{"id":17868,"date":"2024-11-23T07:00:20","date_gmt":"2024-11-23T07:00:20","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=17868"},"modified":"2025-12-16T13:38:43","modified_gmt":"2025-12-16T13:38:43","slug":"mysterios-lusitanos-contos-5-misterio-na-terra-do-lameiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/mysterios-lusitanos-contos-5-misterio-na-terra-do-lameiro\/","title":{"rendered":"6 | Myst\u00e9rios lusitanos [contos &#8211; texto e locu\u00e7\u00e3o] | Mist\u00e9rio na terra do lameiro"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><em>Myst\u00e9rios lusitanos<\/em> | A vinte e tr\u00eas (23) de cada m\u00eas, habitamos o mundo pelo imagin\u00e1rio de Alberto Ferreyra&#8230;<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Nos ramos da escrita, repousam, vezes sem conta, as gralhas da distra\u00e7\u00e3o, ocultas, sob m\u00faltiplos disfarces, at\u00e9 que algu\u00e9m as enxote. Alberto Ferreyra contou com o fino olhar da sua amiga Teresa Correia, detentora do segredo da sua identidade, para afastar ou ca\u00e7ar o grasnar das gralhas. Est\u00e1-lhe, por isso, muito grato&#8230;)<\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Alberto Ferreyra*<\/strong><\/p>\n<p><iframe title=\"6  Mist\u00e9rio na terra do lameiro\" width=\"640\" height='360' src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/uBb3xT9nQjQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J. e M. (e o branquinho, pousado no ombro de M.) andam entusiasmados com o desejo de regresso \u00e0 terra do pai. As margens do rio Vouga t\u00eam-lhes proporcionado misteriosas aventuras. Aquelas \u00e1guas inspiram, como sempre ouviram ao pai. As f\u00e9rias grandes s\u00e3o, sempre, um tempo \u00fanico. O povo voa para o Algarve e deixa-lhes a terra para que a possam contemplar com um olhar de Poirot, mas sem os tiques do detetive belga. Sempre, por\u00e9m, de \u2018c\u00e9lulas cinzentas\u2019 atentas.<br \/>\nPoirot inspira-os\u2026<br \/>\nO pai segredara-lhes a certeza de que aquelas f\u00e9rias grandes seriam inesquec\u00edveis. Prometera-lhes dar-lhes a conhecer um lugar \u00fanico. \u00danico, mesmo.<br \/>\nAssegurara-lhes que jamais esqueceriam a terra do lameiro, a terra a que, desde os tempos de um c\u00e9lebre abade Santiago se dizia, de ouvido a ouvido, que era a terra da verdade. O abade Santiago, sabedor da cultura grega, chamara-lhe o \u2018lameiro aletes\u2019. O povo achava que seria \u2018A Letes\u2019, aludindo a uma qualquer \u2018Celeste\u2019 ou \u2018Salete\u2019\u2026 Os inconformismos populares tudo explicavam quando n\u00e3o sabiam a verdade. Mas \u2018Aletes\u2019 explicava-se e o pai garantira-lhes que lhes haveria de contar a verdade.<br \/>\nEra imposs\u00edvel esperar pela chegada. O comboio parecia andar a vinte, mesmo que o registo interior, no topo da carruagem, indicasse duzentos.<br \/>\nDe Aveiro, paragem do Alfa, haveriam de seguir, de automotora, at\u00e9 \u00e0 Sernada e, dali, de autocarro at\u00e9 \u00e0 esta\u00e7\u00e3o de Paradela. Era uma viagem deslumbrante.<br \/>\nO pai lembrava-se, ainda, da \u00faltima viagem de automotora, percorrendo, a dez \u00e0 hora, a ponte do Po\u00e7o de Santiago. Hoje, a linha de outrora servia de percurso pedonal. Quantos mist\u00e9rios escondem aqueles trilhos!<br \/>\nDesta vez, contudo, os mist\u00e9rios andavam mais adentrados nas povoa\u00e7\u00f5es.<br \/>\nO destino desta viagem n\u00e3o haveria de ficar-se pela esta\u00e7\u00e3o de Paradela, agora, transformada num convidativo caf\u00e9 de mem\u00f3rias long\u00ednquas. O mist\u00e9rio esperava-os na terra do lameiro.