{"id":18112,"date":"2024-11-07T07:07:52","date_gmt":"2024-11-07T07:07:52","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=18112"},"modified":"2024-07-24T15:24:05","modified_gmt":"2024-07-24T14:24:05","slug":"sabes-leitor-11-marca-de-agua-do-livro-de-fabrice-hadjadj-a-profundidade-dos-sexos-para-uma-mistica-da-carne","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/sabes-leitor-11-marca-de-agua-do-livro-de-fabrice-hadjadj-a-profundidade-dos-sexos-para-uma-mistica-da-carne\/","title":{"rendered":"Sabes, leitor&#8230; | 11 | Marca de \u00e1gua do livro de Fabrice Hadjadj, &#8216;A profundidade dos sexos: para uma m\u00edstica da carne&#8217;"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">Rubrica \u2018Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma p\u00e1gina\u2019** | <em>Marca de \u00e1gua de livros que deixam marcas profundas<\/em><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Parceria:<a href=\"https:\/\/www.federacaopelavida.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> <em>Federa\u00e7\u00e3o Portuguesa pela Vida<\/em><\/a> e<em> Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<pre style=\"padding-left: 80px;\"><strong>O autor e a obra<\/strong><\/pre>\n<h5 style=\"padding-left: 200px; text-align: justify;\"><strong>Fabrice Hadjadj, <em>A profundidade dos sexos: para uma m\u00edstica da carne<\/em>, Prior Velho, Paulinas Editora, 2010.<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fabrice Hadjadj \u00e9 um pensador dif\u00edcil de imitar e ainda mais dif\u00edcil de sintetizar. Lemo-lo e percebemos que estamos diante de um texto de Hadjadj, mas n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil transmitir a quem nunca o leu a unicidade do seu modo de pensar e de transmitir o que pensa. A sua escrita faz lembrar, pelo recurso aos paradoxos e \u00e0 surpresa do humor, o igualmente inimit\u00e1vel G. K. Chesterton.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acedi ao mundo de Hadjadj pela via de uma sua confer\u00eancia no Porto, em 2015, no \u00e2mbito do II Congresso Nacional de Leigos, em que refletiu sobre \u2018recolocar o Homem no centro: desafio antropol\u00f3gico\u2019, iniciando a sua interven\u00e7\u00e3o de modo paradoxal, ao recordar que este recentrar no Homem tem de acontecer no momento em que corresponde ao desafio do Papa Francisco de ir para as periferias. Periferias e \u2018recentrar\u2019 parecem n\u00e3o encaixar\u2026 Mas \u00e9 esta a marca de Hadjadj: o paradoxo que obriga a pensar e nos \u2018p\u00f5e de orelhas guiadas\u2019, \u00e0 espera do que a\u00ed vem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Habituado a este humor hadjadjiano, mandei vir de Espanha, em 2018, um dos seus livros mais teol\u00f3gicos [F. Hadjadj \u00e9 fil\u00f3sofo, mas, em virtude do seu percurso de convertido tardio, depois de um juda\u00edsmo \u2018n\u00e3o praticante\u2019 e um ate\u00edsmo militante, n\u00e3o se priva de reflex\u00f5es teol\u00f3gicas sempre bem fundamentadas e intencionalmente desconcertantes\u2026]. O t\u00edtulo pareceu-me suspeito. Desconfiei de que a tradu\u00e7\u00e3o espanhola teria vincado dedo editorial. Na edi\u00e7\u00e3o de editora solene, o t\u00edtulo do livro era \u2018Ressurrei\u00e7\u00e3o: experi\u00eancia de vida em Cristo ressuscitado\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desconfiado, fui ver o t\u00edtulo original. N\u00e3o podia ser mais hadjadjiano: \u2018Ressurrei\u00e7\u00e3o: modo de utiliza\u00e7\u00e3o\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isto \u00e9 Hadjadj!