{"id":18231,"date":"2024-12-07T07:07:06","date_gmt":"2024-12-07T07:07:06","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=18231"},"modified":"2024-08-28T17:15:53","modified_gmt":"2024-08-28T16:15:53","slug":"sabes-leitor-12-marca-de-agua-do-livro-de-mariolina-ceriotti-migliarese-o-casal-imperfeito-e-se-tambem-os-defeitos-fossem-um-ingrediente-do-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/sabes-leitor-12-marca-de-agua-do-livro-de-mariolina-ceriotti-migliarese-o-casal-imperfeito-e-se-tambem-os-defeitos-fossem-um-ingrediente-do-amor\/","title":{"rendered":"Sabes, leitor&#8230; | 12 | Marca de \u00e1gua do livro de Mariolina Ceriotti Migliarese, &#8216;O casal imperfeito: e se tamb\u00e9m os defeitos fossem um ingrediente do amor?&#8217;"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">Rubrica \u2018Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma p\u00e1gina\u2019** | <em>Marca de \u00e1gua de livros que deixam marcas profundas<\/em><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Parceria:<a href=\"https:\/\/www.federacaopelavida.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> <em>Federa\u00e7\u00e3o Portuguesa pela Vida<\/em><\/a> e<em> Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<pre style=\"padding-left: 80px;\"><strong>O autor e a obra<\/strong><\/pre>\n<h5 style=\"padding-left: 200px; text-align: justify;\">Mariolina Ceriotti Migliarese, O casal imperfeito: e se tamb\u00e9m os defeitos fossem um ingrediente do amor?, Apela\u00e7\u00e3o, Paulus Editora, 2022.<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mariolina Ceriotti Migliarese conjuga dimens\u00f5es raramente reunidas na mesma pessoa: o suporte cient\u00edfico (\u00e9 m\u00e9dica, neuropsiquiatra infantil e psicoterapeuta de adultos e casais), o realismo de quem conhece o \u2018barro de que somos feitos\u2019 (\u00e9 casada desde 1973 e m\u00e3e de seis filhos), uma consolidada base te\u00f3rica de antropologia [refletida na sua prol\u00edfica obra publicada: em portugu\u00eas, encontro edi\u00e7\u00f5es de \u2018O casal imperfeito\u2019 e de \u2018er\u00f3tica e materna: viagem ao universo feminino\u2019, mas contam-se, ainda, entre os seus t\u00edtulos, \u2018Querido m\u00e9dico. Respostas a fam\u00edlias imperfeitas\u2019 (2013), \u2018Masculino. For\u00e7a, eros, ternura\u2019 (2017), \u2018Casa comigo, novamente!\u2019 (2020), \u2018Alfabeto dos Afetos\u2019 (2021), \u2018Perfeitos imperfeitos\u2019 (2022) e \u2018Pais e Filhos\u2019 (2023). \u00c9 coautora dos livros \u2018Apoiando a Paternidade\u2019 (Franco Angeli, 2011), \u2018Pr\u00e9-adolesc\u00eancia\u2019 (Franco Angeli, 2013), \u2018Ser Mulher l\u00edder\u2019 (SDA Bocconi, 2017)], e a atitude de sonho de quem n\u00e3o se rende ao j\u00e1 conquistado e adquirido (\u00e9 crente!).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conheci esta obra de Migliarese, que li entre os dias 6 e 16 de setembro de 2022, quando escrevia a unidade letiva dedicada a \u2018o Amor e o Amar\u2019, editada pela Funda\u00e7\u00e3o SNEC, e na qual fiz eco de ideias e cita\u00e7\u00f5es. Revi-me e regozijei-me por ver, com a for\u00e7a de letra gravada em texto escrito, muitas das ideias que venho consolidando no meu pensamento e, inclusive, escrevendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre elas, a ideia estruturante de que devemos pensar-nos a partir da finitude e da fragilidade, como defendi, em 2008, em tese de mestrado e que repercuti no livro \u2018bem-nascido\u2026 mal-nascido\u2026\u2019 (edi\u00e7\u00e3o da Tempo Novo, 2019). Essa \u00e9 uma das ideias-alicerces deste livro: somos imperfeitos e \u00e9 a partir da imperfei\u00e7\u00e3o que devemos pensar-nos e pensar as nossas decis\u00f5es. Muito do que hoje nos \u2018deprime\u2019 nasce da ilus\u00e3o da perfei\u00e7\u00e3o j\u00e1 real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Grande ponto de partida!