{"id":17910,"date":"2024-08-07T07:07:04","date_gmt":"2024-08-07T06:07:04","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=17910"},"modified":"2024-07-24T15:21:01","modified_gmt":"2024-07-24T14:21:01","slug":"sabes-leitor-8-marca-de-agua-do-livro-de-michael-j-sandel-o-que-o-dinheiro-nao-pode-comprar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/sabes-leitor-8-marca-de-agua-do-livro-de-michael-j-sandel-o-que-o-dinheiro-nao-pode-comprar\/","title":{"rendered":"Sabes, leitor&#8230; | 8 | Marca de \u00e1gua do livro de Michael J. Sandel, &#8216;O que o dinheiro n\u00e3o pode comprar&#8217;"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">Rubrica \u2018Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma p\u00e1gina\u2019** | <em>Marca de \u00e1gua de livros que deixam marcas profundas<\/em><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Parceria:<a href=\"https:\/\/www.federacaopelavida.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> <em>Federa\u00e7\u00e3o Portuguesa pela Vida<\/em><\/a> e<em> Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<pre style=\"padding-left: 80px;\"><strong>O autor e a obra<\/strong><\/pre>\n<h5 style=\"padding-left: 280px; text-align: justify;\">Michael J. Sandel, O que o dinheiro n\u00e3o pode comprar: os limites morais dos mercados, Barcarena, Editorial Presen\u00e7a, 2015.<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Michael Sandel \u00e9 professor de filosofia na Universidade de Harvard, e convidado na Universidade de Sorbonne, Paris. Tem a maioria dos seus livros traduzidos em Portugal editados pela Presen\u00e7a. Uma aposta certeira, evidente no facto de que, apesar de se tratar de livros de filosofia, rapidamente s\u00e3o reeditados. Em Portugal, est\u00e3o traduzidos os seus \u2018O Liberalismo e os Limites da Justi\u00e7a\u2019, editado pela Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian, e, pela Presen\u00e7a, \u2018Justi\u00e7a &#8211; Fazemos o que Devemos?\u2019, cuja base \u00e9, em grande parte, o seu muito procurado curso sobre Justi\u00e7a, \u2018A Tirania do M\u00e9rito &#8211; O que aconteceu ao bem comum?\u2019 e, mais recentemente, o seu \u2018O Descontentamento da Democracia &#8211; Por que raz\u00e3o vivemos tempos perigosos e o que temos de fazer para mudar\u2019.<br \/>\nQuando se l\u00ea Sandel, rapidamente se percebe a causa do seu sucesso. O seu pensamento \u00e9 claro, partindo de perguntas que adivinham as inquieta\u00e7\u00f5es do leitor, expresso numa escrita que parece ser um di\u00e1logo com o distante leitor, como se o levasse pela m\u00e3o at\u00e9 \u00e0 solu\u00e7\u00e3o que nos prop\u00f5e.<br \/>\nMesmo quando nos apresenta uma solu\u00e7\u00e3o com que podemos n\u00e3o concordar, como a que formula no seu livro \u2018a tirania do m\u00e9rito\u2019, em que sugere que o sorteio pudesse ser uma solu\u00e7\u00e3o para evitar a meritocracia que exclui, a sua argumenta\u00e7\u00e3o \u00e9 poderosa e envolvente, deixando no leitor honesto a sensa\u00e7\u00e3o de um profundo respeito, dada a clareza da exposi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nUm pensador a ler e acompanhar\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<pre style=\"padding-left: 80px;\"><strong>Marcas de \u00e1gua <\/strong><strong>(o que fica depois de se deixar o livro)<\/strong><\/pre>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para quem me l\u00ea, deixo, antes da descri\u00e7\u00e3o sobre o que fica da leitura deste livro, uma nota muito ilustrativa do interesse que suscita este livro. Comecei a l\u00ea-lo em 24 de setembro de 2016. Acabei de o ler a 2 de outubro, entre os in\u00fameros afazeres, pr\u00f3prios de qualquer in\u00edcio de ano letivo. A fluidez do pensamento, a transpar\u00eancia da escrita prendera-me. O entusiasmo que me suscitou fez-me comprar, logo ap\u00f3s terminar esta leitura, o seu \u2018Justi\u00e7a\u2019, que tamb\u00e9m li num f\u00f4lego.