&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem \u00e9 que se iria lembrar de refletir sobre coisa t\u00e3o s\u00e9ria como a ressurrei\u00e7\u00e3o como quem fala de um frigor\u00edfico? Mas, com esta forma desconcertante, Hadjadj d\u00e1-nos logo a entender ao que vai, antes mesmo de abrirmos o livro: teremos de conviver com a experi\u00eancia da ressurrei\u00e7\u00e3o como quem se prepara para abrir a porta de um frigor\u00edfico: tem de fazer parte do nosso quotidiano, para que n\u00e3o seja algo estranho e opaco. E, j\u00e1 agora, encontrando nela a frescura para manter vivo o que perderia vigor e robustez\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para os que se sentirem fascinados ou interpelados a descobrir Hadjadj, deixo uma terceira sugest\u00e3o de leitura, tamb\u00e9m em tradu\u00e7\u00e3o portuguesa: a pe\u00e7a de teatro \u2018Job ou a tortura pelos amigos\u2019, que revisita, em modo de teatro contempor\u00e2neo, a dram\u00e1tica experi\u00eancia do sofredor b\u00edblico. Com a marca de Hadjadj, \u00e9 uma pe\u00e7a a levar \u00e0 vida do palco, para que se possa beneficiar da mordacidade e ousadia hadjadjiana em modo de drama.<\/p>\n<pre style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\"><strong>Marcas de \u00e1gua <\/strong>\r\n\r\n<strong>(o que fica depois de se deixar o livro)<\/strong><\/pre>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O livro que, agora, apresento ao leitor, vive desta mesma energia e ousadia. Como n\u00e3o ver o paradoxo que dimana do contraste entre o t\u00edtulo e o subt\u00edtulo? H\u00e1 uma certa mal\u00edcia em \u2018a profundidade dos sexos\u2019 que contrasta com a eleva\u00e7\u00e3o de \u2018para uma m\u00edstica da carne\u2019.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9, por isso, surpreendente que Jean S\u00e9villia, no seu monumental \u2018La France Catholique\u2019, o inclua, como \u2018judeu de nome \u00e1rabe e confiss\u00e3o cat\u00f3lica\u2019, num cap\u00edtulo dedicado \u00e0 ideia de que \u2018muitos grandes fil\u00f3sofos franceses s\u00e3o cat\u00f3licos\u2019, e o identifique como um dos que fazem parte da vaga de continuadores de nomes maiores da hist\u00f3ria contempor\u00e2nea da filosofia e da teologia, como R\u00e9mi Brague, Ren\u00e9 Girard, Jean-Luc Marion, etc.<\/p>\n<p>A ironia com que escreve parece habitar a hist\u00f3ria do pr\u00f3prio Hadjadj cuja narrativa de convers\u00e3o \u00e9 contada pelo Cardeal Tolentino de Mendon\u00e7a no pref\u00e1cio com que abre a edi\u00e7\u00e3o que tenho em m\u00e3os. Desafio a leitor a l\u00ea-la. Perceber\u00e1 o leitor que um escritor n\u00e3o se faz humorado sem deter o seu olhar de humor sobre a realidade em que germina.<\/p>\n<p>O humor de Hadjadj j\u00e1 n\u00e3o \u00e9, por\u00e9m, o do \u2018riso de Voltaire\u2019, que goza sem se comprometer. \u00c9 o riso desbragado de quem percebe que, nas ironias da vida e nas ironias sobre a vida se descobre o humor do sentido que Deus deposita na exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Hadjadj deve ser lido porque revela que, contrariando os in\u00fameros preconceitos com que o catolicismo \u00e9 tantas vezes brindado (inclusive o de que \u00e9 preconceituoso quando, se haveria alguma coisa de que o poderiam acusar, era de superabund\u00e2ncia de conceitos\u2026), o catolicismo \u00e9, afinal, uma enorme irrever\u00eancia contra as inundantes rever\u00eancias do nosso tempo.