{"id":18220,"date":"2024-08-23T14:03:35","date_gmt":"2024-08-23T13:03:35","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=18220"},"modified":"2024-08-23T14:31:36","modified_gmt":"2024-08-23T13:31:36","slug":"luis-manuel-pereira-da-silva-com-desafio-aos-leitores-portugal-pre-historico-poderia-a-teologia-ter-algo-a-dizer-o-desafio-do-encontro-entre-as-ciencias-e-a-teologia-uma-abordagem-he","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/luis-manuel-pereira-da-silva-com-desafio-aos-leitores-portugal-pre-historico-poderia-a-teologia-ter-algo-a-dizer-o-desafio-do-encontro-entre-as-ciencias-e-a-teologia-uma-abordagem-he\/","title":{"rendered":"Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva | [em atualiza\u00e7\u00e3o: com desafio aos leitores] Portugal pr\u00e9-hist\u00f3rico: poderia a teologia ter algo a dizer?  (O desafio do encontro entre as ci\u00eancias e a teologia \u2013 uma abordagem heur\u00edstica)"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: center;\">Lugares pr\u00e9-hist\u00f3ricos no territ\u00f3rio da atual Diocese de Aveiro [concelhos de Estarreja, Murtosa, Sever do Vouga, Albergaria-a-Velha, Oliveira do Bairro, \u00c1gueda, Aveiro, \u00cdlhavo, Anadia e Vagos] e do Distrito de Aveiro (inclui concelhos da Diocese do Porto &#8211; Oliveira de Azem\u00e9is, S\u00e3o Jo\u00e3o da Madeira, Santa Maria da Feira, Vale de Cambra, Espinho, Castelo de Paiva, Arouca, Ovar &#8211; e da Diocese de Coimbra &#8211; Mealhada)<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: center;\">A Comiss\u00e3o Diocesana disponibiliza lista de lugares pr\u00e9-hist\u00f3ricos megal\u00edticos da Diocese e do Distrito de Aveiro e agradece aos leitores contributos (culturadiocesedeaveiro@gmail.com) para que se aumente esta lista.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: center;\"><strong>Diocese de Aveiro<\/strong><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Anta de Cerqueira | Sever do Vouga<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Monumento Megal\u00edtico de Ch\u00e3o Redondo | Sever do Vouga<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Pedra da Moura | Sever do Vouga<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Monumento megal\u00edtico do Souto do Coval | Sever do Vouga<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Anta da Capela dos Mouros | Sever do Vouga<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Mamoas do Taco | Albergaria-a-Velha<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Mamoa dos A\u00e7ores | Albergaria-a-Velha<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: center;\"><strong>Diocese do Porto<\/strong><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Anta do Casal-Mau | Arouca<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: center;\">D\u00f3lmen da Aliviada | Arouca<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Anda do Vale da Rua | Castelo de Paiva<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Mamoa da Quinta da Laje | Santa Maria da Feira<\/h6>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E se a teologia tivesse uma palavra a dizer sobre a pr\u00e9-hist\u00f3ria?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A reflex\u00e3o aqui reunida nasce de uma circunst\u00e2ncia quase casual (para um crente, os \u2018acasos\u2019 s\u00e3o os interst\u00edcios onde se esconde a provid\u00eancia\u2026). Numa viagem ao Norte, a iniciar um curto per\u00edodo de f\u00e9rias, encontrei um n\u00famero monogr\u00e1fico da revista <em>Super Interessante<\/em>, \u2018edi\u00e7\u00e3o biblioteca\u2019, dedicado ao \u2018Portugal Pr\u00e9-hist\u00f3rico: monumentos e arte rupestre no nosso pa\u00eds\u2019. Um n\u00famero ricamente ilustrado e com uma colet\u00e2nea de excelentes textos de reputados especialistas. A qualidade gr\u00e1fica e o curr\u00edculo dos autores convenceram-me. Somados, bem certo, ao meu insaci\u00e1vel desejo de explorar novos terrenos, na busca de mais uma \u00e1rea de encontro entre a teologia e os diversos mundos