<br \/>\nSandel \u00e9, n\u00e3o s\u00f3 claro, como defensor de uma linha de pensamento com que, como personalista crist\u00e3o, me identifico. O centro do pensamento de Sandel \u00e9 claro: h\u00e1 valores que n\u00e3o s\u00e3o redut\u00edveis \u00e0 l\u00f3gica da compra e venda. Como que poder\u00edamos sintetizar que, apesar de o dinheiro tudo querer comprar, nem tudo pode ser vendido. Como o pr\u00f3prio Sandel afirma, \u2018quando decidimos que determinados bens podem ser comprados e vendidos, estamos a decidir, pelo menos de forma impl\u00edcita, que \u00e9 apropriado trat\u00e1-los como mercadorias, como instrumentos de lucro e uso. Mas nem todos os bens s\u00e3o devidamente valorizados desta forma. O exemplo mais \u00f3bvio s\u00e3o os seres humanos.\u2019 (p. 19)<br \/>\nA centralidade que coloca na pessoa humana, repercutindo uma matriz com grandes pontos de coincid\u00eancia com a leitura crist\u00e3 (ainda que o autor n\u00e3o o explicite, mas sem deixar, por\u00e9m, de citar, quando necess\u00e1rio, o pr\u00f3prio Magist\u00e9rio pontif\u00edcio), leva-o a interrogar sobre se \u2018queremos uma \u2018economia de mercado ou uma sociedade de mercado\u2019 (p. 20), ideia que a n\u00f3s, portugueses, invoca uma outra interroga\u00e7\u00e3o formulada por D. Jos\u00e9 Policarpo sobre a laicidade do Estado em que recordava que, sendo certo que o Estado \u00e9 laico (ainda que a Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica nunca utilize este termo), a sociedade n\u00e3o o era. Agora, a quest\u00e3o \u00e9 entre a economia e o todo da sociedade. E Sandel deixa clara a sua linha. A l\u00f3gica de mercado deve confinar-se ao que \u00e9 mundo espec\u00edfico da economia, n\u00e3o deixando que tudo se reduza a l\u00f3gica de compra e venda.<br \/>\nO fil\u00f3sofo de Harvard defende, por isso, que \u00e9 preciso assumir a consci\u00eancia de que todas as a\u00e7\u00f5es humanas s\u00e3o suscet\u00edveis de aprecia\u00e7\u00e3o moral (n\u00e3o h\u00e1 amoralidade pr\u00e1tica), o que o leva a concluir que, dada a relev\u00e2ncia da pol\u00edtica na vida em comum, h\u00e1 que constatar que \u2018o problema da pol\u00edtica n\u00e3o reside no excesso mas sim na car\u00eancia de argumenta\u00e7\u00e3o moral. A nossa pol\u00edtica \u00e9 inflamada porque \u00e9 essencialmente vaga, vazia de conte\u00fado moral e espiritual. N\u00e3o abarca as grandes quest\u00f5es que preocupam as pessoas.\u2019 (p. 23)<br \/>\nCom estes pressupostos, Sandel constr\u00f3i uma narrativa constru\u00edda com uma articula\u00e7\u00e3o densa e fluentemente conduzida de argumentos e factos que conduzem o leitor ao reconhecimento de que nem tudo \u00e9 redut\u00edvel \u00e0 l\u00f3gica da compra e venda. Num tempo em que tudo \u00e9 reduzido \u00e0 ordem do \u00fatil, o discurso de Sandel est\u00e1 em contracorrente, ousando dizer-nos que h\u00e1 valores que est\u00e3o para al\u00e9m do tang\u00edvel. \u2018[\u2026] assim que vemos como os mercados e o com\u00e9rcio alteram o car\u00e1ter dos bens em que tocam, temos de perguntar a que esferas os mercados pertencem \u2013 e n\u00e3o pertencem. E n\u00e3o podemos responder a esta pergunta sem deliberarmos sobre o significado e o prop\u00f3sito dos bens e os valores que deveriam reg\u00ea-los.