{"id":17537,"date":"2024-04-07T23:49:16","date_gmt":"2024-04-07T22:49:16","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=17537"},"modified":"2024-04-08T22:03:23","modified_gmt":"2024-04-08T21:03:23","slug":"caminhadas-pela-vida-2024-contra-rotulos-e-preconceitos-os-factos-simplesmente-os-factos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/caminhadas-pela-vida-2024-contra-rotulos-e-preconceitos-os-factos-simplesmente-os-factos\/","title":{"rendered":"Caminhada pela Vida 2024 | Contra r\u00f3tulos e preconceitos, os factos. Simplesmente, os factos!"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No dia 6 de abril, s\u00e1bado, o pa\u00eds mobilizou-se para afirmar que a vida humana \u00e9 portadora de uma dignidade (inerente) que a torna merecedora de prote\u00e7\u00e3o.<br \/>\nCom honrosas exce\u00e7\u00f5es, em que merecem destaque a Sic, a Renascen\u00e7a, a Ecclesia e a imprensa de \u00e2mbito regional (sempre atentas \u00e0 aut\u00eantica realidade e n\u00e3o preocupadas em ficcionar sobre ela\u2026), esta manifesta\u00e7\u00e3o, que reuniu alguns milhares de pessoas em doze cidades do pa\u00eds (que inclui ilhas!), foi brindada com o sil\u00eancio da imprensa de \u00e2mbito nacional.<br \/>\nComo tem ocorrido, ali\u00e1s, ao longo dos tempos.<br \/>\nInfelizmente, a causa da vida parece n\u00e3o ter \u2018boa imprensa\u2019. Nunca a teve, mas estou certo de que ter\u00e1 bom tempo, o bom tempo do lugar certo da hist\u00f3ria da humaniza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nE quando merece algum lugar de refer\u00eancia, \u00e9, com frequ\u00eancia, como forma de se lhe atirar com os habituais ep\u00edtetos preconceituosos que sossegam os \u00e2nimos dos potencialmente mobiliz\u00e1veis e pretendem isolar os mobilizados.<br \/>\nEntre esses ep\u00edtetos e preconceitos, contam-se, como mais frequentes, os de que s\u00e3o os crentes que est\u00e3o a tentar impor a sua vontade aos demais ou que se trata de movimentos que visam assegurar um retrocesso em \u2018conquistas\u2019.<br \/>\nAntes de avan\u00e7ar para os factos, gostaria de enfrentar estes dois \u2018brindes\u2019 com que costumamos ser rotulados.<br \/>\nComo crente que sou, agrade\u00e7o o reconhecimento de que a op\u00e7\u00e3o crente est\u00e1 do lado dos que protegem a vida humana, em particular quando se encontra mais fr\u00e1gil e mais dependente, mas o meu agradecimento tem de ser honesto. Como bem reconhecia Norberto Bobbio, um laico, socialista e descrente, reconhecido pol\u00edtico e pensador italiano, \u2018n\u00e3o se pode (nem deve) entregar aos crentes o monop\u00f3lio da defesa da vida humana.\u2019 Ele mesmo sabia que esta n\u00e3o era uma quest\u00e3o de natureza religiosa, mas de ordem humana, humanit\u00e1ria. De qualquer modo, como crente, n\u00e3o posso sen\u00e3o sentir-me honrado com aquela que pensam ser uma \u2018acusa\u00e7\u00e3o\u2019 ofensiva. Agrade\u00e7o-a, mas a honestidade obriga-me a coloc\u00e1-la onde deve estar. As motiva\u00e7\u00f5es religiosas somam motivos, mas n\u00e3o precisamos da f\u00e9 para reconhecer que temos o dever de cuidar uns dos outros. \u00c9 a base de uma sociedade solid\u00e1ria\u2026<br \/>\nO outro ep\u00edteto \u00e9 o de que a defesa da vida humana contra as arbitrariedades da liberdade individualista seja um retrocesso.<br \/>\nLamento defraudar os que se consideram progressistas por defenderem o aborto, o infantic\u00eddio, a eutan\u00e1sia, etc. Da\u00ed j\u00e1 vimos e n\u00e3o queremos l\u00e1 voltar. Ao longo da hist\u00f3ria, a tenta\u00e7\u00e3o de desvalorizar a crian\u00e7a, o filho no \u00fatero, o doente, o idoso, foi omnipresente, mas as conquistas de humanidade levaram-nos a reconhecer que n\u00e3o era andar para a frente a sua legitima\u00e7\u00e3o, mas um aut\u00eantico regredir ao tempo em que nos abandon\u00e1vamos, por sermos um empecilho no nomadismo. Hoje, j\u00e1 n\u00e3o estamos a\u00ed.