<\/p>\n<pre style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\"><strong>Marcas de \u00e1gua <\/strong>\r\n\r\n<strong>(o que fica depois de se deixar o livro)<\/strong><\/pre>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Migliarese resiste, neste livro, \u00e0quela que considero ser a \u2018grande tenta\u00e7\u00e3o\u2019, a que chamarei \u2018sedu\u00e7\u00e3o\u2019, do nosso tempo\u2026 Entre as grandes \u2018sedu\u00e7\u00f5es\u2019 dos discursos contempor\u00e2neos est\u00e1 a presun\u00e7\u00e3o da descoberta d\u2019a\u2019 resposta numa dimens\u00e3o por si absolutizada e elevada \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de \u2018resposta definitiva\u2019. O Homem ou \u00e9 \u2018corpo\u2019, ou \u00e9 \u2018esp\u00edrito, pensamento; o Homem ou \u00e9 o agora (a emo\u00e7\u00e3o, o sentimento), ou \u00e9 a sua hist\u00f3ria (o que foi, o seu passado) ou o que h\u00e1-de ser (o seu futuro, o projeto). OU\u2026 Ou\u2026<br \/>\nTalvez a esta condi\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea se deva a t\u00e3o acentuada clivagem dos discursos. Valer\u00e1 a pena recordar o que a hist\u00f3ria do cristianismo de matriz cat\u00f3lica sempre evidenciou perante esses discursos. Viu-os como \u2018escolha\u2019, mas, como \u2018escolha\u2019 que absolutizava uma s\u00f3 dimens\u00e3o, n\u00e3o reconhecendo neles o m\u00e9rito de \u2018ortodoxia\u2019, \u2018opini\u00e3o correta, acertada\u2019. Olhou-os por isso como \u2018haeresis\u2019, isto \u00e9, escolhas, op\u00e7\u00f5es, mas com os limites pr\u00f3prios dessas escolhas de apenas partes. Era preciso olhar o todo.<br \/>\nMigliarese olha o todo.<br \/>\nN\u00e3o olha para o ser humano apenas em parte de si. N\u00e3o escolhe o \u2018esp\u00edrito\u2019 contra a carne (a corporeidade) ou a carne contra o esp\u00edrito, sedutoras tenta\u00e7\u00f5es de todos os tempos e hoje revisitadas como transumanismo e outros poderosos movimentos antropol\u00f3gicos, essencialmente desencarnados, ou como monismos materialistas que reduzem o humano \u00e0 horizontalidade do vis\u00edvel.<br \/>\nAntes, v\u00ea o Homem como um todo, projetado para al\u00e9m de si, mas tamb\u00e9m essencialmente imperfeito.<br \/>\nN\u00e3o o olha s\u00f3 enquanto presente\u2026 ou enquanto apenas passado\u2026 ou, ainda, como apenas futuro!<br \/>\nO humano de MIgliarese reside na tens\u00e3o entre os tr\u00eas vetores do tempo. \u00c9 mem\u00f3ria, atualizada na decis\u00e3o que se repercute, necessariamente, em consequ\u00eancias. Donde, a responsabilidade!<br \/>\nE \u00e9 por isso que o texto de Migliarese nos contagia e prende.<br \/>\nVemos, nas hist\u00f3rias que conta, as mil e uma hist\u00f3rias de reais mil e uma noites de luz e treva que domiciliam as nossas exist\u00eancias. Hist\u00f3rias em que o realismo de nos sabermos finitos, fr\u00e1geis, d\u00e9beis, imperfeitos, poderia ser a resposta perante as ilus\u00f5es e idealiza\u00e7\u00f5es em que o \u2018sonho\u2019 redundou em pesadelo. Aceitarmo-nos imperfeitos e, por isso, carentes do real perd\u00e3o que deve fazer parte das hist\u00f3rias que se querem para sempre, \u00e9 condi\u00e7\u00e3o para que se construam hist\u00f3rias perfect\u00edveis e, por isso, nunca suficientemente perfeitas.