\u2019 (p. 209)<br \/>\nNum tempo t\u00e3o propenso a \u2018cancelamentos\u2019 e silenciamentos, Sandel n\u00e3o tem medo de afirmar que \u2018por receio de suscitarmos disc\u00f3rdia, hesitamos em expor as nossas convic\u00e7\u00f5es morais e espirituais na pra\u00e7a p\u00fablica. Mas o facto de nos esquivarmos a estas quest\u00f5es n\u00e3o as faz deixar por decidir. Significa apenas que os mercados as decidir\u00e3o por n\u00f3s.\u2019 (p. 209)<br \/>\nA pergunta com que termina \u00e9 revisit\u00e1vel, no contexto portugu\u00eas: \u2018queremos uma sociedade onde tudo est\u00e1 \u00e0 venda? Ou existir\u00e3o determinados bens morais e c\u00edvicos que os mercados n\u00e3o honram nem respeitam e que o dinheiro n\u00e3o pode comprar?\u2019 (p. 210)<br \/>\nPergunto eu, sem comprometer Sandel: est\u00e3o \u00e0 venda os valores fundamentais, dependentes de quem, com poder econ\u00f3mico, pode manipular os m\u00e9dia e \u2018vend\u00ea-los bem vendidos\u2019 ou podemos contar com decisores pol\u00edticos que protegem os valores fundamentais, mesmo quando isso pode custar no mercado eleitoral?<br \/>\nTemas como a prote\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia, da vida humana nos seus extremos, a liberdade religiosa, a prote\u00e7\u00e3o do direito da fam\u00edlia \u00e0 liberdade de educa\u00e7\u00e3o est\u00e3o em risco no mercado dos valores eleitorais. Sucumbir\u00e3o ao peso dos diversos \u2018mercado\u2019? Ou permanecer\u00e3o valores (algo que consideramos valer e merecer prote\u00e7\u00e3o) distinguindo-se o que vale do que n\u00e3o vale?<\/p>\n<pre style=\"padding-left: 80px;\"><strong>Na mesma p\u00e1gina que o autor (cita\u00e7\u00f5es)<\/strong><\/pre>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Hoje, a l\u00f3gica da compra e venda j\u00e1 n\u00e3o se aplica apenas a bens materiais, mas domina cada vez mais todos os aspetos da vida. Est\u00e1 na altura de perguntarmos se queremos viver desta forma.\u2019 (p. 16)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Precisamos de nos perguntar se h\u00e1 algumas coisas que o dinheiro n\u00e3o deve comprar.\u2019 (p. 17)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Numa sociedade em que tudo est\u00e1 \u00e0 venda, a vida \u00e9 mais dif\u00edcil para aqueles que t\u00eam escassos recursos. Quantas mais forem as coisas que o dinheiro pode comprar, maior import\u00e2ncia adquire a riqueza (ou a falta dela). (p. 18)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Pagar a crian\u00e7as para lerem livros pode incentiv\u00e1-las a ler mais, mas tamb\u00e9m as ensina a encarar a leitura como uma tarefa e n\u00e3o uma fonte de satisfa\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca.\u2019 (p. 19)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Os economistas partem muitas vezes do pressuposto de que os mercados s\u00e3o inertes, que n\u00e3o afetam os bens que s\u00e3o transacionados. Mas isso n\u00e3o \u00e9 verdade. Os mercados deixam a sua marca. \u00c0s vezes, os valores de mercado excluem os valores n\u00e3o mercantis que merecem ser protegidos.\u2019 (p. 19)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] quando decidimos que determinados bens podem ser comprados e vendidos, estamos a decidir, pelo menos de forma impl\u00edcita, que \u00e9 apropriado trat\u00e1-los como mercadorias, como instrumentos de lucro e uso. Mas nem todos os bens s\u00e3o devidamente valorizados desta forma. O exemplo mais \u00f3bvio s\u00e3o os seres humanos. A escravid\u00e3o era chocante porque tratava os seres humanos como mercadorias que podiam ser compradas e vendidas em leil\u00e3o. Um tal tratamento n\u00e3o valoriza devidamente os seres humanos \u2013 como pessoas merecedoras de dignidade e respeito e n\u00e3o como instrumentos de obten\u00e7\u00e3o de lucro e objetos de uso.