{"id":17894,"date":"2024-06-23T07:00:44","date_gmt":"2024-06-23T06:00:44","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=17894"},"modified":"2025-12-16T13:37:46","modified_gmt":"2025-12-16T13:37:46","slug":"mysterios-lusitanos-contos-texto-e-locucao-1-misterio-na-torre-dos-clerigos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/mysterios-lusitanos-contos-texto-e-locucao-1-misterio-na-torre-dos-clerigos\/","title":{"rendered":"1 | Myst\u00e9rios lusitanos [contos &#8211; texto e locu\u00e7\u00e3o] | Mist\u00e9rio na Torre dos cl\u00e9rigos"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><em>Myst\u00e9rios lusitanos<\/em> | A vinte e tr\u00eas (23) de cada m\u00eas, habitamos o mundo pelo imagin\u00e1rio de Alberto Ferreyra&#8230;<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Nos ramos da escrita, repousam, vezes sem conta, as gralhas da distra\u00e7\u00e3o, ocultas, sob m\u00faltiplos disfarces, at\u00e9 que algu\u00e9m as enxote. Alberto Ferreyra contou com o fino olhar da sua amiga Teresa Correia, detentora do segredo da sua identidade, para afastar ou ca\u00e7ar o grasnar das gralhas. Est\u00e1-lhe, por isso, muito grato&#8230;)<\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Alberto Ferreyra*<\/strong><\/p>\n<p><iframe title=\"Mist\u00e9rio na Torre dos Cl\u00e9rigos\" width=\"640\" height='360' src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/lZQgmXHdM5s?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O calor dos primeiros dias de ver\u00e3o convidava a uma viagem de comboio pela costa. J. e M. desafiavam, muitas vezes, o pai a uma viagem suave pela linha que ligava Porto e Aveiro. Tomar aquela linha parecia seguir o tra\u00e7ado de uma divis\u00f3ria entre o ardente interior e o frescor do mar. A linha f\u00e9rrea era como que o interst\u00edcio entre duas dimens\u00f5es da realidade, como se ali mesmo se cosesse o mapa, anteriormente separado em duas partes, artificialmente unidas para que dele beneficiassem os humanos, ainda que distra\u00eddos pelo correr dos dias.<br \/>\nDivertiam-se a ver quem entrava e quem sa\u00eda. Distra\u00edam-se, assim, ou \u2013 talvez, afinal \u2013 assim tomavam conta da realidade, como pastores de um ser que anda tresmalhado.<br \/>\nFaziam aquilo com frequ\u00eancia, quando as f\u00e9rias os levavam \u00e0s margens do Antu\u00e3, a casa dos av\u00f3s.<br \/>\nJ. e M. esperavam, ansiosamente, pelos dias em que corriam o litoral, sobre duas linhas sempre unidas, mas sempre separadas, como irm\u00e3os que eles mesmos eram: unidos, mas, muitas vezes, \u00e0s turras\u2026<br \/>\n&#8211; Parecemos n\u00f3s! \u2013 Diziam, entre piadas sobre o que viam e observavam.<br \/>\nAguardavam pelo comboio.<br \/>\nHoje, dia vinte e tr\u00eas de junho, o destino era o Porto. Bem sabiam que os haveria de esperar uma multid\u00e3o. Mas isso seria pelo entardecer. A hora que tinham escolhido ainda arrastava consigo o erguer da alvorada.<br \/>\nIam pela manh\u00e3. Poderiam sair em S\u00e3o Bento, visitar a S\u00e9 e terminar, pelo meio-dia, com um belo concerto de \u00f3rg\u00e3o que, diariamente, se pode ouvir na Torre dos Cl\u00e9rigos. Almo\u00e7ariam e voltariam, mal as multid\u00f5es da folia do S\u00e3o Jo\u00e3o se come\u00e7assem a concentrar para a noitada.<br \/>\nChegaram \u00e0 esta\u00e7\u00e3o de Estarreja, eram umas oito e meia.<br \/>\nCom eles, um desajeitado e tr\u00f4pego homem, estranhamente vestido de palha\u00e7o.<br \/>\nAbeiraram-se da m\u00e1quina autom\u00e1tica de bilhetes, com o \u2018andante\u2019 nas m\u00e3os. Preparavam-se para registar as suas viagens.<br \/>\nO homem vestido de palha\u00e7o aproximou-se deles.<br \/>\nTresandava a baga\u00e7o\u2026<br \/>\n&#8211; N\u00e3o precisam de pagar. A CP est\u00e1 a oferecer os bilhetes.<br \/>\nDisfar\u00e7adamente, o pai de J. e M. colocou os seus bra\u00e7os sobre os ombros dos dois filhos. Estacou e ficou gelado de susto.<br \/>\nUm homem vestido de palha\u00e7o a tresandar a bebida n\u00e3o podia ser fonte segura de informa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAgradeceu, por\u00e9m, por educa\u00e7\u00e3o e virou-se, com os filhos, para a linha\u2026<br \/>\nComo est\u00e1tuas, os tr\u00eas, o pai e os dois filhos, fixaram o olhar no infinito, enquanto, pelo canto do olho, acompanhavam o bamboleante andar do homem vestido de palha\u00e7o.