{"id":18198,"date":"2024-08-06T07:00:23","date_gmt":"2024-08-06T06:00:23","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=18198"},"modified":"2024-08-10T12:07:00","modified_gmt":"2024-08-10T11:07:00","slug":"luis-manuel-pereira-da-silva-do-jogo-e-do-jogar-alegoria-de-um-futuro-mais-humano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/luis-manuel-pereira-da-silva-do-jogo-e-do-jogar-alegoria-de-um-futuro-mais-humano\/","title":{"rendered":"Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva | Do jogo e do jogar: alegoria de um futuro mais humano"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">Texto originalmente publicado na <a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/do-jogo-e-do-jogar-alegoria-de-um-futuro-mais-humano\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ag\u00eancia Ecclesia<\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria da rela\u00e7\u00e3o entre o cristianismo e o jogo n\u00e3o ser\u00e1 das mais positivas entre as que dois mil anos de muitos encontros e desencontros poder\u00e3o contar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O risco de a homenagem aos vencedores poder resvalar para um qualquer indisfar\u00e7\u00e1vel culto do corpo e a marca veterotestament\u00e1ria de uma vincada recusa do culto idol\u00e1trico poder\u00e3o ter contribu\u00eddo, de forma profunda, para essa desconfian\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por contraste, contudo, poderiam ter-se encontrado, de modo semelhante, iguais motivos de desconfian\u00e7a para com a comensalidade, mas tal n\u00e3o impediu que o banquete tenha sido, ao longo da hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o, uma das mais frequentes met\u00e1foras da rela\u00e7\u00e3o entre Deus e a humanidade; ou para com o lugar do t\u00e1lamo, desvirtuado, tantas vezes, por infidelidades e viol\u00eancias, sem que tal tenha obstru\u00eddo a que Cristo pensasse a sua rela\u00e7\u00e3o com a Igreja como a de um Esposo com a sua Esposa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o mereceu igual \u2018oportunidade\u2019 o jogo, por\u00e9m. Uma r\u00e1pida procura pelos textos b\u00edblicos permitir-nos-\u00e1 verificar que \u00e9 palavra ausente da terminologia sagrada. \u2018Jogar\u2019 parece n\u00e3o fazer parte da rela\u00e7\u00e3o entre Deus e o homem. Talvez disso j\u00e1 se tivesse apercebido o judeu (de nascimento) Einstein, ao reconhecer que \u2018Deus n\u00e3o joga aos dados\u2019. (N\u00e3o era a isto que se referia, bem certo, mas \u00e0 natureza \u2018determin\u00edstica\u2019 e n\u00e3o aleat\u00f3ria da realidade, mas n\u00e3o deixa de ser interessante record\u00e1-lo, nesta circunst\u00e2ncia!)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas n\u00e3o ser\u00e1 de se dar \u2018nova oportunidade\u2019 ao jogo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fundador do escutismo, Baden-Powell, percebeu-o, no j\u00e1 distante 1907, ao conferir ao jogo uma condi\u00e7\u00e3o central na pedagogia do movimento por si fundado nessa altura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diz a hist\u00f3ria da recupera\u00e7\u00e3o dos jogos ol\u00edmpicos que o pr\u00f3prio Pierre de Coubertin, que estudou num col\u00e9gio jesu\u00edta, se inspirou num livro escrito pelo padre dominicano e pedagogo Thomas Arnold para a cria\u00e7\u00e3o dos jogos ol\u00edmpicos da era moderna. Percebera o papel do desporto no desenvolvimento da pessoa e na sua integra\u00e7\u00e3o na vida em sociedade e na compreens\u00e3o de si mesma. 1500 anos depois, seria pela via da influ\u00eancia crist\u00e3 que se recuperaria uma longa omiss\u00e3o da hist\u00f3ria (\u00e9 preciso, bem certo, compreender a conota\u00e7\u00e3o que os jogos ol\u00edmpicos tinham quando Teod\u00f3sio os extinguiu, no s\u00e9culo IV, sendo associados ao paganismo e ao culto idol\u00e1trico e polite\u00edsta. As circunst\u00e2ncias pol\u00edtico-sociais ajudam a compreender a determina\u00e7\u00e3o em p\u00f4r fim ao que simbolizava um passado de que se pretendia partir\u2026).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Constatada, ent\u00e3o, a utilidade e nunca suficiente tarefa de recuperar-se dessa hist\u00f3ria de desconfian\u00e7a, ousemos fazemos uma \u2018ludologia\u2019, uma abordagem do jogo a partir da natureza que dele pode colher-se para a compreens\u00e3o do humano mais profundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A procura do que define o humano e do que o distingue dos demais seres, em particular, dos animais, est\u00e1, hoje, envolvida em enormes ambiguidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recordo, por\u00e9m, sempre, quando esta \u00e9 a mat\u00e9ria em discuss\u00e3o, a constata\u00e7\u00e3o de Chesterton: \u2018Aquilo que tem de ser explicado n\u00e3o \u00e9 a semelhan\u00e7a, \u00e9 a monstruosa escala da dissemelhan\u00e7a. Que o homem \u00e9 parecido com os animais \u00e9, em certo sentido, um tru\u00edsmo; mas que, sendo t\u00e3o parecidos, eles sejam t\u00e3o inconcebivelmente diferentes, isso \u00e9 que \u00e9 um choque e um enigma\u2019. (Ortodoxia, Al\u00eatheia, 2008, p. 