<br \/>\nComo recordava o Cardeal Tolentino de Mendon\u00e7a, no seu discurso de 10 de junho de 2020, e invocando ideia defendida pela antrop\u00f3loga Margaret Mead, o primeiro sinal de humanidade foi um \u2018f\u00e9mur cicatrizado\u2019, o primeiro sinal de que n\u00e3o abandon\u00e1mos \u00e0 sua sorte ou, melhor, \u00e0 morte, aquele que partiu uma perna e n\u00e3o podia acompanhar-nos. Fic\u00e1mos ao seu lado e ajud\u00e1mo-lo a erguer-se\u2026<br \/>\nDefender que \u00e9 leg\u00edtimo matar (um filho ainda precariamente desenvolvido ou um pai idoso e doente) n\u00e3o \u00e9 um avan\u00e7o. \u00c9 um enorme retrocesso. Um enorme retrocesso!<br \/>\nMas porqu\u00ea?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Os factos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Facto 1<\/strong><br \/>\nA morte \u00e9 irrevers\u00edvel. As circunst\u00e2ncias que envolvem a vida e o seu desenvolver-se s\u00e3o, por sua vez, revers\u00edveis. \u00c9 pouco l\u00f3gico e pouco consistente legitimar um ato irrevers\u00edvel por circunst\u00e2ncias que poder\u00edamos mudar, porque s\u00e3o revers\u00edveis. Poderemos ser mais ricos ou mais pobres, mais livres ou menos livres, mais dependentes ou mais aut\u00f3nomos, mais belos ou esteticamente menos dotados, mais robustos ou mais fr\u00e1geis, mais sofredores ou mais saud\u00e1veis\u2026 Tudo isso \u00e9 m\u00f3vel e vol\u00favel. A morte \u00e9 que \u00e9 irrevers\u00edvel. Ora, \u00e9 por isto que os constituintes perceberam que a vida teria de ser inviol\u00e1vel. N\u00e3o se lhe deveria poder tocar com a legitima\u00e7\u00e3o do seu abrupto e volunt\u00e1rio fim. Porque nenhuma circunst\u00e2ncia \u00e9 mais valiosa do que a vida aberta ao amanh\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Facto 2<\/strong><br \/>\nUm filho, desde o in\u00edcio, desde a fus\u00e3o de um espermatozoide com um \u00f3vulo, passa a ser o fruto de dois: um pai e uma m\u00e3e. Deste modo, sabendo que, pela natureza das coisas, o filho s\u00f3 pode desenvolver-se no \u00fatero de um, esse filho n\u00e3o \u00e9 posse desse que lhe permite desenvolver-se, n\u00e3o s\u00f3 pela dignidade inerente ao filho (\u00e9 um ser irrepet\u00edvel e \u00fanico), mas tamb\u00e9m porque, enquanto gerado por dois, n\u00e3o pode ser direito de um s\u00f3. A m\u00e3e \u00e9 a primeira cuidadora, n\u00e3o a possuidora do filho, tal como o pai n\u00e3o \u00e9, nunca, o seu possuidor, mas o seu outro protetor e cuidador. Ao pressuposto destas considera\u00e7\u00f5es d\u00e1-se o nome de dignidade. Dignidade n\u00e3o \u00e9 uma mera perce\u00e7\u00e3o de se ser digno; \u00e9 anterior \u00e0 pr\u00f3pria perce\u00e7\u00e3o. \u00c9 essa condi\u00e7\u00e3o que deve despertar a perce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Facto 3<\/strong><br \/>\nO filho \u00e9 distinto da m\u00e3e, pelo que \u00e9 um sofisma motivador de reprova\u00e7\u00e3o em qualquer cadeira de l\u00f3gica de primeiro ano pretender confundir o filho com o corpo da m\u00e3e, o que \u00e9 facilmente demonstr\u00e1vel, por exemplo, nos casos em que o tipo de sangue do filho \u00e9 distinto do tipo de sangue da m\u00e3e. O sofisma \u00e9 ainda assente num outro erro de l\u00f3gica que \u00e9 presumir que, se fosse corpo da m\u00e3e, ent\u00e3o poderia fazer-se o que se entendesse, conclus\u00e3o que a simples obriga\u00e7\u00e3o, por exemplo, de utilizar cinto de seguran\u00e7a deita por terra. O legislador sabe bem que a obriga\u00e7\u00e3o de utiliza\u00e7\u00e3o do cinto \u00e9 estabelecida, n\u00e3o para proteger outros, mas a si pr\u00f3prio, pelo que se demonstra que h\u00e1 um pressuposto, no ordenamento jur\u00eddico, de que temos o dever de cuidar de n\u00f3s mesmos, n\u00e3o sendo leg\u00edtimo o absoluto princ\u00edpio de que a minha autonomia poder\u00e1 legitimar tudo o que eu pretenda fazer-me a mim mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Facto 4<\/strong><br \/>\nA eutan\u00e1sia n\u00e3o \u00e9 um meio de acabar com o sofrimento.<br \/>\nPara isso, existem as terap\u00eauticas v\u00e1rias, entre as quais merecer\u00e3o destaque os cuidados paliativos.