{"id":18096,"date":"2024-10-07T07:07:39","date_gmt":"2024-10-07T06:07:39","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=18096"},"modified":"2024-07-24T15:21:41","modified_gmt":"2024-07-24T14:21:41","slug":"sabes-leitor-10-marca-de-agua-do-livro-de-byung-chul-han-a-agonia-de-eros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/sabes-leitor-10-marca-de-agua-do-livro-de-byung-chul-han-a-agonia-de-eros\/","title":{"rendered":"Sabes, leitor&#8230; | 10 | Marca de \u00e1gua do livro de Byung-Chul Han, &#8216;A Agonia de Eros&#8217;"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">Rubrica \u2018Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma p\u00e1gina\u2019** | <em>Marca de \u00e1gua de livros que deixam marcas profundas<\/em><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Parceria:<a href=\"https:\/\/www.federacaopelavida.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> <em>Federa\u00e7\u00e3o Portuguesa pela Vida<\/em><\/a> e<em> Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<pre style=\"padding-left: 80px;\"><strong>O autor e a obra<\/strong><\/pre>\n<h5 style=\"text-align: right;\">Byung-Chul Han, <em>A Agonia de Eros<\/em>, Lisboa, Rel\u00f3gio d\u2019Agua Editores, 2014.<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cheguei a Byung-Chul Han pela mesma porta pela qual ter\u00e1 entrado a maioria dos seus leitores portugueses: o seu livro \u2018a sociedade do cansa\u00e7o\u2019, que me foi apresentado por um amigo (bibli\u00f3filo como eu) e que eu li em 2019. De ent\u00e3o para c\u00e1, somei onze livros a essa primeira leitura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atrai, na sua escrita, a capacidade de ler o mundo em profundidade, sem medos nem receios, nestes tempos dados a cancelamentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atrai, ainda, a capacidade que tem de procurar uma linguagem que diga a todos aquilo que se pode presumir poder nascer das fontes que o inspiram. A sua biografia, que o \u2018faz\u2019 nascer em Seul (Coreia do Sul), onde estudou Metalurgia, mostra um homem em busca. Da Metalurgia (estudada na \u00c1sia) parte para a Filosofia, Teologia e Literatura Alem\u00e3, apesar de, quando chegado \u00e0 Alemanha, nada saber da l\u00edngua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Percebe-se, na sua escrita e no seu pensamento, a influ\u00eancia dos mundos que calcorreou. Percebe-se a preocupa\u00e7\u00e3o com as palavras (\u00e9 um ex\u00edmio criador de termos e de t\u00edtulo \u2013 \u2018o aroma do tempo\u2019, \u2018a salva\u00e7\u00e3o do belo\u2019, \u2018n\u00e3o-coisas\u2019, \u2018infocracia\u2019, etc. dizem muito da sua capacidade de expressar muit\u00edssimo em poucas palavras [como os seus ensaios, que muito dizem em poucas p\u00e1ginas]), influ\u00eancia do seu contacto com a l\u00edngua alem\u00e3, ou a sua preocupa\u00e7\u00e3o com o que \u00e9, para al\u00e9m do que parece, influ\u00eancia de Heidegger sobre o qual fez tese de doutoramento ou, ainda, a sua busca do sentido nas escolhas coletivas, influ\u00eancia da teologia em que se versou, em Munique.<\/p>\n<pre style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\"><strong>Marcas de \u00e1gua <\/strong>\r\n\r\n<strong>(o que fica depois de se deixar o livro)<\/strong><\/pre>\n<p style=\"text-align: justify;\">Li \u2018A Agonia de Eros\u2019 em dois dias: entre 26 e 28 de agosto de 2022, depois do seu \u2018a sociedade da transpar\u00eancia\u2019. Nos meus registos, anotei que, ap\u00f3s este, avancei para novo livro de Byung-Chul Han, \u2018No enxame\u2019, em que reflete sobre o impacto do digital nas sociedades e nos indiv\u00edduos, linha que se cruza com o que reflete em \u2018Infocracia\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Anotei, ao acabar de ler \u2018A Agonia de Eros\u2019, o seguinte: \u2018o racioc\u00ednio \u00e9 magn\u00edfico. N\u00e3o me centraria tanto, por\u00e9m, na cr\u00edtica ao capitalismo (acho que tamb\u00e9m ele \u00e9 um fen\u00f3meno de outro no\u00fameno a descobrir\u2019), aludindo aos pontos de coincid\u00eancia e diverg\u00eancia que me fazem cruzar com o pensamento de Han.