{"id":17671,"date":"2024-05-15T07:00:36","date_gmt":"2024-05-15T06:00:36","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=17671"},"modified":"2024-05-05T18:09:33","modified_gmt":"2024-05-05T17:09:33","slug":"regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden-20-de-icaro-a-pelagio-asas-de-cera-que-elevam-o-orgulho-humano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden-20-de-icaro-a-pelagio-asas-de-cera-que-elevam-o-orgulho-humano\/","title":{"rendered":"\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019 | 20 | De \u00cdcaro a Pel\u00e1gio: asas de cera que elevam o orgulho humano"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><em>\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019<\/em> | Parceria com a revista <a href=\"http:\/\/www.movimento-acr.pt\/accao-catolica-portuguesa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">&#8216;Mundo Rural&#8217;<\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019 leva-nos a um mito que tem merecido numerosas representa\u00e7\u00f5es art\u00edsticas (da \u00f3pera, com Lully, \u00e0 escultura, com a c\u00e9lebre representa\u00e7\u00e3o feita por Ant\u00f3nio Canova, passando pela pintura por in\u00fameros estudos do \u00e2mbito da psicologia, que visam explorar a sua densidade e dela retirar leituras sobre a condi\u00e7\u00e3o humana): a hist\u00f3ria de Psiqu\u00ea e o Amor (Eros).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este \u00e9 um conto que nos chegou pela m\u00e3o de Apuleio, autor latino do s\u00e9culo II d.C., cujas <em>Metamorfoses<\/em> foram a \u00fanica obra da literatura latina do g\u00e9nero romanesco a chegar-nos integralmente preservada. (Os leitores interessados poder\u00e3o encontr\u00e1-la aqui: <a href=\"https:\/\/www.gutenberg.org\/ebooks\/1666\">https:\/\/www.gutenberg.org\/ebooks\/1666<\/a>). O nosso guia ser\u00e1, ao longo deste ensaio, a vers\u00e3o do mito recolhida por Pierre Grimal, no seu <em>dicion\u00e1rio da mitologia grega e romana<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Psiqu\u00ea (a tradu\u00e7\u00e3o portuguesa deste dicion\u00e1rio grafa a palavra sem o acento \u2018pique\u2019, mas parece-nos mais adequado manter a acentua\u00e7\u00e3o original de \u2018psiqu\u00ea\u2019) \u00e9 uma de tr\u00eas filhas de um rei, todas belas, mas especialmente Psiqu\u00ea. De t\u00e3o bela, n\u00e3o consegue encontrar marido, pois todos os pretendentes temem o fulgor daquela beleza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como tantas vezes ocorre nos mitos gregos j\u00e1 anteriormente analisados, os pais decidem socorrer-se dos or\u00e1culos, que lhes comunicam que dever\u00e3o prepar\u00e1-la para as n\u00fapcias, e lev\u00e1-la ao cimo de uma montanha que lhes \u00e9 indicada, onde a espera um monstro horr\u00edvel que a tomar\u00e1 como esposa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os pais, ainda que temerosos, assim como Psiqu\u00ea, cumprem o definido pelo or\u00e1culo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 na montanha, Psiqu\u00ea \u00e9 erguida pelos ventos que a transportam para o fundo de um vale de ervas suaves e macias, onde, ap\u00f3s intensa emo\u00e7\u00e3o e felicidade, Psiqu\u00ea adormece, acordando diante de um pal\u00e1cio ricamente decorado. A\u00ed viver\u00e1 um dia particularmente feliz at\u00e9 que, ao final da jornada, prestes a adormecer, sente a presen\u00e7a do seu prometido que a pro\u00edbe de o ver, condi\u00e7\u00e3o para que ele permane\u00e7a junto de si. Se o vir, desaparecer\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como \u00e9 f\u00e1cil concluir, tal acabar\u00e1 por ocorrer, quando, ao regressar da fam\u00edlia, que visitara por sentir saudades, \u00e9 instada por esta a tentar descobrir como \u00e9 o seu amado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sentindo-o adormecido, acende uma vela com que ilumina o seu rosto, descobrindo-o jovem e belo. Uma gota de cera quente acorda-o, por\u00e9m, seguindo-se o seu imediato desaparecimento (definitivo).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00f3, Psiqu\u00ea erra pelo mundo e pelo submundo, sempre perseguida por Afrodite que inveja a sua beleza. Do submundo, trar\u00e1 um frasco de \u00e1gua recolhida da fonte da juventude que lhe fora dada por Pers\u00e9fone, com a condi\u00e7\u00e3o de n\u00e3o o abrir. No regresso, Psiqu\u00ea parte o frasco, adormecendo profundamente. \u00c9 nesta condi\u00e7\u00e3o que a encontra Eros que pede a Zeus que os liberte das maldi\u00e7\u00f5es que impendem sobre ambos, isto \u00e9 a de n\u00e3o poder v\u00ea-lo e a de ele n\u00e3o a poder desposar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Libertos das maldi\u00e7\u00f5es, podem, finalmente, casar-se.