\u2019 (p. 19)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] uma economia de mercado \u00e9 uma ferramenta \u2013 uma ferramenta valiosa e eficaz \u2013 para organizar a atividade produtiva. Uma sociedade de mercado \u00e9 uma forma de vida em que os valores de mercado se infiltram em todos os aspetos da atividade humana. \u00c9 um lugar onde as rela\u00e7\u00f5es sociais s\u00e3o moldadas \u00e0 imagem do mercado. [\u2026] Queremos uma economia de mercado ou uma sociedade de mercado?\u2019 (p. 20)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O problema da pol\u00edtica n\u00e3o reside no excesso, mas sim na car\u00eancia de argumenta\u00e7\u00e3o moral. A nossa pol\u00edtica \u00e9 inflamada porque \u00e9 essencialmente vaga, vazia de conte\u00fado moral e espiritual. N\u00e3o abarca as grandes quest\u00f5es que preocupam as pessoas.\u2019 (p. 23)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018\u00c0 sua pr\u00f3pria maneira, a l\u00f3gica racional do mercado tamb\u00e9m esvazia a vida p\u00fablica de argumenta\u00e7\u00e3o moral. Parte do apelo dos mercados reside no facto de n\u00e3o fazerem ju\u00edzos de valor sobre as prefer\u00eancias que satisfazem. N\u00e3o perguntam se algumas formas de valorizar os bens s\u00e3o mais nobres, ou mais dignas, do que outras. Se algu\u00e9m est\u00e1 disposto a pagar por sexo ou por um rim, e uma pessoa maior e vacinada estiver disposta a vender esse bem ou servi\u00e7o, a \u00fanica pergunta que o economista faz \u00e9: \u00abQuanto \u00e9?\u00bb Os mercados n\u00e3o apontam um dedo reprovador. N\u00e3o discriminam entre prefer\u00eancias admir\u00e1veis e abjetas. Cada uma das partes envolvidas no acordo decide por si mesma o valor a atribuir \u00e0 coisas que est\u00e3o a ser transacionadas.\u2019 (p. 23)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Se concordamos que comprar e vender certos bens os corrompe ou degrada, ent\u00e3o acreditamos que algumas formas de valorizar esses bens s\u00e3o mais apropriadas do que outras. Dificilmente faz sentido falar sobre corromper uma atividade \u2013 a paternidade, por exemplo, ou a cidadania \u2013 a menos que pensemos que determinadas maneiras de se ser pai, ou cidad\u00e3o, s\u00e3o melhores do que outras.<br \/>\nJu\u00edzos morais deste teor subjazem \u00e0s poucas limita\u00e7\u00f5es impostas aos mercados que ainda podemos observar. N\u00e3o permitimos que os pais vendam os filhos ou que os cidad\u00e3os vendam os seus votos. E uma das raz\u00f5es para n\u00e3o o permitirmos \u00e9, francamente, de ordem moral: acreditamos que vender essas coisas as valoriza da forma errada e promove m\u00e1s atitudes.\u2019 (p. 24)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Muitas vezes associamos a corrup\u00e7\u00e3o a lucros obtidos de forma il\u00edcita. Mas a corrup\u00e7\u00e3o refere-se a algo mais do que subornos e pagamentos il\u00edcitos. Corromper um bem ou uma pr\u00e1tica social \u00e9 degrad\u00e1-lo, trata-lo de acordo com uma modalidade de valoriza\u00e7\u00e3o menor do que aquela que seria apropriada.