da cultura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitos preconceitos t\u00eam alimentado uma hipot\u00e9tica indiferen\u00e7a entre estes dois \u2018mundos\u2019 que a hist\u00f3ria da ci\u00eancia, por um lado, e a natureza pr\u00f3pria do cristianismo como religi\u00e3o do \u2018l\u00f3gos\u2019, por outro, n\u00e3o confirmam, por\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Basta lembrar nomes de homens da Igreja<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> como Nicolaus Steno (1638-1686), no \u00e2mbito da geologia, Giambattista Riccioli (1598-1671), na astronomia e na f\u00edsica, Francesco Maria Grimaldi (1618-1663), nos estudos de f\u00edsica e matem\u00e1tica, mas, principalmente de selenologia (sobre a lua), Roger Boscovich (1711-1787), em m\u00faltiplas \u00e1reas, pois era, reconhecidamente, um pol\u00edmata (dominava mat\u00e9rias como astronomia, f\u00edsica, matem\u00e1tica, \u00f3tica, etc.) ou, mais recentemente, Teilhard de Chardin (1881-1955), uma das figuras cimeiras da hist\u00f3ria da arqueologia e da paleontologia e sempre revisitada quando a mat\u00e9ria \u00e9 \u2018di\u00e1logo entre ci\u00eancia e cristianismo\u2019. Os seus livros continuam, ainda hoje, a ser de leitura obrigat\u00f3ria para quem quer compreender <em>que<\/em> e <em>como<\/em> \u00e9 poss\u00edvel o di\u00e1logo entre a religi\u00e3o crist\u00e3 e a ci\u00eancia. Talvez menos conhecido, da sua biografia, seja o seu envolvimento nas investiga\u00e7\u00f5es que, em 1929, conduziram \u00e0 descoberta, na China, do <em>Homo Erectus<\/em>. O seu contributo n\u00e3o foi, como facilmente se concluir\u00e1, meramente te\u00f3rico; n\u00e3o seria pouco, por\u00e9m, se a tal se confinasse, mas, com efeito, o seu envolvimento cient\u00edfico era real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m Aveiro guarda, como um exemplo a n\u00e3o esquecer deste di\u00e1logo fecundo entre ci\u00eancia e religi\u00e3o, o nome do Padre P\u00f3voa dos Reis (1907-1991)<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, nascido em Eirol, mas incardinado na diocese de Coimbra, que realizou parte significativa dos seus trabalhos cient\u00edficos e pastorais na sua terra natal, tendo a\u00ed criado um \u2018campo de investiga\u00e7\u00e3o\u2019 que tomou a designa\u00e7\u00e3o de IDESO, Instituto D. Ernesto Sena de Oliveira, bispo de Coimbra entre1948 e 1967). Os seus estudos na Ria de Aveiro valeram-lhe reconhecimento internacional e o registo, na taxonomia internacional, de esp\u00e9cies desconhecidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas os preconceitos continuam a existir. Muitas s\u00e3o as resist\u00eancias ao encontro (que ser\u00e1 sempre ben\u00e9fico para ambos os interlocutores) e di\u00e1logo entre ci\u00eancia e religi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que poder\u00e1 a teologia ter a dizer \u00e0 arqueologia e ao estudo da pr\u00e9-hist\u00f3ria? A resposta n\u00e3o poder\u00e1, de modo algum, esgotar-se no esbo\u00e7o de reflex\u00e3o que aqui re\u00fano. Dever\u00e1 continuar como interroga\u00e7\u00e3o e como despertador para que se prossiga o caminho. Este texto ser\u00e1 ajustadamente interpretado se lido como um exerc\u00edcio heur\u00edstico, uma genu\u00edna partilha de quem se abeira de uma mat\u00e9ria com a atitude de aprendiz, mas tamb\u00e9m com o risco de quem quer propor um conjunto de hip\u00f3teses ponder\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A leitura do n\u00famero monogr\u00e1fico que suscitou esta reflex\u00e3o permite fazer, imediatamente, v\u00e1rias constata\u00e7\u00f5es: a hist\u00f3ria da investiga\u00e7\u00e3o das marcas da pr\u00e9-hist\u00f3ria no territ\u00f3rio que \u00e9, hoje, Portugal, teve um franco desenvolvimento nas \u00faltimas d\u00e9cadas, o que permite afian\u00e7ar que, a continuar o impulso e aten\u00e7\u00e3o que estas mat\u00e9rias v\u00eam merecendo, da parte das Universidades, autarquias e sociedades cient\u00edficas (assim como da parte das popula\u00e7\u00f5es), o