{"id":17665,"date":"2024-07-07T07:00:38","date_gmt":"2024-07-07T06:00:38","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=17665"},"modified":"2024-07-15T16:34:28","modified_gmt":"2024-07-15T15:34:28","slug":"sabes-leitor-7-marca-de-agua-do-livro-de-george-weigel-o-cubo-e-a-catedral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/sabes-leitor-7-marca-de-agua-do-livro-de-george-weigel-o-cubo-e-a-catedral\/","title":{"rendered":"Sabes, leitor&#8230; | 7 | Marca de \u00e1gua do livro de George Weigel, &#8216;O cubo e a catedral&#8217;"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">Rubrica \u2018Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma p\u00e1gina\u2019** | <em>Marca de \u00e1gua de livros que deixam marcas profundas<\/em><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Parceria:<a href=\"https:\/\/www.federacaopelavida.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> <em>Federa\u00e7\u00e3o Portuguesa pela Vida<\/em><\/a> e<em> Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<pre style=\"padding-left: 80px;\"><strong>O autor e a obra<\/strong><\/pre>\n<h5 style=\"padding-left: 280px; text-align: justify;\">George Weigel, <em>O cubo e a catedral: A Europa e a Am\u00e9rica e a pol\u00edtica sem Deus<\/em>, Lisboa, Al\u00eatheia Editores, 2006.<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nestes tempos t\u00e3o propensos a fazer da identidade fator de isolamento e discrimina\u00e7\u00e3o, sugiro ao leitor acercar-se de George Weigel como quem espera ser surpreendido (sendo que o ser\u00e1, com toda a certeza) para al\u00e9m dos pr\u00e9-conceitos que a sua n\u00e3o omitida identidade de cat\u00f3lico possa suscitar. George Weigel est\u00e1 certo de que, nestes tempos dados a neutralidades terraplanadoras, s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel o di\u00e1logo que ocorre no encontro entre as identidades. E faz, por isso, da sua condi\u00e7\u00e3o de te\u00f3logo cat\u00f3lico a mais-valia do que diz, situando-se e n\u00e3o escondendo a sua condi\u00e7\u00e3o de situado para ler o mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 a\u00ed que reside a for\u00e7a da sua coluna \u2018a diferen\u00e7a cat\u00f3lica\u2019 cuja repercuss\u00e3o nacional, nos Estados Unidos, evidencia que a leitura situada e identificada n\u00e3o \u00e9 um preju\u00edzo, mas uma condi\u00e7\u00e3o de verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As suas obras respiram esta sua matriz fundamental. Entre elas, \u2018Cartas a um jovem cat\u00f3lico\u2019 (Tenacitas), a biografia de S. Jo\u00e3o Paulo II, \u2018Testemunho de esperan\u00e7a\u2019 (Bertrand) e \u2018O cubo e a catedral\u2019 (Al\u00eatheia) mereceram ampla proje\u00e7\u00e3o e repercuss\u00e3o nacional em Portugal. Em 2002, a convite do Instituto de Estudos Pol\u00edticos da Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa, participou na Palestra anual Alexis Tocqueville, com confer\u00eancia sobre \u2018Duas Ideias de Liberdade\u2019, publicada em colet\u00e2nea da Universidade Cat\u00f3lica Editora.<\/p>\n<pre style=\"padding-left: 80px;\"><strong>Marcas de \u00e1gua <\/strong><strong>(o que fica depois de se deixar o livro)<\/strong><\/pre>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pelo t\u00edtulo \u2018o cubo e a catedral\u2019 talvez n\u00e3o se imagine a oportunidade deste livro e a sua pertin\u00eancia para as discuss\u00f5es mais urgentes, no contexto nacional e europeu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, superada a opacidade de uma ainda equ\u00edvoca met\u00e1fora geom\u00e9trico-cultural (um cubo e uma catedral o que poder\u00e3o ter a dizer-nos sobre as nossas op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e as suas repercuss\u00f5es mais prementes?), perceberemos porque levou o autor destas linhas apenas dois dias a percorrer, vorazmente as 150 p\u00e1ginas deste \u00edmpar ensaio (li-o entre 5 e 7 de agosto de 2009) e revisito-o, agora, por nele encontrar vias para uma discuss\u00e3o jamais devidamente feita, em Portugal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O cubo e a catedral\u2019 \u00e9 um ensaio. Um magn\u00edfico ensaio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tema?