<br \/>\nSentiram-lhe os passos a descer pela longu\u00edssima escadaria \u2013 parecia infinita! \u2013 at\u00e9 que o sentiram desaparecer no t\u00fanel onde o odor a baga\u00e7o se haveria de confundir com o f\u00e9tido cheiro que sempre inunda os t\u00faneis das esta\u00e7\u00f5es.<br \/>\nPercebendo-o longe, viraram-se de novo para a m\u00e1quina e acabaram a opera\u00e7\u00e3o de registo e oblitera\u00e7\u00e3o dos bilhetes.<br \/>\nO comboio estava prestes a chegar.<br \/>\nDesceram, velozmente, entre o riso e o desconcerto, e passaram para o outro lado da plataforma, na senda da linha que os haveria de levar ao Porto\u2026<br \/>\nO homem vestido de palha\u00e7o tamb\u00e9m parecera escolher o mesmo trajeto. Mas longe uns dos outros\u2026 N\u00e3o havia que denunciar n\u00e3o se ter acolhido uma sugest\u00e3o aparentemente bondosa.<br \/>\nEntraram, mas \u00e0 dist\u00e2ncia de um longo olhar, s\u00f3 revisitado de soslaio.<br \/>\nA viagem iniciou-se.<br \/>\nM. estava que n\u00e3o aguentava. Queria comentar o sucedido.<br \/>\nCochichava, por\u00e9m\u2026 N\u00e3o fosse o homem aperceber-se de que era sobre ele que falavam.<br \/>\nTinham de contar \u00e0 m\u00e3e, quando chegassem a casa. Um palha\u00e7o convencido de saber quando \u00e9 que os comboios s\u00e3o gratuitos. Cada uma!<br \/>\nNas costas do homem vestido de palha\u00e7o, via-se, vindo do fundo da carruagem, um homem que lhes parecia ser o revisor.<br \/>\nViam-no aproximar-se das pessoas, segredar-lhes alguma coisa ao ouvido e seguir.<br \/>\nChegou a vez de lhes ser revelado o que segredava.<br \/>\nAproximou-se do pai de J. e M. e tartamudeou: \u2018hoje, v\u00e9spera de S. Jo\u00e3o, a CP oferece os bilhetes\u2019.<br \/>\nO olhar do pai de J. deambulou, \u00e0 velocidade da luz, em busca dos j\u00e1 expectantes olhos do homem vestido de palha\u00e7o. Os seus l\u00e1bios arquearam-se ligeiramente, esbo\u00e7ando um sorriso, colado a um encolher de ombros, como que dizendo: &#8211; est\u00e1 na hora de mudar este perfume com cheiro a baga\u00e7o.<br \/>\nA viagem prosseguiu.<br \/>\nM. s\u00f3 dizia: &#8211; com que ent\u00e3o n\u00e3o podemos acreditar num homem vestido de palha\u00e7o com cheiro a baga\u00e7o. Grande li\u00e7\u00e3o, pai! Parece que at\u00e9 de uma m\u00e1 cabe\u00e7a pode vir grande senten\u00e7a\u2026<br \/>\nOs manuais de pedagogia tinham-se tornado repentinamente bolorentos\u2026<br \/>\nO que mais lhes haveria de reservar aquela viagem?<br \/>\nChegaram ao Porto. Primeiro, a Campanh\u00e3, depois, S. Bento.<br \/>\nO primeiro destino era a S\u00e9.<br \/>\nNa entrada, havia uma placa de homenagem a um dos organistas desta catedral, recentemente falecido neste mesmo dia 23 de junho. Deixara profunda marca de homem genial, com influ\u00eancia musical profunda na hist\u00f3ria da cidade do Porto, mas tamb\u00e9m por terras de Aveiro, onde fundara coros, dirigira outros e fora um reconhecido professor de m\u00fasica. As iniciais do seu nome, A.M., deram pretexto para que M. se enchesse de vaidade, glosando com a ideia de que a sua m\u00fasica lhe seria dedicada.<br \/>\n&#8211; Convencida! \u2013 Dizia-lhe J. \u2013 Achas que o mundo gira \u00e0 tua volta. Deve ter sido um genial m\u00fasico, pois percebe-se a marca que aqui deixou. Uma homenagem assim s\u00f3 pode ser dedicada a quem muito deu de si.<br \/>\n&#8211; Est\u00e1s um artista das palavras, J. Quem me dera a mim poder ouvi-lo executar alguma pe\u00e7a com a arte que estes elogios nos fazem supor.<br \/>\nPartiram para a Torre dos Cl\u00e9rigos. A proximidade do meio-dia fizera-os afligirem-se com o escasso tempo de que dispunham.<br \/>\nEntraram na igreja dos cl\u00e9rigos. Para seu espanto, n\u00e3o havia ningu\u00e9m sentado nos bancos para ouvir o concerto. Entretanto, o rel\u00f3gio dos telem\u00f3veis indicava a imin\u00eancia da hora do concerto. Com precis\u00e3o alem\u00e3, \u00e0 hora certa, o \u00f3rg\u00e3o come\u00e7ou a tocar uma pe\u00e7a que J. e M. prontamente reconheceram, por lhes ser familiar o estudo da m\u00fasica. A \u2018Toccata e fuga em r\u00e9 menor\u2019 de Bach sa\u00eda de todos os cantos daquela bel\u00edssima igreja cuja torre Nasoni fizera sair da sua imagina\u00e7\u00e3o e elevar aos c\u00e9us do Porto.