<\/p>\n<p>Sim, este \u00e9 um livro irreverente e em que o mais puro \u2018dogma\u2019 sobre como dever\u00e1 ler-se a sexualidade humana, em registo cat\u00f3lico, \u00e9 dito de forma muito pouco dogm\u00e1tica.<\/p>\n<p>\u00c9 essa a genialidade de Hadjadj: a de dizer levar o leitor a refletir sobre coisas muito, muito s\u00e9rias, mas com um humor que se sust\u00e9m ativo, da primeira \u00e1 \u00faltima p\u00e1gina.<\/p>\n<p>Logo na introdu\u00e7\u00e3o, Hadjadj reconhece que \u2018falar de profundidade, assim de imediato, leva a pensar em produtos dom\u00e9sticos. Explicam-nos que este detergente \u00ablimpa superf\u00edcies em profundidade\u00bb. E isso alimenta o sonho. A dona de casa n\u00e3o suspeitava que o seu pavimento fosse um tal abismo. O t\u00e9cnico de superf\u00edcie sente-se quase igual ao explorador em bat\u00edscafo. O termo \u00e9, pois, muito publicit\u00e1rio. Foi de prop\u00f3sito que o escolhi: <em>A profundidade dos sexos<\/em> \u2013 achei que isto vendia. Mas os leitores mais atinados, aqueles que j\u00e1 n\u00e3o caem nessa, logo se aperceberam da artimanha.\u2019 (p. 15)<\/p>\n<p>Ficamos certos de que a surpresa nos espera ao virar da p\u00e1gina, se n\u00e3o for antes mesmo de o fazermos, ainda no rodap\u00e9 da que estamos prestes a findar.<\/p>\n<p>E essa surpresa pode dar-se, bem certo, como tenho vindo a dizer, no modo como diz o que nos quer dizer, mas tamb\u00e9m pelo que diz.<\/p>\n<p>Hadjadj \u00e9 muito criativo, original e consegue encontrar, neste livro, formas singulares de dizer o que sempre reconhecemos e tom\u00e1mos como o correto e sensato.<\/p>\n<p>E, nestes tempos propensos a cancelamentos e novas censuras, Hadjadj n\u00e3o teme que o cancelem. Pensa livremente, olhando, com assombro, para a realidade, como ela se apresenta ao olhar inteligente.<\/p>\n<p>\u00c9 com esta agudeza que enfrenta mat\u00e9rias como a ambiguidade da ideia de amor, o eugenismo, a eutan\u00e1sia, o aborto, a homossexualidade, o individualismo, os novos totalitarismos, a teoria de g\u00e9nero, etc., opondo-se quer aos angelismos, quer \u00e0s sacraliza\u00e7\u00f5es da sexualidade. Hadjadj olha para o Homem e v\u00ea-o sempre imperfeito e perfet\u00edvel, uma unidade indissol\u00favel de alma-corpo, e, por isso, incompleto e s\u00f3 na dualidade totalmente humano. As dualidades, em Hadjadj, n\u00e3o s\u00e3o sin\u00f3nimas de dualismo que, ali\u00e1s, supera, com mestria. As dualidades s\u00e3o marca de tens\u00e3o da unidade que quer romper-se, mas n\u00e3o pode perder-se\u2026<\/p>\n<p>Ao definir a sua posi\u00e7\u00e3o, Hadjadj enfrenta as quest\u00f5es com que, habitualmente, s\u00e3o \u2018desmanchadas\u2019 as posi\u00e7\u00f5es natalistas ou defensoras de que existe um nexo intr\u00ednseco entre a sexualidade humana e a sua abertura \u00e0 vida. Hadjadj n\u00e3o recusa enfrentar as teorias demogr\u00e1ficas com que se esconde o malthusianismo que recusa a natalidade por em perigo estar o mundo. E f\u00e1-lo de um modo de facto \u00fanico: n\u00e3o diz tudo; deixa subentendidos que o leitor calcorreia, concluindo por si mesmo. \u00c9, por isso, um livro em que, havendo uma tese muito clara, uma ideia de sexualidade que \u00e9 mordaz para com a teoria de g\u00e9nero e para com uma conce\u00e7\u00e3o de sexualidade que condescende com a \u2018cerebraliza\u00e7\u00e3o\u2019 do sexo, a abordagem \u00e9 inteligente e intrigante. Somos levados a fazer o caminho. O autor n\u00e3o o faz por n\u00f3s\u2026 E isso tamb\u00e9m \u00e9 Hadjadj.