{"id":17864,"date":"2024-09-23T07:00:55","date_gmt":"2024-09-23T06:00:55","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=17864"},"modified":"2025-12-16T13:38:24","modified_gmt":"2025-12-16T13:38:24","slug":"mysterios-lusitanos-contos-3-misterio-nos-esteiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/mysterios-lusitanos-contos-3-misterio-nos-esteiros\/","title":{"rendered":"4 | Myst\u00e9rios lusitanos [contos &#8211; texto e locu\u00e7\u00e3o] | Mist\u00e9rio nos esteiros"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><em>Myst\u00e9rios lusitanos<\/em> | A vinte e tr\u00eas (23) de cada m\u00eas, habitamos o mundo pelo imagin\u00e1rio de Alberto Ferreyra&#8230;<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Nos ramos da escrita, repousam, vezes sem conta, as gralhas da distra\u00e7\u00e3o, ocultas, sob m\u00faltiplos disfarces, at\u00e9 que algu\u00e9m as enxote. Alberto Ferreyra contou com o fino olhar da sua amiga Teresa Correia, detentora do segredo da sua identidade, para afastar ou ca\u00e7ar o grasnar das gralhas. Est\u00e1-lhe, por isso, muito grato&#8230;)<\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Alberto Ferreyra*<\/strong><\/p>\n<p><iframe title=\"4 Mist\u00e9rio nos esteiros\" width=\"640\" height='360' src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/K9QTu23Cvnw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; N\u00e3o me digas que este \u00e9 o av\u00f4\u2026 \u2013 J. olhava, com assombro, para uma foto recolhida de uma pilha de cartas e pap\u00e9is antigos. Fotos n\u00e3o havia muitas, e todas com uma cor que M. lhe dissera ser \u2018s\u00e9pia\u2019.<br \/>\nNo seu imagin\u00e1rio, a cor s\u00e9pia gerava um ambiente em que tudo era a preto e branco\u2026<br \/>\nVendo-a com aquele olhar vazio, J. imaginou o que ia na cabe\u00e7a da irm\u00e3 e, com um estalar de dedos, acordou-a do torpor.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o, menina M., naquele tempo tamb\u00e9m havia cor. N\u00e3o era tudo preto ou branco ou amarelecido. Os registos \u00e9 que s\u00e3o a preto e branco ou\u2026 a s\u00e9pia, como dizes. A realidade devia ser muito colorida e cheia de aventuras. Que foto \u00e9 essa?<br \/>\nO av\u00f4 aparecia preso pelos dois bra\u00e7os, levado por dois soldados da GNR.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o sabia que o av\u00f4 se tinha metido em sarilhos.<br \/>\nSurpreendidos com a foto, n\u00e3o descansaram enquanto a m\u00e3e n\u00e3o os lan\u00e7ou em busca de um novo desafio.<br \/>\n&#8211; A hist\u00f3ria do vosso av\u00f4 dava um romance\u2026 Do vosso av\u00f4 e da vossa av\u00f3.<br \/>\nMas o vosso tio Pedro \u00e9 que sabe a hist\u00f3ria com detalhe.<br \/>\nO tio Pedro seguira as pisadas do pai, como fiel de armaz\u00e9m.<br \/>\nNa zona dos esteiros, junto a um dos mais finos \u2018cabelos\u2019 da ria de Aveiro, perto da esta\u00e7\u00e3o de Estarreja, ficava o armaz\u00e9m onde a az\u00e1fama de hoje apenas aludia \u00e0 de outros tempos. Ali, chegavam e partiam, em grande rebuli\u00e7o, carradas de bacalhau.<br \/>\nFiel no armaz\u00e9m como fora o fiel companheiro dos portugueses, Pedro aprendera com o pai a contornar os limites que o regime impunha.<br \/>\nConhecia, por isso, os al\u00e7ap\u00f5es onde se abria uma outra cidade, fresca, mas seca para que, depois de preparado, o bacalhau pudesse ficar distante dos olhares da pol\u00edcia que sempre pesava e continha os limites permitidos por lei.<br \/>\nUma esp\u00e9cie de lei seca impunha rigorosos limites ao armazenamento.<br \/>\nUltrapass\u00e1-los significava pris\u00e3o.<br \/>\nO pai de Pedro, Joaquim, sempre seguira, \u00e0 risca, as instru\u00e7\u00f5es do sr. Francisco, propriet\u00e1rio do armaz\u00e9m.<br \/>\n&#8211; O que vier a mais segue o rumo dos al\u00e7ap\u00f5es\u2026<br \/>\nImposs\u00edvel adequar mais o t\u00edtulo de \u2018fiel de armaz\u00e9m\u2019 do que o que se atribu\u00edra a Joaquim. Ningu\u00e9m lhe ouvira, jamais, falar de al\u00e7ap\u00f5es ou outras cidades escondidas.<br \/>\nMas a mentira tem perna curta.<br \/>\nEm meados da d\u00e9cada de cinquenta, pleno per\u00edodo de \u2018chumbo\u2019 que o Estado Novo impusera ao armazenamento de bacalhau, Joaquim e Francisco escondiam, numa outra cidade s\u00f3 deles conhecida, o que sobrava e lhes chegava para al\u00e9m dos limites.<br \/>\nChamavam-lhe bacalhau da \u2018terra velha\u2019 (da \u2018Terra Nova vinha o bacalhau; na \u2018Terra velha\u2019 se escondia) e logo se procedia como combinado.<br \/>\nAlgu\u00e9m, por\u00e9m, descobrira a hist\u00f3ria.<br \/>\nAo amanhecer de uma quinta-feira, como que aludindo a uma outra, em que de cravos se fez a liberdade do regime controlador, o armaz\u00e9m abriu, mas j\u00e1 ningu\u00e9m entrou nem saiu.<br \/>\nS\u00f3 Francisco se encontrava, \u00e0quela hora, nas instala\u00e7\u00f5es.<br \/>\nE era a ele que a pol\u00edcia queria, pois Joaquim s\u00f3 obedecia a ordens.