{"id":17956,"date":"2024-08-15T07:00:34","date_gmt":"2024-08-15T06:00:34","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=17956"},"modified":"2024-06-09T18:18:15","modified_gmt":"2024-06-09T17:18:15","slug":"regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden-22-orfeu-e-a-descida-aos-infernos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden-22-orfeu-e-a-descida-aos-infernos\/","title":{"rendered":"\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019 | 22 | Orfeu e a descida aos infernos"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><em>\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019<\/em> | Parceria com a revista <a href=\"http:\/\/www.movimento-acr.pt\/accao-catolica-portuguesa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">&#8216;Mundo Rural&#8217;<\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019 faz-se, neste passo, ao som da lira de Orfeu, instrumento a que, segundo as tradi\u00e7\u00f5es m\u00edticas, ele pr\u00f3prio acrescentou mais duas cordas, perfazendo nove, como o n\u00famero das musas, filhas de Mnem\u00f3sine e de Zeus, a quem se atribu\u00eda a origem das diversas artes: Cal\u00edope, musa da poesia, Clio, musa da hist\u00f3ria, \u00c9rato, musa da l\u00edrica coral, Euterpe, musa da flauta e, por isso, da m\u00fasica, Melp\u00f3mene, musa da trag\u00e9dia, Pol\u00edmnia (ou Poli\u00edmnia), musa da pantomima, Terps\u00edcore, musa da poesia ligeira e da dan\u00e7a, Talia, musa da com\u00e9dia e Ur\u00e2nia, musa da astronomia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E onde nos leva Orfeu?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mito de Orfeu e Eur\u00eddice \u00e9 dos mais fecundos da hist\u00f3ria cl\u00e1ssica e tantas vezes repercutido nas m\u00faltiplas artes, entre as quais merecer\u00e1 particular destaque a singular \u00f3pera (1762) de Gluck, de t\u00edtulo hom\u00f3nimo. Mas n\u00e3o apenas da hist\u00f3ria principal se guardam mem\u00f3rias que se tornaram intemporais. As refer\u00eancias com que o decoraram as penas de Virg\u00edlio e Ov\u00eddio mant\u00eam-se at\u00e9 hoje. Gil Vicente, no seu auto da barca do Inferno, recorda Caronte e o seu papel na travessia do rio Aqueronte. No Natal do sr. Scrooge, o forreta protagonista da hist\u00f3ria coloca uma moeda em cada olho do seu finado s\u00f3cio. Alus\u00f5es ao que do mito se mant\u00e9m, na mem\u00f3ria coletiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas de Orfeu n\u00e3o ficou s\u00f3 a curiosidade. Ficou um denso mito de que vale a pena fazer mem\u00f3ria e cruzar, neste caminho de regresso a \u00cdtaca sob o sonho do \u00c9den, as interse\u00e7\u00f5es e diverg\u00eancias entre a cultura cl\u00e1ssica e o cristianismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sigamos, no nosso relato, o que nos contam Pierre Grimal<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> e Luc Ferry<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orfeu est\u00e1 apaixonado por Eur\u00eddice, uma ninfa ou filha de Apolo. Esta, fugindo de Aristeu, que a pretendia seduzir, pisa uma serpente que, mortalmente, a pica. Orfeu decide descer aos infernos para a recuperar para a vida. Ali, seduz, com a sua lira de nove cordas, todos os seres, at\u00e9 os mais empedernidos de todos, superando, mesmo, todas as maldi\u00e7\u00f5es: \u2018a roda de Ix\u00edon deixa de girar, a pedra de S\u00edsifo equilibra-se por si pr\u00f3pria imobilizando-se, T\u00e2ntalo esquece a fome e a sede, as Danaides j\u00e1 n\u00e3o tentam encher de \u00e1gua o tonel perfurado\u2019 (Pierre Grimal, p. 341). Consegue convencer Hades e Pers\u00e9fone que consentem em deix\u00e1-los partir, mas com a condi\u00e7\u00e3o de que Orfeu n\u00e3o se volte para tr\u00e1s, antes de sair dos Infernos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 boa maneira grega, a maldi\u00e7\u00e3o atualiza-se, porque a humanidade de Orfeu o faz sucumbir e desrespeitar a condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o