{"id":18042,"date":"2025-03-23T07:00:50","date_gmt":"2025-03-23T07:00:50","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=18042"},"modified":"2025-12-16T13:39:31","modified_gmt":"2025-12-16T13:39:31","slug":"mysterios-lusitanos-contos-texto-e-locucao-10-misterio-nas-catacumbas-da-igreja-de-sao-francisco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/mysterios-lusitanos-contos-texto-e-locucao-10-misterio-nas-catacumbas-da-igreja-de-sao-francisco\/","title":{"rendered":"10 | Myst\u00e9rios lusitanos [contos &#8211; texto e locu\u00e7\u00e3o] | Mist\u00e9rio nas catacumbas da Igreja de S\u00e3o Francisco"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><em>Myst\u00e9rios lusitanos<\/em> | A vinte e tr\u00eas (23) de cada m\u00eas, habitamos o mundo pelo imagin\u00e1rio de Alberto Ferreyra&#8230;<\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Alberto Ferreyra*<\/strong><\/p>\n<p><iframe title=\"10 Mist\u00e9rio nas catacumbas da Igreja de S  Francisco\" width=\"640\" height='360' src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/WjIrmlFt6P8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&#8211; J., j\u00e1 olhaste com aten\u00e7\u00e3o para esta linha? Parece um fecho sempre corrido? Como se algu\u00e9m tivesse decidido unir dois lados do nosso pa\u00eds sem os poder dividir!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 uma ideia gira, M. Como se o comboio pudesse, a qualquer momento, ser dotado do poder de o abrir ou fechar e dividir, para sempre, as duas partes aqui unidas\u2026<\/p>\n<p>&#8211; E o que aconteceria a cada uma das partes? Permaneceria no lugar ou partiria para lugar incerto?<\/p>\n<p>J. e M. divertiam-se a fantasiar, enquanto se aproximavam do destino daquele dia de ver\u00e3o: a Igreja de S. Francisco. O pai ouvia e esbo\u00e7ava um sorriso de satisfa\u00e7\u00e3o; divertia-o ouvi-los e saber que resistiam \u00e0 doce sedu\u00e7\u00e3o de se fecharem no mundo digital. O olhar deles distendia-se pelo horizonte, onde, juntos, corriam e imaginavam, sem nunca sa\u00edrem do lugar mas sempre dele ausentes.<\/p>\n<p>Tinha-lhes prometido regressar ao Porto, mal come\u00e7assem as f\u00e9rias de Ver\u00e3o. Visitar a Igreja de S\u00e3o Francisco era inten\u00e7\u00e3o j\u00e1 v\u00e1rias vezes adiada. Chegara, por\u00e9m, o momento.<\/p>\n<p>Fizeram a p\u00e9 o caminho que os levou de S. Bento \u00e0 margem do Douro que se v\u00ea do sobrevivente bra\u00e7o direito do transepto da Igreja.<\/p>\n<p>O rio corria, lento, como que respeitando a sacralidade daquele. O Douro parecia curvar-se, naquele trecho do seu leito. A beleza do lugar apelava ao respeito. &#8211; E se os humanos o n\u00e3o guardam, que o preserve a natureza! &#8211; Parecia dizer o rio, para se espraiar, algumas centenas de metros abaixo.<\/p>\n<p>J., M. e o pai detiveram-se, durante longos minutos, no largo passeio em que se movem em corrente contr\u00e1ria, as \u00e1guas de rio dos homens. Observavam e deleitavam-se a viajar pela mem\u00f3ria de que falam a pedras.<\/p>\n<p>Decidiram-se a subir.<\/p>\n<p>M. foi a primeira, saltando, dois a dois, os degraus dos v\u00e1rios lan\u00e7os.<\/p>\n<p>Ao virar para o \u00faltimo lan\u00e7o, estacou.<\/p>\n<p>Nos primeiros degraus desse \u00faltimo percurso, uma mulher de len\u00e7o \u00e0 cabe\u00e7a e profundos olhos verdes, tinha uma placa com um mal-amanhado \u2018portugu\u00eas\u2019 em que dizia necessitar de ajuda. Outros turistas subiam, com M.<\/p>\n<p>Indiferentes!<\/p>\n<p>M. deixou-se comover.