{"id":18242,"date":"2025-05-23T07:00:18","date_gmt":"2025-05-23T06:00:18","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=18242"},"modified":"2025-12-16T13:39:48","modified_gmt":"2025-12-16T13:39:48","slug":"mysterios-lusitanos-contos-texto-12-misterio-no-monte-de-santo-adriao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/mysterios-lusitanos-contos-texto-12-misterio-no-monte-de-santo-adriao\/","title":{"rendered":"12 | Myst\u00e9rios lusitanos [contos &#8211; texto e locu\u00e7\u00e3o] | Mist\u00e9rio no monte de Santo Adri\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><em>Myst\u00e9rios lusitanos<\/em> | A vinte e tr\u00eas (23) de cada m\u00eas, habitamos o mundo pelo imagin\u00e1rio de Alberto Ferreyra&#8230;<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Nos ramos da escrita, repousam, vezes sem conta, as gralhas da distra\u00e7\u00e3o, ocultas, sob m\u00faltiplos disfarces, at\u00e9 que algu\u00e9m as enxote. Alberto Ferreyra contou com o fino olhar da sua amiga Teresa Correia, detentora do segredo da sua identidade, para afastar ou ca\u00e7ar o grasnar das gralhas. Est\u00e1-lhe, por isso, muito grato&#8230;)<\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Alberto Ferreyra*<\/strong><\/p>\n<p><iframe title=\"Mist\u00e9rio no Monte de Santo Adri\u00e3o\" width=\"640\" height='360' src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/PFUHcZLPFYA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Pai, onde nos levas, hoje?<br \/>\nM. percebia, no olhar profundo e suspenso do pai, que as duas asas da imagina\u00e7\u00e3o se aprontavam para os elevar da realidade onde ainda, temporariamente, moravam.<br \/>\n&#8211; Regresso aos meus dez anos, nas margens do Vouga. Ao crime dos \u2018tr\u00eas A\u2019s\u2019. Habito o tempo em que a m\u00e3o do dia se desprende, de vez, da da noite, num fim de tarde domingueiro. Est\u00e1 fresco\u2026 No recato das casas, j\u00e1 de lareira acesa, pois \u00e9 outono, as fam\u00edlias aconchegam-se em volta de um vetusto filme portugu\u00eas, ainda sem cor.<br \/>\nDois tiros acordam o anoitecer. Um, de bala branca, seguido, pouco depois, de outro, de bala preta. A natureza emudece, com o estertor da morte que se avizinha, fugidia.<br \/>\nUm homem caminha, em passo apressado, descendo da travessa do Constantino, onde esta se enamora com a rua do Souto da Lombinha.<br \/>\nNa sua sombra, dois corpos jazem, j\u00e1 sem vida: o seu primo, A., e a sua tia, A. Tamb\u00e9m ele \u00e9 A. Armanda, Alexandre e Am\u00e9rico\u2026 O dia jamais sair\u00e1 da mem\u00f3ria dos que o viveram: dezasseis de outubro de mil novecentos e oitenta e tr\u00eas.<br \/>\nPor onde caminha, aquele homem aprisiona a voz do que o rodeia. Tudo se emudece. Leva, consigo, uma sombra que n\u00e3o \u00e9 a sua. \u00c9 a do finar da vida com quem se casou, h\u00e1 muito. \u2026indiferente, por\u00e9m, pois j\u00e1 com ela convive, desde longa data, sem lhe reconhecer mal. \u00c9 assim com os homens que decidiram vender-se ao advers\u00e1rio, cindindo, nos seus cora\u00e7\u00f5es, o que de Deus receberam para unir.<br \/>\nSem alma, sem sangue, sem dor, encaminha-se, como se nada fosse com ele, para uma das tascas da terra. Esperam-no uns copos e umas gra\u00e7olas, at\u00e9 que o reconhecer\u00e3o, at\u00f3nitos, os que, entretanto, partilhar\u00e3o um curto jogo de sueca.<br \/>\nEnquanto os penetrantes gritos de dor se avolumam, perante o crime que abalar\u00e1, para sempre, a hist\u00f3ria destas gentes s\u00e3s, Am\u00e9rico diverte-se, como se numa hist\u00f3ria paralela e nunca cruzada com a real morasse.<br \/>\n&#8211; Pai, esta hist\u00f3ria est\u00e1 a dar-me arrepios. \u2013 J. parece assustado. \u2013 Como pode um homem acabar de matar duas pessoas e avan\u00e7ar, indiferente, no seu caminho?