<br \/>\nO pai guardava mem\u00f3rias muito vivas daqueles s\u00edtios.<br \/>\nNo lameiro, a ladear a Cancela, depois descer a \u00edngreme ladeira de Paredes de baixo, o ribeiro que beija o Vouga fazia um pequeno espelho de \u00e1gua, sombrio, mas muito eloquente. Falava. Ah, como falava! E quanto dizia!<br \/>\nO pai passara ali horas, longas horas da sua inf\u00e2ncia.<br \/>\nEnquanto a m\u00e3e, av\u00f3 de J. e M., sachava o milho, o pai deles abeirava-se das \u00e1guas tranquilas e divertia-se.<br \/>\n&#8211; Agora, tenho 18 anos! Agora, tenho 10 anos! Agora, sou Pedro! Agora, Lu\u00eds!<br \/>\nE as \u00e1guas respondiam-lhe.<br \/>\nO seu rosto, refletido nas \u00e1guas, ora aparecia, ora desaparecia. E n\u00e3o era sem raz\u00e3o.<br \/>\nO abade Santiago chamara-lhes as \u00e1guas de \u2018Aletes\u2019.<br \/>\nEle bem sabia porqu\u00ea e o pai de J. e M., n\u00e3o conseguindo perceber porqu\u00ea tal nome, bem sabia a que correspondia a distin\u00e7\u00e3o daquelas \u00e1guas.<br \/>\n\u2018Aletes\u2019 lembrava as \u00e1guas do rio que corre no Hades. As suas \u00e1guas apagavam todas as mem\u00f3rias. Eram \u00e1guas de esquecimento, donde derivava o nome de \u2018Letes\u2019. Rio do esquecimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O regresso \u00e0quele local entusiasmava J. e M., mas n\u00e3o menos o pai.<br \/>\nDepois que o pai morrera, em situa\u00e7\u00e3o que fizera recair sobre o seu irm\u00e3o a suspeita de um comportamento violento que ele desmentia e assegurava que a morte teria sido acidental, o desejo de regressar \u00e0quele lugar tornara-se denso desejo tardiamente satisfeito.<br \/>\nPor isso, chegados \u00e0 casa de todas as mem\u00f3rias, prontamente, pai e filhos partiram a correr para as \u00e1guas do lameiro.<br \/>\nO lameiro trazia-lhe, bem certo, as mem\u00f3rias dos tempos onde, numa pequena corga que desviava um resqu\u00edcio de \u00e1gua tirada do ribeiro, se lavavam as \u2018tripas\u2019 com que se haveriam de fazer os chouri\u00e7os que deliciavam as suas merendas. E os salgueiros onde dependurava as suas divertidas tardes de sol. E, claro, as muitas horas a apanhar uvas do ch\u00e3o, nas vindimas que, ao entardecer, haveriam de lev\u00e1-lo ao lagar para, com os \u2018homens\u2019 pisar \u2018o vinho\u2019.<br \/>\nTodas estas mem\u00f3rias tornavam aquele lugar singular.<br \/>\nMas a principal ainda estava por desvendar aos olhares argutos de J. e M.<br \/>\nO pai levava, na m\u00e3o, uma foto de fam\u00edlia.<br \/>\nJ. e M. estranhavam aquele ritual. Ir a um s\u00edtio e levar uma foto de fam\u00edlia parecia-lhes estranho, mas o pai tinha destas coisas.<br \/>\nAo abeirarem-se do ribeiro, o sil\u00eancio tomou conta do pai. Sentiam que lhe batia, em ritmo acelerado, no peito o cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nViram-no aproximar-se da \u00e1gua que lambia a margem do lameiro, Baixou-se. Tirou do bolso a foto e fixou, nela, o olhar. Depois, lentamente, olhou para as \u00e1guas, nas quais se refletia o conte\u00fado da foto.<br \/>\nVoltou a olhar e um choro convulsivo tomou conta dele.<br \/>\nJ. e M. aproximaram-se do pai e abra\u00e7aram-no. Branquinho pousou sobre aquela aut\u00eantica foto de real afeto.<br \/>\n&#8211; O que vedes?<br \/>\n&#8211; A foto de todos.<br \/>\n&#8211; De todos? \u2013 perguntou o pai.<br \/>\n&#8211; Estranho! \u2013 disse J. \u2013 O tio n\u00e3o aparece refletido nas \u00e1guas.