<\/p>\n<p>Sabia, por\u00e9m, que, como tantas vezes lhe recomendava o pai, havia que ser prudente. O dever crist\u00e3o de olhar a pessoa exigia, por\u00e9m, n\u00e3o passar indiferente.<\/p>\n<p>M. olhou, fixamente, aquele olhar, simultaneamente, sereno e firme. De um verde-esmeralda.<\/p>\n<p>&#8211; Como se chama?<\/p>\n<p>&#8211; Atan\u00e1sia. \u2013 Disse o nome com um ligeiro sotaque de leste, como se a palavra n\u00e3o tivesse acento. \u2013 \u2018Atanasia\u2019!<\/p>\n<p>&#8211; Tem fome? O que posso dar-lhe \u00e9 um pacote de bolachas que trago para a merenda.<\/p>\n<p>&#8211; Metadi\u2026 Metadi\u2026 Guardi para si, minina\u2026 Podi precisar ou outros.<\/p>\n<p>Havia respeito rec\u00edproco, naquela generosidade m\u00fatua.<\/p>\n<p>&#8211; \u2018B\u2019igado, minina. Minina boa\u2026<\/p>\n<p>M. aproximou o rosto de Atan\u00e1sia, segredou-lhe algo ao ouvido, deu-lhe um suave beijo na testa e partiu. Atan\u00e1sia correspondera com um leve abra\u00e7o em que mal tocou no seu casaco\u2026<\/p>\n<p>Ao chegar ao cimo das escadas, regressou, com o olhar, \u00e0quela pedinte de nome invulgar. O olhar adquirira o brilho de quem deixou de ser invis\u00edvel\u2026<\/p>\n<p>O pai assistira, do fundo dos degraus. Estava feliz com o que via brotar do cora\u00e7\u00e3o da filha.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9s um bom cora\u00e7\u00e3o, M.. Mas tem cuidado, pois as inten\u00e7\u00f5es n\u00e3o est\u00e3o em papel escrito, nem se afixam nas sobrancelhas dos rostos.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3 quis que sentisse que algu\u00e9m olhou para ela como pessoa, que deixasse de ser transparente. \u2018Esta menina olhou para mim\u2019, pareceu sentir e por isso me chamou \u2018Minina boa\u2019. Vi que ficou feliz.<\/p>\n<p>O seu sil\u00eancio era de anu\u00eancia e regozijo interior.<\/p>\n<p>Entraram na Igreja.<\/p>\n<p>Um \u2018ah\u2019 invadiu-lhes a alma, pois o sil\u00eancio impunha-se, nos l\u00e1bios.<\/p>\n<p>Inebriava o brilho da talha dourada, que o guia explicara ter ali tr\u00eas fases, do \u2018nacional\u2019, ao \u2018joanino\u2019, at\u00e9 ao rococ\u00f3.<\/p>\n<p>&#8211; \u2018Rococ\u00f3\u2019 faz pensar que seja um estilo com marca de galo. \u2013 gracejou M.<\/p>\n<p>&#8211; Pois fica sabendo que, sendo o galo um s\u00edmbolo franc\u00eas, nem est\u00e1s muito longe do significado real, pois rococ\u00f3 \u00e9 um estilo que deve o seu nome a uma palavra francesa, \u2018rocaille\u2019, que quer dizer \u2018concha\u2019. \u00c9 um elemento decorativo sempre presente, neste estilo.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1s bem informado, J. Preparaste-te bem.<\/p>\n<p>&#8211; Estou encantado, mas confesso-te que curioso por ver as catacumbas\u2026 Dizem que h\u00e1, na sua conce\u00e7\u00e3o, marca de Nasoni, o arquiteto da Torre dos cl\u00e9rigos.<\/p>\n<p>A curiosidade de J. rapidamente contagiou M., mas sem a distrair de contemplar, atentamente, a \u00e1rvore de Jess\u00e9 ou a perturbadora representa\u00e7\u00e3o dos m\u00e1rtires de Marrocos, a cuja hist\u00f3ria tanto deve a mudan\u00e7a de Santo Ant\u00f3nio para a ordem franciscana.<\/p>\n<p>&#8211; O guia podia ter-nos deixado espreitar para o sarc\u00f3fago medieval que est\u00e1 \u00e0 entrada, \u00e0 direita. Quem sabe se n\u00e3o v\u00edamos algum tesouro?! \u2013 Queixou-se M., enquanto desciam as escadas, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s catacumbas.<\/p>\n<p>Antes de chegarem ao n\u00facleo das catacumbas, passaram por l\u00e1pides ainda sem datas, pedidas por irm\u00e3os que pretendiam um dia ali ser sepultados.