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se supondo, este ensaio enfrenta uma interroga\u00e7\u00e3o fundamental: o que pode dizer-nos o inverno demogr\u00e1fico sobre o modo como vemos a vida, como vemos o humano que somos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Implicitamente, este ensaio denuncia as abordagens \u2018cosm\u00e9ticas\u2019 que visam combater o inverno demogr\u00e1fico que, no sil\u00eancio da noite cultural, se vem abatendo sobre a Europa. A quest\u00e3o fundamental n\u00e3o est\u00e1 em op\u00e7\u00f5es conjunturais de incentivo \u00e0 natalidade que deixam de fora o problema de fundo. A quest\u00e3o fundamental est\u00e1 na interroga\u00e7\u00e3o sobre o sentido das vidas e sobre o papel que a dimens\u00e3o religiosa tem nas decis\u00f5es mais quotidianas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Valer\u00e1 a pena constatar que algo haver\u00e1 de diferente entre o que acontece na Am\u00e9rica, que n\u00e3o tem problemas de natalidade, e a Europa, cujo futuro \u00e9 sombrio, dado deparar-se, h\u00e1 muito, com perdas demogr\u00e1ficas profundas (tenha-se em conta que este ensaio \u00e9, originalmente, de 2005!).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o autor enuncia a raz\u00e3o de fundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A laicidade americana \u00e9 distinta da laicidade europeia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 Tocqueville, no s\u00e9culo XIX, o constatara. George Weigel retoma a tese e aplica-a \u00e0 mat\u00e9ria em apre\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com efeito, Weigel afirma que a laicidade europeia concebeu-se como uma neutralidade do Estado perante a religi\u00e3o que chegou a torna-lo indiferente para com a religi\u00e3o, enquanto, no caso americano, a laicidade sempre foi entendida num registo de respeito pela liberdade religiosa, criando espa\u00e7o para a diversidade que permitiu que a sociedade e Estado n\u00e3o andassem de costas voltadas cooperassem, positivamente. Dessa coopera\u00e7\u00e3o resultou que as op\u00e7\u00f5es dos cidad\u00e3os fossem respeitadas, repercutindo-se a influ\u00eancia do religioso nas op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. A Am\u00e9rica n\u00e3o se fez apesar dos cidad\u00e3os e das suas op\u00e7\u00f5es (entre elas, as religiosas\u2026), enquanto na Europa, por influ\u00eancia de uma laicidade negativa, fortemente afetada pela matriz da revolu\u00e7\u00e3o francesa, a pol\u00edtica fez-se, muitas vezes, apesar das op\u00e7\u00f5es dos cidad\u00e3os, com custos not\u00f3rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A influ\u00eancia do religioso em mat\u00e9ria de natalidade \u00e9 vis\u00edvel. O crente acolhe a vida como dom, e n\u00e3o, primeiramente, como uma conquista ou uma autodetermina\u00e7\u00e3o e, muito menos, como um estorvo. A perda do sentido religioso da exist\u00eancia, coletivamente falando, repercutiu-se, no entendimento de Weigel, na perda do sentido de acolhimento da vida a nascer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cubo e a catedral \u00e9, assim, enquanto t\u00edtulo, met\u00e1fora de duas vis\u00f5es, em que a catedral remete para a vis\u00e3o cuidadora da vida, em registo de dom que se acolhe, por oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 geometria do Cubo (aludindo ao que foi constru\u00eddo em La D\u00e9fense, mais alto do que a Catedral de Notre Dame e, por isso, expressando a \u2018superioridade\u2019 da geometria \u2018libertarista\u2019 defensora de uma liberdade humana distante de Deus\u2026) que sustenta a dispensabilidade do religioso para a conce\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas comuns.