n\u00famero dos monumentos ou lugares megal\u00edticos identificados de Norte a Sul do territ\u00f3rio continental, que hoje se contam num cifra que ronda os 220, venha a ser avolumado, conjugado com uma melhoria das t\u00e9cnicas de registo e interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bem certo que o impulso resultante das descobertas de Foz C\u00f4a (a primeira publica\u00e7\u00e3o das gravuras do cavalo de Mazouco \u00e9 de 1981, tendo ocorrido em 1991 a descoberta da Rocha 1 da Canada do Inferno, por Nelson Rebanda e, em 1995, \u2018a decis\u00e3o de a arte nos s\u00edtios onde os artistas decidiram produzi-la, e a inscri\u00e7\u00e3o na lista do patrim\u00f3nio mundial da UNESCO em 1998\u2019<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>) e as descobertas quase fortuitas, em 1971, \u2018quando o etn\u00f3logo Paulo Carat\u00e3o Soromenho pediu a um grupo de estudantes de Lisboa que fossem ver umas \u201cpedras escritas\u201d nas margens do rio Tejo, na regi\u00e3o da Vila Velha de R\u00f3d\u00e3o\u2019<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>, catapultaram estes temas para a ordem das preocupa\u00e7\u00f5es mais gerais. O passado mostra que muito do trabalho entretanto reconhecido pelo seu m\u00e9rito de recuperar da amn\u00e9sia do tempo as mem\u00f3rias mais remotas da humanidade se devia, fundamentalmente, \u00e0 dedica\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos como o Martins Sarmento, em cuja homenagem foi atribu\u00eddo o nome ao Museu arqueol\u00f3gico, fundado em 1881, em Guimar\u00e3es. J\u00e1 ent\u00e3o, por\u00e9m, o papel da igreja foi fundamental, no caso, pela a\u00e7\u00e3o do Abade de Tagilde, Jo\u00e3o Gomes de Oliveira Guimar\u00e3es, e do Pe. Ant\u00f3nio Caldas, mas contando com a a\u00e7\u00e3o determinante do pr\u00f3prio arque\u00f3logo vimaranense Martins Sarmento que possu\u00eda uma importante cole\u00e7\u00e3o que veio a integrar parte significativa do referido museu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, os tempos exigem que sociedade e Estado congreguem esfor\u00e7os para que chegue a bom porto o desafio de recuperar do subsolo do esquecimento as ra\u00edzes mais profundas da mem\u00f3ria humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, regressemos, ent\u00e3o, \u00e0 pergunta que nos move: o que poder\u00e1 ter a teologia a dizer sobre a pr\u00e9-hist\u00f3ria? Poder\u00e1 dar algum contributo para aqueles que s\u00e3o os maiores enigmas que a pr\u00e9-hist\u00f3ria reserva?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u2018estado da arte\u2019 sobre a investiga\u00e7\u00e3o pr\u00e9-hist\u00f3rica permite constatar que continua a ser um n\u00f3 g\u00f3rdio a interpreta\u00e7\u00e3o sobre porque gravavam, na pedra, os nossos antepassados, os desenhos e s\u00edmbolos que nos levam a quase \u2018quebrar\u2019, hoje, a cabe\u00e7a para os interpretar. E porque erguiam os monumentos que \u2018marcam\u2019 os territ\u00f3rios que, hoje, se nos afiguram como aparentemente in\u00f3cuos e insignificantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para tal, a reflex\u00e3o teol\u00f3gica pode dar um contributo n\u00e3o despiciendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para um te\u00f3logo, as a\u00e7\u00f5es humanas podem ser categorizadas em tr\u00eas ordens: as f\u00fateis, as \u00fateis e as in\u00fateis (\u2018in\u2019, aqui, assume a fun\u00e7\u00e3o de prefixo de nega\u00e7\u00e3o, mas a que somo o sentido de \u2018meta\u2019, \u2018para al\u00e9m de\u2019. \u2018In\u00fatil\u2019 significar\u00e1, neste sentido, o que est\u00e1 \u2018para al\u00e9m do \u00fatil).