<br \/>\nSob amea\u00e7a, tentaram saber onde se escondia a cidade chamada \u2018terra velha\u2019.<br \/>\nFrancisco chorava\u2026 Sabia o que o esperava.<br \/>\nEntretanto, Joaquim chegou.<br \/>\nAbeirou-se da GNR e encetou conversa que fez libertar Francisco.<br \/>\nLogo ali ficou detido Joaquim, que, por\u00e9m, pediu que o levassem a Francisco.<br \/>\nDa conversa, s\u00f3 ficou um registo que Joaquim escreveu e entregou, assinado pelos dois, em pap\u00e9is semelhantes.<br \/>\nE foi levado para Peniche\u2026<br \/>\nVolvidos tr\u00eas anos, Joaquim regressou e procurou Francisco.<br \/>\nDe papel na m\u00e3o, barba comprida e desalinhada, somava \u00e0 leveza dos movimentos uma alegria no rosto que a todos surpreendeu.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o vinha o homem da pris\u00e3o de Peniche? Bem certo que obras recentes tinham transformado aquela numa pris\u00e3o com melhores condi\u00e7\u00f5es, mas pris\u00e3o era pris\u00e3o\u2026<br \/>\nO tempo tudo traz e tudo esclarece.<br \/>\nUm ano volvido, tudo se esclareceria, quando os sinos da Igreja anunciaram novas n\u00fapcias\u2026<br \/>\n&#8211; O vosso av\u00f4 guardara o papel assinado pelos dois, Francisco e Joaquim, e apresentara-o, no regresso da pris\u00e3o.<br \/>\nNo papel se desvendava todo aquele novelo:<br \/>\n&#8211; Irei no seu lugar, para a pris\u00e3o, se me prometer que, ao sair dela, casarei com a sua filha Olinda\u2026<br \/>\nA assinatura de ambos chancelara o futuro\u2026<br \/>\n&#8211; Que hist\u00f3ria, M.! Um av\u00f4 assim \u00e9 um aut\u00eantico her\u00f3i de um \u2018Romeu e Julieta\u2019 da Ria de Aveiro\u2026 Quanta cor h\u00e1, afinal, num retrato a s\u00e9pia!<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/tumisu-148124\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4203628\">Tumisu<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4203628\">Pixabay<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align: justify;\">*Alberto Ferreyra diz que as suas letras habitam a mente e saem da m\u00e3o de algu\u00e9m nascido em terras gaulesas, ainda que afirme, em sussurro, que o seu real nascimento ocorreu nas margens do Antu\u00e3, em abril de 2024. \u00c9, por isso, um prematuro autor liter\u00e1rio, germinado da inspira\u00e7\u00e3o que a realidade proporciona quando se tem a companhia, nos livros, de g\u00e9nios como Jorge Luis Borges, Miguel Torga, Gabriel Garc\u00eda Marquez ou personagens como Poirot ou Padre Brown.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Na sua escrita, cruzam-se o real e o imaginado, o fict\u00edcio e o hist\u00f3rico, numa embrenhada teia em que o leitor continua a ler, mesmo j\u00e1 depois de fechado o conto. O real continua a fecundar hist\u00f3rias na mente de quem l\u00ea Ferreyra. Cada conto, feito dos mist\u00e9rios desvelados, aproxima o tempo e distancia o espa\u00e7o, esticando-o at\u00e9 ao eterno e ao infinito. Ao ler Ferreyra, faz-se &#8216;sil\u00eancio&#8217; (&#8216;myst\u00e9rio&#8217; alude \u00e0 etimologia grega da palavra, que remete para o &#8216;fazer sil\u00eancio&#8217;, &#8216;emudecer-se&#8217;&#8230;) para que possam ecoar as palavras, para que possa desenovelar-se o enredo sucintamente desvelado.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">J. e M., protagonistas de cada um dos contos, acompanhados, em alguns deles, pelo seu periquito &#8216;branquinho&#8217;, fazem emergir, do real em que se enredam, hist\u00f3rias que, nascendo da imagina\u00e7\u00e3o de Ferreyra, permanecem como realidades poss\u00edveis, deixando a suspeita de terem mesmo ocorrido.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Se n\u00e3o foi real, Ferreyra o criar\u00e1, inspirado numa cosmovis\u00e3o que tanto deve \u00e0quela religi\u00e3o que fez do encarnado a condi\u00e7\u00e3o fundamental do existir.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A vinte e tr\u00eas (23) de cada m\u00eas, habitaremos o mundo pelo imagin\u00e1rio de Alberto Ferreyra&#8230;<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Myst\u00e9rios lusitanos |<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":17814,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[208,209],"tags":[],"class_list":["post-17864","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-alberto-ferreyra","category-mysterios-lusitanos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17864","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17864"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17864\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20086,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17864\/revisions\/20086"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17814"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17864"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17864"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17864"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}