{"id":17674,"date":"2024-07-15T07:00:48","date_gmt":"2024-07-15T06:00:48","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=17674"},"modified":"2024-05-05T18:09:28","modified_gmt":"2024-05-05T17:09:28","slug":"regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden-21-em-jesus-cristo-sarou-se-o-calcanhar-de-aquiles-e-o-que-agarrava-jacob","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden-21-em-jesus-cristo-sarou-se-o-calcanhar-de-aquiles-e-o-que-agarrava-jacob\/","title":{"rendered":"\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019 | 21 | Em Jesus Cristo, sarou-se o calcanhar de Aquiles e o que agarrava Jacob"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><em>\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019<\/em> | Parceria com a revista <a href=\"http:\/\/www.movimento-acr.pt\/accao-catolica-portuguesa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">&#8216;Mundo Rural&#8217;<\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019 pede-nos que retrocedamos \u00e0 guerra de Troia e \u00e0 hist\u00f3ria de Aquiles. Nela, h\u00e1 muito a encontrar de conflu\u00eancia e diverg\u00eancia entre a cultura cl\u00e1ssica e a cosmovis\u00e3o crist\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aquiles \u00e9, como nos conta Pierre Grimal, no seu incontorn\u00e1vel \u2018Dicion\u00e1rio da mitologia grega e romana\u2019<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, filho de um humano \u2013 Peleu, rei de Ftia (Tess\u00e1lia) e de uma deusa, T\u00e9tis. A m\u00e3e procurava afastar dos seus filhos as marcas de humanidade, mergulhando-os no fogo. Tal a\u00e7\u00e3o matara os seis filhos anteriores. Aquiles teria tido o mesmo fim, n\u00e3o fosse Peleu t\u00ea-lo salvo, no momento decisivo, mas, ainda assim, com marcas que lhes ficaram, no l\u00e1bio (ainda queimado pelo fogo) e no calcanhar, que teve de ser substitu\u00eddo pelo calcanhar de um gigante morto, D\u00e2miso, o que lhe conferiu capacidades de corrida \u00fanicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma outra lenda, a mais conhecida, diz que T\u00e9tis mergulhara Aquiles nas \u00e1guas do rio infernal, Estige, rio que tinha o cond\u00e3o de conferir a quem nele mergulhasse o poder de se tornar invulner\u00e1vel. T\u00e9tis mergulhara Aquiles nessas \u00e1guas, mas segurando pelo calcanhar, \u00fanico ponto onde Aquiles se tornou invulner\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na guerra de Troia, ser\u00e1 pelo calcanhar que advir\u00e1 a morte do her\u00f3i.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ditara um or\u00e1culo que, se Aquiles matasse algum filho ou filha de Apolo, haveria de morrer. Assim aconteceu, na ilha de T\u00e9nedos, onde Aquiles matou Tenes, uma das filhas de Apolo, ao pretender raptar uma sua irm\u00e3. J\u00e1 na guerra de Troia, uma lan\u00e7a, atirada por P\u00e1ris e orientada por Apolo para o fr\u00e1gil calcanhar, ditar\u00e1 o desfecho do filho de T\u00e9tis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Curiosamente, a vulnerabilidade e simbolismo do calcanhar aparecer\u00e1, antes da morte do her\u00f3i Aquiles. Ele pr\u00f3prio arrastar\u00e1 o troiano Heitor, por si assassinado na batalha, prendendo-o pelo calcanhar ao seu carro de combate, irando os deuses que se sentem ofendidos com a afronta de Aquiles para com o dever de respeitar os mortos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O comportamento de Aquiles parecia antecipar o seu pr\u00f3prio desfecho: o calcanhar. Sempre o calcanhar\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Curiosamente, Troia e a viagem que se lhe seguiu (regresso a \u00cdtaca) une-se \u00e0 cosmovis\u00e3o crist\u00e3 de uma forma algo insuspeita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre as \u2018maldi\u00e7\u00f5es\u2019 descritas ap\u00f3s o \u2018pecado de Ad\u00e3o e Eva\u2019, inclui-se, precisamente uma refer\u00eancia ao calcanhar: \u2018Farei reinar a inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descend\u00eancia e a dela. Esta esmagar-te-\u00e1 a cabe\u00e7a e tu tentar\u00e1s mord\u00ea-la no calcanhar.