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As f\u00fateis definem as a\u00e7\u00f5es que, sendo realizadas por um sujeito humano, ocorrem em condi\u00e7\u00f5es em que o grau de presen\u00e7a consciente do indiv\u00edduo se encontra mais diminu\u00edda. Sendo certo que n\u00e3o h\u00e1 a\u00e7\u00f5es amorais de sujeitos humanos conscientes (a amoralidade \u00e9 um abstrato, mas sem verifica\u00e7\u00e3o na realidade concreta, pois toda a a\u00e7\u00e3o de sujeitos humanos conscientes \u00e9 suscet\u00edvel de leitura moral), pode, contudo, ocorrer que o grau de \u2018presen\u00e7a\u2019 seja diminu\u00eddo por muitos fatores. Acontecem a\u00e7\u00f5es f\u00fateis quando o sujeito \u00e9 movido pelas emo\u00e7\u00f5es, pelo medo, por circunst\u00e2ncias que obnubilam a sua racionalidade. Integram este \u00e2mbito as a\u00e7\u00f5es realizadas por influ\u00eancia da psicologia de massas ou no contexto de manifesta\u00e7\u00f5es ditas \u2018gratuitas\u2019 da parte de \u2018adolescentes\u2019 e jovens \u2018inconscientes\u2019. O simples \u2018fazer por fazer\u2019, para marcar que se passou por aqui, que se esteve aqui, que se deixou marca de passagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 improv\u00e1vel que algumas das a\u00e7\u00f5es do homem pr\u00e9-hist\u00f3rico possam ser desta ordem, mas a prolifera\u00e7\u00e3o das manifesta\u00e7\u00f5es obriga a levantar outras hip\u00f3teses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda ordem respeita \u00e0s a\u00e7\u00f5es \u00fateis: aquelas de que resulta algo que se pretende.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, ao colocar as manifesta\u00e7\u00f5es pr\u00e9-hist\u00f3ricas no \u00e2mbito das a\u00e7\u00f5es \u00fateis, poder\u00e3o aventar-se hip\u00f3teses de ordem individual, comunit\u00e1ria ou meta-comunit\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ler as a\u00e7\u00f5es pr\u00e9-hist\u00f3ricas (o registo de gravuras, a cria\u00e7\u00e3o de meg\u00e1litos de natureza funer\u00e1ria, etc.) num registo de utilidade pressup\u00f5e, imediatamente, a admiss\u00e3o de que estamos perante indiv\u00edduos que n\u00e3o se sup\u00f5em isolados ou sem conex\u00e3o com o meio e com outros (presentes ou ausentes). Logo sup\u00f5e um ser intrinsecamente pensado a si mesmo em rela\u00e7\u00e3o, o que contraria uma certa perce\u00e7\u00e3o de que o modo de descri\u00e7\u00e3o do passado pr\u00e9-hist\u00f3rico se fez assente na ideia de indiv\u00edduos aparentemente isolados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No registo de utilidade e enquadrado nesta vis\u00e3o intrinsecamente inter-relacional, as gravuras n\u00e3o s\u00e3o, ainda, realizadas com um intuito intemporal (haveremos de analisar, ao v\u00ea-las no registo da \u2018in\u2019utilidade). Servem um intuito de comunica\u00e7\u00e3o. O homem pr\u00e9-hist\u00f3rico, naquelas que s\u00e3o as suas formas de se manifestar e exprimir, est\u00e1 a comunicar. Resta saber se algum dia perceberemos, totalmente, o grau de \u2018comunica\u00e7\u00e3o\u2019 presente nas gravuras. Ser\u00e3o um c\u00f3digo, um conjunto \u2018idiogram\u00e1tico\u2019, \u00e0 maneira dos hier\u00f3glifos eg\u00edpcios? E o que comunicariam?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, ainda no registo da utilidade, \u00e9 poss\u00edvel levantar uma mais ampla hip\u00f3tese.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das mais intrigantes constata\u00e7\u00f5es, ao analisar os cerca de 220 monumentos ou lugares megal\u00edticos j\u00e1 identificados, n\u00e3o \u00e9 a de que haja caracter\u00edsticas distintas, quando se estuda a sua profus\u00e3o por todo o territ\u00f3rio hoje lusitano. O que surpreende \u00e9 a perman\u00eancia de alguns tra\u00e7os comuns, apesar das dist\u00e2ncias (que n\u00e3o s\u00e3o as de hoje, em que, em poucas horas, nos deslocamos de um ao outro extremo do pa\u00eds). Como interpretar essa perman\u00eancia? Que utilidade (estamos nessa fase da nossa an\u00e1lise) pode vislumbrar-se nesta const\u00e2ncia?