<br \/>\nA eutan\u00e1sia mata o sofredor, sem incidir sobre o sofrimento. Mata quem sofre, acabando, entre outras coisas, com o seu sofrimento, mas tamb\u00e9m com o seu futuro e levando consigo todos os que o rodeiam. Como testemunhava um filho de um suicida, em estudo recolhido por Alexandrina Meleiro, na Revista Brasileira de Medicina (Set 2013), \u2018quando uma pessoa se mata, n\u00e3o se mata s\u00f3 a si mesma. Mata todos ao seu redor. Mata todos os que a amam.\u2019 A eutan\u00e1sia n\u00e3o \u00e9 um suic\u00eddio, antes um ato realizado por outrem sobre algu\u00e9m a pretexto de estar em fim de vida ou em sofrimento, mas \u00e9, muitas vezes, pretensamente legitimada como se de um suic\u00eddio se tratasse.<br \/>\nN\u00e3o o \u00e9 e comporta custos para a confian\u00e7a nas rela\u00e7\u00f5es, mas mesmo que fosse um suic\u00eddio, seria contradit\u00f3rio que a sociedade defendesse que o suic\u00eddio \u00e9 um mal a combater e, em total contradi\u00e7\u00e3o, legitimasse a pr\u00e1tica da eutan\u00e1sia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Facto 5<\/strong><br \/>\nA compaix\u00e3o n\u00e3o legitima as pr\u00e1ticas de morte. Utiliz\u00e1-la para legitimar o aborto ou a eutan\u00e1sia \u00e9 cobardia e um sofisma a denunciar.<br \/>\nA compaix\u00e3o que pretende suportar a eutan\u00e1sia e o aborto \u00e9 um modo f\u00e1cil de abandono e de deixar de se preocupar com o outro. \u00c9 um modo ass\u00e9tico de encarar o fim da vida, com os seus desafios e exig\u00eancias. Devemos cuidar. \u00c9 isso que faz uma sociedade humanizada.<br \/>\nEutanasiar \u00e9 pr\u00f3prio das sociedades dist\u00f3picas como as que Aldous Huxley descreve no seu \u2018Admir\u00e1vel mundo novo\u2019, um mundo de humanos robotizados, amorfos e incapazes de enfrentar a condi\u00e7\u00e3o fr\u00e1gil, pr\u00f3prio de se ser humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Facto 6<\/strong><br \/>\nOs que pretendem legalizar estas pr\u00e1ticas que tornam vulner\u00e1vel o ser humano nas suas fases de maior depend\u00eancia utilizam argumentos que manipulam a realidade e a contorcem at\u00e9 que diga o que querem que ela diga. Invocam, inclusive, os chamados valores europeus, como se a Europa tivesse como \u00fanico e absoluto valor uma certa ideia de liberdade identificada com um \u2018fazer tudo o que se quer\u2019. A Europa tem na liberdade, bem certo, um valor fundamental, mas n\u00e3o absoluto. Anterior ao valor da liberdade est\u00e1 a inviolabilidade da dignidade humana que, como afirma a Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos do Homem, no seu pre\u00e2mbulo, fundamenta a liberdade. Sem o reconhecimento da dignidade inerente a todos os humanos (todos, mesmo!), n\u00e3o h\u00e1 liberdade, mas pura arbitrariedade dos mais fortes sobre os mais fracos. E isso n\u00e3o \u00e9 um valor europeu\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante destes factos, para onde caminha o futuro?<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;, &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/wenphotos-1798295\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=1139096\">wendy CORNIQUET<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=1139096\">Pixabay<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lu\u00eds Manuel Pereira<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":17538,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[165,55],"tags":[],"class_list":["post-17537","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura-devida","category-luis-manuel-pereira-da-silva"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17537","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17537"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17537\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17541,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17537\/revisions\/17541"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17538"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17537"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17537"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17537"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}