<br \/>\n\u00c9 particularmente belo o que diz sobre o perd\u00e3o, que n\u00e3o \u00e9 \u2018esquecimento\u2019 (denunciando mitos tantas vezes difundidos e respons\u00e1veis por tantos fracassos), nem minimiza\u00e7\u00e3o, nem um regressar ao ponto anterior, mas reconhecimento da gravidade da ofensa como condi\u00e7\u00e3o para que o mal feito n\u00e3o continue a fazer-nos mal.<br \/>\nNeste livro, mora dois pressupostos que tenho vindo a repercutir em muito do que escrevo (e, por isso, tanto me revi nestas p\u00e1ginas): que a liberdade n\u00e3o \u00e9 um exerc\u00edcio de legitima\u00e7\u00e3o do que pretende a vontade, mas a determina\u00e7\u00e3o de transcender o que se quer e que o amor \u00e9 muito mais do que um sentimento, mas o envolvimento da pessoa toda, compreendida como intelig\u00eancia, vontade e afeto, em que amar \u00e9 a decis\u00e3o profunda de acolher o outro e o pretender fazer feliz, sendo feliz nessa decis\u00e3o.<br \/>\nEste livro, porque fala de casamento e da constitui\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia, \u00e9, como seria de esperar, um convite. N\u00e3o o convite para um momento ef\u00e9mero e fugaz, mas um convite a transcender a efemeridade de uma hora, sabendo que \u00e9 na revisita\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o primeira, alimentada em cada dia, que se assegura a verdade do amor para toda a vida e de toda a vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<pre style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\"><strong>Na mesma p\u00e1gina que o autor (cita\u00e7\u00f5es)<\/strong><\/pre>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Quando nos apaixonamos, todos fazemos a experi\u00eancia de que o amor pede um horizonte de eternidade: disso s\u00e3o sinais simples todas as poesias de amor e todas as can\u00e7\u00f5es, forma hodierna de poesia, que ontem como hoje nos acompanham sem mudan\u00e7as substanciais, apesar do tempo que passa. Hoje, como no passado, can\u00e7\u00f5es e poesias falam do desejo de um amor que desafia o tempo, que nos fa\u00e7a sentir acolhidos por aquilo que somos, que v\u00e1 al\u00e9m das apar\u00eancias; falam do sofrimento profundo de quem \u00e9 deixado, falam da aspira\u00e7\u00e3o profunda de um cora\u00e7\u00e3o abandonado, mas confiante no outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque \u00e9 que ent\u00e3o \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil mover-se no sulco deste desejo? Porque \u00e9 que os casamentos n\u00e3o duram e se rompem t\u00e3o facilmente? Mais ainda: porque \u00e9 que nos estamos a encaminhar para um mundo em que as pessoas at\u00e9 renunciam ao casamento, preferindo fazer apenas investimentos modestos em pequenas hist\u00f3rias, em que cada um est\u00e1 muito atento em n\u00e3o se entregar demasiadamente ao outro para n\u00e3o ser ferido no futuro?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O casamento parece ter perdido o seu forte significado de promessa e de novidade e \u00e9 visto pela maioria das pessoas como algo superado, in\u00fatil, se n\u00e3o mesmo falso e prejudicial para o amor entre duas pessoas. Considera-se que s\u00f3 em pouqu\u00edssimos casos particularmente afortunados seja poss\u00edvel continuar a amar-se durante toda a vida e que depois de um certo n\u00famero de anos o mais prov\u00e1vel que pode acontecer a duas pessoas casadas \u00e9 manterem-se juntas \u00abapenas por causa dos filhos\u00bb, ou \u00abporque se habituaram\u00bb, cultivando uma estranheza progressiva em que cada um dos dois procura noutro lugar a verdadeira resposta aos seus desejos. Nesta l\u00f3gica, parece que as pessoas mais honestas s\u00e3o as que n\u00e3o