{"id":17000,"date":"2024-02-07T07:00:08","date_gmt":"2024-02-07T07:00:08","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=17000"},"modified":"2024-02-07T08:45:40","modified_gmt":"2024-02-07T08:45:40","slug":"sabes-leitor-2-marca-de-agua-do-livro-de","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/sabes-leitor-2-marca-de-agua-do-livro-de\/","title":{"rendered":"Sabes, leitor&#8230; | 2 | Marca de \u00e1gua do livro de Jean-Fran\u00e7ois Braunstein, &#8216;A religi\u00e3o woke&#8217;"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">Rubrica \u2018Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma p\u00e1gina\u2019** | <em>Marca de \u00e1gua de livros que deixam marcas profundas<\/em><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Parceria:<a href=\"https:\/\/www.federacaopelavida.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> <em>Federa\u00e7\u00e3o Portuguesa pela Vida<\/em><\/a> e<em> Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<pre style=\"padding-left: 80px;\"><strong>O autor e a obra<\/strong><\/pre>\n<h5 style=\"text-align: right;\">Jean-Fran\u00e7ois Braunstein, <em>A religi\u00e3o woke<\/em>, Lisboa, Guerra e Paz editores, 2023.<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao ler-se um livro de Jean-Fran\u00e7ois Braunstein n\u00e3o se espere ficar igual. Os seus livros s\u00e3o sempre marcados pela pol\u00e9mica e pela controv\u00e9rsia. A pergunta que se imp\u00f5e \u00e9, por\u00e9m, a que concerne a tentar perceber os motivos que justificam esta natureza \u2018\u00edgnea\u2019 ou \u2018\u00edgnica\u2019 (como se fossem feitos de fogo\u2026) dos seus livros. E encontro uma resposta: Braunstein, professor na Sorbonne e investigador no laborat\u00f3rio EXeCO (Experi\u00eancia e Conhecimento), decidiu continuar a pensar e p\u00f4r a pensar quem o l\u00ea&#8230; E isso \u00e9 perigoso, em tempos que querem acomodar-nos e formatar-nos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso acontece com este livro. Quem o l\u00ea fica comprometido, porque acaba a pensar\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que \u00e9 um risco. \u00c9 por isso que este \u00e9 um livro candidato \u00e0s novas fogueiras\u2026 Vejamos porqu\u00ea.<\/p>\n<pre style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\"><strong>Marcas de \u00e1gua <\/strong><strong>(o que fica depois de se deixar o livro)<\/strong><\/pre>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018A religi\u00e3o <em>woke\u2019 <\/em>tem muitos m\u00e9ritos, entre os quais merece destaque um, de imediato. Apesar de ser um livro de tese, pois o autor prop\u00f5e-se enfrentar uma quest\u00e3o fundamental e dar-lhe a sua resposta, apesar disto, mesmo que concluamos pela n\u00e3o concord\u00e2ncia com a tese fundamental, permanece a possibilidade da concord\u00e2ncia com todo o caminho percorrido pelo autor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na verdade, Braunstein prop\u00f5e-se responder \u00e0 pergunta sobre os motivos que justificam a milit\u00e2ncia t\u00e3o aguerrida dos defensores do \u2018wokismo\u2019. E formula uma resposta, sustentada na sua vis\u00e3o muito \u2018francesa\u2019 da religi\u00e3o: o \u2018wokismo\u2019 \u00e9 uma religi\u00e3o, com todos os tra\u00e7os que o autor recolhe da sua vis\u00e3o das religi\u00f5es. Estas s\u00e3o proselitistas e esquivam-se \u00e0 l\u00f3gica, sendo que se alicer\u00e7am na convic\u00e7\u00e3o de que, quanto mais absurda for uma ideia, mais digna ser\u00e1 de assentimento, entende Braunstein.