{"id":18587,"date":"2024-12-13T15:54:12","date_gmt":"2024-12-13T15:54:12","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=18587"},"modified":"2024-12-13T22:26:33","modified_gmt":"2024-12-13T22:26:33","slug":"victor-bandeira-um-olhar-atento-ao-tempo-que-flui-6-antigas-mezinhas-usadas-por-sacerdotes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/victor-bandeira-um-olhar-atento-ao-tempo-que-flui-6-antigas-mezinhas-usadas-por-sacerdotes\/","title":{"rendered":"Victor Bandeira &#8211; &#8216;Um olhar atento ao tempo que flui&#8217; | 6 | Antigas mezinhas usadas por sacerdotes"},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Um olhar atento ao tempo que flui<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Victor Bandeira*<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O esp\u00f3lio que reapareceu \u00e0 luz do dia em Dezembro de 2022, pertencente ao Padre Miguel Henriques (1873-1948, natural de Veiros &#8211; Estarreja), inclu\u00eda uma s\u00e9rie de apontamentos com curiosidades das mais diversas \u00edndoles. Entre elas, destacam-se duas receitas de mezinhas caseiras, pass\u00edveis de serem confecionadas por qualquer pessoa em casa. Uma das mezinhas tinha como finalidade atenuar a \u201ctosse com rouquid\u00e3o\u201d, a outra, problemas estomacais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira mezinha foi transcrita a 19 de Novembro de 1935, pelo Padre Miguel Henriques, a partir do Livro de Fam\u00edlia do Dr. Jo\u00e3o Carlos d\u2019Assis Pereira de Melo, do lugar da M\u00e2moa, em Veiros, que se encontrava, \u00e0 data, na m\u00e3o de seu filho, Dr. Joaquim L\u00edvio d\u2019Assis Pereira de Melo, propriet\u00e1rio da casa e quinta que foi dos seus pais:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00ab<em>Rem\u00e9dio para a tosse com rouquid\u00e3o ou perda de voz, filha de constipa\u00e7\u00e3o e catarro _<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Coze-se um pouco de milho branco e, depois de coada a \u00e1gua, toma-se ado\u00e7ada com a\u00e7\u00facar, pela manh\u00e3, em jejum. Dentro de dois ou tr\u00eas dias fica o doente com a voz natural.<\/em>\u00bb (transcri\u00e7\u00e3o com a norma actual)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, hoje em dia, este rem\u00e9dio seria dif\u00edcil de replicar, porque o milho branco j\u00e1 \u00e9 complicado encontrar, em virtude de ter vindo a ser substitu\u00eddo pelo milho amarelo (embora o milho branco fosse, outrora, muito utilizado para fazer a farinha de milho com que se fazia a massa para o p\u00e3o). Deve ter-se em considera\u00e7\u00e3o que o a\u00e7\u00facar utilizado, \u00e0 \u00e9poca, era o a\u00e7\u00facar amarelo e n\u00e3o o a\u00e7\u00facar branco refinado, mais utilizado na actualidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda mezinha \u00e9 referente a um rem\u00e9dio que, segundo o Padre Miguel Henriques, lhe foi transmitido por um primo, chamado Jo\u00e3o, que vivia na Malhada, um pequeno arruamento\/lugar de Veiros. Este rem\u00e9dio serviria para o restabelecimento do est\u00f4mago:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00ab<em>Lembran\u00e7a de um rem\u00e9dio que deu nosso primo Jo\u00e3o, da Malhada<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Primeiramente uma p\u00facara que leve um quartilho de \u00e1gua quente a ferver. Depois juntar uma por\u00e7\u00e3o de flor de sabugueiro e outra de cabe\u00e7as de marcela. E depois deitar-lhe dentro at\u00e9 arrefecer. E depois deitar-lhe meio quartilho de mel e, meio de aguardente, primeiro que torne o lume, digo depois de tornar ao lume, a desfazer o mel. Depois se deitar\u00e1 numa garrafa e se tomar\u00e1 cada dia, em jejum, um quarteir\u00e3o de quartilho.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Diz que \u00e9 muito bom para restabelecer o est\u00f4mago e livrar de maior mol\u00e9stia.<\/em>\u00bb (transcri\u00e7\u00e3o com a norma actual)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para esta segunda receita, em termos de medidas, um quartilho corresponde a meio litro. Assim, a prepara\u00e7\u00e3o da mezinha inicia com a fervura de meio litro de \u00e1gua, prevendo ainda a introdu\u00e7\u00e3o de 250 mL de mel e a mesma medida em aguardente. Quanto aos ingredientes mais relacionados com a flora utilizada, a receita n\u00e3o faz indica\u00e7\u00e3o das quantidades das estruturas das duas esp\u00e9cies que a comp\u00f5em, depreendendo-se que seja ao gosto de cada preparador. Deste modo, utilizam-se flores de sabugueiro (<em>Sambucus nigra<\/em> L.), cuja \u00e9poca de flora\u00e7\u00e3o ocorre entre Fevereiro e Setembro, o que restringe a sua utiliza\u00e7\u00e3o ao per\u00edodo entre o Inverno e o Ver\u00e3o. A segunda esp\u00e9cie utilizada \u00e9 a marcela [ex. <em>Chamaemelum nobile<\/em> (L.) All.], em que se faz refer\u00eancia a uma por\u00e7\u00e3o de cabe\u00e7as desta flor a adicionar \u00e0 receita. De facto, torna-se percept\u00edvel de que estrutura se trata (cabe\u00e7as), dado que esta pequena herb\u00e1cea apresenta duas variedades, uma com e outra sem flores liguladas de cor branca que envolvem as flores centrais de cor amarela, ficando, apenas, a \u201ccabe\u00e7a\u201d da flor. Na verdade, a estrutura nesta esp\u00e9cie a que n\u00f3s vulgarmente chamamos de flor, trata-se de um conjunto de flores da fam\u00edlia das Compostas, a fam\u00edlia Asteraceae. O per\u00edodo de flora\u00e7\u00e3o \u00e9 menor do que o do sabugueiro, ocorrendo entre Abril e Setembro. Deste modo, depreende-se que esta mezinha s\u00f3 poderia ser feita entre os meses de Abril e Setembro, isto \u00e9, na Primavera e no Ver\u00e3o, quando \u00e9 poss\u00edvel encontrar as estruturas florais mencionadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 curioso que ambas as mezinhas poderiam ser extremamente necess\u00e1rias para o bem-estar e a qualidade de vida de um sacerdote.