<br \/>\n&#8211; Estas \u00e1guas n\u00e3o mentem. Por isso, o abado Santiago lhes chamara \u2018as \u00e1guas Aletes\u2019, as \u00e1guas da mem\u00f3ria, da verdade. Quando eu era pequeno, vinha para aqui e, ora mentia, ora dizia a verdade. Quando mentia, o meu reflexo desaparecia. Quando dizia a verdade, ali aparecia eu. Se perguntarmos a estas \u00e1guas quem mente, numa foto, o mentiroso n\u00e3o aparecer\u00e1.<br \/>\nHoje, descobri a verdade sobre a morte do vosso av\u00f4.<br \/>\nQue outras verdades reservar\u00e3o estas \u00e1guas?<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/tumisu-148124\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4203628\">Tumisu<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4203628\">Pixabay<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align: justify;\">*Alberto Ferreyra diz que as suas letras habitam a mente e saem da m\u00e3o de algu\u00e9m nascido em terras gaulesas, ainda que afirme, em sussurro, que o seu real nascimento ocorreu nas margens do Antu\u00e3, em abril de 2024. \u00c9, por isso, um prematuro autor liter\u00e1rio, germinado da inspira\u00e7\u00e3o que a realidade proporciona quando se tem a companhia, nos livros, de g\u00e9nios como Jorge Luis Borges, Miguel Torga, Gabriel Garc\u00eda Marquez ou personagens como Poirot ou Padre Brown.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Na sua escrita, cruzam-se o real e o imaginado, o fict\u00edcio e o hist\u00f3rico, numa embrenhada teia em que o leitor continua a ler, mesmo j\u00e1 depois de fechado o conto. O real continua a fecundar hist\u00f3rias na mente de quem l\u00ea Ferreyra. Cada conto, feito dos mist\u00e9rios desvelados, aproxima o tempo e distancia o espa\u00e7o, esticando-o at\u00e9 ao eterno e ao infinito. Ao ler Ferreyra, faz-se &#8216;sil\u00eancio&#8217; (&#8216;myst\u00e9rio&#8217; alude \u00e0 etimologia grega da palavra, que remete para o &#8216;fazer sil\u00eancio&#8217;, &#8216;emudecer-se&#8217;&#8230;) para que possam ecoar as palavras, para que possa desenovelar-se o enredo sucintamente desvelado.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">J. e M., protagonistas de cada um dos contos, acompanhados, em alguns deles, pelo seu periquito &#8216;branquinho&#8217;, fazem emergir, do real em que se enredam, hist\u00f3rias que, nascendo da imagina\u00e7\u00e3o de Ferreyra, permanecem como realidades poss\u00edveis, deixando a suspeita de terem mesmo ocorrido.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Se n\u00e3o foi real, Ferreyra o criar\u00e1, inspirado numa cosmovis\u00e3o que tanto deve \u00e0quela religi\u00e3o que fez do encarnado a condi\u00e7\u00e3o fundamental do existir.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A vinte e tr\u00eas (23) de cada m\u00eas, habitaremos o mundo pelo imagin\u00e1rio de Alberto Ferreyra&#8230;<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Myst\u00e9rios lusitanos |<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":17814,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[208,209],"tags":[],"class_list":["post-17868","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-alberto-ferreyra","category-mysterios-lusitanos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17868","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17868"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17868\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20088,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17868\/revisions\/20088"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17814"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17868"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17868"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17868"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}