{"id":17861,"date":"2024-08-23T07:00:57","date_gmt":"2024-08-23T06:00:57","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=17861"},"modified":"2025-12-16T13:38:09","modified_gmt":"2025-12-16T13:38:09","slug":"mysterios-lusitanos-contos-2-misterio-na-porta-do-sol","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/mysterios-lusitanos-contos-2-misterio-na-porta-do-sol\/","title":{"rendered":"3 | Myst\u00e9rios lusitanos [contos &#8211; texto e locu\u00e7\u00e3o] | Mist\u00e9rio na porta do sol"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><em>Myst\u00e9rios lusitanos<\/em> | A vinte e tr\u00eas (23) de cada m\u00eas, habitamos o mundo pelo imagin\u00e1rio de Alberto Ferreyra&#8230;<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Nos ramos da escrita, repousam, vezes sem conta, as gralhas da distra\u00e7\u00e3o, ocultas, sob m\u00faltiplos disfarces, at\u00e9 que algu\u00e9m as enxote. Alberto Ferreyra contou com o fino olhar da sua amiga Teresa Correia, detentora do segredo da sua identidade, para afastar ou ca\u00e7ar o grasnar das gralhas. Est\u00e1-lhe, por isso, muito grato&#8230;)<\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Alberto Ferreyra*<\/strong><\/p>\n<p><iframe title=\"3   Mist\u00e9rio na porta do sol\" width=\"640\" height='360' src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/6gE4QL_wwF0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A noite desce, com as \u00e1guas do Ferven\u00e7a, no planalto onde repousa Bragan\u00e7a.<br \/>\nAs \u00e1guas do rio guardam mist\u00e9rios que o seu marulhar segreda aos ouvidos mais atentos.<br \/>\nA Carlos foi dado o dom de os ouvir\u2026 Mas a maldi\u00e7\u00e3o que o obriga a esconder-se impede-o de os contar.<br \/>\nO frio vem com o cair da noite.<br \/>\nCarlos senta-se onde sempre fez leito na sua j\u00e1 vetusta vida: nas ameias que encimam a porta do sol.<br \/>\nAo longe, o Ferven\u00e7a\u2026<br \/>\nDas suas \u00e1guas, como se de um Mois\u00e9s de agora, foi recolhido, depois de nelas abandonado pela m\u00e3e, horrorizada com a sua descomunal cabe\u00e7a de fartas sobrancelhas.<br \/>\nNem a sua espont\u00e2nea e precoce simpatia o livrou do maldito fado.<br \/>\nNas \u00e1guas pouco profundas, foi deitado \u00e0 sorte que levou at\u00e9 \u00e0s m\u00e3os j\u00e1 enrugadas da ti\u2019 Matilde \u2018Riscada\u2019. A sua face marcada por um rosado sinal valia-lhe a alcunha e afastamento.<br \/>\nRaramente era vista\u2026<br \/>\nNa sua casita, perdida na margem esquerda do rio, afastava-se dos que do seu \u2018riscado\u2019 rosto gracejavam.<br \/>\nPor isso, quando a sua casa se encheu do choro de uma crian\u00e7a abandonada de novo amada (ou, talvez, amada pela primeira vez\u2026) ningu\u00e9m notou.<br \/>\nE Carlos cresceu.<br \/>\nNos poucos tempos que durou a sua passagem pelos bancos da escola, cunharam-lhe a alcunha com que passou a encobrir-se: \u2018Carletos\u2019 para rimar com \u2018caretos\u2019\u2026<br \/>\nO tempo tudo traz e, com ele, a sorte, a morte e a idade, bem certo!<br \/>\nTi\u2019 Matilde partiu e Carlitos \u2013 \u2018Carletos\u2019\u2026 &#8211; recolheu-se \u00e0 sombra da aus\u00eancia do burgo dos humanos, para se encobrir no lugar dos mist\u00e9rios.<br \/>\nSob a capa dos caretos com que o quiseram comparar, fez a sua pr\u00f3pria m\u00e1scara e nela se enfantasmou\u2026<br \/>\nO seu novo lar fez-se das ameias do cerco castelar onde a vida decorria sob o seu atento olhar.