<\/p>\n<p>Avan\u00e7aram para o espa\u00e7o onde se encontravam, outrora, os t\u00famulos sobre que se andava, mas que eram, agora, apenas, reminisc\u00eancias de efetivos \u00faltimos lugares de repouso.<\/p>\n<p>-Sabes, M., a ideia de cemit\u00e9rio tem mesmo a ver com dormir\u2026 A etimologia, isto \u00e9, a origem da palavra \u2018cemit\u00e9rio\u2019 alude \u00e0 ideia de \u2018cama\u2019, lugar onde se dorme\u2026<\/p>\n<p>&#8211; Ideia curiosa, J. Est\u00e1s sempre a surpreender-me\u2026 Mas o que querer\u00e1 dizer este \u2018N.C.I.\u2019 que tantas vezes aparece?<\/p>\n<p>&#8211; \u2018Nosso Caro ou Car\u00edssimo Irm\u00e3o (ou Irm\u00e3)\u2019.- Explicou o guia, enquanto M. e J., sempre orientados pelo pai, fotografavam sem parar cada um dos espa\u00e7os.<\/p>\n<p>&#8211; Reparo que muitas das datas s\u00e3o de um per\u00edodo curto\u2026<\/p>\n<p>&#8211; Uma peste afetou a popula\u00e7\u00e3o desta cidade, com enormes custos de vidas humanas, tamb\u00e9m entre os irm\u00e3os da ordem terceira.<\/p>\n<p>&#8211; Li que o nome de \u2018ordem terceira\u2019 vem do facto de a primeira ser a que foi fundada por S. Francisco, para os frades, enquanto a segunda \u00e9 a que foi fundada por Santa Clara, para as Irm\u00e3s Clarissas, sendo a terceira constitu\u00edda por leigos que se sentiam identificados com a espiritualidade franciscana, mas sem serem frades nem freiras. \u2013 Comentou J.<\/p>\n<p>&#8211; Muito bem! \u2013 Confirmou o guia. &#8211; N\u00e3o v\u00e3o sem ver as belas esculturas de Teixeira Lopes\u2026<\/p>\n<p>Havia vida naquelas est\u00e1tuas. Uma m\u00e3e com um filho pequeno, nu, de costas, agarrado ao seu pesco\u00e7o, parecia ter acabado de ser esculpida. Havia como que um latejar de sangue naquela pedra\u2026 E o olhar compadecia.<\/p>\n<p>Ah, como M. se compadeceu daquela m\u00e3e! Quase lhe apetecia dar-lhe a outra metade de bolachas que lhe sobrara\u2026<\/p>\n<p>Regressaram a casa.<\/p>\n<p>No sof\u00e1, enquanto os pais ultimavam o jantar, J. e M. percorreram as centenas de fotos de um dia em cheio. Riam, gargalhavam, comentavam.<\/p>\n<p>Subitamente, um sil\u00eancio tomou-os de assalto.<\/p>\n<p>O pai e a m\u00e3e estranharam\u2026<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 tudo bem? \u2013 Perguntaram.<\/p>\n<p>O sil\u00eancio f\u00ea-los ir verificar.<\/p>\n<p>J. e M. estavam brancos, ao olhar para uma das fotos.<\/p>\n<p>Fora captada nas catacumbas, num dos t\u00famulos.<\/p>\n<p>Tinha uma inscri\u00e7\u00e3o em que se registava<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Alberto Ferreyra<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">N. C. I.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Falecido em 15 de janeiro de 2025<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se Alberto Ferreyra tinha senten\u00e7a de morte para breve, tamb\u00e9m eles teriam a vida penhorada e de fim previsivelmente determinado.<\/p>\n<p>\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Alberto Ferreyra interrompeu o que estava a escrever.<\/p>\n<p>N\u00e3o lhe agrada o rumo que o conto est\u00e1 a tomar.<\/p>\n<p>Era sedutora a linha do enredo: criar um mist\u00e9rio em torno de umas catacumbas onde nas fotos se capta o destino de algu\u00e9m parecia ser fecunda trama para enredo de sucesso.<\/p>\n<p>Mas o imagin\u00e1rio de Ferreyra n\u00e3o era fatalista. Nas suas hist\u00f3rias, o destino constru\u00eda-se no encontro entre liberdades, entre a liberdade da cria\u00e7\u00e3o e a liberdade do Criador. N\u00e3o podia prosseguir com aquela linha. E que seria, afinal, das suas personagens, se um tal destino, \u00e0 maneira tr\u00e1gica dos gregos, se concretizasse?