fazem promessas ventureiras de amor eterno, porque, se foram t\u00e3o temer\u00e1rias em se casar, tiveram depois \u00aba coragem de se separar\u00bb assim que o sentimento se enfraqueceu ou se apagou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este livro nasceu do desejo de fornecer reflex\u00f5es para se voltar a entender o sentido pleno de uma \u00abrela\u00e7\u00e3o para sempre\u00bb que o casamento deveria representar, e que infelizmente se perdeu: creio, com efeito, que n\u00e3o existe aventura humana mais profunda, envolvente e apaixonante do que a que se pode desenvolver na vida de duas pessoas que decidem seriamente unir-se at\u00e9 \u00e0 morte.\u2019 (pp. 14-15)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Hoje, o verdadeiro risco \u00e9 o desaparecimento de todo o sentido da profundidade das coisas, privilegiando a quantidade das experi\u00eancias em preju\u00edzo da sua intensidade, e esta falta de espessura da experi\u00eancia torna tudo mais aborrecido e fr\u00e1gil.\u2019 (p. 16)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018A vulnerabilidade das coisas, bem como das pessoas, \u00e9 parte integrante da sua preciosidade e deveria levar-nos a procurar multiplicar as nossas capacidades para am\u00e1-las e delas cuidar. O medo, pelo contr\u00e1rio, leva-nos a afastar o olhar do que \u00e9 fr\u00e1gil, a esconder o que \u00e9 imperfeito em n\u00f3s e a evit\u00e1-lo quando o reconhecemos presente no outro.\u2019 (p. 16)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Nada daquilo que \u00e9 complexo pode encontrar uma solu\u00e7\u00e3o adequada se n\u00e3o aprendermos primeiro a alargar o olhar al\u00e9m do imediato e do contingente, para orientar os nossos passos para uma meta.\u2019 (p. 19)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Encontrei uma frase perfeita para sintetizar o que \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o do desafio que o casamento representa: unir, no quotidiano, os aspetos mais pr\u00e1ticos e prosaicos da nossa vida com os mais elevados e espirituais. N\u00e3o ser\u00e1 este um desafio especial?\u2019 (p. 22)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Hoje, como no passado, os filhos continuam a ter necessidade de que os adultos saibam tomar posi\u00e7\u00e3o sobre quest\u00f5es importantes, n\u00e3o para homologar-se a eles, mas para ter um ponto de partida e de refer\u00eancia para poder amadurecer de modo adulto o seu pensamento. Os filhos devem conhecer os nossos valores e por que raz\u00e3o os consideramos importantes: isto permitir\u00e1 evitar eventuais contesta\u00e7\u00f5es, e obriga-los a pensar em vez de seguir simplesmente o que est\u00e1 na moda.\u2019 (p. 28)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] nos \u00faltimos dec\u00e9nios modific\u00e1mos as nossas imagens mentais e o nosso modo de \u00absentir\u00bb sobre muitos argumentos cruciais, e muitas das nossas opini\u00f5es sobre casamento, fam\u00edlia, identidade sexual, valor do corpo e do sexo, valor da vida e da pessoas, se foram formando mais por sugest\u00f5es progressivas do que atrav\u00e9s de uma verdadeira e aprofundada reflex\u00e3o, capaz de nos levar a convic\u00e7\u00f5es realmente motivadas.\u2019 (p. 33)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018A carne liga-nos e determina-nos, mas tamb\u00e9m nos manifesta. N\u00f3s somos mais do que a nossa carne, mas tamb\u00e9m n\u00e3o podemos existir sem ela. O conhecimento que os outros t\u00eam de n\u00f3s \u00e9 sobretudo conhecimento da nossa carne, entendida como o que de n\u00f3s aparece e se p\u00f5e sensivelmente em contacto com o outro, com os seus lados agrad\u00e1veis, mas tamb\u00e9m com os menos agrad\u00e1veis.