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para al\u00e9m de se tratar de um ensaio oportun\u00edssimo para a problematiza\u00e7\u00e3o das vis\u00f5es de laicidade em jogo permanente, at\u00e9 na sociedade portuguesa (\u2018volta e meia\u2019, emergem, na sociedade, teses laicistas, preconizadoras do silenciamento do religioso\u2026), \u2018o cubo e catedral\u2019 desafia a que se v\u00e1 \u00e0s quest\u00f5es \u2018culturais\u2019 e de cosmovis\u00e3o para problematizar as verdadeiras raz\u00f5es que explicam o inverno demogr\u00e1fico que assola o territ\u00f3rio europeu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lendo, com aten\u00e7\u00e3o, George Weigel n\u00e3o pode sen\u00e3o perceber-se que talvez seja hora de as pol\u00edticas europeias se fazerem com o contributo das pr\u00f3prias organiza\u00e7\u00f5es religiosas que, certamente, poder\u00e3o contribuir para que, recriando as cosmovis\u00f5es num registo distinto da exist\u00eancia, possam, a m\u00e9dio e longo prazo, auxiliar na reconfigura\u00e7\u00e3o de uma matriz capaz de recuperar o sentido da vida como dom acolhido, com significativas consequ\u00eancias coletivas.<\/p>\n<pre style=\"padding-left: 80px;\"><strong>Na mesma p\u00e1gina que o autor (cita\u00e7\u00f5es)<\/strong><\/pre>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O \u00abproblema europeu\u00bb, quanto a mim, \u00e9 fundamentalmente um problema moral, cultural e civilizacional. Sobre ele paira a quest\u00e3o colocada de maneira cortante, se bem que sem inten\u00e7\u00e3o, pelos guias tur\u00edsticos, que alardeiam a superioridade de <em>La Grande Arche <\/em>sobre Notre-Dame: a quest\u00e3o do cubo, da catedral e do seu significado para a liberdade e futuro da democracia.\u2019 (p. 11)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Por que raz\u00e3o certas partes da Europa exibem uma curiosa e at\u00e9 bizarra abordagem \u00e0 morte? Por que raz\u00e3o tantos franceses preferiram continuar as suas f\u00e9rias de Ver\u00e3o durante a vaga de calor de 2003, deixando os familiares por enterrar e armazenados em c\u00e2maras frigor\u00edficas (que ficaram a abarrotar ao fim de pouco tempo)? Por que raz\u00e3o \u00e9 a morte cada vez mais an\u00f3nima na Alemanha, sem necrologia nos jornais, cerim\u00f3nias f\u00fanebres nas igrejas ou fora delas, nada &#8211; \u00abcomo se\u00bb, tal como disse Richard John Neuhaus, \u00abos mortos n\u00e3o existissem\u00bb? Que pensar da companhia sueca Promessa, que anuncia um servi\u00e7o no qual a crema\u00e7\u00e3o \u00e9 substitu\u00edda por adubo humano? Os mortos s\u00e3o imersos em nitrog\u00e9nio l\u00edquido at\u00e9 ficarem gelados, s\u00e3o esmagados por meio de ultrassons at\u00e9 ficarem em bocadinhos e, finalmente, s\u00e3o utilizados como fertilizante!\u2019 (p. 21)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Estas perguntas n\u00e3o podem ser satisfatoriamente respondidas com base apenas na experi\u00eancia diferente da Europa do s\u00e9culo XX e no que o continente aprendeu com ela. Tamb\u00e9m n\u00e3o podem ser respondidas com apelos \u00e0 vergonha. Tem de ser feita uma pergunta mais profunda: <em>Por que raz\u00e3o teve a Europa o s\u00e9culo XX que teve?<\/em> Por que raz\u00e3o um s\u00e9culo que come\u00e7ou com previs\u00f5es confiantes sobre uma humanidade em aperfei\u00e7oamento, a caminho de novas realiza\u00e7\u00f5es civilizacionais, produziu na Europa, no espa\u00e7o de quatro d\u00e9cadas, duas guerras mundiais, tr\u00eas sistemas totalit\u00e1rios, uma Guerra Fria que quase se transformou numa cat\u00e1strofe global, mares de sangue, montanhas de corpos, Auschwitz e o Gulag? Que aconteceu? Porqu\u00ea?