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira porque, segundo o apontamento, ao fim de um per\u00edodo de tr\u00eas dias, clareava a voz, atenuava a tosse ou a rouquid\u00e3o, permitindo que o sacerdote voltasse a ter a voz natural. (A voz \u00e9 um instrumento e uma ferramenta indispens\u00e1vel ao sacerdote para poder celebrar a liturgia, administrar os sacramentos, proferir as homilias, os \u201cserm\u00f5es\u201d e as \u201cprega\u00e7\u00f5es\u201d, como tal, era imprescind\u00edvel mant\u00ea-la funcional e saud\u00e1vel.)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda mezinha, porque atenuava os problemas estomacais, restabeleceria o est\u00f4mago e a sua fun\u00e7\u00e3o, cujas disfun\u00e7\u00f5es poderiam ser incomodativas e, por vezes, em situa\u00e7\u00f5es mais agudas, poderiam impedir o sacerdote de continuar o seu dia de trabalho na par\u00f3quia com tais indisposi\u00e7\u00f5es. O sacerdote era elemento convidado \u201cobrigat\u00f3rio\u201d em festas de fam\u00edlia, nas festas dos sacramentos, ou dos oragos da par\u00f3quia, e a sua passagem pelas v\u00e1rias casas e fam\u00edlias poderia ser motivo suficiente para mais abusos na dieta, o que o levaria a comprometer a agenda para as horas, ou dias seguintes. A ingest\u00e3o da segunda mezinha poderia ser a sua salva\u00e7\u00e3o, tomando cerca de 125 mL do rem\u00e9dio, em jejum e a cada dia.<\/p>\n<div id='gallery-1' class='gallery galleryid-18587 gallery-columns-2 gallery-size-thumbnail'><figure class='gallery-item'>\n\t\t\t<div class='gallery-icon landscape'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/victor-bandeira-um-olhar-atento-ao-tempo-que-flui-6-antigas-mezinhas-usadas-por-sacerdotes\/figura-1-3\/'><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Figura-1-150x150.jpg\" class=\"attachment-thumbnail size-thumbnail\" alt=\"\" aria-describedby=\"gallery-1-18588\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<figcaption class='wp-caption-text gallery-caption' id='gallery-1-18588'>\n\t\t\t\tFigura 1. Digitaliza\u00e7\u00e3o do apontamento do Padre Miguel Henriques, transcrito em 1935, com a mezinha confecionada com milho branco, a\u00e7\u00facar amarelo e \u00e1gua\n\t\t\t\t<\/figcaption><\/figure><figure class='gallery-item'>\n\t\t\t<div class='gallery-icon landscape'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/victor-bandeira-um-olhar-atento-ao-tempo-que-flui-6-antigas-mezinhas-usadas-por-sacerdotes\/figura-2-3\/'><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Figura-2-150x150.jpg\" class=\"attachment-thumbnail size-thumbnail\" alt=\"\" aria-describedby=\"gallery-1-18589\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<figcaption class='wp-caption-text gallery-caption' id='gallery-1-18589'>\n\t\t\t\tFigura 2. Digitaliza\u00e7\u00e3o do apontamento do Padre Miguel Henriques com a mezinha confecionada com sabugueiro, marcela, mel, aguardente e \u00e1gua.\n\t\t\t\t<\/figcaption><\/figure>\n\t\t<\/div>\n\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>Refer\u00eancias<\/p>\n<p>Pinho R., Lopes L., Maia P. &amp; Marques R. (2018). Guia de Flora \u2013 Baixo Vouga Lagunar. C\u00e2mara Municipal de Estarreja. Estarreja. 363 pp.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\">Figura 1. Digitaliza\u00e7\u00e3o do apontamento do Padre Miguel Henriques, transcrito em 1935, com a mezinha confecionada com milho branco, a\u00e7\u00facar amarelo e \u00e1gua.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\">Figura 2. Digitaliza\u00e7\u00e3o do apontamento do Padre Miguel Henriques com a mezinha confecionada com sabugueiro, marcela, mel, aguardente e \u00e1gua.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align: right;\"><span lang=\"PT\"><span class=\"font\"><span class=\"size\">*Victor Bandeira, PhD<\/span><\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: right;\"><span class=\"font\"><span class=\"size\">Departamento de Biologia e CESAM \u2013 Centro de Estudos do Ambiente e do Mar<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: right;\">\n<p><span lang=\"PT\"><span class=\"font\"><span class=\"size\">Universidade de Aveiro<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<hr \/>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um olhar atento<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":18588,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[202,203],"tags":[],"class_list":["post-18587","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-indagando-um-olhar-atento-ao-tempo-que-flui","category-victor-bandeira"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18587","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18587"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18587\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18592,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18587\/revisions\/18592"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18588"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18587"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18587"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18587"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}