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Explicito\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Han \u00e9 mordaz na constata\u00e7\u00e3o de que a sociedade se vem estruturando sobre a ideia da centralidade do indiv\u00edduo, conduzindo, com isso, \u00e0 morte do \u2018outro\u2019 ou, como diz Han, neste livro, \u00e0 \u2018eros\u00e3o do outro\u2019. Neste ponto, aproximamo-nos. Sou um personalista de matriz comunitarista influenciado pela minha nascente crist\u00e3 e, por isso, revejo-me na ideia da inconcebibilidade de se pensar o eu sem o tu, mas divirjo quando Han atribui a causa disso ao capitalismo que gera a sociedade de consumo. Considero que o capitalismo (e o liberalismo a ele associado) emerge de uma causa anterior que encontra nestes dois \u2013 capitalismo e liberalismo \u2013 epifen\u00f3menos: o egocentrismo cong\u00e9nito \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana, desde que se \u2018afastou da m\u00e3o de Deus\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Salvaguardada esta diverg\u00eancia, recentro a aten\u00e7\u00e3o no pensamento e no texto de Han, onde \u00e9 poss\u00edvel encontrar p\u00e9rolas de assertividade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ideia fundamental de Han \u00e9 a de que \u2018Eros\u2019 expressa a ideia de um amor em que as identidades n\u00e3o se fundem, mas se respeitam, se acolhem, permanecem \u2018tus\u2019 dial\u00f3gicos. \u2018O Eros dirige-se, em sentido enf\u00e1tico, ao <em>outro<\/em> que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel alcan\u00e7ar sob o regime do eu. [\u2026] a sociedade de consumo visa eliminar a alteridade at\u00f3pica a favor de diferen\u00e7as consum\u00edveis, <em>heterot\u00f3picas.<\/em> Hoje, em todos os lados, a negatividade desaparece. Tudo se achata de modo a poder tornar-se objeto de consumo. [\u2026] Em contrapartida, Eros torna poss\u00edvel uma experi\u00eancia do outro na sua alteridade, arrancando o eu ao seu inferno narc\u00edsico. Eros p\u00f5e em a\u00e7\u00e3o um desconhecimento volunt\u00e1rio de si mesmo, um volunt\u00e1rio esvaziamento de si mesmo.\u2019 (pp. 10-11)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E Han avan\u00e7a no seu racioc\u00ednio, levando-nos \u00e0 constata\u00e7\u00e3o de que \u2018o amor positiviza-se hoje como sexualidade, estando esta, por seu turno, submetida ao imperativo do rendimento. O sexo \u00e9 rendimento. E a sensualidade \u00e9 um capital que \u00e9 necess\u00e1rio aumentar. O corpo, com o seu valor de exposi\u00e7\u00e3o, equivale a uma mercadoria. O outro \u00e9 sexualizado como objeto excitante. Despojado da sua alteridade, o outro n\u00e3o pode ser amado, mas t\u00e3o-s\u00f3 consumido. Nesse sentido, o outro j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 uma pessoa, porque foi fragmentado em objetos sexuais parciais. N\u00e3o h\u00e1 personalidade sexual. Se o outro \u00e9 percebido como objeto sexual, erode-se essa \u2018dist\u00e2ncia origin\u00e1ria\u2019 que, segundo Buber, \u00e9 \u2018o princ\u00edpio do ser humano\u2019 e constitui a condi\u00e7\u00e3o transcendental de possibilidade da alteridade.\u2019 (p. 20)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 de ficar sem f\u00f4lego perante a clareza e luminosidade destas ideias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se pense, por\u00e9m, que Han defenda um qualquer angelismo assexuado. Pelo contr\u00e1rio. Consciente da natureza sexuada do ser humano, interroga-se sobre o que ela diz sobre o mesmo ser humano e descobre a profunda tenta\u00e7\u00e3o de, por ela, o Homem deixar de ser Homem, a pessoa deixar de ser pessoa, para, por ela, a \u2018rela\u00e7\u00e3o\u2019 se degradar em modo de exerc\u00edcio de poder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na verdade, consequente com esta leitura, Han \u00e9 coerente e conduz-nos a reconhecer que, por oposi\u00e7\u00e3o a esta abordagem genuinamente \u2018er\u00f3tica\u2019 que acolhe o outro, que o recebe e que se entrega, em alteridade n\u00e3o objetual, o \u2018porno \u00e9 os ant\u00edpodas do Eros. Aniquila a pr\u00f3pria sexualidade.