\u2019 (p. 43)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] de modo a determinarmos se a capacidade reprodutiva de uma mulher deveria ser objeto de uma transa\u00e7\u00e3o mercantil, temos de perguntar que tipo de bem \u00e9 esse: dever\u00edamos considerar o nosso corpo como bem que possu\u00edmos e podemos usar e disponibilizar como melhor entendermos ou ser\u00e1 que alguns usos do nosso corpo equivalem a um ato de autodegrada\u00e7\u00e3o? Trata-se de uma quest\u00e3o importante e controversa que tamb\u00e9m surge nos debates sobre a prostitui\u00e7\u00e3o, as barrigas de aluguer e a compra e venda de \u00f3vulos e esperma. Antes de podermos decidir se as rela\u00e7\u00f5es de mercado s\u00e3o apropriadas para tais dom\u00ednios da vida, precisamos de compreender que normas deveriam reger as nossas vidas sexuais e reprodutivas.\u2019 (p. 55)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Poder\u00e1 toda a a\u00e7\u00e3o humana ser entendida \u00e0 imagem de um mercado? Economistas, polit\u00f3logos, juristas e outros profissionais continuam a debater esta quest\u00e3o. Mas o mais surpreendente \u00e9 a forma como esta imagem se tornou poderosa \u2013 n\u00e3o s\u00f3 nos meios acad\u00e9micos, mas tamb\u00e9m na vida quotidiana. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, assistiu-se \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais \u00e0 imagem das rela\u00e7\u00f5es de mercado, num grau verdadeiramente not\u00e1vel. Um dos tra\u00e7os desta transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 o uso crescente de incentivos monet\u00e1rios para resolver problemas sociais.\u2019 (p. 59)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Muitas vezes, os incentivos de mercado corroem ou excluem os incentivos n\u00e3o mercantis.<br \/>\nUm estudo centrado em alguns infant\u00e1rios em Israel demonstra como isto pode acontecer. Os infant\u00e1rios enfrentavam um problema muito comum: \u00e0s vezes, os pais chegavam tarde para recolherem os filhos. Uma das educadoras tinha de ficar com as crian\u00e7as at\u00e9 \u00e0 chegada dos pais retardat\u00e1rios. Para resolver esse problema, os infant\u00e1rios come\u00e7aram a aplicar uma multa aos pais atrasados. O que acha o leitor que aconteceu? Na verdade, os atrasos na recolha das crian\u00e7as aumentaram.<br \/>\nOra, caso se assuma que as pessoas respondem a incentivos, esse \u00e9 um resultado desconcertante. Esperar-se-ia que as multas reduzissem, e n\u00e3o que aumentassem, a incid\u00eancia de ressolhas com atraso. O que aconteceu ent\u00e3o? A introdu\u00e7\u00e3o de um pagamento em dinheiro mudou as normas. Antes dessa medida, os pais que chegavam atrasados sentiam-se culpados, pois estavam a sujeitar as educadoras a uma situa\u00e7\u00e3o inc\u00f3moda. Mas, ap\u00f3s a introdu\u00e7\u00e3o das multas, os pais passaram a considerar as recolhas atrasadas das crian\u00e7as um servi\u00e7o pelo qual estavam dispostos a pagar. Encaravam a multa como se fosse uma taxa. Em vez de abusarem da boa vontade das educadoras, estavam simplesmente a pagar-lhes para trabalharem por mais tempo.\u2019 (pp. 72-73)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O que faz com que as multas por excesso de velocidade na Finl\u00e2ndia n\u00e3o possam ser tratadas como taxas n\u00e3o \u00e9 apenas do facto de variarem de acordo com os rendimentos do infrator. \u00c9 tamb\u00e9m o opr\u00f3brio moral que lhes subjaz: o ju\u00edzo moral de que infringir o limite de velocidade \u00e9 um comportamento errado.\u2019 (p. 74)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018\u00c0 medida que os mercados invadem esferas da vida tradicionalmente regidas por normas n\u00e3o mercantis, a no\u00e7\u00e3o de que os mercados n\u00e3o tocam nem maculam os bens que transacionam torna-se cada vez mais implaus\u00edvel. Um crescente n\u00famero de investiga\u00e7\u00f5es confirma aquilo que o senso comum sugere: os incentivos financeiros e outros mecanismos de mercado podem ter consequ\u00eancias negativas ao exclu\u00edrem normas n\u00e3o mercantis. \u00c0s vezes, oferecer um pagamento para se obter um determinado comportamento pode resultar numa manifesta\u00e7\u00e3o menos, e n\u00e3o maior, desse comportamento.