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<pre style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\"><strong>Na mesma p\u00e1gina que o autor (cita\u00e7\u00f5es)<\/strong><\/pre>\n<p>\u2018O m\u00e9todo [do trocadilho] \u00e9 critic\u00e1vel. [\u2026] \u00c9 uma promessa de ligeireza que depressa vira falta de gra\u00e7a. Mas \u00e9 tamb\u00e9m busca de esp\u00edrito na mat\u00e9ria sonora das palavras. Eis porque os autores b\u00edblicos a ele recorrem com frequ\u00eancia (as nossas tradu\u00e7\u00f5es impedem que de tal nos demos conta): mostram que o Verbo n\u00e3o despreza a carne da l\u00edngua. O seu procedimento aproxima-se assim do que ser\u00e1 a minha tese principal: a mat\u00e9ria do homem est\u00e1 atulhada de esp\u00edrito: e o seu sexo, longe de ser um resqu\u00edcio animalesco, \u00e9 uma esp\u00e9cie de exorbitante relic\u00e1rio.\u2019 (p. 14)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2018Meditar sobre a profundidade dos sexos \u00e9 tamb\u00e9m poupar-se \u00e0 tarefa ingrata de ter de explicitar a sua diferen\u00e7a (e a sua eventual confus\u00e3o). Que \u00e9 que caracteriza o temperamento da mulher por oposi\u00e7\u00e3o ao do homem? Prov\u00e9m ela de V\u00e9nus e ele de Marte? Ser\u00e1 verdade que ela n\u00e3o l\u00ea t\u00e3o bem os mapas das estradas? Deseja ele o acto f\u00edsico e brutal, ao passo que ela busca, acima de tudo, a ternura que protege? Perante estas quest\u00f5es, confesso de bom grado a minha pregui\u00e7a. \u00c9 que a minha mulher l\u00ea os mapas das estradas muito melhor do que eu. Al\u00e9m disso, sou do signo Virgem. Neste registo psicologizante, h\u00e1 apenas uma coisa que tenho por garantida: os homens abotoam a sua roupa \u00e0 direita, enquanto as mulheres o fazem \u00e0 esquerda. A n\u00e3o ser que seja o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Interessa-me, pois, menos a diferen\u00e7a dos sexos do que a sua ordena\u00e7\u00e3o rec\u00edproca. O homem torna-se tanto mais viril quanto mais se vira para a mulher, e a mulher tanto mais feminina quanto mais se volta para o homem.\u2019 (p. 16)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2018Encontrar Deus, indo para o mosteiro, \u00e9 uma coisa bastante \u00f3bvia. Mas encontrar Deus, indo ter com a Micheline, que acabou mesmo agora de esturrar o seu guisado de vitela, eis algo que permanece assaz inexplic\u00e1vel.\u2019 (p. 18)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2018Esta m\u00edstica da carne ser\u00e1, apesar de tudo, uma moral, mas uma moral trocista, zombadora, numa palavra, dram\u00e1tica.\u2019 (p. 19)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2018O anarquista coerente come\u00e7a por ultrapassar os limites e acaba a lan\u00e7ar bombas.\u2019 (p. 22)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2018A sexualidade remonta ao s\u00e9culo XIX. A prova est\u00e1 no dicion\u00e1rio: antes, a palavra n\u00e3o existia. Devido \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o desta \u00absexualidade\u00bb, que reveste uma no\u00e7\u00e3o muito vaga, \u00e9 que o sexo, agora identificado com ela, se tornou indefinido.