\u2019 (p. 38)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O corpo que desejamos deveria ser inodoro, incolor e ins\u00edpido: o corpo verdadeiro resulta embara\u00e7ante, e causa-nos preocupa\u00e7\u00e3o pela sua neutraliza\u00e7\u00e3o para n\u00e3o termos que dele nos envergonhar. Usamo-lo como se fosse uma vestimenta, em vez de o habitar e o viver. [\u2026] \u00abSomos\u00bb o nosso corpo ou \u00abtemos\u00bb o nosso corpo?\u2019\u2019 (p. 39)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] na vida das pessoas cada decis\u00e3o e cada gesto colocam-se sempre dentro de uma hist\u00f3ria: nada se faz que n\u00e3o tenha em si o g\u00e9rmen das suas consequ\u00eancias. Entre as coisas que se podem fazer, h\u00e1 gestos com consequ\u00eancias revers\u00edveis, e h\u00e1 gestos definitivos, em que n\u00e3o se pode voltar atr\u00e1s. A rela\u00e7\u00e3o sexual \u00e9, por ess\u00eancia, um destes: o que acontece nunca mais pode ser cancelado, aquilo que dei nunca mais pode ser retirado. Se a rela\u00e7\u00e3o com o outro fosse interrompida, o desconforto de ter entregado a minha intimidade a algu\u00e9m que ser\u00e1 conotado como um estranho permaneceria em mim.\u2019 (p. 48)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018A nossa cultura [\u2026] n\u00e3o gosta do que \u00e9 definitivo e que empenha, e define como aborrecido e pesado tudo o que cria liga\u00e7\u00f5es e parece dificultar a mudan\u00e7a; \u00e9 por isso que progressivamente se trabalhou para separar o sexo de qualquer poss\u00edvel consequ\u00eancia, para que seja poss\u00edvel viv\u00ea-lo como um ato revers\u00edvel, n\u00e3o definitivo, nem empenhativo, e por isso mesmo \u00abligeiro\u00bb e divertido, com val\u00eancias de tipo exclusivamente expressivas e l\u00fadicas.\u2019 (p. 49)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] a afirma\u00e7\u00e3o t\u00e3o cativante e \u00e0 primeira vista convincente segundo a qual devemos \u00abser livres de seguir o instinto\u00bb cont\u00e9m em si uma contradi\u00e7\u00e3o terminol\u00f3gica: como era bem evidente \u00e0s grandes culturas que nos precederam, n\u00e3o \u00e9 na verdade necess\u00e1ria nenhuma capacidade particular nem exerc\u00edcio de liberdade para seguir os pr\u00f3prios instintos, que s\u00e3o biologicamente determinados e que biologicamente nos determinam. O instinto sexual, o instinto de conserva\u00e7\u00e3o ou o de sobreviv\u00eancia possuem uma for\u00e7a intr\u00ednseca tal que segui-los n\u00e3o exige nenhum exerc\u00edcio de liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O verdadeiro e dif\u00edcil exerc\u00edcio reside no desenvolver a capacidade de dominar os instintos, para se ser, ent\u00e3o sim, realmente livres de os seguir quando e como considerarmos uma coisa boa faz\u00ea-lo.\u2019 (p. 53)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Aquilo a que somos chamados a aceitar responsabilidades diz respeito \u00e0quilo que voluntariamente fazemos como resposta a estas solicita\u00e7\u00f5es e a estes desejos: este \u00e9 o verdadeiro campo no qual exercer de modo inteligente a nossa liberdade.\u2019 (p. 54)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O homem e a mulher s\u00e3o muito diferentes at\u00e9 mesmo na sua expressividade sexual, no modo de experimentar o desejo e no modo de experimentar o prazer.