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sendo eu um crente, n\u00e3o me reconhe\u00e7o nesta parte da tese, pois se \u00e9 certo que, como ele cita, Tertuliano defendeu que \u2018credo quia absurdum\u2019, a verdade obriga-nos a reconhecer que nem tudo na religi\u00e3o \u00e9 irracionalidade e que, entre as religi\u00f5es, nem tudo \u00e9 igual, sendo que teve mais for\u00e7a e preval\u00eancia do que a ideia tertulianista de que \u2018credo quia absurdum\u2019 a oposta ideia de que \u2018credo ut intelligam\u2019 ou \u2018intelligo quia credo\u2019, bastando constatar o lugar do <em>l\u00f3gos<\/em> e da busca da verdade na experi\u00eancia judaico-crist\u00e3, verific\u00e1vel, por exemplo, no modo como inicia o evangelho de S. Jo\u00e3o: \u2018no princ\u00edpio era o <em>l\u00f3gos\u2019.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A este elemento de tese acrescenta, tamb\u00e9m Braunstein, parte da sua reflex\u00e3o a discutir sobre a influ\u00eancia de pensadores franceses como Derrida ou Foucault na fundamenta\u00e7\u00e3o do pensamento wokismo, decidindo-se pela recusa dessa ideia. Contesto essa conclus\u00e3o, pois considero precisamente o contr\u00e1rio (como n\u00e3o ver na categoria de \u2018diferen\u00e7a\u2019 de Derrida a ideia wokista de aceita\u00e7\u00e3o de todas as diferen\u00e7as sem qualquer ju\u00edzo de valor? Ou como n\u00e3o ver na convic\u00e7\u00e3o de Foucault de que toda a rela\u00e7\u00e3o \u00e9 assente nas l\u00f3gicas de poder a conflitualidade omnipresente do wokismo?), mas n\u00e3o me alongarei na enuncia\u00e7\u00e3o das diverg\u00eancias, pois considero mais interessante para o leitor sublinhar a utilidade da leitura deste livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Feita esta salvaguarda, e assegurada a minha demarca\u00e7\u00e3o desta parte da tese de Braunstein, incidamos, agora, a aten\u00e7\u00e3o nos outros elementos de tese e de conte\u00fado deste livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro \u2018A religi\u00e3o <em>woke<\/em>\u2019 \u00e9 uma fina an\u00e1lise sobre a \u2018onda\u2019 vertiginosa que vem tomando conta da cultura ocidental que se caracteriza por censurar todos os que ousarem contrariar as ideias que se expressam em afirma\u00e7\u00f5es como as que Braunstein enuncia, logo no primeiro par\u00e1grafo da introdu\u00e7\u00e3o: \u2018\u00abOs homens est\u00e3o gr\u00e1vidos\u00bb, \u00abas mulheres t\u00eam p\u00e9nis\u00bb, \u00abas mulheres trans s\u00e3o mulheres\u00bb, \u00abtodos os brancos s\u00e3o racistas\u00bb, \u00abtodos os negros s\u00e3o v\u00edtimas\u00bb, \u00abse afirmares que n\u00e3o \u00e9s racista, isso significa que \u00e9s\u00bb, \u00aba biologia \u00e9 virilista\u00bb, \u00aba matem\u00e1tica \u00e9 racista\u00bb, \u00abChurchill \u00e9 racista\u00bb, \u00abSchoelcher \u00e9 esclavagista\u00bb [\u2026]\u2019 (p. 13)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como sublinha o autor, a simples enuncia\u00e7\u00e3o das afirma\u00e7\u00f5es deveria ser suficiente para nos apercebermos do seu absurdo, mas a vertigem atual obnubilou os esp\u00edritos, apagando a l\u00f3gica, que \u00e9 considerada racista (por exigir a correspond\u00eancia aos limites que ela mesma imp\u00f5e), e criando um clima de medo que silencia quem se lhe op\u00f5e.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O autor descreve muitas situa\u00e7\u00f5es de cancelamento, enuncia a amplitude do \u2018movimento\u2019 que n\u00e3o se basta em reivindicar terreno pr\u00f3prio e aut\u00f3nomo, mas que quer educar toda a sociedade, a come\u00e7ar pelos mais pequenos, mas tamb\u00e9m descreve como dever\u00edamos opor-nos, apresentando exemplos bem-sucedidos de iniciativas que permitiram ridicularizar o absurdo de toda esta onda tenebrosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O autor \u00e9 claro na afirma\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 um excesso que se baseia na leg\u00edtima pretens\u00e3o de supera\u00e7\u00e3o do que \u00e9 injusto, mas criando novas injusti\u00e7as por reivindicar legitimidade para pretens\u00f5es n\u00e3o leg\u00edtimas (como a de pretender normalizar as disforias de tipo gn\u00f3stico que relativizam o corpo e cria dissocia\u00e7\u00e3o entre a pessoa como um todo e o seu pr\u00f3prio corpo \u2013 como se este fosse um estranho).