{"id":18131,"date":"2024-09-15T07:00:50","date_gmt":"2024-09-15T06:00:50","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=18131"},"modified":"2024-09-15T12:04:28","modified_gmt":"2024-09-15T11:04:28","slug":"regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden-23-nemesis-e-moiras-a-desmesura-e-o-destino-perante-a-graca-e-o-perdao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden-23-nemesis-e-moiras-a-desmesura-e-o-destino-perante-a-graca-e-o-perdao\/","title":{"rendered":"\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019 | 23 | N\u00e9mesis e moiras \u2013 a desmesura e o destino perante a gra\u00e7a e o perd\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><em>\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019<\/em> | Parceria com a revista <a href=\"http:\/\/www.movimento-acr.pt\/accao-catolica-portuguesa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">&#8216;Mundo Rural&#8217;<\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ulisses est\u00e1 no seu demorado processo de regresso. H\u00e1, nele, um profundo desejo de chegar \u00e0 casa donde partiu h\u00e1 j\u00e1 demasiado tempo. Desejo que o habita e \u2018arrasta\u2019 como uma aus\u00eancia a necessitar de ser preenchida. Sobre ele refletiremos, no \u00faltimo cap\u00edtulo deste j\u00e1 longo \u2018regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019. \u00c9 um desejo que se expressa como \u00e2nsia de \u00abregresso a casa\u00bb, uma \u2018nostalgia\u2019 persistente e omnipresente desde a partida feita desejo de chegada. Nela se unir\u00e3o \u2018regresso\u2019 (a \u00cdtaca) e \u2018sonho\u2019 (do \u00c9den).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas ainda nos cabe enfrentar o motivo profundo pelo qual temos de voltar a partir de \u00cdtaca, mas desejando regressar, j\u00e1 n\u00e3o a ela, mas ao \u00c9den, que nos toma a alma como saudade e genu\u00edna nostalgia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ulisses \u00e9 um her\u00f3i, bem certo, mas um her\u00f3i \u00e0 maneira grega. A vis\u00e3o \u00e9 tr\u00e1gica, porque, nela, dominam o limite intranspon\u00edvel e a sombra da maldi\u00e7\u00e3o de nada ser ou eternamente ficar abandonado por em algum momento se ter transgredido o estabelecido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tenta\u00e7\u00e3o desta leitura n\u00e3o est\u00e1 ausente da rece\u00e7\u00e3o do cristianismo, entre o povo. Mas n\u00e3o \u00e9 a marca definidora do ser crist\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Expliquemo-nos\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No esp\u00edrito grego, n\u00e3o h\u00e1 lugar para a \u2018surpresa\u2019, para a \u2018gra\u00e7a\u2019, o \u2018n\u00e3o previsto e previs\u00edvel\u2019. Tudo \u00e9 destino (moira) e determina\u00e7\u00e3o do limite (N\u00e9mesis). O ser humano est\u00e1 determinado a cumprir o tra\u00e7ado que lhe coube em sorte. A transgress\u00e3o \u00e9 certeza de custo previsto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Maria Helena da Rocha Pereira recorda-o ao analisar a hist\u00f3ria de Medeia que quer de Creonte muito mais do que uma promessa. Quer \u2018um juramento formal, com a invoca\u00e7\u00e3o precisa dos deuses envolvidos no ato, que comprometa de forma irrevers\u00edvel quem o presta, formule as suas obriga\u00e7\u00f5es e anteveja os castigos da transgress\u00e3o\u2019 <a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. N\u00e3o h\u00e1 lugar para o inesperado. No esp\u00edrito grego, tudo \u00e9 previs\u00edvel, antecip\u00e1vel e quem comete a ousadia da desmesura, submete-se \u00e0 consequ\u00eancia esper\u00e1vel. Cruzam-se, nesta s\u00edntese, dois vetores que, sendo, originalmente, abstra\u00e7\u00f5es, se \u2018personificam\u2019 em figuras m\u00edticas: por um lado, a irrevogabilidade do destino de cada um, na ideia das \u2018moiras\u2019 ou, na reda\u00e7\u00e3o proposta por Pierre Grimal <a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a><sup>,<\/sup> das \u2018meras\u2019, o quinh\u00e3o, a parte que cabe a cada um cumprir (de felicidade e infelicidade); por outro, a \u2018vingan\u00e7a dos deuses\u2019, representada na ideia e na figura da N\u00e9mesis, cuja representa\u00e7\u00e3o mais famosa \u00e9 a que se encontra em Ramnunte. Aqui, numa est\u00e1tua hoje mutilada, representava-se uma deusa com uma arranca de ma\u00e7\u00e3 e um figo, e ter\u00e1 sido esculpido por Agoracritus, um aluno de F\u00eddias, por volta de 430 a.C. \u00c9 curioso que o figo e a ma\u00e7\u00e3 sejam elementos ilustrativos desta figura m\u00edtica, evocando a simbologia transcultural a eles associada. Como n\u00e3o recordar a interpreta\u00e7\u00e3o do fruto proibido como sendo uma ma\u00e7\u00e3 (apesar de o texto b\u00edblico n\u00e3o suportar essa conclus\u00e3o) ou a refer\u00eancia \u00e0 figueira como uma \u00e1rvore amaldi\u00e7oada, talvez em virtude da \u2018trai\u00e7oeira\u2019 fragilidade da sua madeira, incapaz de suportar, demoradamente, o peso de um homem?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mesmo Pierre Grimal d\u00e1 suporte a esta nossa interpreta\u00e7\u00e3o, ao recordar que as Meras \u2018n\u00e3o t\u00eam uma lenda propriamente dita. N\u00e3o s\u00e3o mais que a simboliza\u00e7\u00e3o de uma conce\u00e7\u00e3o do mundo semifilos\u00f3fica, semi-religiosa\u2019<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, a qual, como fomos evidenciando, ao longo deste \u2018regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019, se mostra ora convergente, mas maioritariamente divergente do genu\u00edno esp\u00edrito crist\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste, com efeito, se foram sobrevivendo, aqui e ali, marcas desta vis\u00e3o tr\u00e1gica e fatalista (de que o predestinacionismo calvinista ser\u00e1 uma das maiores express\u00f5es), ter\u00e1 de ser reconhecido como tendo contribu\u00eddo para emergir, no mundo, um outro olhar, em que h\u00e1 espa\u00e7o para a \u2018surpresa\u2019, a \u2018novidade\u2019, o \u2018gratuito\u2019 (porque dado por \u2018gra\u00e7a\u2019), e, por isso, a possibilidade do perd\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta nossa reflex\u00e3o permite-nos ousar depreender na frequentemente evocada conflitualidade entre cristianismo e ci\u00eancia um equ\u00edvoco que nascer\u00e1 destas duas vis\u00f5es retratadas, ao longo da reflex\u00e3o feita em \u2018regresso a \u00cdtaca\u2026\u2019. O real \u2018conflito\u2019 n\u00e3o \u00e9 entre cristianismo e ci\u00eancia, mas entre uma vis\u00e3o \u2018determinista\u2019 e uma outra em que continua a haver lugar para a liberdade, para o rompimento de toda a previsibilidade e irrevogabilidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No limite, na vis\u00e3o grega, at\u00e9 os deuses est\u00e3o submetidos \u00e0s Meras. \u2018Impessoal, a Mera \u00e9 t\u00e3o inflex\u00edvel como o destino: encarna uma lei que os pr\u00f3prios deuses n\u00e3o podem transgredir sem p\u00f4r em perigo a ordem do mundo\u2019<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>, sendo que deles pode esperar-se, inclusive a vingan\u00e7a e s\u00e9rias repres\u00e1lias: \u2018tudo o que se eleva acima da sua condi\u00e7\u00e3o, no bem como no mal, exp\u00f5e-se a repres\u00e1lias dos deuses\u2019<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa can\u00e7\u00e3o sobejamente conhecida e replicada de t\u00edtulo \u2018N\u00e9mesis\u2019, o cantor Clementine recorda que \u2018Nemesis is, is the mother of karma\u2019 (\u2018Nemesis \u00e9 a m\u00e3e do Karma\u2019), replicando uma intui\u00e7\u00e3o interessante e nem sempre constatada: de facto, \u00e9 preciso esperar pelo judeo-cristianismo para encontrar a ideia de perd\u00e3o que, fora deste registo, est\u00e1 sempre ausente. \u2018Karma\u2019 evoca a matriz oriental, explicitada na vis\u00e3o hindu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bono Vox, o vocalista dos U2 recorda, numa muito interessante entrevista dada a Michka Assayas, que \u2018no centro de todas as religi\u00f5es h\u00e1 a ideia de Karma. V\u00ea bem, aquilo que fazes volta para ti: olho por olho, dente por dente, ou, na f\u00edsica \u2013 nas leis f\u00edsicas \u2013 a cada a\u00e7\u00e3o equivale uma igual ou oposta. \u00c9 claro para mim que o Karma est\u00e1 no centro do Universo. Tenho a certeza absoluta. E ainda assim, aparece igualmente este conceito de Gra\u00e7a para dar a volta a tudo isto \u00abComo colhes, assim ter\u00e1s de semear\u00bb. A Gra\u00e7a desafia a raz\u00e3o e a l\u00f3gica. O amor interrompe, se quiseres, as consequ\u00eancias das tuas a\u00e7\u00f5es, o que, no meu caso, \u00e9, na verdade, muito bom, porque eu fiz muitas coisas est\u00fapidas.