\u2019 (p. 23)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Diga-se o que se disser dos Estados Unidos, a sociedade americana n\u00e3o \u00e9, certamente, \u00abcristof\u00f3bica\u00bb, ou p\u00f3s-crist\u00e3. A cultura europeia, por seu lado, \u00e9 largamente cristof\u00f3bica; e os europeus descrevem as suas culturas e sociedades como \u00abp\u00f3s-crist\u00e3s\u00bb.\u2019 (p. 26)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O tra\u00e7o comum entre [estes] pensadores t\u00e3o diferentes \u00e9 a convic\u00e7\u00e3o de que as correntes mais profundas da \u00abhist\u00f3ria\u00bb s\u00e3o espirituais e culturais, n\u00e3o pol\u00edticas e econ\u00f3micas.\u2019 (p. 29)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Na verdade, ao tentar arranjar uma resposta satisfat\u00f3ria para as v\u00e1rias perguntas que fiz acima, incluindo a pergunta cr\u00edtica a prop\u00f3sito da auto-imola\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica europeia, n\u00e3o consigo arranjar resposta melhor do que a sugerida pela an\u00e1lise de Soljenitsine: estes fen\u00f3menos s\u00e3o a express\u00e3o de uma profunda e duradoura crise moral e civilizacional.\u2019 (p. 32)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[O] processo de seculariza\u00e7\u00e3o (cujas origens remotas recuam, pelo menos, at\u00e9 \u00e0s guerras religiosas do s\u00e9culo XVI) teve profundas consequ\u00eancias p\u00fablicas: levou ao colapso de um horizonte transcendental de bom senso moral na vida p\u00fablica europeia e ao triunfo daquilo a que Manent chama a \u00abauto-adora\u00e7\u00e3o\u00bb e o \u00aborgulho fatal\u00bb que conduziu \u00e0 Grande Guerra e suas consequ\u00eancias.\u2019 (p. 45)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Durante o debate sobre a Constitui\u00e7\u00e3o Europeia, Joseph Weiler [que \u00e9 judeu] tamb\u00e9m lembrou os secularistas europeus que os \u00abpais fundadores\u00bb da Uni\u00e3o Europeia de hoje foram, todos eles, cat\u00f3licos que viam a integra\u00e7\u00e3o europeia como um projeto de civiliza\u00e7\u00e3o crist\u00e3: Konrad Adenauer, Alcide de Gasperi, Robert Schuman e Jean Monnet.\u2019 (p. 59)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018A liberdade [\u2026] \u00e9 adquirir gradualmente a capacidade de escolher o bem e de fazer o que se escolhe com perfei\u00e7\u00e3o, com excel\u00eancia.\u2019 (p. 68)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Se a teimosia \u00e9 tudo e a liberdade \u00e9 simplesmente a \u00abnossa\u00bb pr\u00f3pria reivindica\u00e7\u00e3o (uma reivindica\u00e7\u00e3o protegida pela lei desde que \u00abn\u00e3o prejudique ningu\u00e9m\u00bb), ent\u00e3o \u00e9 muito dif\u00edcil, se n\u00e3o for imposs\u00edvel, perceber por que raz\u00e3o essa liberdade tem qualquer valor para al\u00e9m da express\u00e3o da nossa vontade. E este parece-nos ser um alicerce muito frouxo para construir uma civiliza\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica capaz de se suster internamente e perante os seus inimigos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Visto \u00e0 luz da hist\u00f3ria das ideias, o debate sobre a <em>invocatio<\/em> <em>Dei<\/em> na Constitui\u00e7\u00e3o Europeia foi um debate entre os proponentes da liberdade por excel\u00eancia e os proponentes da liberdade da indiferen\u00e7a. Um debate medieval entre dois frades, em pleno s\u00e9culo XXI, no cen\u00e1rio da feitura de uma constitui\u00e7\u00e3o. A liberdade da indiferen\u00e7a parece ter vencido, para j\u00e1. As consequ\u00eancias, provavelmente, ser\u00e3o consider\u00e1veis.\u2019 (p. 72)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Se n\u00e3o houver convic\u00e7\u00f5es, n\u00e3o pode haver toler\u00e2ncia; apenas indiferen\u00e7a. Se n\u00e3o houver a no\u00e7\u00e3o de verdade que faz de n\u00f3s tolerantes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0queles que t\u00eam uma no\u00e7\u00e3o diferente da mesma verdade, ent\u00e3o s\u00f3 resta cepticismo e relativismo.