\u2019 (p. 56)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018\u00abPromessa\u00bb \u00e9 uma palavra de grand\u00edssimo valor na civiliza\u00e7\u00e3o ocidental: sobre esta palavra baseia-se toda a civiliza\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3 e o modelo antropol\u00f3gico que dela deriva, que se constru\u00edram nos s\u00e9culos precisamente a partir de uma Promessa e da esperan\u00e7a confiante da sua realiza\u00e7\u00e3o. [\u2026] Com a perda progressiva do consenso \u00e0 volta do modelo de antropologia crist\u00e3, tamb\u00e9m o valor das promessas, da confian\u00e7a rec\u00edproca, do v\u00ednculo constitu\u00eddo pela palavra dada e recebida foram-se extinguindo e perdendo peso: o valor da promessa (ligado \u00e0 partilha de uma posi\u00e7\u00e3o \u00e9tica que v\u00ea a pessoa no centro de toda a rela\u00e7\u00e3o) foi sendo substitu\u00eddo pelo valor do contrato (que p\u00f5e no centro n\u00e3o j\u00e1 a pessoa, mas o valor de um bem), e o sentido de culpabilidade por ter infringido uma promessa (puni\u00e7\u00e3o \u00abinterna\u00bb que n\u00f3s mesmos nos infligimos quando faltamos a um dever que sabemos ser objetivamente importante) muitas vezes n\u00e3o parece j\u00e1 necess\u00e1rio, porque se considera suficiente, perante a quebra de um contrato, pagar ao outro com recompensas de natureza econ\u00f3mica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas poder\u00e1 uma compensa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica pagar real e plenamente a quem \u00e9 v\u00edtima da quebra unilateral de um acordo importante?\u2019 (pp. 70-71)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] escolher \u00e9 o que nos faz livres, mas escolher \u00e9 algo muito mais envolvente e complexo do que seguir um impulso, porque compreende em si sentimento, intelig\u00eancia e vontade.\u2019 (p. 98)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018De um ponto de vista psicol\u00f3gico, a escolha de assinalar com um rito publicamente partilhado a passagem a um \u00abn\u00f3s\u00bb reveste uma import\u00e2ncia crucial, porque comporta uma mudan\u00e7a decisiva do centro afetivo da rela\u00e7\u00e3o: enquanto a rela\u00e7\u00e3o entre o eu e o tu do casal permanecer confinada \u00e0 esfera privada, de facto, todo o acento \u00e9 posto sobre cada um individualmente e joga-se \u00e0 volta de identidades individuais; a escolha de torna p\u00fablica a liga\u00e7\u00e3o e de exigir um reconhecimento social coloca o acento sobre a nova e pequena comunidade, marcando o nascimento de um novo sujeito que \u00e9, ao mesmo tempo, social e afetivo.\u2019 (p. 106)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] entre as muit\u00edssimas mudan\u00e7as da nossa \u00e9poca h\u00e1 uma fundamental, sobre a qual nem sempre se refletiu bastante: trata-se da revolu\u00e7\u00e3o copernicana constitu\u00edda pela difus\u00e3o exponencial de instrumentos contracetivos e de como isto modificou radicalmente o nosso modo de aproxima\u00e7\u00e3o ao tema do amor e ao tema da procria\u00e7\u00e3o.\u2019 (p. 117)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Desde sempre [\u2026] o in\u00edcio de uma gravidez \u00e9 acompanhado de viv\u00eancias ambivalente, sobretudo pela m\u00e3e, que, por um lado, \u00e9 quem mais sente a inexorabilidade da uni\u00e3o e sente o risco de ser sonegada pelo seu filho, e, por outro, poder ter sofrimentos inevit\u00e1veis numa futura separa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas como estabelecer se e quando dar espa\u00e7o a um filho na nossa vida?