<\/p>\n<p>[\u2026]<\/p>\n<p>E hoje? Os pulm\u00f5es continuam a servir para respirar. Ao est\u00f4mago ningu\u00e9m contesta a sua fun\u00e7\u00e3o digestiva. Mas o sexo? Asno seria quem respondesse que a sua finalidade \u00e9 a procria\u00e7\u00e3o. E as suas outras fun\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m n\u00e3o se aguentam. Poder\u00e1 dizer-se que ele se reduz \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre homem e mulher? Ser\u00e1 mesmo poss\u00edvel crer que ele implica sobretudo a carne? Dever\u00e1 ent\u00e3o concluir-se que existe apenas para provocar em n\u00f3s perguntas? Tudo isso n\u00e3o passa de hip\u00f3teses. O sexo \u00e9, sem d\u00favida, usado como um \u00f3rg\u00e3o, como uma arma, como uma cruz. Mas, sobretudo, desapareceu\u2026\u2019 (p. 30)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2018Com o advento da psicologia, a sexualidade j\u00e1 n\u00e3o se encontra, primeiro, nos sexos, mas no c\u00e9rebro, ou no inconsciente, ou no livre arb\u00edtrio, ou na l\u00edngua, ou nas conven\u00e7\u00f5es sociais. Deix\u00e1mos de nos entender.\u2019 (p. 32)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2018Discutimos t\u00e3o-s\u00f3 o sexo dos anjos &#8211; sem carne nem gravidez, sem hist\u00f3ria nem privacidade, para l\u00e1 do feminino e do masculino, longe do casamento e da circuncis\u00e3o (um esp\u00edrito puro n\u00e3o tem prep\u00facio). Mas os anjos t\u00eam ainda demasiada consist\u00eancia. E, ademais, j\u00e1 n\u00e3o acreditamos neles. Comparemos antes o nosso sexo `famosa faca de Lichtenberg, \u00absem l\u00e2mina, e j\u00e1 sem cabo\u00bb &#8211; uma faca que n\u00e3o corta nada.\u2019 (p. 37)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2018O que me agrada no corpo, disso me apercebo de repente, \u00e9 a sua unidade vibrante, a sua presen\u00e7a indecompon\u00edvel e, por \u00faltimo \u2013 digamo-lo sem medo -, a alma que transpira em todo o seu ser.\u2019 (p. 38)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2018A mulher \u00e9 o \u00fanico ser humano que em si pode trazer outro. O seu corpo \u00e9 habit\u00e1vel.\u2019 (p. 128)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2018A diferen\u00e7a dos sexos \u00e9, de qualquer modo, t\u00e3o profunda que as sexualidades que pensam ter-se dela libertado se limitam a reproduzi-los por interioriza\u00e7\u00e3o ou por redistribui\u00e7\u00e3o dos pap\u00e9is.\u2019 (p. 143)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2018Pode compreender-se o choque de Pasolini, em 1975: \u00abFico traumatizado com a legisla\u00e7\u00e3o sobre o aborto porque, juntamente com outros, vejo nela uma legaliza\u00e7\u00e3o do homic\u00eddio. Nos meus sonhos e no meu comportamento quotidiano \u2013 eis algo de comum a todos os homens \u2013 vivo a minha vida pr\u00e9-natal, a minha feliz imers\u00e3o nas \u00e1guas maternais: sei que a\u00ed eu estava vivo\u00bb. (p. 158)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2018Um \u00fatero circundou todos os her\u00f3is da hist\u00f3ria. Tamb\u00e9m todos os imbecis (entre os quais me incluo).