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num dos textos, da autoria de Elena Mor\u00e1n, sobre os \u2018principais monumentos e express\u00f5es art\u00edsticas pr\u00e9-hist\u00f3ricas na regi\u00e3o do Algarve\u2019, levanta-se uma curiosa hip\u00f3tese que gostaria de alargar: a de que em torno da ba\u00eda de Lagos existisse um territ\u00f3rio politicamente organizado, j\u00e1 neste per\u00edodo pr\u00e9-hist\u00f3rico<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. Ideia curiosa\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de expor a sugest\u00e3o de hip\u00f3tese, importa reconhecer que a rece\u00e7\u00e3o da investiga\u00e7\u00e3o pr\u00e9-hist\u00f3rica continua a enfermar de um defeito que este \u00faltimo artigo procura superar. O homem pr\u00e9-hist\u00f3rico \u00e9 retratado como isolado, solit\u00e1rio, com as suas preocupa\u00e7\u00f5es, mas sem uma estrutura \u2018abstrata\u2019 (quase estatal) a organizar a especificidade de cada comunidade e, no interior de cada uma, de cada indiv\u00edduo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como que parecemos supor o indiv\u00edduo pr\u00e9-hist\u00f3rico, tomado pelos seus medos e mitos, mas sem perspetivar que esses mesmos medos e mitos possam ser herdados, comunicados e perpetuados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num registo de a\u00e7\u00f5es \u00fateis, e alargando o horizonte para o \u2018meta-comunit\u00e1rio\u2019, avento a hip\u00f3tese de o homem pr\u00e9-hist\u00f3rico participar numa estrutura de organiza\u00e7\u00e3o \u2018ideol\u00f3gica\u2019, \u2018conceptual\u2019, \u2018religiosa\u2019, \u2018de dom\u00ednio\u2019 e \u2018submiss\u00e3o\u2019, em que as manifesta\u00e7\u00f5es se comunicam e se perpetuam. Ele n\u00e3o comunica para outros tempos: comunica entre si e transmite, por esse meio, impress\u00f5es sobre o mundo e exerce influ\u00eancia sobre os outros: recebe e transmite influ\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Claro que uma hip\u00f3tese deste g\u00e9nero exige perguntar onde estaria a sede desse dom\u00ednio, a origem desse dom\u00ednio. Mas, como hip\u00f3tese, n\u00e3o deixa de ser interessante e colocar mais um fator de \u2018procura\u2019 e investiga\u00e7\u00e3o. E agrega, naturalmente, a hip\u00f3tese subsidi\u00e1ria de as gravuras n\u00e3o serem apenas arte, mas comunica\u00e7\u00e3o, \u2018texto\u2019 atrav\u00e9s de desenho, como, acima, propunha, ao referir-me aos hier\u00f3glifos eg\u00edpcios e a outras escritas n\u00e3o alfab\u00e9ticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ali\u00e1s, se esta hip\u00f3tese colher, ser\u00e1 de supor que a \u2018escrita\u2019 n\u00e3o seja \u2018diagr\u00e1fica\u2019 (sinais que se sucedem), mas \u2018singr\u00e1fica\u2019 (sinais que se sobrep\u00f5em).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Avancemos para a interpreta\u00e7\u00e3o das express\u00f5es pr\u00e9-hist\u00f3ricas num registo de a\u00e7\u00f5es \u2018in\u2019\u00fateis\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Precisemos que, por a\u00e7\u00f5es \u2018in\u2019\u00fateis n\u00e3o designamos a\u00e7\u00f5es f\u00fateis (enquadr\u00e1veis na primeira categoria), mas as que superam o crit\u00e9rio da utilidade, por excesso. S\u00e3o \u2018meta\u2019\u00fateis. Poderemos considerar enquadr\u00e1veis neste \u00e2mbito as que concernem aos dom\u00ednios do mais especificamente humano (e humaniz\u00e1vel): as que respeitam \u00e0 cria\u00e7\u00e3o pura, \u00e0 gera\u00e7\u00e3o de algo meramente original, dom\u00ednio a que pertencem a arte, o religioso, os \u00e2mbitos do \u2018criar por criar\u2019., como, ali\u00e1s, ocorre com a cria\u00e7\u00e3o infantil, que faz pelo prazer da realiza\u00e7\u00e3o, da cria\u00e7\u00e3o. Quanto, ali\u00e1s, das gravuras pr\u00e9-hist\u00f3ricas poderia ser cria\u00e7\u00e3o infantil? Hip\u00f3tese j\u00e1 alguma vez levantada?