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Braunstein vinca que o ponto fulcral do \u2018wokismo\u2019 (cujo conceito detalha com pormenor, descrevendo a origem do termo (\u2018woke\u2019 como \u2018o acordado, o iluminado\u2019) e a evolu\u00e7\u00e3o do conceito \u2013 que come\u00e7a por ter um sentido favor\u00e1vel, mas que hoje \u00e9 uma designa\u00e7\u00e3o com conota\u00e7\u00e3o negativa) \u00e9 a teoria de g\u00e9nero, cujo desenvolvimento \u00e9 analisado com fundamenta\u00e7\u00e3o e muita informa\u00e7\u00e3o \u00fatil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reconhecendo esta centralidade da teoria de g\u00e9nero (que dissociou sexo e g\u00e9nero e transferiu o g\u00e9nero para o \u00e2mbito do constructo mental, individualista e radicalmente solipsista), o autor analisa, ainda, como o wokismo se afirma como sendo \u2018anti-racista\u2019, promovendo, por\u00e9m, novos racismos que alimentam o seu combate \u2018anti-racista\u2019. Elucidativo do facto de se tratar de um movimento autof\u00e1gico est\u00e1 a afirma\u00e7\u00e3o de que se algu\u00e9m \u00e9 branco e homem e n\u00e3o se reconhece como racista, ent\u00e3o, \u00e9 porque \u00e9 mesmo racista, numa circularidade de pensamento que n\u00e3o deixa margem para a leg\u00edtima dist\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o ao conflito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Anote-se, com efeito, que a leitura atenta deste livro nos leva ao reconhecimento de que estamos perante um vertiginoso movimento que se sustenta na ideia radical de que toda a rela\u00e7\u00e3o humana se baseia na \u2018luta de classes\u2019, no conflito permanente, promovendo a litigiosidade e a dissens\u00e3o gratuita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma ideia de sociedade que todos dever\u00edamos interrogar-nos sobre se \u00e9 o que pretendemos construir\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O repto de Braunstein est\u00e1 em que se recupere a genu\u00edna busca da verdade, partilhada e discutida, mas respeitadora e aberta, sublinhando, para isso, o mesmo autor que se deve esperar das universidades (onde este movimento, com origem nos pa\u00edses anglo-sax\u00f3nicos e, em particular, nos Estados Unidos, est\u00e1 a implantar-se de modo quase intrav\u00e1vel) que resistam, como reduto do conhecimento e da procura da verdade, e, por isso, lugar da aut\u00eantica liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sim, \u2018a religi\u00e3o woke\u2019 \u00e9 uma ode \u00e0 liberdade, quando tantas novas fogueiras cens\u00f3rias se voltaram a acender, por efeito deste wokismo. Os tempos exigem ousadia e resist\u00eancia para que n\u00e3o acabemos num tempo em que n\u00e3o restem sen\u00e3o cinzas\u2026<\/p>\n<pre style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\"><strong>Na mesma p\u00e1gina que o autor (cita\u00e7\u00f5es)<\/strong><\/pre>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018\u00abOs homens est\u00e3o gr\u00e1vidos\u00bb, \u00abas mulheres t\u00eam p\u00e9nis\u00bb, \u00abas mulheres trans s\u00e3o mulheres\u00bb, \u00abtodos os brancos s\u00e3o racistas\u00bb, \u00abtodos os negros s\u00e3o v\u00edtimas\u00bb, \u00abse afirmares