<br \/>\n&#8211; \u2018Entre os humanos que se t\u00eam sem m\u00e1scara, muitas s\u00e3o as caretas de que se faz o viver\u2019, parecia pensar Carlitos sempre que por \u2018carletos\u2019 se fazia passar.<br \/>\nDo alto da sua morada, assistiu ao discutir e afogar de uma desaven\u00e7a de amor.<br \/>\nJ\u00e1 sem vida, o corpo da rejeitada foi entregue \u00e0s \u00e1guas, para que, no seu murmurejar, se ocultasse o crime.<br \/>\nDetentor do segredo, mas impedido, por maldi\u00e7\u00e3o, de o contar, sob a careta de Carletos, todos os pensamentos se moveram a mais vertiginosa velocidade do que as \u00e1guas do rio.<br \/>\n&#8211; Como dizer de que m\u00e3os se fez aquele finar?<br \/>\nA cabe\u00e7a pousada sobre a m\u00e3o escondida na capa e manto de careto, logo ali viu como mostrar a todos que criminoso quisera fazer crer que o afogamento fora acidental.<br \/>\nDos farrapos de que se vestiam os seus andrajos, foi retirando, tira a tira, os sinais que depositava no local onde tudo se passara.<br \/>\nQuando todos dormiam, descia do seu lar e depositava, na margem do rio, um peda\u00e7o \u2013 um farrapo, afinal \u2013 que, conjugado a outros, come\u00e7ava a tomar a forma de um corpo.<br \/>\nCarletos estava a deixar um sinal.<br \/>\nNeste entretanto, a fam\u00edlia de J. e M. fora de f\u00e9rias ao planalto transmontano.<br \/>\nCuriosa, como sempre, M., com o seu branquinho (o periquito detetive que sempre trazia consigo\u2026) no ombro, vinha com o desejo de ouvir esta hist\u00f3ria que lhe tinham dito ser mist\u00e9rio insol\u00favel.<br \/>\nM. pediu aos pais que os levassem \u00e0 margem do rio.<br \/>\nAli, encontraram a forma de um \u2018careto\u2019 que n\u00e3o parecia findar de se acrescentar. Em cada dia, ao amanhecer, mais farrapos apareciam somados aos do dia anterior.<br \/>\nM. reparara, por\u00e9m, que a cor do careto constru\u00eddo por enigm\u00e1tica sombra ou fantasma da noite n\u00e3o seguia os habituais padr\u00f5es garridos. Era azul e amarelo\u2026<br \/>\nAquele detalhe intrigara-a e agu\u00e7ara a sua curiosidade.<br \/>\nPassou a noite, inquieta.<br \/>\nNada parecia ajudar a desvendar aquele enigma que o seu misterioso c\u00famplice parecia querer deixar-lhe nas m\u00e3os.<br \/>\nDe cabe\u00e7a em \u00e1gua, acompanhava os pais pelas ruas de Bragan\u00e7as, quase ausente. O corpo ia, mas a mente n\u00e3o estava.<br \/>\nFrente ao Domus Municipalis, onde tanto desejava ir, estava como se de um fantasma se tratasse.<br \/>\n&#8211; Espera! O que \u00e9 isto?<br \/>\nUma bandeira da cidade agitava-se ao vento.<br \/>\nO bras\u00e3o repousava sobre o azul e amarelo.<br \/>\nSeria aquilo uma coincid\u00eancia?<br \/>\nS\u00f3 havia um modo de confirmar: visitar a sede da C\u00e2mara.<br \/>\nEstava o parceiro misterioso a encaminh\u00e1-la para o local onde estas cores s\u00e3o s\u00edmbolo coletivo?<br \/>\n&#8211; Vamos \u00e0 C\u00e2mara. \u2013 pediu M.<br \/>\nBranquinho saiu-lhe do ombro e antecedia-os. Parecia compreender que estavam perto de desfazer o n\u00f3.<br \/>\nO cora\u00e7\u00e3o batia-lhe velozmente, no peito, e parecia querer sair-lhe pela boca.<br \/>\nAo chegarem ao destino, o parceiro silencioso facilitara-lhes a vida.<br \/>\nDois farrapos azuis e amarelos enfeitavam o carro do presidente da autarquia.<br \/>\nHoje, na margem do rio Ferven\u00e7a, o local onde o parceiro misterioso tecera o careto silenciosamente eloquente est\u00e1 vazio.<br \/>\nNingu\u00e9m sabe para onde foi levado\u2026<br \/>\nMas Carlitos tem, agora, uma muda mas fiel companhia no seu encoberto lar.