{"id":17271,"date":"2024-03-15T07:00:58","date_gmt":"2024-03-15T07:00:58","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=17271"},"modified":"2024-02-11T12:48:27","modified_gmt":"2024-02-11T12:48:27","slug":"regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden-19-de-icaro-a-pelagio-asas-de-cera-que-elevam-o-orgulho-humano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden-19-de-icaro-a-pelagio-asas-de-cera-que-elevam-o-orgulho-humano\/","title":{"rendered":"\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019 | 19 | De \u00cdcaro a Pel\u00e1gio: asas de cera que elevam o orgulho humano"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><em>\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019<\/em> | Parceria com a revista <a href=\"http:\/\/www.movimento-acr.pt\/accao-catolica-portuguesa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">&#8216;Mundo Rural&#8217;<\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019 tem-nos levado, pela m\u00e3o de Ulisses que regressa a casa, em \u00cdtaca, depois de dez anos da guerra de Troia, a estabelecer pontes ou identificar abismos entre aqueles que s\u00e3o dois dos mais robustos pilares da cultura ocidental: a antiguidade grega e romana e a cultura de matriz crist\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gregos e crist\u00e3os unem-se no reconhecimento dos riscos e perigos do orgulho humano, ainda que a aprecia\u00e7\u00e3o desse v\u00edcio n\u00e3o coincida totalmente entre as duas matrizes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voemos com \u00cdcaro, para a leitura da aprecia\u00e7\u00e3o grega, e comparemo-la com o que nos chega da hist\u00f3ria de Pel\u00e1gio e do seu pol\u00e9mico confronto com Agostinho de Hipona (o grande S. Agostinho).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conta-nos Pierre Grimal, no seu \u2018dicion\u00e1rio da mitologia grega e romana\u2019<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, que \u00cdcaro \u00e9 filho de D\u00e9dalo (ali\u00e1s, o mito \u00e9 sempre contado como sendo de \u2018D\u00e9dalo e \u00cdcaro\u2019) e de N\u00e1ucrate. Pai e filho foram encarcerados, por Minos, por vingan\u00e7a, no mesmo labirinto do qual tinham ensinado Ariadne a sair (\u2018seguir o fio de Ariadne\u2019 \u00e9 express\u00e3o que vem deste mito) e permitido que Teseu entrasse e sa\u00edsse, matando o Minotauro. Ali presos, mas dados os muitos engenhos de D\u00e9dalo, criaram umas asas de cera com que se tornou poss\u00edvel escaparem. Antes, por\u00e9m, de se elevarem nos c\u00e9us, D\u00e9dalo recomendou ao filho, \u00cdcaro, que se mantivesse num justo equil\u00edbrio: nem demasiado afastado nem demasiado pr\u00f3ximo do sol. O orgulho e a arrog\u00e2ncia de \u00cdcaro fizeram-no, por\u00e9m, entusiasmar-se, aproximando-se demasiado do sol. Derreteram as asas e \u00cdcaro despenhou-se, desamparado, no mar que circunda a ilha de Samos. (O mito ser\u00e1, provavelmente, uma etiologia para o nome desse mar, Ic\u00e1rio, g\u00e9nero tamb\u00e9m frequente nos pr\u00f3prios textos b\u00edblicos que, pela via de uma hist\u00f3ria, nos \u2018explicam\u2019 a origem de um facto, de um nome, de um modo de ser\u2026)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Demos um salto no tempo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e9poca que entregou \u00e0 humanidade esta hist\u00f3ria. Avancemos para finais do s\u00e9culo IV e in\u00edcios do s\u00e9culo V depois de Cristo, ao tempo de Santo Agostinho. Por essa altura, um monge nascido, em 354, na Gr\u00e3-Bretanha, Pel\u00e1gio, via difundirem-se, com grande proje\u00e7\u00e3o, as suas ideias. (O nome \u2018Pel\u00e1gio\u2019 cria uma simb\u00f3lica coincid\u00eancia com o mito de D\u00e9dalo e \u00cdcaro, pois \u2018p\u00e9lagos\u2019, em grego, significa \u2018mar alto\u2019, \u2018um mar determinado\u2019, mas, tamb\u00e9m, figurativamente, \u2018perigo\u2019<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>). A