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pr\u00f3pria possibilidade de fazer esta escolha, pelo facto de nos parecer t\u00e3o totalmente em nossas m\u00e3os, exp\u00f5e-nos a dificuldades psicol\u00f3gicas novas e imprevistas, porque lan\u00e7a sobre n\u00f3s uma responsabilidade dif\u00edcil de aguentar e desconhecida pelas gera\u00e7\u00f5es precedentes, que podiam muitas vezes contar, por vezes com al\u00edvio, com a chegada de filhos quase por acaso.\u2019 (p. 119)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Poderemos dizer que existem duas diferentes modalidades psicol\u00f3gicas em rela\u00e7\u00e3o a um novo nascimento, projetado ou n\u00e3o: h\u00e1 as crian\u00e7as \u00abacolhidas\u00bb e as crian\u00e7as \u00abpretextos\u00bb, e estes dois modos diferentes d\u00e3o lutar a duas modalidades diferentes de encontro entre pai e filho. A crian\u00e7a \u00abpretexto\u00bb \u00e9 a que foi trazida ao mundo para completar a vida dos seus pais, como algo que foi acrescentado no momento oportuno a todos os outros objetivos que nos propusemos atingir. \u00c9 uma crian\u00e7a que corresponde \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de um nosso projeto, e enquanto tal o seu \u00eaxito ou o seu falhan\u00e7o ser\u00e3o inevitavelmente um sinal do nosso \u00eaxito ou do nosso falhan\u00e7o. Mas precisamente por este motivo, trata-se normalmente de crian\u00e7as que suscitam em n\u00f3s uma \u00e2nsia maior e com quem a rela\u00e7\u00e3o educativa \u00e9 mais dif\u00edcil desde o in\u00edcio, porque tendemos a carrega-las de expectativas demasiado grandes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muito diferente \u00e9 o encontro que se verifica com o novo rebento se a viv\u00eancia dos seus pais for de acolhimento da vida como dom precioso e imerecido: embora com todas as naturais e inevit\u00e1veis expectativas, prevalecer\u00e1 nos confrontos deste filho curiosidade e abertura, e ser\u00e1 poss\u00edvel fazer prevalecer neste caso uma atitude mais serena.\u2019 (pp. 122-123)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] o matrim\u00f3nio, se quiser ser realmente um casamento, \u00e9 por sua necessidade \u00abindissol\u00favel\u00bb, e deve definir-se como uma alian\u00e7a pronta a bater-se a todo o custo para resistir a tudo o que o quiser dissolver e desagregar, minando o acordo de confian\u00e7a entre as pessoas que o contra\u00edram.\u2019 (p. 137)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018A fam\u00edlia [\u2026] constitui um sujeito espec\u00edfico dotado de uma identidade pr\u00f3pria; ao mesmo tempo, por\u00e9m, podemos defini-la, tamb\u00e9m como um sistema complexo, formado por pessoas dotadas, cada uma, de uma identidade pessoal e que se influenciam reciprocamente de maneira circular: cada componente interage com os outros com uma for\u00e7a diferente em rela\u00e7\u00e3o ao grau de uni\u00e3o. Este sistema complexo desenvolver-se \u00e0 volta de dois eixos principais, que podemos imaginar dispostos em sentido espacial: o primeiro \u00e9 um eixo horizontal, constitu\u00eddo pela rela\u00e7\u00e3o do casal; o segundo \u00e9 um eixo que se cruza com o primeiro de modo vertical, e \u00e9 constitu\u00eddo por liga\u00e7\u00f5es que o casal tece com outras pessoas que no tempo o precedem (os pais) e que o seguem (os filhos). Para que uma fam\u00edlia, e nela cada um dos seus membros, se desenvolva e cres\u00e7a de modo psicologicamente saud\u00e1vel, \u00e9 indispens\u00e1vel que entre os dois eixos se estabele\u00e7a um equil\u00edbrio v\u00e1lido, em que o eixo horizontal constitua o ponto de uni\u00e3o est\u00e1vel do eixo vertical. O casal, se e quando sabe construir e desenvolver a sua rela\u00e7\u00e3o no tempo, pode tornar-se capaz de cuidar de modo preciso tanto da gera\u00e7\u00e3o que o precede como da gera\u00e7\u00e3o que dele toma origem e que o continua no tempo.