\u2019 (p. 159)<\/p>\n<p>\u2018O psicologismo, com as suas cataplasmas contra o baby blues, esfor\u00e7a-se por esconder esta ocorr\u00eancia. Promove, por gentileza, uma degrada\u00e7\u00e3o universal: apartar o homem da trag\u00e9dia para o emboscar no romance burgu\u00eas \u2013 que ele sonhe encharcado em \u00e1gua de rosas. E desemboca, inevitavelmente, na nega\u00e7\u00e3o do real. O grande perigo \u00e9, para ele, o traumatismo infantil; por isso, feitas as contas, \u00e9 melhor suprimir o filho na altura em que ainda \u00e9 puro, antes de ser pervertido ou esmagado diante dos nossos olhos. O paradoxo da nossa \u00e9poca encontra aqui a sua explica\u00e7\u00e3o: nunca a crian\u00e7a foi t\u00e3o protegida e nunca houve tantos abortos. O seu sentimentalismo \u00e9 a causa da sua rejei\u00e7\u00e3o do nascituro. A elimina\u00e7\u00e3o \u00e9, de facto, a mais segura e eficaz prote\u00e7\u00e3o dos menores.\u2019 (p. 177)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2018[\u2026] a coisa mais absurda nesta aventura [refere-se \u00e0 hist\u00f3ria de Mois\u00e9s] \u00e9 que o seu rapazinho \u00e9 adoptado pela filha do Fara\u00f3, ou seja, do <em>F\u00fchrer<\/em>. E esta d\u00e1-lhe o nome de Mois\u00e9s: \u00abretirado das \u00e1guas\u00bb, s\u00e3o \u00e9 salvo da inunda\u00e7\u00e3o e exterm\u00ednio. O prometido \u00e0 morte certa tornar-se-\u00e1 o libertador do seu povo. O mundo mort\u00edfero e senil renovar-se-\u00e1 gra\u00e7as a este petiz, que passou pelas malhas. Se a sua m\u00e3e, para lhe poupar o horror, se n\u00e3o atrevesse a t\u00ea-lo, o horror apenas poderia perdurar.\u2019 (p. 179)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2018\u00c9 muito duro ser um filho desejado. A tua exist\u00eancia fica toda suspensa pela decis\u00e3o dos pais. Os seus desejos s\u00e3o ordens. Se te permites qualquer desvio, cautela; chovem as lambadas, suprimem-se as sobremesas, culpabilizar-te-\u00e3o at\u00e9 ao tutano as recrimina\u00e7\u00f5es lacrimosas, e n\u00e3o s\u00f3 at\u00e9 ao tutano, mas at\u00e9 \u00e0 medula, at\u00e9 aos g\u00e2metas que tem deram para viver.\u2019 (p. 183)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2018Tenho boas raz\u00f5es para pensar que os infantic\u00eddios e os parric\u00eddios h\u00e3o-de aumentar com o eugenismo.\u2019 (p. 184)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2018[\u2026] se for desej\u00e1vel outorgar ao projeto parental todas as garantias, eu recomendo ao legislador o alargamento desse prazo muito para al\u00e9m das doze semanas, digamos, at\u00e9 aos quarenta anos.\u2019 (p. 185)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2018Um mundo perfeito, onde os petizes aparecessem sem turbul\u00eancia, conformes \u00e0s instru\u00e7\u00f5es do fabricante, seria pior do que um inverno nuclear. As crian\u00e7as estariam congeladas desde o n\u00facleo da sua primeira c\u00e9lula. Nasceriam velhas, com todos os nossos rancores e todos os nossos cuidados. A sua primavera j\u00e1 conseguiria perfurar a crosta das nossas preocupa\u00e7\u00f5es. Ter\u00edamos perdido, para sempre, o esp\u00edrito de inf\u00e2ncia\u2026 \u00c9-nos for\u00e7oso, ent\u00e3o, chegar \u00e0 conclus\u00e3o que proibiria o fechar-se e o pronunciar-se em vez de outro: em vez de um super-homem, conforme aos estudos de mercado do homem velho, vale mais uma pequena Flor, polichinelo que salta da caixa, deficiente mental, sem d\u00favida, dolorosamente incapaz de entrar na maturidade consciente, mas mais apta para nos arrancar ao nosso triste horizonte produtivista, mais dotada para nos levar a rememorar a surpresa de ser e a alegria de amar.