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>J. e M. baloi\u00e7am as suas pernas sobre o umbral do tempo. Aguardam que o seu criador se decida a retomar o enredo, ansiosos com o desfecho. Percebem as d\u00favidas de Ferreyra. O rumo daquela narrativa era inquietante e desvirtuava o imagin\u00e1rio de Ferreyra nos seus leitores. As personagens de Ferreyra n\u00e3o s\u00e3o fantoches nas m\u00e3os de um destino sem liberdade.<\/p>\n<p>J. e M. olham para o infinito abismo, enquanto esperam\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ferreyra riscou as \u00faltimas linhas do que escrevera.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: line-through;\">No sof\u00e1, enquanto os pais ultimavam o jantar, J. e M. percorreram as centenas de fotos de um dia em cheio. Riam, gargalhavam, comentavam.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: line-through;\">Subitamente, um sil\u00eancio tomou-os de assalto.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: line-through;\">O pai e a m\u00e3e estranharam\u2026<\/span><\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: line-through;\">&#8211; Est\u00e1 tudo bem? \u2013 Perguntaram.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: line-through;\">O sil\u00eancio f\u00ea-los ir verificar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"text-decoration-line: line-through;\">J. e M. estavam brancos, ao olhar para uma das fotos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: line-through;\">Fora captada nas catacumbas, num dos t\u00famulos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: line-through;\">Tinha uma inscri\u00e7\u00e3o em que se registava:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: line-through;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"text-decoration: line-through;\">Alberto Ferreyra<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"text-decoration-line: line-through;\">N. C. I.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"text-decoration: line-through;\">Falecido em 15 de janeiro de 2025<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>J. e M. est\u00e3o, refastelados, no sof\u00e1, vendo as fotografias de um dia \u00fanico, enquanto os pais preparam o jantar. Riem, gracejam, divertem-se a ver as fotos. Lembram Atan\u00e1sia\u2026<\/p>\n<p>M. ajeita-se, no sof\u00e1, quando d\u00e1 conta de que o seu bolso guarda qualquer coisa. A sua m\u00e3o retrai-se, ao tocar no que ali se esconde. Volta a tentar. \u00c9 uma cris\u00e1lida. Um novelo da qual parece estar prestes a brotar uma bela borboleta.<\/p>\n<p>&#8211; Como foi a\u00ed parar? \u2013 Pergunta J.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3 pode ter sido Atan\u00e1sia, quando me deu o abra\u00e7o.<\/p>\n<p>O pai tinha, entretanto, sa\u00eddo da cozinha, abeirando-se deles. Observava, com perplexidade, aquele momento.<\/p>\n<p>&#8211; Disseste \u2018Atan\u00e1sia\u2019, M.? Curioso nome. \u00c9 de origem grega e significa \u2018n\u00e3o-morte\u2019, \u2018imortal\u2019\u2026 &#8211; O pai de M. e J. estudara l\u00ednguas cl\u00e1ssicas, fascinando com as suas explica\u00e7\u00f5es os seus sempre curiosos filhos. \u2013 Vi que, quando a beijaste, tamb\u00e9m lhe segredaste alguma coisa.<\/p>\n<p>Disse-lhe que via, nos verdes olhos de esmeralda dela sonhos ainda n\u00e3o realizados. Disse-lhe que os alimentasse.