\u2019 (p. 35) porque \u2018o pornogr\u00e1fico tamb\u00e9m n\u00e3o tem inerente qualquer decoro, qualquer dist\u00e2ncia. Precisamente, \u00e9 pornogr\u00e1fica a falta de tato e de encontro com o outro []. A pornografia, deste modo, aumenta a dose narc\u00edsica do eu.\u2019 (p. 52). H\u00e1 como que uma redu\u00e7\u00e3o do encontro a um lugar de poder\u2026 E \u00e9 nisto que a tese de Han tem o seu qu\u00ea de sedutora ao identificar essa a\u00e7\u00e3o \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o capitalista\u2026 Mas insisto que, na minha perspetiva, a sua origem \u00e9 mais profunda; origina-se na tenta\u00e7\u00e3o que acompanha a humanidade desde sempre: a da autossufici\u00eancia que convence de tudo ser para um eu que se agiganta cada vez mais e que de tudo \u00e9 senhor absoluto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018A Agonia de Eros\u2019 \u00e9 um conjunto de ensaios que desafiam a que se regresse \u00e0 original vis\u00e3o sobre a sexualidade humana, que [\u2026] desperta perante o \u2018rosto\u2019, \u2018no qual o outro se d\u00e1 e oculta ao mesmo tempo\u2019. O \u2018rosto\u2019 op\u00f5e-se diametralmente \u00e0 face (<em>face<\/em>), que se exp\u00f5e como mercadoria com uma nudez pornogr\u00e1fica e se entrega a uma visibilidade e a um consumo totais.\u2019 (p. 24) Uma vis\u00e3o assente na genu\u00edna ideia do que seja o amor. \u2018A \u2018verdadeira ess\u00eancia do amor\u2019 consiste em \u2018renunciar \u00e0 consci\u00eancia de si, em esquecer-se de si mesmo, num outro mesmo.\u2019 [\u2026] Morre-se no outro, sem d\u00favida, mas a essa morte segue-se um retorno a si. E o retorno reconciliado que volta do outro a si \u00e9 tudo menos essa apropria\u00e7\u00e3o violenta do outro [\u2026]. \u00c9 antes o dom do outro, precedido pela entrega, o abandono de mim mesmo.\u2019 (p. 30-31)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao ler Han, n\u00e3o pude deixar de recordar um dos mais belos e fecundos textos sobre estas mat\u00e9rias sa\u00eddos nos \u00faltimos tempos. Nele, tamb\u00e9m se refere algo que Han revisita, vez ap\u00f3s vez. Diz-se, ali: \u2018[\u2026] o modo de exaltar o corpo, a que assistimos hoje, \u00e9 enganador. O eros degradado a puro \u00absexo\u00bb torna-se mercadoria, torna-se simplesmente uma \u00abcoisa\u00bb que se pode comprar e vender; antes, o pr\u00f3prio homem torna-se mercadoria. Na realidade, para o homem, isto n\u00e3o constitui propriamente uma grande afirma\u00e7\u00e3o do seu corpo.\u2019 Quem o diz \u00e9 Joseph Ratzinger, j\u00e1 como Bento XVI, na sua luminosa enc\u00edclica \u2018Deus Caritas est\u2019 (n.5), onde o amor, nas suas express\u00f5es er\u00f3tica, de amizade e ag\u00e1pica \u00e9 analisado, para surpresa de tantos, como manifesta\u00e7\u00e3o da real condi\u00e7\u00e3o humana, longe de angelismos com que alguns ainda pretendem ver a leitura crist\u00e3 da sexualidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pela m\u00e3o de Han, cabe perguntar, ent\u00e3o, se sobreviver\u00e1 o humano \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o da sua redu\u00e7\u00e3o a \u2018coisa\u2019. Ou, de outro modo, poder\u00e1 questionar-se se Eros resistir\u00e1 ao poder de Narciso. Continuar\u00e1 a sexualidade humana a ser lugar de encontro ou reduzir-se-\u00e1, progressivamente, \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de \u2018n\u00e3o-lugar\u2019, sendo, apenas, um outro modo de se exercer poder sobre o objeto diante do degradado \u2018eu\u2019?