{"id":17708,"date":"2024-05-17T07:00:01","date_gmt":"2024-05-17T06:00:01","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=17708"},"modified":"2024-05-30T10:44:09","modified_gmt":"2024-05-30T09:44:09","slug":"tiago-ramalho-as-leis-da-cidade-21-acerca-de-uma-recente-alteracao-a-constituicao-francesa-cont","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-as-leis-da-cidade-21-acerca-de-uma-recente-alteracao-a-constituicao-francesa-cont\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | As leis da cidade 21 | [3] Acerca de uma recente altera\u00e7\u00e3o \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o francesa (cont.)"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><em>As leis da cidade<\/em> | Espa\u00e7o dedicado a textos sobre legisla\u00e7\u00e3o<\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 3. <em><u>O fim de uma \u00f3ptica<\/u><\/em><u>.<\/u> <em>\u2013 <\/em>Embora certamente interessante \u2013 sobretudo pelo contraste com as posi\u00e7\u00f5es de assinal\u00e1vel linearidade que se escutaram por aqueles dias \u2013, \u00e0 tese de Deckers (cf. o n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-as-leis-da-cidade-20-acerca-de-uma-recente-alteracao-a-constituicao-francesa-cont\/\">2<\/a>) justifica-se fazer uma dupla correc\u00e7\u00e3o cr\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira correc\u00e7\u00e3o respeita ao ju\u00edzo hist\u00f3rico, que nela se patenteia, a respeito da evolu\u00e7\u00e3o do Direito dos Estados ocidentais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo Deckers, ter-se-\u00e1 dado <em>agora<\/em> uma quebra do equil\u00edbrio em que assentava a regula\u00e7\u00e3o do aborto \u2013 a tentativa de uma certa concord\u00e2ncia pr\u00e1tica entre a promo\u00e7\u00e3o da \u00abliberdade da mulher\u00bb e a protec\u00e7\u00e3o \u00abvida intra-uterina\u00bb. Equil\u00edbrio rompido, segundo o autor, pela recente altera\u00e7\u00e3o \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o francesa, ainda que apenas consumando um desequil\u00edbrio j\u00e1 desejado (num sentido rigorosamente oposto) pelos movimentos \u00abpr\u00f3-vida\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 de duvidar, por\u00e9m, que tenha sido esta a ruptura fundamental na considera\u00e7\u00e3o do modo como se responde \u00e9tica e juridicamente ao problema espec\u00edfico do aborto. A mudan\u00e7a fundamental parece ter sido outra, e na verdade bastante anterior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que caracterizava a resposta \u00e9tica e jur\u00eddica ao aborto era a perspectiva\u00e7\u00e3o do problema por este suscitado, n\u00e3o como pedindo em primeira linha um equil\u00edbrio entre a liberdade da mulher e a vida intra-uterina, mas desde o reconhecimento de que o ponto de partida \u00e9 a evidente preval\u00eancia da protec\u00e7\u00e3o do ser humano j\u00e1 existente. Quer dizer: pressupunha-se, \u00e0 partida, a inexist\u00eancia de um conflito relevante, pela firme decis\u00e3o de, primeiro e antes de tudo, proteger a pessoa humana a nascer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A diverg\u00eancia, que tamb\u00e9m a havia, estava na determina\u00e7\u00e3o de quais as excep\u00e7\u00f5es a esta regra fundamental. Somente dentro do c\u00edrculo de relev\u00e2ncia de cada uma destas excep\u00e7\u00f5es se permitia a considera\u00e7\u00e3o de um poss\u00edvel conflito entre a vontade da m\u00e3e em colocar termo \u00e0 gesta\u00e7\u00e3o e a vida do ser humano por nascer. Por conseguinte, a admissibilidade do aborto discutia-se sempre na margem, na periferia, na dobra. A \u00f3ptica, pois, era a de se estar a responder sempre a um mal, e mal absoluto \u2013 e n\u00e3o a de uma equidistante e impessoal pondera\u00e7\u00e3o de bens equipolentes a ponderar desde um arquim\u00e9dico ponto de indiferen\u00e7a \u2013, mesmo que, em dadas circunst\u00e2ncias e por diferentes raz\u00f5es, a lei admitisse que ele tivesse lugar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora: foi justamente essa a \u00f3ptica que se rompeu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda correc\u00e7\u00e3o respeita \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o do momento em que se deu essa ruptura. S\u00f3 com certo abuso se pode ver no activismo norte-americano ou polaco a causa pr\u00f3xima (embora por reac\u00e7\u00e3o a ele) destas recentes altera\u00e7\u00f5es \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o francesa. Pois est\u00e1 ela em plena linha de continuidade com a mudan\u00e7a de \u00f3ptica a que antes se fez refer\u00eancia, e que teve lugar, na verdade, a partir de uma linha jurisprudencial do Supremo Tribunal Federal norte-americano que a assumiu plenamente: a linha inaugurada pelo c\u00e9lebre ac\u00f3rd\u00e3o <em>Roe <\/em>vs. <em>Wade <\/em>(1973), que justamente revolveu a \u00f3ptica consolidada de coloca\u00e7\u00e3o do problema do aborto, e continuada, embora com modifica\u00e7\u00f5es, pelo ac\u00f3rd\u00e3o <em>Planned Parenthood <\/em>vs. <em>Casey <\/em>(1992). Foi a essa inflex\u00e3o que reagiu finalmente o ac\u00f3rd\u00e3o <em>Dobbs<\/em> vs. <em>Jackson<\/em> (2022) \u2013 certamente apenas poss\u00edvel em virtude de uma composi\u00e7\u00e3o do Supremo Tribunal Federal obtida para obter a simpatia de um eleitorado \u00abpr\u00f3-vida\u00bb \u2013, que em parte, e apenas em parte, permitiu a reposi\u00e7\u00e3o do problema nos termos tradicionais. Foi a este ac\u00f3rd\u00e3o que reagiu a altera\u00e7\u00e3o constitucional francesa? Foi certamente. Mas nele n\u00e3o esteve o princ\u00edpio da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que agora se disse com brevidade deve ser explicado desenvolvidamente. Primeiro, colocando em evid\u00eancia qual era a perspectiva consolidada. Depois, identificando com nitidez onde e em que termos se deu esta ruptura fundamental.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">(Continua.)<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/iankelsall1-7126962\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=5432392\">ian kelsall<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=5432392\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As leis da<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":17709,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[193,144],"tags":[],"class_list":["post-17708","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-as-leis-da-cidade","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17708","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17708"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17708\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17918,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17708\/revisions\/17918"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17709"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17708"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17708"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17708"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}