que n\u00e3o \u00e9s racista, isso significa que \u00e9s\u00bb, \u00aba biologia \u00e9 virilista\u00bb, \u00aba matem\u00e1tica \u00e9 racista\u00bb, \u00abChurchill \u00e9 racista\u00bb, \u00abSchoelcher \u00e9 esclavagista\u00bb, etc. Este tipo de proclama\u00e7\u00f5es surpreende pela sua faceta absurda. Todavia, s\u00e3o elas que formam os enunciados de base do pensamento <em>woke<\/em>, aquele pensamento \u00abiluminado\u00bb que tende a impor-se em todas as sociedades ocidentais. Assenta em teorias como a \u00abteoria de g\u00e9nero\u00bb, a \u00abteoria cr\u00edtica da ra\u00e7a\u00bb ou a \u00abteoria interseccional\u00bb, que se tornaram verdades puras nas nossas universidades. Os <em>wokes<\/em> explicam que o g\u00e9nero \u00abse escolhe\u00bb e que tudo o que conta \u00e9 a nossa consci\u00eancia de sermos homem ou mulher ou qualquer outra coisa que seja. A ra\u00e7a volta a ser um determinante essencial das nossas exist\u00eancias em sociedade: os brancos ser\u00e3o, por defini\u00e7\u00e3o, racistas, e os \u00abracizados\u00bb jamais o poder\u00e3o ser. Quanto \u00e0 interseccionalidade, trata-se de uma \u00abferramenta\u00bb para potenciar todas as identidades vitim\u00e1rias e apelar \u00e0 luta contra o respons\u00e1vel por estas discrimina\u00e7\u00f5es. Respons\u00e1vel esse que j\u00e1 est\u00e1 mais do que encontrado: \u00e9 o homem branco ocidental heterossexual, por defini\u00e7\u00e3o sexista, racista e colonialista, sendo o \u00abperfeito bode expiat\u00f3rio\u00bb.\u2019 (Introdu\u00e7\u00e3o, p. 13)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Os atividades <em>woke<\/em>, transformados em professores, s\u00e3o militantes entusiastas, cujo fito \u00e9 formar a humanidade nova que \u00e9 pregada pela religi\u00e3o <em>woke<\/em>: ensinam \u00e0s crian\u00e7as, desde a escola prim\u00e1ria e sem o consentimento dos pais, que o g\u00e9nero \u00abse escolhe\u00bb e que nada tem que ver com o corpo. Ensinam aos alunos brancos que s\u00e3o necessariamente racistas e aos alunos \u00abracizados\u00bb que, do mesmo modo, mecanicamente, s\u00e3o v\u00edtimas.\u2019 (Introdu\u00e7\u00e3o, p. 14)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Diante desta vaga de irracionalidade que arrasta tudo \u00e0 sua passagem, ficamos tentados a nos limitarmos a \u00abrir\u00bb ou \u00abchorar\u00bb, mas \u00e9 conveniente, segundo o imperativo de Espinosa, esfor\u00e7armo-nos por \u00abcompreender\u00bb o que est\u00e1 a acontecer diante dos nossos olhos. Isto parece-me tanto mais urgentes porque estas teorias est\u00e3o constantemente a ganhar terreno, ainda que o seu patente car\u00e1cter absurdo as pudesse ter desqualificado h\u00e1 muito tempo. J\u00e1 n\u00e3o basta exaltarmo-nos, sendo pelo contr\u00e1rio necess\u00e1rio tentar compreender as raz\u00f5es do seu \u00eaxito. O mais espantoso n\u00e3o \u00e9, com efeito, o facto de meia d\u00fazia de entusiastas professar teorias extravagantes, \u00e9 o facto de estar encontrarem um enorme eco e se propagarem a uma velocidade exponencial. Podemos, infelizmente, pressupor que estas ideias n\u00e3o est\u00e3o destinadas a desaparecer t\u00e3o cedo.\u2019 (Introdu\u00e7\u00e3o, p. 15)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] Gad Saad, professor na Universidade Concordia, em Montr\u00e9al, diagnostica que o wokismo \u00e9 uma esp\u00e9cie de \u00abparasita\u00bb que atinge as mentes [\u2026] Saad atribui ali\u00e1s um nome humor\u00edstico a esta nova doen\u00e7a. A \u00abs\u00edndrome parasit\u00e1ria da avestruz [\u2026] \u00e9 \u00abuma doen\u00e7a do pensamento desordenado que priva as pessoas da sua capacidade de reconhecer verdades t\u00e3o evidentes como a exist\u00eancia do Sol\u00bb.