\u2019 (p. 139)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Da psicologia aprendemos que h\u00e1 algumas regras fundamentais para garantir aos filhos um bom crescimento e sa\u00fade mental: entre estas s\u00e3o cruciais a capacidade de respeitar o seu limite psicof\u00edsico e a capacidade de manter em rela\u00e7\u00e3o a eles uma dist\u00e2ncia relacional correta, colocando-os na posi\u00e7\u00e3o justa no interior das rela\u00e7\u00f5es familiares. Isto significa, em primeiro lugar, ter o conhecimento claro de que um filho n\u00e3o nos pertence, mas \u00e9-nos simplesmente confiado pela vida para que cuidemos dele e o acompanhemos com respeito e se impulsividade em rela\u00e7\u00e3o ao seu futuro.\u2019 (p. 140)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Ainda h\u00e1 uma coisa que \u00e9 sempre poss\u00edvel fazer na nossa vida, e \u00e9 aprender a aproveitar tudo o que nos aconte\u00e7a, at\u00e9 mesmo uma coisa negativa e dolorosa. Ser tra\u00eddos, receber verdadeiras ofensas, sentir-se pouco apreciados, s\u00e3o evidentemente coisas muito negativas e \u00e0 primeira vista inaceit\u00e1veis. No entanto, se o quisermos, at\u00e9 mesmo coisas como estas podem tornar-se para n\u00f3s ocasi\u00e3o de crescimento, de desenvolvimento, de afinamento da personalidade. [\u2026] ningu\u00e9m fora de n\u00f3s pode encontrar a chave de sermos felizes, tal como ningu\u00e9m pode realmente tornar-nos felizes s en\u00e3o n\u00e3o lho permitirmos.\u2019 (p. 165)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] como pude aprender com um jovem colega psiquiatra que estava para se casar, \u00abn\u00e3o existe a pessoa certa, existe s\u00f3 a pessoa que escolhi\u00bb. E a pessoa que escolhi \u00e9 sempre <em>\u00fanica<\/em>.\u2019 (p. 168)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Quando nos apaixonamos por algu\u00e9m, fazemos a experi\u00eancia especial de intuir algo do seu Eu: intu\u00edmos que o outro \u00e9 \u00fanico, mas tamb\u00e9m o que pode vir a ser, o que nele se pode vir a desenvolver. \u00c9 uma perce\u00e7\u00e3o sint\u00e9tica, dif\u00edcil de dizer por palavras, mas muito importante: \u00e9 parecida com a capacidade de <em>r\u00eaverie<\/em> dos pais sobre os filhos, quando intuem no filho a presen\u00e7a <em>in nuce<\/em> do homem ou da mulher que podem vir a ser.\u2019 (p. 169)<\/p>\n<hr \/>\n<h5 style=\"text-align: right;\"><strong>**(T\u00edtulo retirado de Daniel Faria, <em>Dos l\u00edquidos<\/em>, Porto, Edi\u00e7\u00e3o Funda\u00e7\u00e3o Manuel Le\u00e3o, 2000, p. 137)<\/strong><\/h5>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217;, &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rubrica \u2018Sabes, leitor,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":18232,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,198],"tags":[],"class_list":["post-18231","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-sabes-leitor-que-estamos-ambos-na-mesma-pagina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18231","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18231"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18231\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18235,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18231\/revisions\/18235"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18232"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18231"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18231"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18231"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}