\u2019 (Gn 3, 15, edi\u00e7\u00e3o de www.paroquias.org)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, de modo indel\u00e9vel, o calcanhar est\u00e1 ligado \u00e0 hist\u00f3ria de Israel, ali\u00e1s, ao pr\u00f3prio Israel, cujo nome primeiro \u00e9 \u2018Jacob\u2019, que, etimologicamente, quer dizer \u2018aquele que segura pelo calcanhar\u2019, correspondendo ao que \u00e9 contado sobre o nascimento de Esa\u00fa e de Jacob, em Gn 25, 26, onde se diz que \u2018Depois, saiu o irm\u00e3o, segurando com a m\u00e3o o calcanhar de Esa\u00fa. E por isso lhe deram o nome de Jacob.\u2019<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o nos \u00e9 poss\u00edvel, hoje, saber se os autores de G\u00e9nesis conheceriam o mito de Aquiles, mas a densidade do simbolismo associado aos p\u00e9s e ao calcanhar, faz-nos, num primeiro momento, aproximar as duas cosmovis\u00f5es para, num segundo momento, as fazermos divergir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A aproxima\u00e7\u00e3o resulta de constatarmos o reconhecimento, em ambas as culturas (cl\u00e1ssica e judaico-crist\u00e3), do lugar do caminhar, do andar, do mover-se: veja-se a import\u00e2ncia do conceito de \u2018peregrinar\u2019, do \u2018sacudir o p\u00f3 dos p\u00e9s\u2019, do \u2018beijar os p\u00e9s\u2019, como s\u00edmbolos densos e suficientemente transparentes para nos dispensarmos de os desvendar. Falam por si.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este reconhecimento simb\u00f3lico est\u00e1 densificado num monumento situado numa das margens do Dan\u00fabio, na cidade de Budapeste. Numa obra realizada Can Togay e Gyula Pauer, est\u00e3o colocados, em desalinho, apenas sapatos de bronze e ferro, aludindo e homenageando os judeus que, pelas mil\u00edcias da Cruz de Ferro, ali mesmo foram executados, pelas costas, em plena II Guerra Mundial. Hoje, as v\u00edtimas est\u00e3o representadas pelos sapatos (imagem dos p\u00e9s).<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a esta aproxima\u00e7\u00e3o associamos, prontamente, um movimento de diverg\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na cultura cl\u00e1ssica, a vulnerabilidade do calcanhar, retratada no mito de Aquiles, expressa um \u00faltimo resqu\u00edcio de fragilidade humana perante a invulnerabilidade do resto do corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao humano est\u00e1 associada a perda; ao divino, o ganho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na cultura crist\u00e3, o registo \u00e9 distinto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 o homem todo que \u00e9 vulner\u00e1vel, mas tamb\u00e9m \u00e9 todo ele que \u00e9 elevado ao divino. N\u00e3o apenas uma parte de si.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os gregos olham para o humano como sin\u00f3nimo do tr\u00e1gico. A humanidade \u00e9 prescind\u00edvel, super\u00e1vel, lugar da trag\u00e9dia. A vida de Aquiles est\u00e1 toda ela envolvida em maldi\u00e7\u00f5es: impende sobre ele o dito do or\u00e1culo que prev\u00ea que, ou tenha vida longa, mas sem gl\u00f3ria ou, ent\u00e3o, gl\u00f3ria, mas com morte precoce; ama, mas os seus muitos amores (Ifig\u00e9nia; a irm\u00e3 de Tenes; Pentesileia, a rainha das amazonas, por quem se apaixona depois de a matar; Pol\u00edxena, por cuja paix\u00e3o aceita fazer um acordo de entregar os gregos, etc.) s\u00e3o fontes de problemas e novas maldi\u00e7\u00f5es; aceita que P\u00e1troclo o antecipe, na batalha, esperando que os