<\/p>\n<p>&#8211; Parece, afinal, M., que quem tem maior segredo a concretizar \u00e9s tu. A cris\u00e1lida que te deixou \u00e9 um sinal. A borboleta sempre representou a alma, a imortalidade. Olhaste e viste o que outros deixam escapar, desviando o olhar. Que viagem, esta\u2026<\/p>\n<p>J. e M. estavam perturbados. M. revivia aquele breve com Atan\u00e1sia, em que o tempo alongara, como se num buraco de verme\u2026 E, agora, o desvendar do significado do nome e a descoberta da cris\u00e1lida deixavam-na at\u00f3nita\u2026<\/p>\n<p>Continuaram a viagem feita de fotos e mist\u00e9rios.<\/p>\n<p>A conten\u00e7\u00e3o provocada pela surpresa voltara, pouco a pouco a dar lugar a novas gargalhadas e entusiasmos.<\/p>\n<p>Subitamente, por\u00e9m, criou-se um sil\u00eancio ensurdecedor que surpreendeu os pais\u2026<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 tudo bem? \u2013 Perguntou o pai, que logo assomou \u00e0 porta da cozinha.<\/p>\n<p>A aus\u00eancia de resposta f\u00ea-lo perceber que algo intrigante voltara a acontecer.<\/p>\n<p>Encaminhou-se para os filhos. Tinham parado numa foto do interior das catacumbas. Foto de um dos t\u00famulos.<\/p>\n<p>Nela, havia apenas uma inscri\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Alberto Ferreyra<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">C.O.F.D.S.O.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m parecia querer quebrar o sil\u00eancio, de t\u00e3o at\u00f3nitos\u2026<\/p>\n<p>Mas J. arriscou.<\/p>\n<p>&#8211; Sabemos que N.C.I. quer dizer \u2018Nosso Car\u00edssimo Irm\u00e3o\u2019, mas o que significar\u00e1 \u2018C.O.F.D.S.O.\u2019? \u2013 Interrogou.<\/p>\n<p>M. olhava, ainda l\u00edvida, para aquela foto.<\/p>\n<p>Como poderia desvendar aquela sigla?<\/p>\n<p>A perplexidade deu lugar \u00e0 curiosidade.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos continuar a ver as fotos. Quem sabe se se desvenda o enigma com alguma pista. \u2013 Aventou J.<\/p>\n<p>&#8211; Tenta ver numa das l\u00e1pides que ainda n\u00e3o tinham data de falecimento, solicitadas pelos irm\u00e3os que queriam vir a ser ali sepultados\u2026<\/p>\n<p>Entre as fotos, a de uma l\u00e1pide que s\u00f3 registava Is 3,10.<\/p>\n<p>Foram vasculhar\u2026<\/p>\n<p>-\u2018Feliz o justo, porque ter\u00e1 o bem, comer\u00e1 o fruto das suas obras.\u2019 Diz a passagem do livro de Isa\u00edas. \u2013 Constatou J.<\/p>\n<p>&#8211; \u2018Comer\u00e1 O Fruto Das Suas Obras\u2019. \u2013 Repetiu M., como que a querer interioriza-las, \u00e0 maneira de um suave rumor, as palavras do profeta.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 este o verdadeiro destino dos homens: comer o fruto das sementes que lan\u00e7am. Ter\u00e1s lan\u00e7ado boa semente no cora\u00e7\u00e3o da Atan\u00e1sia, M.<\/p>\n<p>&#8211; Acho, antes, que foi Atan\u00e1sia que as deixou no cora\u00e7\u00e3o de todos n\u00f3s. \u2013 Concluiu o pai.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ferreyra est\u00e1 satisfeito com o desfecho da hist\u00f3ria. A data da sua morte j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 um destino previamente talhado, mas permanece um futuro a construir.<\/p>\n<p>Uma sombra, por\u00e9m, assomou ao seu esp\u00edrito: porque estava o seu nome num dos t\u00famulos das catacumbas? Haveria um outro autor a decidir sobre a sua vida? Aquele que o coloca a falar na terceira pessoa?!&#8230;<\/p>\n<p>Intrigado, desligou o computador. Antes do \u00faltimo fulgor da corrente, dali saiu uma borboleta de cor verde que poisou sobre o lado direito do ecr\u00e3. Agitou, docemente, as asas e voou pela janela, levada num abra\u00e7o do vento\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"text-decoration: line-through;\">Lu\u2026\u2026..