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este mito \u00e9 denso de significados, mas para o nosso labor de estabelecimento de pontes entre a cultura cl\u00e1ssica e a crist\u00e3, importa-nos reter como \u00e9 tr\u00e1gica na vis\u00e3o cl\u00e1ssica a rela\u00e7\u00e3o entre o amor e a condi\u00e7\u00e3o humana, simbolizada na impossibilidade de se ver o rosto, o lugar do enrugar do tempo sobre a pele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa primeira leitura, \u00e9 poss\u00edvel perceber alguma proximidade com a recusa de ver a Deus, face a face. H\u00e1, por\u00e9m, que constatar que essa recusa \u00e9 tempor\u00e1ria, pois toda a hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o assenta na esperan\u00e7a do encontro definitivo que nos h\u00e1 de permitir ver a Deus tal como ele \u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1, por isso, aqui, um coincidir para prontamente se distinguir. A cultura crist\u00e3 redime o rosto, pois s\u00e3o in\u00fameros os momentos em que \u00e9 o encontro, o ver, o olhar que abre ao amor\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estar longe da face \u00e9, inclusive, sinal de maldi\u00e7\u00e3o (por oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 maldi\u00e7\u00e3o de ver, impl\u00edcita no mito de \u2018eros e psiqu\u00ea\u2019): assim acontece com Caim que, \u2018longe da face de Deus\u2019, tem de errar\u2026 (Cfr. Gn 4,14).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Confirmando esta constata\u00e7\u00e3o, por oposi\u00e7\u00e3o, \u2018ver\u2019 \u00e9 fundamental e o lugar em que o amor se expressa (e n\u00e3o se some ou abandona, como no mito): os pastores querem ver o Menino (Lc 2,15), Jo\u00e3o Batista anuncia o Cordeiro de Deus, ao v\u00ea-lo (Jo 1,29), o leproso cai por terra ao ver Jesus (Lc 5,12), o Pai de miseric\u00f3rdia comove-se ao ver, ao longe, o filho pr\u00f3digo (Lc 15,20), Zaqueu esquiva-se \u00e0 multid\u00e3o para ver Jesus (Lc 19,4), o centuri\u00e3o desperta para a f\u00e9 ao ver o modo como Jesus morre (Lc 23,47). \u2018Ver\u2019, \u2018ver\u2019, \u2018ver\u2019\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O rosto, na cultura judaico-crist\u00e3, n\u00e3o \u00e9 o lugar da perdi\u00e7\u00e3o e da maldi\u00e7\u00e3o, mas o primeiro despertador do amor. N\u00e3o \u00e9, por isso, fortuito que uma das mais fecundas \u2018\u00e9ticas\u2019 \u2013 a que tem em E. Levinas<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, um judeu, o seu principal pensador &#8211; contempor\u00e2neas funde no rosto o seu principal axioma: o de que o rosto \u00e9 express\u00e3o da indig\u00eancia que nos comove e insta a partir ao encontro do outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Psiqu\u00ea e Eros\u2019 \u00e9 um mito perturbador, inquietante (n\u00e3o restar\u00e1 ao ser humano sen\u00e3o a tr\u00e1gica condi\u00e7\u00e3o de nunca poder amar a beleza?), mas transfigur\u00e1vel pela vis\u00e3o crist\u00e3 redentora do rosto, do olhar, do ver. A esperan\u00e7a crist\u00e3 funda-se, ali\u00e1s, na promessa de que veremos a Deus tal como Ele \u00e9\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ver e amar n\u00e3o se excluem, na vis\u00e3o crist\u00e3: germinam um no outro!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Pierre Grimal, <em>Dicion\u00e1rio da mitologia grega e romana<\/em>, Lisboa, Ant\u00edgona Editores, 2020.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Entre as suas obras, merecem especial destaque \u2018Totalidade e Infinito\u2019, \u2018\u00c9tica e Infinito\u2019, \u2018Entre n\u00f3s: ensaios sobre a alteridade\u2019.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;, &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><em>Psiqu\u00ea<\/em> | Wolf von Hoyer\u00a0(1806-1873)<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2018Regresso a \u00cdtaca<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":17672,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,177],"tags":[],"class_list":["post-17671","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17671","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17671"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17671\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17677,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17671\/revisions\/17677"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17672"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17671"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17671"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17671"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}