\u2019 (p. 90)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018A doutrina social da Igreja ofereceu \u00e0 Europa a possibilidade de defender a \u00abestrutura moral da liberdade de modo a proteger a cultura e a sociedade europeias da utopia totalitarista da \u2018justi\u00e7a sem liberdade\u2019 e da \u2018liberdade sem verdade\u2019, outra utopia que anda de m\u00e3os dadas com o falso conceito da toler\u00e2ncia\u2019\u00bb. Ambas as utopias, lembrou o Papa [Jo\u00e3o Paulo II] aos seus leitores, \u00abpressagiaram erros e horrores para a humanidade, como tristemente revela a hist\u00f3ria recente da Europa\u00bb.\u2019 (p. 101)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018\u00c9 poss\u00edvel construir e manter de p\u00e9 uma comunidade pol\u00edtica democr\u00e1tica sem os pontos de refer\u00eancia morais que o Cristianismo tem para oferecer? Poder\u00e1 haver uma \u00abpol\u00edtica sem Deus\u00bb &#8211; o Deus de Abra\u00e3o, Isaac, Jacob e Jesus?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os que ganharam este debate, em 2004, responderiam pela afirmativa: n\u00e3o s\u00f3 <em>pode<\/em>, como <em>deve<\/em>. A crise civilizacional e moral europeia sugere, por\u00e9m, que os vencedores do debate constitucional europeu talvez estejam seriamente enganados.\u2019 (p. 128)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Os colegas europeus e americanos com os quais discuti estas quest\u00f5es acham, compreensivelmente, dif\u00edcil aceitar aquilo que v\u00eaem como uma no\u00e7\u00e3o demasiado simples, mesmo simplista: a Europa deixou de se reproduzir porque deixou de ir \u00e0 Igreja. Posta desta maneira pessimista, de facto, a an\u00e1lise \u00e9 muito simples. \u00c9 evidente que existem raz\u00f5es econ\u00f3micas, sociol\u00f3gicas, psicol\u00f3gicas e at\u00e9 ideol\u00f3gicas para que os nascimentos estejam abaixo dos n\u00edveis m\u00ednimos h\u00e1 d\u00e9cadas. No entanto, a falta de capacidade de criar um futuro humano no mais elementar dos sentidos \u2013 criar uma gera\u00e7\u00e3o nova \u2013 tamb\u00e9m \u00e9 a express\u00e3o de um fracasso mais amplo: a falta de autoconfian\u00e7a. Este fracasso est\u00e1, sem d\u00favida, ligado ao colapso da f\u00e9 no Deus da B\u00edblia, porque sem Ele (e a Sua morte na pra\u00e7a p\u00fablica europeia \u00e9 o que os actores do drama do humanismo ateu procuram e conseguiram at\u00e9 certo ponto) tamb\u00e9m n\u00e3o existe a Sua primeira ordem: \u00abCrescei e multiplicai-vos\u00bb.\u2019 (G\u00e9nesis 1,28).\u2019 (pp. 129-130)<\/p>\n<h5 style=\"text-align: right;\"><strong>**(T\u00edtulo retirado de Daniel Faria, <em>Dos l\u00edquidos<\/em>, Porto, Edi\u00e7\u00e3o Funda\u00e7\u00e3o Manuel Le\u00e3o, 2000, p. 137)<\/strong><\/h5>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217;, &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rubrica \u2018Sabes, leitor,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":17666,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9,55,198],"tags":[],"class_list":["post-17665","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-programa-diocesano-de-livros-e-leituras","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-sabes-leitor-que-estamos-ambos-na-mesma-pagina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17665","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17665"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17665\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18087,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17665\/revisions\/18087"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17666"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17665"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17665"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17665"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}