<br \/>\nDurante dez eternos minutos, J., M. e o pai sentiram que terra e c\u00e9u se uniam como nos interst\u00edcios do real onde corre a linha do norte. Estavam ali, mas sentiam-se em todo o lado. A m\u00fasica parecia sair-lhes do mais rec\u00f4ndito lugar da alma.<br \/>\nQuando terminou, abriram os olhos, como que acordando de um delicioso sonho. Abra\u00e7aram-se!<br \/>\nAo sa\u00edrem, por porta distinta da que os levara ao interior, quase trope\u00e7aram na placa que lhes parecia ser a do an\u00fancio do concerto.<br \/>\n&#8211; M. v\u00ea onde p\u00f5es os p\u00e9s!<br \/>\nM. estava l\u00edvida. Na placa, um an\u00fancio: \u2018concerto cancelado por doen\u00e7a do organista\u2019.<br \/>\nEm rodap\u00e9, duas iniciais: A.M.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/tumisu-148124\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4203628\">Tumisu<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4203628\">Pixabay<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align: justify;\">*Alberto Ferreyra diz que as suas letras habitam a mente e saem da m\u00e3o de algu\u00e9m nascido em terras gaulesas, ainda que afirme, em sussurro, que o seu real nascimento ocorreu nas margens do Antu\u00e3, em abril de 2024. \u00c9, por isso, um prematuro autor liter\u00e1rio, germinado da inspira\u00e7\u00e3o que a realidade proporciona quando se tem a companhia, nos livros, de g\u00e9nios como Jorge Luis Borges, Miguel Torga, Gabriel Garc\u00eda Marquez ou personagens como Poirot ou Padre Brown.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Na sua escrita, cruzam-se o real e o imaginado, o fict\u00edcio e o hist\u00f3rico, numa embrenhada teia em que o leitor continua a ler, mesmo j\u00e1 depois de fechado o conto. O real continua a fecundar hist\u00f3rias na mente de quem l\u00ea Ferreyra. Cada conto, feito dos mist\u00e9rios desvelados, aproxima o tempo e distancia o espa\u00e7o, esticando-o at\u00e9 ao eterno e ao infinito. Ao ler Ferreyra, faz-se &#8216;sil\u00eancio&#8217; (&#8216;myst\u00e9rio&#8217; alude \u00e0 etimologia grega da palavra, que remete para o &#8216;fazer sil\u00eancio&#8217;, &#8216;emudecer-se&#8217;&#8230;) para que possam ecoar as palavras, para que possa desenovelar-se o enredo sucintamente desvelado.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">J. e M., protagonistas de cada um dos contos, acompanhados, em alguns deles, pelo seu periquito &#8216;branquinho&#8217;, fazem emergir, do real em que se enredam, hist\u00f3rias que, nascendo da imagina\u00e7\u00e3o de Ferreyra, permanecem como realidades poss\u00edveis, deixando a suspeita de terem mesmo ocorrido.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Se n\u00e3o foi real, Ferreyra o criar\u00e1, inspirado numa cosmovis\u00e3o que tanto deve \u00e0quela religi\u00e3o que fez do encarnado a condi\u00e7\u00e3o fundamental do existir.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A vinte e tr\u00eas (23) de cada m\u00eas, habitaremos o mundo pelo imagin\u00e1rio de Alberto Ferreyra.<\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Myst\u00e9rios lusitanos |<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":17814,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[208,209],"tags":[],"class_list":["post-17894","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-alberto-ferreyra","category-mysterios-lusitanos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17894","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17894"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17894\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20083,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17894\/revisions\/20083"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17814"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17894"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17894"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17894"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}