troianos desistam, por medo, mas ele pr\u00f3prio acaba por morrer, sem conseguir enganar os troianos. Maldi\u00e7\u00f5es e trag\u00e9dia. Para os gregos, onde o humano est\u00e1, est\u00e1 o tr\u00e1gico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na cultura crist\u00e3, pelo contr\u00e1rio, o humano \u00e9 divinizado e assumido, todo ele, por Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Disto nos d\u00e1 conta o conc\u00edlio de Calced\u00f3nia ao afirmar que Jesus Cristo \u00e9 \u2018verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O divino n\u00e3o est\u00e1 limitado, j\u00e1, pela vulnerabilidade do \u2018calcanhar\u2019. O Homem, assumido por Deus, em Jesus Cristo, evidencia-se, na vis\u00e3o crist\u00e3, como digno, portador, todo ele, de condi\u00e7\u00e3o suscet\u00edvel de ser assumida por Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aquiles \u00e9 filho de T\u00e9tis que deseja apagar do filho as marcas do humano; Jesus Cristo \u00e9 Filho de Deus que ama o Humano e reconhece nele a dignidade merecedora de n\u2019Ele encarnar. N\u00e3o ser\u00e1, por isso, casual que as representa\u00e7\u00f5es de Deus, que podemos colher das par\u00e1bolas do Evangelho da miseric\u00f3rdia, o de Lucas, n\u00e3o nos mostrem Deus a pegar em parte do humano, mas a abra\u00e7\u00e1-lo, integralmente. As m\u00e3os do Pai, no quadro de Rembrandt (do \u2018Regresso do filho pr\u00f3digo), uma feminina e outra masculina, ou as enormes m\u00e3os do quadro de Arcabas, na capela da Ressurrei\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, em B\u00e9rgamo, evidenciam que o abra\u00e7o de Deus nos toma como todo, e n\u00e3o nos apanha, apenas, o calcanhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Jesus Cristo, ficou sarado, para sempre, o calcanhar de Aquiles, assumida que est\u00e1, integralmente, a nossa condi\u00e7\u00e3o, toda ela vulner\u00e1vel, mas divinamente elevada.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Pierrer Grimal, <em>Dicion\u00e1rio de mitologia grega e romana<\/em>, Lisboa, Ant\u00edgona Editores, 2020, pp. 35-39<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Recolhido do luminoso livro de Pe. Jos\u00e9 Miguel Cardoso, <em>Anatomia da F\u00e9: Introdu\u00e7\u00e3o p\u00f3s-moderna ao cristianismo<\/em>, Apela\u00e7\u00e3o, Paulus Editora, 2014, p. 71.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Ver a descri\u00e7\u00e3o feita no livro de Pe. Jos\u00e9 Miguel Cardoso, op. Cit, p. 66.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;, &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><i><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Aquiles#\/media\/Ficheiro:Aias_body_Akhilleus_Staatliche_Antikensammlungen_1884.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00c1jax carrega o corpo de Aquiles<\/a> |<\/i>\u00a0l\u00e9cito\u00a0\u00e1tico\u00a0da\u00a0Sic\u00edlia, c.\u00a0510 a.C.,\u00a0Cole\u00e7\u00f5es Estatais de Antiguidades,\u00a0Munique<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2018Regresso a \u00cdtaca<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":17675,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,177],"tags":[],"class_list":["post-17674","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17674","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17674"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17674\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17676,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17674\/revisions\/17676"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17675"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17674"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17674"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17674"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}