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Admitir que os elementos identificados se situam neste \u00e2mbito do \u2018in\u2019\u00fatil pressup\u00f5e o reconhecimento de um grau de \u2018eleva\u00e7\u00e3o\u2019 para al\u00e9m do ch\u00e3o de que nos fazemos que torna mais dif\u00edcil, bem certo, compreender as raz\u00f5es que assistem \u00e0 pureza do ato criativo, mas, ao mesmo tempo, exigem a revis\u00e3o sobre o grau de \u2018civiliza\u00e7\u00e3o\u2019 das comunidades em que as condi\u00e7\u00f5es existenciais j\u00e1 permitiam ser criador at\u00e9 este grau de \u2018pureza\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais do que respostas, estas abordagens s\u00e3o desafio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desafio a que, antes de mais, todos (mesmo os que, preconceituosamente, tantas vezes, se (ou foram) arredaram destes territ\u00f3rios) sejam envolvidos na busca da compreens\u00e3o sobre quem fomos, antes de nos podermos compreender com precis\u00e3o, mas, tamb\u00e9m, desafio a que permane\u00e7am em aberto as possibilidades, mesmo as que, num primeiro momento, poderiam parecer-nos excessivas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O caminho percorrido ainda \u00e9 curto, mas j\u00e1 tanto se beneficiou com a conjuga\u00e7\u00e3o de esfor\u00e7os. O repto est\u00e1 lan\u00e7ado. Que muitos o possam aceitar\u2026<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Estes e outros nomes poder\u00e3o ser encontrados no livro de Thomas E. Woods, <em>O que a civiliza\u00e7\u00e3o ocidental deve \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica<\/em>, Lisboa, Al\u00eatheia Editores, 2009, principalmente p\u00e1ginas 75 a 125. Costumo dizer que este livro deveria estar na sec\u00e7\u00e3o de finan\u00e7as, pois \u00e9 um livro que salda a d\u00edvida do Ocidente para com a Igreja Cat\u00f3lica, ao reconhecer, contra tantos mal-entendidos, o contributo \u00edmpar do cristianismo cat\u00f3lico para a constru\u00e7\u00e3o da sociedade ocidental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Sobre o Padre (c\u00f3nego) P\u00f3voa dos Reis, existe um incontorn\u00e1vel ensaio biogr\u00e1fico da autoria de D. Manuel de Almeida Trindade (Bispo de Aveiro entre 1962 e 1988), edi\u00e7\u00e3o da Gr\u00e1fica de Coimbra, 2001.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Thierry Aubry, \u2018Vale do C\u00f4a: Monumentalizar e humanizar com imagens h\u00e1 mais de 12000 anos\u2019, in Revista <em>Super Interessante<\/em>, \u2018<em>Portugal Pr\u00e9-Hist\u00f3rico: Monumentos e Arte Rupestre no nosso pa\u00eds\u2019<\/em>, p. 50.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Sara Garc\u00eas, \u2018O que o rio esconde: Vale do Tejo \u2013 o maior complexo de arte rupestre da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica\u2019, in Revista <em>Super Interessante<\/em>, \u2018<em>Portugal Pr\u00e9-Hist\u00f3rico: Monumentos e Arte Rupestre no nosso pa\u00eds\u2019<\/em>, p. 120.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Cfr. Elena Mor\u00e1n, \u2018principais monumentos e express\u00f5es art\u00edsticas pr\u00e9-hist\u00f3ricas na regi\u00e3o do Algarve\u2019 in <em>Ibidem<\/em>, p. 169s.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;, &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<h4 style=\"text-align: right;\">Imagem: <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Anta_da_Cerqueira#\/media\/Ficheiro:Anta_Cerqueira_em_Couto_Esteves_06.JPG\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Anta da Cerqueira<\/a> | Sever do Vouga<\/h4>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lugares pr\u00e9-hist\u00f3ricos no<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":18221,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,14],"tags":[],"class_list":["post-18220","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-temas-para-debate"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18220","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18220"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18220\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18225,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18220\/revisions\/18225"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18221"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18220"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18220"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18220"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}