\u2019 (pp. 119-120)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] encarar as normas morais e c\u00edvicas apenas como formas economicamente rent\u00e1veis de motivar as pessoas equivale a ignorar o valor intr\u00ednseco dessas normas.\u2019 (p. 125)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O altru\u00edsmo, a generosidade, a solidariedade e o esp\u00edrito c\u00edvico n\u00e3o s\u00e3o similares a mercadorias que se esgotam com o uso. S\u00e3o mais como m\u00fasculos que se desenvolver e fortalecem com o exerc\u00edcio. Um dos defeitos de uma sociedade regida pelos mercados \u00e9 que permite que estas virtudes definem. Para podermos renovar a nossa vida p\u00fablica, precisamos de as exercer com uma tenacidade cada vez maior.\u2019 (p. 135)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] para se poder decidir a que esferas da vida a publicidade pertence ou n\u00e3o, n\u00e3o basta debater os direitos de propriedade, por um lado, e a quest\u00e3o da justi\u00e7a, por outro. Tamb\u00e9m precisamos de discutir o significado das pr\u00e1ticas e dos bens sociais que encarnam. E precisamos de perguntar, em cada caso, se a comercializa\u00e7\u00e3o dessa pr\u00e1tica acabaria por a degradar.\u2019 (p. 195)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018A publicidade incentiva as pessoas a quererem coisas e a satisfazerem os seus desejos. A educa\u00e7\u00e3o incentiva as pessoas a refletirem de forma cr\u00edtica sobre os seus desejos, para os refrear ou sublimar. O prop\u00f3sito da publicidade consiste em recrutar consumidores; a finalidade das escolas p\u00fablicas consiste em cultivar os cidad\u00e3os.\u2019 (p. 207)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Queremos uma sociedade onde tudo est\u00e1 \u00e0 venda? Ou existir\u00e3o determinados bens morais e c\u00edvicos que os mercados n\u00e3o honram nem respeitam e que o dinheiro n\u00e3o pode comprar?\u2019 (p. 210)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5 style=\"text-align: right;\"><strong>**(T\u00edtulo retirado de Daniel Faria, <em>Dos l\u00edquidos<\/em>, Porto, Edi\u00e7\u00e3o Funda\u00e7\u00e3o Manuel Le\u00e3o, 2000, p. 137)<\/strong><\/h5>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217;, &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rubrica \u2018Sabes, leitor,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":17911,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9,55,198],"tags":[],"class_list":["post-17910","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-programa-diocesano-de-livros-e-leituras","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-sabes-leitor-que-estamos-ambos-na-mesma-pagina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17910","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17910"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17910\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18123,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17910\/revisions\/18123"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17911"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17910"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17910"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17910"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}