sua ideia fundamental era a de que a natureza humana n\u00e3o era tocada pelo pecado original, sendo capaz, por si pr\u00f3pria, de evitar o pecado, pelo que, \u2018sem necessidade de nenhum aux\u00edlio sobrenatural, evitar todos os pecados e praticar todas as obras boas\u2019<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, n\u00e3o sendo, por isso, necess\u00e1ria a salva\u00e7\u00e3o oferecida por Deus, atrav\u00e9s de Jesus Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A heresia pelagiana difundiu-se com grande rapidez, dado o seu poder sedutor (ainda hoje, o tique pelagianista continua a atrair, afirmando-se como um otimismo antropol\u00f3gico que parece pensar o ser humano como isento de m\u00e1cula e atribuindo \u00e0 sua liberdade a fonte de toda a moralidade\u2026), tendo, mesmo, atra\u00eddo, num primeiro momento, a ades\u00e3o do Papa Z\u00f3zimo que, por\u00e9m, por interven\u00e7\u00e3o de S. Agostinho, vem a rever a sua posi\u00e7\u00e3o, na c\u00e9lebre carta <em>Tractoria<\/em> (418). As teses pelagianas s\u00e3o sucessivamente condenadas no s\u00ednodo de Cartago (411), no de Di\u00e1spole (415), por Inoc\u00eancio I (em 417) e, como dissemos, pelo Papa Z\u00f3zimo, na carta <em>Tractoria<\/em>. A condena\u00e7\u00e3o definitiva das teses pelagianas ocorre em abril de 418, em Jerusal\u00e9m. O que ficava em causa, com o pelagianismo, saltava \u00e0 vista. Se o homem, por si s\u00f3, consegue obter a sua salva\u00e7\u00e3o, que lugar caberia a Deus? E onde ficaria a miss\u00e3o de Jesus Cristo: n\u00e3o seria mais do que um exemplo, escapando-lhe o poder redentor?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tese fundamental de Pel\u00e1gio expressava-se de forma particularmente acutilante neste aforismo recolhido de uma das suas cartas: \u2018Est\u00e1 em meu pode fazer o bem, sou eu a gerir a minha liberdade.\u2019 (Epist. 216,5)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao l\u00ea-la, os nossos ouvidos parecem reconhecer os ditames do paradigma contempor\u00e2neo. O sol nunca ser\u00e1 demasiado pr\u00f3ximo para os \u00cdcaros de hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">D\u00e9dalo continua, por\u00e9m, a sussurrar-lhe que n\u00e3o ouse elevar-se demasiado, porque s\u00e3o de cera as suas asas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o homem continua a elevar-se at\u00e9 n\u00e3o ser mais do que um ponto negro no horizonte\u2026 Mas convencido de que s\u00f3 a si cabe salvar-se.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cristianismo, por\u00e9m, continua a recordar-lhe que a condi\u00e7\u00e3o humana, na hist\u00f3ria, est\u00e1 marcada pela debilidade e pela fragilidade, enquanto criatura, debilidade a que Paul Ricoeur, no seu \u2018o homem fal\u00edvel\u2019<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>, chama \u2018falha existencial\u2019. A perda desta consci\u00eancia \u00e9 e tem sido causa de arrog\u00e2ncia que faz do Homem \u2018homini lupus\u2019<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> (homem lobo do homem).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os voos com asas de cera s\u00e3o, assim, muito mais do que met\u00e1foras de um desejo: s\u00e3o a tenta\u00e7\u00e3o permanente de se arvorar em Deus, abandonando a condi\u00e7\u00e3o de criatura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Distingue a leitura grega da crist\u00e3 a defini\u00e7\u00e3o da \u2018miss\u00e3o\u2019 de Deus perante esta arrog\u00e2ncia. Os gregos projetavam nos pr\u00f3prios deuses o orgulho que assomava \u00e0 alma dos humanos, eternizando a arrog\u00e2ncia; o cristianismo liberta o homem, confinando ao \u2018territ\u00f3rio\u2019 da hist\u00f3ria o poder do orgulho. Na morte de Jesus Cristo, o Humilde por antonom\u00e1sia, o orgulho \u00e9 derrotado e fica o reconhecimento da condi\u00e7\u00e3o \u2018indigente\u2019 de quem ama: quem ama n\u00e3o \u00e9 orgulhoso, n\u00e3o \u00e9 arrogante \u2013 \u00e9 todo ele abertura ao outro; \u00e9 todo ele acolhimento do outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo sendo altamente sedutora a tese pelagiana, ela n\u00e3o pode vencer: a afirma\u00e7\u00e3o do \u2018pecado original\u2019, clarificada com a pol\u00e9mica entre Agostinho e Pel\u00e1gio, permanece urgente como garante do reconhecimento do limite intr\u00ednseco \u00e0 condi\u00e7\u00e3o criatural, n\u00e3o porque seja desejada por Deus (que, pelo contr\u00e1rio, dela a redime), mas porque, como reconhece Andr\u00e9s Torres Queiruga, n\u00e3o poderia ser de outro modo, dado que, na hist\u00f3ria, o limite \u00e9 intr\u00ednseco<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. Negar o limite, presumindo-se a \u2018ilimitude\u2019 de cada criatura, \u00e9 fonte de males que vitimizam o pr\u00f3prio humano, desumanizando-o\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Regressa, \u00cdcaro, ao ch\u00e3o de que nasceste, porque \u00e9s Ad\u00e3o!<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Sigo a edi\u00e7\u00e3o portuguesa da Ant\u00edgona Editores, publicada em 2020.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Isidro Pereira, <em>Dicion\u00e1rio de grego-portugu\u00eas e portugu\u00eas-grego<\/em>, Braga, Livraria A.I., 1990<sup>8<\/sup>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Cfr. Roque Frangiotti, <em>Hist\u00f3ria das heresias: conflitos ideol\u00f3gicos dentro do cristianismo<\/em>, S\u00e3o Paulo, Paulus, 1995, p. 114.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Paul Ricoeur<em>, o homem fal\u00edvel<\/em>, Lisboa, Edi\u00e7\u00f5es 70, 2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Thomas Hobbes<em>, Leviat\u00e3<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Andr\u00e9s Torres Queiruga<em>, Recuperar a salva\u00e7\u00e3o: por uma interpreta\u00e7\u00e3o libertadora da experi\u00eancia crist\u00e3<\/em>, S\u00e3o Paulo, Paulus, 1999, pp. 97 ss.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> \u2018O pecado de Ad\u00e3o torna-se ao mesmo tempo a figura do drama humano na sua generalidade e a sua representa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica do acontecimento original que \u00e9 seu ponto de partida.\u2019 (Bernard Sesbo\u00fc\u00e9, <em>Hist\u00f3ria dos dogmas, Tomo 2,<\/em> <em>O homem e sua salva\u00e7\u00e3o<\/em>, S. Paulo, Edi\u00e7\u00f5es Loyola, 2003, p. 227)<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;, &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<h5 style=\"text-align: right;\"><i>A Queda de \u00cdcaro |\u00a0<\/i><a title=\"Peter Paul Rubens\" href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Peter_Paul_Rubens\">Peter Paul Rubens [<\/a>1636], <a class=\"new\" title=\"Museu Real de Belas Artes (p\u00e1gina n\u00e3o existe)\" href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/w\/index.php?title=Museu_Real_de_Belas_Artes&amp;action=edit&amp;redlink=1\">Museu Real de Belas Artes<\/a>,\u00a0<a title=\"Bruxelas\" href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Bruxelas\">Bruxelas<\/a><\/h5>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2018Regresso a \u00cdtaca<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":17273,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,177],"tags":[],"class_list":["post-17271","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17271","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17271"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17271\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17274,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17271\/revisions\/17274"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17273"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17271"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17271"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17271"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}