205)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, na minha perspetiva, se tivermos de procurar o que, de facto, nos distingue, teremos de o encontrar no que h\u00e1 de comum \u00e0 sua capacidade de criar linguagem, de partir em busca do eterno, de ousar perdoar, de chorar diante de uma foto ou, simplesmente, de um nome, de criar um ritual e de o repetir, sucessivamente, com significado e como\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre todas estas a\u00e7\u00f5es, h\u00e1 algo em comum: a capacidade de \u2018representar\u2019 o ausente. A essa capacidade, que consiste em unir duas partes \u2013 uma ausente que se torna presente em algo distinto -, damos o nome de \u2018simbologia\u2019 ou, melhor, ao \u2018algo\u2019 que torna presente uma realidade ausente chamamos \u2018s\u00edmbolo\u2019. Devemos esta palavra ao grego que, com o verbo \u2018simballein\u2019 (s\u00fcn+ballein), quer dizer \u2018lan\u00e7ar junto, em conjunto\u2019, expressando a ideia de unir duas partes que estavam separadas. Curiosamente, o oposto \u00e9 o verbo \u2018dia+ballein\u2019 (que exprime a ideia contr\u00e1ria de \u2018atirar em separado\u2019, \u2018cindir o que est\u00e1 unido\u2019 (\u2018quebrar o que est\u00e1 junto\u2019), que deu, em portugu\u00eas, o termo \u2018diabo\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, o jogo \u00e9, pela sua natureza, uma representa\u00e7\u00e3o. Torna presente uma realidade ausente. Representa a viol\u00eancia, atrav\u00e9s de \u2018rituais\u2019 que n\u00e3o s\u00e3o viol\u00eancia em si mesmos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recordo bem as palavras de um nosso selecionador, Lu\u00eds Felipe Scolari, quando, no emotivo \u2018Euro 2004\u2019, se referia \u00e0s fases de eliminat\u00f3rias como sendo de \u2018mata-mata\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No futebol, pode dizer-se que h\u00e1 \u2018mata-mata\u2019, pois a \u2018morte\u2019 do advers\u00e1rio \u00e9 puramente simb\u00f3lica, isto \u00e9, est\u00e1 presente mas ausente; ou, melhor, est\u00e1 ausente mas presente, simbolicamente, apenas. O golo que derrota o advers\u00e1rio \u00e9 \u2018como\u2019 lan\u00e7a cravada no seu peito. Mas n\u00e3o lhe \u00e9 letal. No final, podemos abra\u00e7ar-nos e \u2018beber um copo juntos\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 esse o poder do s\u00edmbolo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 esse o poder do jogo, enquanto realidade criada, \u00fanica e singularmente, pelos seres humanos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E \u00e9 por isso, tamb\u00e9m, que, quando a viol\u00eancia deixa de ser simb\u00f3lica e passa a real, o jogo deixa de o ser. (Ali\u00e1s, confesso que sou um defensor de que n\u00e3o t\u00eam natureza de jogo aquelas modalidades em que o objetivo \u00e9 deixar KO o advers\u00e1rio. A realidade representada deixa de ser re-presentada para passar a ser real. O s\u00edmbolo extingue-se pela confus\u00e3o entre o representante e o representado\u2026)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entusiasmados com estes rudimentos de ludologia, poder\u00edamos arriscar pedir aos homens do poder que sonhem o mundo como um grande jogo e procurem resolver, num real tabuleiro de xadrez, os problemas de territ\u00f3rio ou de dom\u00ednio. Se, afinal, ganhar uma guerra \u00e9 uma quest\u00e3o de estrat\u00e9gia, melhor ser\u00e1 o pol\u00edtico que mantiver protegido o seu rei do xeque-mate advers\u00e1rio! E com muito menos custos de vidas humanas. Os pe\u00f5es tombados, que ladeiam o tabuleiro, podem voltar a erguer-se para novo jogo, em sucessivas batalhas e xeques-mates.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o poder\u00e1 erguer-se, por\u00e9m, do campo real de batalha, cada soldado tombado e chorado. Porque a guerra n\u00e3o \u00e9 um jogo!<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;, &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/felixmittermeier-4397258\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2730034\">PayPal.me\/FelixMittermeier<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2730034\">Pixabay<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto originalmente publicado<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":18199,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[165,146,55],"tags":[],"class_list":["post-18198","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura-devida","category-letra-viva-valores-de-uma-cultura-que-cuida-e-nao-mata","category-luis-manuel-pereira-da-silva"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18198","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18198"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18198\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18212,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18198\/revisions\/18212"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18199"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18198"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18198"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18198"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}