\u2019 (p. 187-188)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2018Aquele que, h\u00e1 pouco, cantava t\u00e3o alto os \u00f3rg\u00e3os internos cai num subjetivismo descarnado. As determina\u00e7\u00f5es que a vinda ao mundo imp\u00f5e, a partir do sexo, afiguram-se-lhe oprimentes. Em vez de apoio, os v\u00ednculos do corpo seriam, para ele, uma tumba. O pequeno Sartre imagina arrojar-se ao mundo a partir do seu pr\u00f3prio pensamento, fora das particularidades sombrias de uma conce\u00e7\u00e3o f\u00edsica, das suas escandalosas desigualdades, a fim de ser \u00e0 medida do universo, ou seja, do universal. Ter nascido de Anne-Marie Schweitzer e de Jean-Baptiste Sartre n\u00e3o deve contar para nada. O que importa, a partir desta copula\u00e7\u00e3o fortuita, \u00e9 nascer a cada instante das suas pr\u00f3prias escolhas, <em>ex nihilo<\/em>. A exist\u00eancia dimana, agora, n\u00e3o da carne, mas do nada.\u2019 (p. 194)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2018O casamento \u00e9, ao mesmo tempo, um contrato e mais do que um contrato. Tendo por fim excessivo a comunh\u00e3o das pessoas e o nascimento dos filhos, apresenta a estranha propriedade de n\u00e3o poder ser rompido sem uma \u00edntima viol\u00eancia, mesmo quando as duas partes querem separar-se em termos amig\u00e1veis. A comunh\u00e3o pressuposta pelo \u00abAmo-te\u00bb interdiz toda a ruptura: o seu termo \u00e9 o outro, e n\u00e3o esta ou aquela sua qualidade. Se eu tivesse dito apenas: \u00abAmo o teu traseiro\u00bb ou \u00abAmo o teu \u00eaxito\u00bb, poderia desembara\u00e7ar-me, logo que o meu c\u00f4njuge depare com o fracasso ou as suas n\u00e1degas se tornem frouxas e moles. Mas eu disse: \u00abAmo-te\u00bb, ou seja, a tua pessoa na sua totalidade sucessiva, o que ela \u00e9 hoje, mas tamb\u00e9m o que ela ser\u00e1 amanh\u00e3 e que ainda n\u00e3o conhe\u00e7o. N\u00e3o \u00e9 como num contrato com uma empresa, que posso rescindir, se eu estiver dececionado ou se o objetivo foi atingido.<\/p>\n<p>Por outro lado, esta uni\u00e3o amadurece um fruto natural. O filho n\u00e3o \u00e9 apenas um ato de papel. N\u00e3o \u00e9 rasg\u00e1vel. Mesmo se eu j\u00e1 n\u00e3o quisesse estar com a sua m\u00e3e, sou for\u00e7ado a ver os dois, a sua m\u00e3e e eu, na sua figura. Este estranho contrato produz assim uma realidade que excede as liberdades que o estabeleceram, de tal modo que elas n\u00e3o podem desfaz\u00ea-lo, tal como o conclu\u00edram. O casamento \u00e9, ao mesmo tempo, natural e livre: \u00e9 uma escolha sobre o fundo natural da ordena\u00e7\u00e3o rec\u00edproca dos sexos; \u00e9 uma naturaliza\u00e7\u00e3o da liberdade mediante a realiza\u00e7\u00e3o desta escolha na crian\u00e7a.\u2019 (p. 198)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2018[\u2026] na d\u00e9cada de noventa, s\u00f3 na regi\u00e3o do Sudeste asi\u00e1tico, o tr\u00e1fico em vista do proxenetismo fez tr\u00eas vezes mais deportados do que o com\u00e9rcio de escravos africanos, durante v\u00e1rios s\u00e9culos.\u2019 (p. 210)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2018\u00abO sujeito ideal do regime totalit\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 o nazi ou o comunista convicto, mas o homem para quem a distin\u00e7\u00e3o entre facto e fic\u00e7\u00e3o (ou seja, a realidade da experi\u00eancia) e a distin\u00e7\u00e3o entre o verdadeiro e o falso (isto \u00e9, as regras do pensamento) j\u00e1 n\u00e3o existem\u00bb.