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pensamento de Han permite, por fim, formular uma arriscada interroga\u00e7\u00e3o que julgo, contudo, ser leg\u00edtimo enfrentar e partilhar: uma sociedade que deixou de questionar e at\u00e9 faz a apologia da busca do igual (expresso, em grego, pelo prefixo \u2018homo\u2019), estar\u00e1, ainda, capaz de ousar pensar a sexualidade como o tempo e o lugar da genu\u00edna abertura ao outro, diferente do eu?&#8230;<\/p>\n<pre style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\"><strong>Na mesma p\u00e1gina que o autor (cita\u00e7\u00f5es)<\/strong><\/pre>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] as teorias sociol\u00f3gicas [\u2026] desconhecem que est\u00e1 hoje em a\u00e7\u00e3o alguma outra coisa que ataca o amor mais do que a liberdade sem fim ou as possibilidades ilimitadas. N\u00e3o \u00e9 somente o excesso de oferta de outros <em>outros <\/em>que conduz \u00e0 crise do amor, mas f\u00e1-lo tamb\u00e9m a eros\u00e3o do outro, que tem lugar em todos os \u00e2mbitos da vida e est\u00e1 ligada a um excessivo e ensimesmado narcisismo do mesmo. Com efeito, o <em>desaparecimento do outro <\/em>\u00e9 um processo dram\u00e1tico \u2013 mas trata-se de um processo que se desenvolve sem que, infelizmente, muitos se deem conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Eros dirige-se, em sentido enf\u00e1tico, ao <em>outro<\/em> que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel alcan\u00e7ar sob o regime do eu. Por isso, no inferno do igual, a que a atual sociedade se assemelha cada vez mais, n\u00e3o h\u00e1 qualquer experi\u00eancia er\u00f3tica. Esta pressup\u00f5e a assimetria e a exterioridade do outro.\u2019 (p. 9-10)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Tudo se achata de modo a poder tornar-se objeto de consumo.\u2019 (p. 10)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O sujeito narc\u00edsico-depressivo est\u00e1 exausto e fatigado de si mesmo. \u00c9 desprovido de mundo e acha-se abandonado pelo <em>outro<\/em>.\u2019 (p. 11)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] Eros torna poss\u00edvel uma experi\u00eancia do outro na sua alteridade, arrancando o eu ao seu inferno narc\u00edsico. Eros p\u00f5e em a\u00e7\u00e3o um <em>desconhecimento<\/em> volunt\u00e1rio de si mesmo, um volunt\u00e1rio <em>esvaziamento de si mesmo.<\/em>\u2019 (p. 11)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O sujeito do rendimento, como empres\u00e1rio de si mesmo, \u00e9 sem d\u00favida livre, na medida em que n\u00e3o est\u00e1 submetido a um outro que o comande e o explore; mas n\u00e3o \u00e9 de facto livre, porque se explora a si mesmo, por mais que o fa\u00e7a com inteira liberdade.\u2019 (p. 17)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018A proclama\u00e7\u00e3o neoliberal da liberdade manifesta-se, de facto, como um imperativo paradoxal: <em>s\u00ea livre<\/em>. Precipita o sujeito do rendimento na depress\u00e3o e no esgotamento.\u2019 (p. 18)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O amor positiviza-se hoje como sexualidade, estando esta, por seu turno, submetida ao imperativo do rendimento. O sexo \u00e9 rendimento. E a sensualidade \u00e9 um capital que \u00e9 necess\u00e1rio aumentar. O corpo, com o seu valor de exposi\u00e7\u00e3o, equivale a uma mercadoria. O outro \u00e9 sexualizado como objeto excitante. Despojado da sua alteridade, o outro n\u00e3o pode ser amado, mas t\u00e3o-s\u00f3 consumido. Nesse sentido, o outro j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 uma pessoa, porque foi fragmentado em objetos sexuais parciais. N\u00e3o h\u00e1 personalidade sexual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se o outro \u00e9 percebido como objeto sexual, erode-se essa \u2018dist\u00e2ncia origin\u00e1ria\u2019, que, segundo Buber, \u00e9 \u2018o princ\u00edpio do ser humano\u2019, e constitui a condi\u00e7\u00e3o transcendental de possibilidade da <em>alteridade<\/em>. A \u2018dist\u00e2ncia origin\u00e1ria\u2019 impede que o outro seja reificado como um objeto, como uma \u2018coisa\u2019. O outro, enquanto objeto sexual, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 um \u2018tu\u2019. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel qualquer rela\u00e7\u00e3o com ele. A \u2018dist\u00e2ncia origin\u00e1ria\u2019 \u00e9 portadora do <em>decoro<\/em> transcendental, que liberta o outro na sua alteridade, e, mais do que isso, o distancia. [\u2026] O objeto sexual n\u00e3o tem um \u2018rosto\u2019 que constitua a alteridade \u2013 essa alteridade do outro que imp\u00f5e a dist\u00e2ncia. Hoje, perdem-se cada vez mais a dec\u00eancia, as boas maneiras e tamb\u00e9m o <em>distanciamento<\/em> \u2013 ou seja: a capacidade de experimentar o outro no confronto com a sua alteridade.\u2019 (p. 20)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O futuro \u00e9 o <em>tempo do outro<\/em>. A totaliza\u00e7\u00e3o do presente como tempo do igual faz desaparecer essa aus\u00eancia que situa o outro fora do dispon\u00edvel. [\u2026] O amor, na medida em que hoje n\u00e3o significa sen\u00e3o necessidade, satisfa\u00e7\u00e3o e prazer, \u00e9 incompat\u00edvel com a subtra\u00e7\u00e3o e a demora do outro. A sociedade, como m\u00e1quina de <em>procura e consumo,<\/em> suprime o desejo orientado para o ausente, que, enquanto tal, n\u00e3o pode ser encontrado, captado e consumido. Em contrapartida, Eros desperta perante o \u2018rosto\u2019, \u2018no qual o outro se d\u00e1 e oculta ao mesmo tempo\u2019. O \u2018rosto\u2019 op\u00f5e-se diametralmente \u00e0 face (<em>face<\/em>), que se exp\u00f5e como mercadoria com uma nudez pornogr\u00e1fica e se entrega a uma visibilidade e a um consumo totais. \u2019 (pp. 23-24)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O capitalismo elimina por toda a parte a alteridade para tudo submeter ao consumo. O Eros \u00e9, por seu turno, uma rela\u00e7\u00e3o <em>assim\u00e9trica<\/em> com o outro. E interrompe desse modo a rela\u00e7\u00e3o de troca. N\u00e3o se pode fazer contabilidade com a alteridade, uma vez que esta n\u00e3o aparece no balan\u00e7o de dever e haver.\u2019 (p. 24)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O homem atual permanece igual a si mesmo e procura no outro somente a confirma\u00e7\u00e3o de si mesmo.\u2019 (p. 26)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O sentimento e a paix\u00e3o d\u00e3o lugar a sentimentos agrad\u00e1veis e a excita\u00e7\u00f5es sem consequ\u00eancias. Na \u00e9poca do <em>quickie<\/em>, do sexo ocasional e de distens\u00e3o, tamb\u00e9m a sexualidade perde toda a negatividade. A total aus\u00eancia de negatividade faz com que o amor hoje se atrofie como um objeto de consumo e de c\u00e1lculo hedonista. O desejo do outro \u00e9 suplantado pelo conforto do igual. Procura-se a agrad\u00e1vel e, em \u00faltima an\u00e1lise, confort\u00e1vel iman\u00eancia do igual. Ao amor de hoje faltam por completo a transcend\u00eancia e a transgress\u00e3o.\u2019 (p. 27)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Nem toda a conclus\u00e3o \u00e9 viol\u00eancia. <em>Conclui-se a <\/em>paz. <em>Conclui-se<\/em> (\u2018fecha-se\u2019) a amizade. O amor \u00e9 uma conclus\u00e3o absoluta porque pressup\u00f5e a morte, a ren\u00fancia a si mesmo. A \u2018verdadeira ess\u00eancia do amor\u2019 consiste em \u2018renunciar \u00e0 consci\u00eancia de si, em esquecer-se de si mesmo, num outro mesmo\u2019. [\u2026] O amor como conclus\u00e3o absoluta passa pela morte. Morre-se no outro, sem d\u00favida, mas a essa morte segue-se um retorno a si. E o retorno reconciliado que volta do outro a si \u00e9 tudo menos essa apropria\u00e7\u00e3o violenta do outro, que foi falsamente elevada a figura principal do pensamento hegeliano. \u00c9 antes o <em>dom do outro<\/em>, precedido pela entrega, o abandono de mim mesmo.\u2019 (pp. 30-31)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Na rela\u00e7\u00e3o de pode e de domina\u00e7\u00e3o, afirmo-me e oponho-me ao outro na medida em que o submeto. Em contrapartida, o poder de Eros implica uma impot\u00eancia em que eu, em vez de me afirmar, me perco no outro ou para o outro, que de novo me alenta [\u2026].