gerou em mim o reconhecimento de uma d\u00edvida que um dia lhe confidenciei. A ele e ao Professor Walter Osswald devo terem-me mostrado que pod\u00edamos beneficiar do saber destes homens singulares, pois eles estavam dispon\u00edveis para aceitar os nossos convites. A prontid\u00e3o da aceita\u00e7\u00e3o do professor Daniel Serr\u00e3o desarmou-me.<\/p>\n<p>Nesse mesmo ano, em 6 de junho de 1998, voltou a Sever do Vouga para participar em debate sobre o aborto e o referendo. Tive a honra de o ir buscar a \u00c1gueda e virmos os dois em conversa honesta e transparente de que guardo confid\u00eancias que me ajudaram a compreender a realidade nacional. Compreendia os dinamismos da sociedade portuguesa como poucos&#8230;<\/p>\n<p>No ano seguinte, em 12 de mar\u00e7o de 1999, regressou a Pessegueiro do Vouga, a convite em nome da Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica Rural para falar sobre \u2018sexualidade e educa\u00e7\u00e3o\u2019 , no contexto das Jornadas da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Alguns anos mais tarde, em 17 abril 2006, convidei-o para um debate, em Estarreja, sobre \u00ababorto, crime ou direito?\u00bb, realizado na Biblioteca Municipal daquela cidade.<\/p>\n<p>Dois dias depois (a sua disponibilidade era, de facto, desarmante!), participava num debate sobre \u00abEmbri\u00f5es excedent\u00e1rios humanos: que estatuto? Que futuro?\u00bb, realizado no audit\u00f3rio de Pessegueiro do Vouga, para um p\u00fablico de alunos da escola secund\u00e1ria de Sever do Vouga, onde eu era e fui professor at\u00e9 2009. Surpreendera, nesse dia, a sua capacidade de adequar o discurso ao destinat\u00e1rio juvenil. Um mestre, n\u00e3o s\u00f3 na erudi\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m na pedagogia!<\/p>\n<p>Em 3 de fevereiro de 2010, participou numa das primeiras tert\u00falias \u00e0 quarta, subordinada ao tema \u00abExiste o direito de morrer?\u00bb, realizada no CUFC, em Aveiro, por iniciativa do Iscra, a cuja dire\u00e7\u00e3o eu pertencia nessa altura. Moderei este debate em que recordei palavras do pr\u00f3prio professor Daniel Serr\u00e3o, t\u00e3o significativas, nesta hora em que evocamos a sua marca:<\/p>\n<p>\u00abCom a morte de cada homem termina um universo cultural espec\u00edfico, mais ou menos rico mas sempre<\/p>\n<p>original e irrepet\u00edvel. O que o homem deixa quando morre &#8211; os seus escritos, os objectos culturais que criou, a mem\u00f3ria da sua palavra, dos seus gestos ou do seu sorriso naqueles que com ele viveram, os filhos que gerou &#8211; tudo exprime uma realidade que est\u00e1 para al\u00e9m do corpo f\u00edsico, de um certo corpo f\u00edsico que esse homem usou para viver o seu limitado tempo pessoal de ser homem.\u00bb<\/p>\n<p>In &#8220;Viver, envelhecer e morrer com dignidade&#8221;<\/p>\n<p>A mesma organiza\u00e7\u00e3o (Iscra) promoveu, em colabora\u00e7\u00e3o com a Editora Esfera do Caos, a apresenta\u00e7\u00e3o do livro \u00abaqui, diante de mim\u00bb, no CUFC, em 29 de mar\u00e7o de 2012, obra apresentada por D. Ant\u00f3nio Marcelino, Bispo Em\u00e9rito de Aveiro, estando tamb\u00e9m presente o jornalista Henrique Manuel, autor das entrevistas que deram origem ao livro. O pr\u00f3prio Henrique Manuel partilhava, ali, a sua surpresa perante a prontid\u00e3o com que o professor Daniel Serr\u00e3o, ent\u00e3o j\u00e1 com 84 anos, respondia a todas as perguntas que o jornalista lhe enviava.<\/p>\n<p>Em 17 de maio de 2012, participou no ciclo de cinema vida, dedicado \u00e0 eutan\u00e1sia, tendo analisado o filme \u00abone million dollar baby\u00bb.<\/p>\n<p>J\u00e1 em 2013 aceita, sem qualquer reserva, o convite para escrever um conto para o livro que a ADAV-Aveiro estava a organizar para as comemora\u00e7\u00f5es dos seus 15 anos, que se celebrariam em julho de 2015. Como sempre, o professor Daniel Serr\u00e3o n\u00e3o adiava. Convidei-o para escrever o conto em 24 de maio de 2013. Estava em viagem e logo me respondeu de um aeroporto, dizendo que aceitava. No dia 15 de junho de 2013, enviou-me o conto \u00abA singularidade de um Sem-Abrigo\u00bb. As comemora\u00e7\u00f5es ocorreram em 4 de julho de 2015. J\u00e1 o professor Daniel Serr\u00e3o sofrera o grave atropelamento que o deixou enfermo desde outubro de 2014. Mas a ADAV reservou uma homenagem e reconhecimento de que o livro \u00aba vida conta\u2026 branco no preto\u00bb \u00e9 um dos mais significativos sinais.<\/p>\n<p>O modo como termina o conto ilustram a causa que abra\u00e7ou em toda a sua vida. Ao professor Daniel Serr\u00e3o entrego, a fechar esta breve homenagem sempre insuficiente e dolorosamente sentida, as \u00faltimas palavras. Porque a quem \u00e9 maior se deve dar a \u00faltima palavra, n\u00e3o sem antes lhe dizer \u00abObrigado, Professor Daniel Serr\u00e3o e at\u00e9 \u00e0 eternidade\u00bb:<\/p>\n<p>\u00abFoi a minha vez de ficar silencioso a reflectir sobre o que acabava de ouvir.<\/p>\n<p>De facto a dignidade humana n\u00e3o se perde com ser pobre nem com ser auto-exclu\u00eddo da sociedade onde os outros habitam e se sentem bem, mesmo que de modo hip\u00f3crita.<\/p>\n<p>A dignidade do ser humano radica na sua natureza intr\u00ednseca e estruturante: um ser vivo da esp\u00e9cie humana que ama e pensa. Bem ou mal, n\u00e3o importa.<\/p>\n<p>E porque acredito na Transcend\u00eancia, acrescento \u00e0 dignidade natural a dignidade espiritual que \u00e9 recebida por todo o ser humano como criatura de Deus transcendente. Ou do Alt\u00edssimo, como sempre se diz na Tradi\u00e7\u00e3o hebraica.<\/p>\n<p>Olhei o Jos\u00e9 Maria, um singular Sem-Abrigo, uma \u00faltima vez, sem lhe falar. E vi nele um homem digno sob os andrajos, a sujidade e a duvidosa higiene. [\u2026]\u00bb<\/p>\n<p>(Do conto: A singularidade de um Sem-Abrigo in <em>A vida conta\u2026 branco no preto<\/em>. Aveiro: Editora Tempo Novo, 2015)<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Lu\u00eds Silva \u2013 Presidente da ADAV-Aveiro e da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pretexto da<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2957,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46,72,55,13,70,14],"tags":[],"class_list":["post-186","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-autores","category-bioetica-e-sociedade","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-olhares","category-para-memoria","category-temas-para-debate"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/186","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=186"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/186\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2959,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/186\/revisions\/2959"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2957"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=186"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=186"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=186"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}