<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Alberto Ferreyra<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">16 de janeiro de 2025<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/tumisu-148124\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4203628\">Tumisu<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4203628\">Pixabay<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align: justify;\">*Alberto Ferreyra diz que as suas letras habitam a mente e saem da m\u00e3o de algu\u00e9m nascido em terras gaulesas, ainda que afirme, em sussurro, que o seu real nascimento ocorreu nas margens do Antu\u00e3, em abril de 2024. \u00c9, por isso, um prematuro autor liter\u00e1rio, germinado da inspira\u00e7\u00e3o que a realidade proporciona quando se tem a companhia, nos livros, de g\u00e9nios como Jorge Luis Borges, Miguel Torga, Gabriel Garc\u00eda Marquez ou personagens como Poirot ou Padre Brown.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Na sua escrita, cruzam-se o real e o imaginado, o fict\u00edcio e o hist\u00f3rico, numa embrenhada teia em que o leitor continua a ler, mesmo j\u00e1 depois de fechado o conto. O real continua a fecundar hist\u00f3rias na mente de quem l\u00ea Ferreyra. Cada conto, feito dos mist\u00e9rios desvelados, aproxima o tempo e distancia o espa\u00e7o, esticando-o at\u00e9 ao eterno e ao infinito. Ao ler Ferreyra, faz-se &#8216;sil\u00eancio&#8217; (&#8216;myst\u00e9rio&#8217; alude \u00e0 etimologia grega da palavra, que remete para o &#8216;fazer sil\u00eancio&#8217;, &#8216;emudecer-se&#8217;&#8230;) para que possam ecoar as palavras, para que possa desenovelar-se o enredo sucintamente desvelado.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">J. e M., protagonistas de cada um dos contos, acompanhados, em alguns deles, pelo seu periquito &#8216;branquinho&#8217;, fazem emergir, do real em que se enredam, hist\u00f3rias que, nascendo da imagina\u00e7\u00e3o de Ferreyra, permanecem como realidades poss\u00edveis, deixando a suspeita de terem mesmo ocorrido.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Se n\u00e3o foi real, Ferreyra o criar\u00e1, inspirado numa cosmovis\u00e3o que tanto deve \u00e0quela religi\u00e3o que fez do encarnado a condi\u00e7\u00e3o fundamental do existir.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A vinte e tr\u00eas (23) de cada m\u00eas, habitaremos o mundo pelo imagin\u00e1rio de Alberto Ferreyra&#8230;<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Myst\u00e9rios lusitanos |<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":17814,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[208,209],"tags":[],"class_list":["post-18042","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-alberto-ferreyra","category-mysterios-lusitanos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18042","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18042"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18042\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20092,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18042\/revisions\/20092"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17814"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18042"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18042"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18042"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}