<br \/>\n&#8211; Foi uma das coisas mais dif\u00edceis de aceitar pelos que foram tomando consci\u00eancia do que acontecera. Havia uma frieza arrepiante, no agir daquele homem. A sua pr\u00f3pria m\u00e3e, &#8211; coitada, uma infeliz! \u2013 ter\u00e1 sido diversas vezes agredida por si. N\u00e3o se merece uma vida assim!<br \/>\n&#8211; E como reagiram os que foram sabendo do que acontecera? \u2013 M. morava a pergunta seguinte.<br \/>\n&#8211; A perplexidade tomou conta dos que, j\u00e1 no caf\u00e9 da Vinha D\u00f3nega, se sentavam \u00e0 mesa com ele para jogar cartas. Estranhamente, as roupas do criminoso n\u00e3o tinham ficado com marcas dos seus atos. Como que tinham sido tomadas da mesma indiferen\u00e7a com que ele perpetrara tudo aquilo. Nem elas quiseram ser c\u00famplices\u2026<br \/>\nDiz-se que os que estavam com ele s\u00f3 souberam quando, a meio de um jogo, decidiu ir \u00e0 casa de banho. At\u00f3nitos de raiva, fecharam-no, esperando pela guarda. Se sa\u00edsse, n\u00e3o sobreviveria.<br \/>\nEm seu redor, um sil\u00eancio incomodativo. As vozes n\u00e3o sa\u00edam das gargantas. Tudo se emudecera, solid\u00e1rio com os inocentes. Um jipe verde levou-o, e, com ele, a multid\u00e3o que pretendia fazer justi\u00e7a por suas m\u00e3os.<br \/>\nEntretanto, perto do lugar da Ermida, uma lenda parecia enrodilhar-se em forma de pergunta: pode uma filha de um homem assim ter bom cora\u00e7\u00e3o e soltar-se do fatal compromisso com o mal?<br \/>\nAnast\u00e1cia nascera de um fortuito e for\u00e7ado encontro de Am\u00e9rico com uma infeliz mo\u00e7a cujo nome pode ser o de todas as m\u00e3es que amaram os seus filhos desde sempre e para sempre. Mais uma vez, A. Apenas A.<br \/>\nCrescera na sombra que se oculta no intervalo entre a primeira e a segunda p\u00e1gina do tempo e do espa\u00e7o. Nesse lugar onde mora a imagina\u00e7\u00e3o e se decide o rumo do existir. Ningu\u00e9m parece ter algum dia visto o seu registo de nascimento, ningu\u00e9m parece t\u00ea-la, sequer, visto crescer. Mas nela moram todas as perguntas que uma hist\u00f3ria assim nos atira, com viol\u00eancia, ao rosto da alma.<br \/>\nAnast\u00e1cia fez-se mulher. Descobriu, um dia, de quem nascera e de quem se fizera um ser. Nela parecia germinar o mal como destino previamente tra\u00e7ado e a cumprir. Pois se de um pai assim se faziam os seus genes e se de um ato t\u00e3o negro fora concebida?!<br \/>\nDesejou n\u00e3o ter vivido. Desprezou-se e a tudo o que a sua exist\u00eancia significava.<br \/>\nFizera-se, por\u00e9m, mulher de f\u00e9. Primeiro, seguindo os passos de todas as tradi\u00e7\u00f5es, repetidas e ecoadas\u2026 Mas, vagar a vagar, percorrendo todas as prociss\u00f5es no seu interior, fora emergindo, em si, uma t\u00e9nue luz no negrume do seu viver.<br \/>\nVira-se triste, rendida, entregue\u2026<br \/>\nAs l\u00e1grimas de Maria Madalena, os passos noturnos de Nicodemos, os discretos espreitares de Zaqueu sobre o sic\u00f3moro fizeram-na, contudo, soerguer-se do ch\u00e3o talhado que prendia o caminhar. Das \u00e1guas de todas as reden\u00e7\u00f5es haveria de levantar-se e fazer-se mulher nova\u2026 livre! Mais forte do que todo o destino.<br \/>\nSete noites seguidas, um vulto assobiava ao barqueiro que assegurava a travessia entre as margens do Vouga: da margem direita para a esquerda. O sil\u00eancio preenchia o tempo da r\u00e1pida ponte feita sulco de bateira nas \u00e1guas serenas do rio.<br \/>\nSob uma longa capa, o vulto subia, ainda sombrio e silencioso, at\u00e9 \u00e0 casa do Costa, para se encaminhar para o Monte de Santo Adri\u00e3o, rumo ao alto do Cast\u00ealo. O lugar que fora, outrora, lugar de um crasto, haveria de assistir \u00e0 serena reden\u00e7\u00e3o e vit\u00f3ria sobre a for\u00e7a do destino.<br \/>\nSentado na mais alta pedra do Cast\u00ealo, aquele vulto voltava-se em dire\u00e7\u00e3o ao mar. Meditativo\u2026 O olhar longo. De esperan\u00e7a! O abismo seduzia. O abismo da morte, bem certo. Mas tamb\u00e9m o abismo sobre que havia que caminhar-se para o eterno. Diante de si, o contraste do esconde-esconde da luz com a noite. O branco e o escuro. O luar e a sua umbra\u2026<br \/>\nSete noites\u2026<br \/>\nDe chuva, de vento, de nevoeiro e tempestade\u2026 E de luar!