nos interessa, aqui, discutir a que se dever\u00e1 esta tenta\u00e7\u00e3o \u00faltima de Orfeu (que j\u00e1 estava perto de cumprir o desejo de sair dos Infernos), e que Luc Ferry atribui a uma insan\u00e1vel coexist\u00eancia entre o amor e a morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa perspetiva crist\u00e3, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o h\u00e1 essencial coexist\u00eancia entre o amor e a morte como a pr\u00f3pria tradi\u00e7\u00e3o repercutiu que o amor supera e transcende a morte, ao colocar, no pr\u00f3prio s\u00edmbolo dos ap\u00f3stolos, a refer\u00eancia \u00e0 descida de Jesus Cristo aos infernos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tradu\u00e7\u00e3o portuguesa do Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica, reproduzida a partir da edi\u00e7\u00e3o t\u00edpica latina, refere que \u2018Jesus Cristo [\u2026] desceu \u00e0 mans\u00e3o dos mortos\u2019, uma tradu\u00e7\u00e3o atualizada do conceito que, no original, se afirmava, desde a primeira vez em que este credo passou a inclu\u00ed-la, como \u2018descendit ad inferna\u2019, o que poder\u00e1 \u00e0 letra, traduzir-se por \u2018desceu aos lugares inferiores\u2019, pois assim o pensava a cosmologia de ent\u00e3o. O lugar da morte estava na parte inferior do universo. Descia-se para o \u2018Hades\u2019, o \u2018Sheol\u2019, sendo pensado como o lugar sem mem\u00f3ria, ali\u00e1s, numa evoca\u00e7\u00e3o da ideia de \u2018letes\u2019, o rio cujas \u00e1guas faziam esquecer, apagar toda a mem\u00f3ria (curiosamente, uma das palavras gregas para \u2018verdade\u2019 era \u2018al\u00eatheia\u2019 que, \u00e0 letra, significa \u2018n\u00e3o perder a mem\u00f3ria\u2019).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fa\u00e7o uma breve deriva para voltarmos a regressar a este ponto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O s\u00edmbolo dos ap\u00f3stolos, proposto como um dos credos a proferir nas eucaristias dominicais (sendo mais frequente, por\u00e9m, o nicenoconstantinopolitano), foi, como recorda Denzinger, no seu Enchiridion, tido, durante muitos s\u00e9culos, como um s\u00edmbolo constru\u00eddo, literalmente, pelos doze ap\u00f3stolos, tendo cada um deles ditado um dos doze artigos. Os vest\u00edgios mais antigos desta \u2018lenda\u2019 s\u00e3o de 390, numa carta enviada pelo S\u00ednodo de Mil\u00e3o (presidido por Santo Ambr\u00f3sio) ao Papa Sir\u00edcio, sendo o primeiro documento em que se fala de \u2018credo apost\u00f3lico\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sabemos, por\u00e9m, hoje, que n\u00e3o foi assim, sendo que este credo se foi construindo, como processo de amadurecimento eclesial (hoje, dir\u00edamos \u2018sinodal\u2019), por duas vias. A mais antiga, a romana, ter\u00e1 iniciado em finais do s\u00e9culo II, sendo transmitida em grego e latim. A mais recente ter\u00e1 surgido no s\u00e9culo VII, no sul da G\u00e1lia (atual Fran\u00e7a), tendo sido prontamente acolhida por Roma. Este processo ficou conclu\u00eddo e fechado com a edi\u00e7\u00e3o do catecismo romando, em 1566 e com o brevi\u00e1rio romano, em 1568.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Curiosamente, pode constatar-se que a inclus\u00e3o do artigo \u2018desceu aos infernos\u2019, em s\u00edmbolos de f\u00e9 \u2018ortodoxos\u2019 (isto \u00e9, n\u00e3o her\u00e9ticos, como acontecia com os arianos ou semiarianos) s\u00f3 ocorre em 404, em \u2018expositio\u2019 da autoria de Tyrannius Rufinus<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta constata\u00e7\u00e3o parece-me contradizer a tese de significativa influ\u00eancia do orfismo no cristianismo, como pretendem, por exemplo, Luc Ferry e o pr\u00f3prio Pierre Grimal, podendo-se acrescentar que as diverg\u00eancias entre as duas narrativas abundam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orfeu desce aos infernos, fruto de um amor de natureza conjugal. Jesus Cristo desce aos infernos (\u00e0 mans\u00e3o dos mortos) como a\u00e7\u00e3o de liberta\u00e7\u00e3o universal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do mito de Orfeu e Eur\u00eddice permanece um resqu\u00edcio de \u2018maldi\u00e7\u00e3o\u2019: Eur\u00eddice regressa uma segunda vez, aos Infernos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da descida de Jesus Cristo adv\u00e9m uma definitiva certeza de que os homens s\u00e3o \u2018respons\u00e1veis pela sua pr\u00f3pria sorte [\u2026] o seu c\u00e9u descansa na liberdade [pois] at\u00e9 [a]os condenados deixa o direito de querer a sua condena\u00e7\u00e3o\u2019<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deus prop\u00f5e, na perspetiva crist\u00e3, a salva\u00e7\u00e3o para todos. A liberdade de a aceitar torn\u00e1-la-\u00e1 eficaz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta s\u00edntese torna atual a afirma\u00e7\u00e3o feita no s\u00edmbolo dos ap\u00f3stolos. Na sua morte e, como recorda Hans K\u00fcng, em estreita uni\u00e3o com a sua ressurrei\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>, Jesus opera uma salva\u00e7\u00e3o para todos, mas em que a possibilidade da perda e condena\u00e7\u00e3o definitiva continua em aberto, n\u00e3o j\u00e1 como uma maldi\u00e7\u00e3o, na linha do mito de Orfeu, mas como uma decis\u00e3o de n\u00e3o acolher a salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o Deus Crist\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o das maldi\u00e7\u00f5es: \u00e9 o da reden\u00e7\u00e3o e da salva\u00e7\u00e3o. \u00c9 \u2018A\u2019 Salva\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Cfr. Pierre Grimal, <em>Dicion\u00e1rio de mitologia grega e romana<\/em>, Lisboa, Ant\u00edgona Editores, 2020, pp. 340-342.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Luc Ferry, <em>A sabedoria dos mitos<\/em>, Lisboa, Temas e Debates\/C\u00edrculo de Leitores, 2014, pp. 227-234.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Cfr. Heinrich Denzinger e Peter H\u00fcnermann, <em>El Magisterio de la Iglesia: Enchiridion symbolorum definitionum et declarationum de rebus fidei et morum<\/em>, Barcelona, Herder Editorial, 1999, n. 16.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Cfr. Joseph Ratzinger, <em>Escatolog\u00eda: la muerte yla vida eterna<\/em>, Barcelona, Herder Editorial, 2008, pp. 233.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Hans K\u00fcng afirma que \u2018se este artigo da f\u00e9 se entende simbolicamente vinculado \u00e0 ressurrei\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tem, pois, porque oferecer dificuldades ao homem de hoje.\u2019 \u2013 Hans K\u00fcng, <em>Credo: El S\u00edmbolo de los Ap\u00f3stoles explicado al hombre de nuestro tiempo<\/em>, Madrid, Editorial Trotta, 1994,, p. 104.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;, &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Orfeu#\/media\/Ficheiro:Orpheus_Thracians_Met_24.97.30.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Orfeu (\u00e0 esquerda, com lira) entre os tr\u00e1cios<\/a>, de uma\u00a0cratera-sino\u00a0\u00e1tica de figura vermelha\u00a0(c. 440 a.C.)<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2018Regresso a \u00cdtaca<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":17957,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,177],"tags":[],"class_list":["post-17956","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17956","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17956"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17956\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17959,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17956\/revisions\/17959"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17957"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17956"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17956"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17956"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}