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>\u2019<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O leitor atento poder\u00e1 contestar-me que tamb\u00e9m a b\u00edblia est\u00e1 cheia de \u2018maldi\u00e7\u00f5es\u2019 e \u2018fatalismos\u2019. Mas n\u00e3o deixar\u00e1 de surpreender que o \u00faltimo livro, tamb\u00e9m ele tantas vezes lido sob um registo de mais um vademecum de maldi\u00e7\u00f5es, termine com a esperan\u00e7a de que \u2018A gra\u00e7a do Senhor Jesus esteja com todos v\u00f3s.\u2019 (Ap 22,21), depois de assegurar que a esperan\u00e7a definitiva ser\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o a um lugar onde \u2018E ali nunca mais haver\u00e1 nada maldito.\u2019 (Ap 22,3)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E erraria quem se agarrasse ao literalismo das frases. Todo o livro \u00e9 uma ode \u00e0 esperan\u00e7a, \u00e0 gra\u00e7a, \u00e0 surpresa da vit\u00f3ria do amor sobre os determinismos e fatalismos: \u00abN\u00e3o tenhas medo! Eu sou o Primeiro e o \u00daltimo; aquele que vive. Estive morto; mas, como v\u00eas, estou vivo pelos s\u00e9culos dos s\u00e9culos e tenho as chaves da Morte e do Abismo!\u00bb, sendo que n\u00e3o \u00e9 despiciendo que se evidencie estarem superados os limites do esp\u00edrito grego refazendo o discurso grego com um novo alfabeto que, em Cristo, a pura Gra\u00e7a de Deus, encontra o novo \u2018alfa\u2019 e \u2018omega\u2019 dos novos discursos\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Maria Helena da Rocha Pereira, <em>Estudos sobre a Gr\u00e9cia Antiga: Artigos<\/em>, Coimbra, Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian e Imprensa da Universidade de Coimbra, 2014, p. 368.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Cfr. Pierre Grimal, <em>Dicion\u00e1rio da mitologia grega e romana<\/em>, Lisboa, Ant\u00edgona Editores Refract\u00e1rios, 2020, p. 306.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Pierre Grimal, <em>op. Cit<\/em>., p. 306.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Pierre Grimal, <em>op. Cit<\/em>, p. 306.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Cfr., <em>Ibidem<\/em>, p. 326.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Michka Assayas e Bono Vox, <em>Bono por Bono<\/em>, Lisboa, Editora Ulisseia, 2005, p. 227.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;, &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 id=\"firstHeading\" class=\"firstHeading mw-first-heading\" style=\"text-align: right;\"><span class=\"mw-page-title-main\">Imagem: <a href=\"https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:Roman_copy_of_the_statue_of_Nemesis_at_Ramnous._National_Archaeological_Museum_of_Athens_inv_3349_(01).jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">N\u00e9mesis em Ramnous<\/a><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2018Regresso a \u00cdtaca<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":18132,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,177],"tags":[],"class_list":["post-18131","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18131","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18131"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18131\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18255,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18131\/revisions\/18255"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18132"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18131"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18131"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18131"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}