\u2019 [citando Hannah Arendt] (p. 217)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2018O individualismo \u00e9, assim, a base do totalitarismo, e n\u00e3o o seu inimigo principal, como tantas vezes se pensa. Requerem-se seres isolados, \u00abdesapontados\u00bb, sem fortes v\u00ednculos familiares ou religiosos, portando dispostos a fundir-se numa massa: \u00abO isolamento \u00e9 pr\u00e9-totalit\u00e1rio. Os homens isolados n\u00e3o t\u00eam, por defini\u00e7\u00e3o, qualquer poder. [\u2026] Estar desenraizado pode ser a condi\u00e7\u00e3o preliminar da superfluidade\u00bb.\u2019 [citando Hannah Arendt] (p. 217)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2018No romance <em>1984<\/em>, \u00e9 normal vaporizar os av\u00f3s. Todo o avozinho, enquanto tal, resiste. Constitui uma autoridade hist\u00f3rica e memorial, que amea\u00e7a o monop\u00f3lio da Doutrina. Tenta opor-lhe as abordagens de uma sabedoria de experi\u00eancia. A experi\u00eancia, que arca\u00edsmo! A ideologia possui o Saber absoluto. Tem na sua m\u00e3o a lei da Natureza ou da Hist\u00f3ria. \u00c9 a Provid\u00eancia do mundo. Por esta raz\u00e3o, cabe-lhe antecipar as elimina\u00e7\u00f5es que, de qualquer maneira, o curso previs\u00edvel das coisas levaria a cabo. Por gentileza; por eutanasismo, por assim dizer. N\u00e3o pode, de facto, apadrinhar nenhum crime, mas t\u00e3o-s\u00f3 \u00ab<em>uma morte muito doce<\/em>\u00bb.\u2019 (p. 217)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2018O facto de eu ser macho, e portanto destinado \u00e0 f\u00eamea, recorda-me que n\u00e3o sou, por mim mesmo, o Homem integral, e que s\u00f3 me torno tal ao virar-me para o outro sexo em vista de uma fecundidade comum. [\u2026] Descubro, at\u00f3nito, que o meu \u00f3rg\u00e3o masculino \u00e9 feito para \u00f3rg\u00e3o feminino, de modo que me pertence menos a mim do que a esta mulher: que seria uma chave sem a fechadura? E vejo tamb\u00e9m que os nossos sexos juntos existem para que o seu beijo flores\u00e7a numa terceira pessoa: que seria da chave e da fechadura sem uma porta que se abre? Esta coisa da carne revela-se uma dupla desapropria\u00e7\u00e3o e empenha-me num terna comunh\u00e3o. O meu sexo s\u00f3 se encontra a si mesmo no outro. E os dois, ao encontrarem-se, fazem brotar de si ainda outro (e em corpo).\u2019 (p. 258 e 260)<\/p>\n<hr \/>\n<h5 style=\"text-align: right;\"><strong>**(T\u00edtulo retirado de Daniel Faria, <em>Dos l\u00edquidos<\/em>, Porto, Edi\u00e7\u00e3o Funda\u00e7\u00e3o Manuel Le\u00e3o, 2000, p. 137)<\/strong><\/h5>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217;, &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rubrica \u2018Sabes, leitor,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":18113,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,198],"tags":[],"class_list":["post-18112","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-sabes-leitor-que-estamos-ambos-na-mesma-pagina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18112","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18112"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18112\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18115,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18112\/revisions\/18115"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18113"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18112"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18112"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18112"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}