\u2019 (p. 31)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018A hipervisibilidade \u00e9 acompanhada pela desmontagem dos limiares e dos limites. \u00c9 a meta da sociedade da transpar\u00eancia. O espa\u00e7o torna-se transparente depois de alisado e achatado. Os limiares e as passagens s\u00e3o zonas cheias de mist\u00e9rios e de enigmas, onde come\u00e7a o <em>outro<\/em> at\u00f3pico. Juntamente com os limites e os limiares desaparecem tamb\u00e9m as <em>fantasias relativas ao outro<\/em>. A fantasia atrofia-se sem a negatividade dos limiares, sem a sua experi\u00eancia. A crise atual da arte, e tamb\u00e9m da literatura, pode ser atribu\u00edda \u00e0 crise da fantasia, ao <em>desaparecimento do outro, <\/em>quer dizer, \u00e0 <em>agonia de Eros<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As veda\u00e7\u00f5es ou muros das fronteiras que hoje se erigem j\u00e1 n\u00e3o excitam a fantasia, porque n\u00e3o geram o <em>outro<\/em>. Antes, atravessam de um extremo a outro o inferno do igual, que segue somente as leis econ\u00f3micas que separam os ricos dos pobres. \u00c9 o capital que produz esses novos limites. Mas o dinheiro, em princ\u00edpio, torna tudo <em>igual<\/em>. Nivela diferen\u00e7as essenciais. Os limites como elementos de separa\u00e7\u00e3o e de exclus\u00e3o eliminar as fantasias relativas ao outro. N\u00e3o s\u00e3o <em>limiares<\/em> ou <em>passagens<\/em> que conduzam a <em>outro lugar<\/em>.\u2019 (p. 47)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018N\u00e3o deve confundir-se o Eros com o desejo (<em>epithymia)<\/em>. \u00c9 superior n\u00e3o s\u00f3 ao desejo, mas tamb\u00e9m ao <em>Thymos<\/em>. Incita-o a produzir belas a\u00e7\u00f5es. O <em>Thymos<\/em> \u00e9 o lugar onde pode haver contacto entre Eros e pol\u00edtica. Mas a pol\u00edtica atual, que, al\u00e9m de desprovida de coragem, se desenvolve por completo sem Eros, atrofia-se e transforma-se em mero trabalho. O neoliberalismo leva a cabo uma despolitiza\u00e7\u00e3o da sociedade, na qual a substitui\u00e7\u00e3o do Eros pela sexualidade e pela pornografia desempenha uma importante fun\u00e7\u00e3o. A sua base \u00e9 o desejo (<em>epithymia<\/em>). Numa sociedade do cansa\u00e7o, com sujeitos do rendimento isolados em si mesmos, o \u00e2nimo tamb\u00e9m se atrofia por completo. Torna-se imposs\u00edvel uma a\u00e7\u00e3o comum, imposs\u00edvel um <em>n\u00f3s<\/em>.\u2019 (p. 50)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018A pornografia [\u2026] aumenta a dose narc\u00edsica do eu. Em contrapartida, o amor como acontecimento, como \u2018cena do dois\u2019, <em>des-habitua<\/em> e <em>reduz o narcisismo<\/em>. Produz uma \u2018rutura\u2019, uma \u2018perfura\u00e7\u00e3o\u2019 na ordem do habitual e do igual\u2019. (p. 52)<\/p>\n<hr \/>\n<h5 style=\"text-align: right;\"><strong>**(T\u00edtulo retirado de Daniel Faria, <em>Dos l\u00edquidos<\/em>, Porto, Edi\u00e7\u00e3o Funda\u00e7\u00e3o Manuel Le\u00e3o, 2000, p. 137)<\/strong><\/h5>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217;, &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rubrica \u2018Sabes, leitor,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":18097,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,198],"tags":[],"class_list":["post-18096","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-sabes-leitor-que-estamos-ambos-na-mesma-pagina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18096","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18096"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18096\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18114,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18096\/revisions\/18114"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18097"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18096"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18096"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18096"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}