<br \/>\nAntes de o sol se p\u00f4r sobre a sua porta, duas longas sombras se estendem at\u00e9 a rio.<br \/>\n\u2026Nunca ningu\u00e9m viu aqueles dois por quem a luz se enrola e abafa, gerando sombra, mas todos sabem que l\u00e1 moram.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/tumisu-148124\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4203628\">Tumisu<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4203628\">Pixabay<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align: justify;\">*Alberto Ferreyra diz que as suas letras habitam a mente e saem da m\u00e3o de algu\u00e9m nascido em terras gaulesas, ainda que afirme, em sussurro, que o seu real nascimento ocorreu nas margens do Antu\u00e3, em abril de 2024. \u00c9, por isso, um prematuro autor liter\u00e1rio, germinado da inspira\u00e7\u00e3o que a realidade proporciona quando se tem a companhia, nos livros, de g\u00e9nios como Jorge Luis Borges, Miguel Torga, Gabriel Garc\u00eda Marquez ou personagens como Poirot ou Padre Brown.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Na sua escrita, cruzam-se o real e o imaginado, o fict\u00edcio e o hist\u00f3rico, numa embrenhada teia em que o leitor continua a ler, mesmo j\u00e1 depois de fechado o conto. O real continua a fecundar hist\u00f3rias na mente de quem l\u00ea Ferreyra. Cada conto, feito dos mist\u00e9rios desvelados, aproxima o tempo e distancia o espa\u00e7o, esticando-o at\u00e9 ao eterno e ao infinito. Ao ler Ferreyra, faz-se &#8216;sil\u00eancio&#8217; (&#8216;myst\u00e9rio&#8217; alude \u00e0 etimologia grega da palavra, que remete para o &#8216;fazer sil\u00eancio&#8217;, &#8216;emudecer-se&#8217;&#8230;) para que possam ecoar as palavras, para que possa desenovelar-se o enredo sucintamente desvelado.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">J. e M., protagonistas de cada um dos contos, acompanhados, em alguns deles, pelo seu periquito &#8216;branquinho&#8217;, fazem emergir, do real em que se enredam, hist\u00f3rias que, nascendo da imagina\u00e7\u00e3o de Ferreyra, permanecem como realidades poss\u00edveis, deixando a suspeita de terem mesmo ocorrido.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Se n\u00e3o foi real, Ferreyra o criar\u00e1, inspirado numa cosmovis\u00e3o que tanto deve \u00e0quela religi\u00e3o que fez do encarnado a condi\u00e7\u00e3o fundamental do existir.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A vinte e tr\u00eas (23) de cada m\u00eas, habitaremos o mundo pelo imagin\u00e1rio de Alberto Ferreyra&#8230;<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Myst\u00e9rios lusitanos |<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":17814,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[208,209],"tags":[],"class_list":["post-17861","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-alberto-ferreyra","category-mysterios-lusitanos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17861","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17861"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17861\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20085,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17861\/revisions\/20085"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17814"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17861"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17861"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17861"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}