<br \/>\nSete!<br \/>\nNa oitava noite, o vulto abeirou-se da margem. Largou a sua capa negra, qual noite sobre os ombros, assobiou ao barqueiro, deu-lhe nome \u2013 \u2018Caronte\u2019! -, despediu-se dele e n\u00e3o atravessou.<br \/>\nNessa noite, no cemit\u00e9rio novo, em Pessegueiro do Vouga, duas flores foram depositadas sobre o t\u00famulo de A. e A.: uma branca e uma negra. E o sil\u00eancio deu lugar \u00e0 melodia da esperan\u00e7a.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/tumisu-148124\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4203628\">Tumisu<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4203628\">Pixabay<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align: justify;\">*Alberto Ferreyra diz que as suas letras habitam a mente e saem da m\u00e3o de algu\u00e9m nascido em terras gaulesas, ainda que afirme, em sussurro, que o seu real nascimento ocorreu nas margens do Antu\u00e3, em abril de 2024. \u00c9, por isso, um prematuro autor liter\u00e1rio, germinado da inspira\u00e7\u00e3o que a realidade proporciona quando se tem a companhia, nos livros, de g\u00e9nios como Jorge Luis Borges, Miguel Torga, Gabriel Garc\u00eda Marquez ou personagens como Poirot ou Padre Brown.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Na sua escrita, cruzam-se o real e o imaginado, o fict\u00edcio e o hist\u00f3rico, numa embrenhada teia em que o leitor continua a ler, mesmo j\u00e1 depois de fechado o conto. O real continua a fecundar hist\u00f3rias na mente de quem l\u00ea Ferreyra. Cada conto, feito dos mist\u00e9rios desvelados, aproxima o tempo e distancia o espa\u00e7o, esticando-o at\u00e9 ao eterno e ao infinito. Ao ler Ferreyra, faz-se &#8216;sil\u00eancio&#8217; (&#8216;myst\u00e9rio&#8217; alude \u00e0 etimologia grega da palavra, que remete para o &#8216;fazer sil\u00eancio&#8217;, &#8216;emudecer-se&#8217;&#8230;) para que possam ecoar as palavras, para que possa desenovelar-se o enredo sucintamente desvelado.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">J. e M., protagonistas de cada um dos contos, acompanhados, em alguns deles, pelo seu periquito &#8216;branquinho&#8217;, fazem emergir, do real em que se enredam, hist\u00f3rias que, nascendo da imagina\u00e7\u00e3o de Ferreyra, permanecem como realidades poss\u00edveis, deixando a suspeita de terem mesmo ocorrido.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Se n\u00e3o foi real, Ferreyra o criar\u00e1, inspirado numa cosmovis\u00e3o que tanto deve \u00e0quela religi\u00e3o que fez do encarnado a condi\u00e7\u00e3o fundamental do existir.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A vinte e tr\u00eas (23) de cada m\u00eas, habitaremos o mundo pelo imagin\u00e1rio de Alberto Ferreyra&#8230;<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Myst\u00e9rios lusitanos |<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":17814,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[208,209],"tags":[],"class_list":["post-18242","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-alberto-ferreyra","category-mysterios-lusitanos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18242","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18242"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18242\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20094,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18242\/revisions\/20094"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17814"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18242"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18242"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18242"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}