\u2019 (Introdu\u00e7\u00e3o, p. 16)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Podemos, evidentemente, recordar a profunda observa\u00e7\u00e3o de George Orwell: \u00ab\u00c9 preciso ser intelectual para escrever tais coisas: uma pessoa comum n\u00e3o poderia jamais alcan\u00e7ar uma tal palermice.\u00bb\u2019 (Introdu\u00e7\u00e3o, p. 17)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Como resume muito brutalmente um dos agressores de Bret Weinstein, o \u00fanico professor da Universidade de Evergreen, nos Estados Unidos, que teve a coragem de resistir a estes militantes e que tentava cham\u00e1-los \u00e0 raz\u00e3o: \u00abP\u00e1ra de argumentar, a l\u00f3gica \u00e9 racista.\u00bb Esta afirma\u00e7\u00e3o resume o radicalismo de um movimento inacess\u00edvel \u00e0 raz\u00e3o.\u2019 (Introdu\u00e7\u00e3o, p. 17)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018\u00c9 o car\u00e1cter brutal e irracional destas escolhas que permite entrever uma outra explica\u00e7\u00e3o. Ocorreu-me subitamente que, se estes professores universit\u00e1rios aderem a tais teorias, n\u00e3o \u00e9 <em>apesar<\/em> de serem absurdas, mas precisamente <em>porque <\/em>s\u00e3o absurdas.\u2019 (Introdu\u00e7\u00e3o, p. 21)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] a teoria de g\u00e9nero n\u00e3o \u00e9 uma categoria do pensamento <em>woke<\/em> entre outras, mas \u00e9 o seu \u00e2mago, a primeira descoberta, que abre a via a todos os assaltos \u00e0 ci\u00eancia, contra a verdade e contra a pr\u00f3pria realidade. As outras componentes da ideologia <em>woke<\/em>, as teorias da ra\u00e7a e da interseccionalidade, com, em Fran\u00e7a, as suas variantes indigenistas e decoloniais, s\u00e3o apenas acess\u00f3rios relativamente \u00e0 teoria de g\u00e9nero, que \u00e9 o verdadeiro mist\u00e9rio, em sentido religioso, desta nova religi\u00e3o.\u2019 (Introdu\u00e7\u00e3o, pp. 22-23)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018\u00c0 atra\u00e7\u00e3o por propostas paradoxais acrescenta-se o sentimento de fazer parte de um grupo de \u00abeleitos\u00bb chamados a reconstruir o mundo de acordo com a nova doutrina.\u2019 (Introdu\u00e7\u00e3o, p. 23)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O cariz muito intolerante da religi\u00e3o <em>woke<\/em> e a sua recusa em abordar aqueles que n\u00e3o partilham o seu ponto de vista, a sua aus\u00eancia de transcend\u00eancia, fazem com que se assemelhe, mais precisamente, para j\u00e1, a uma seita de dimens\u00e3o pol\u00edtica e social. N\u00e3o \u00e9 um panorama muito encorajador, na medida em que \u00e9 extremamente dif\u00edcil combater tais movimentos: os argumentos n\u00e3o t\u00eam influ\u00eancia nos seus membros, e a pr\u00f3pria realidade n\u00e3o basta para invalidar as suas cren\u00e7as.\u2019 (Introdu\u00e7\u00e3o, p. 24)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O termo <em>woke <\/em>\u00e9 mais ajustado do que a express\u00e3o \u00abpoliticamente correto\u00bb, usada nos anos 1980 para descrever as correntes de pensamento que anunciavam estas ideologias. Contudo, \u00abpoliticamente correto\u00bb era uma express\u00e3o essencialmente pejorativa, a que recorriam aqueles que se opunham \u00e0s tentativas progressistas de ent\u00e3o de controlar a linguagem e evitar express\u00f5es \u00abdiscriminat\u00f3rias\u00bb. Pelo contr\u00e1rio, o termo <em>woke<\/em> tem a vantagem de n\u00e3o ter sido inicialmente depreciativo, pelo contr\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi por vezes usada uma outra denomina\u00e7\u00e3o para designar estes militantes identit\u00e1rios, a de \u00abguerreiros da justi\u00e7a social\u00bb (SJW, <em>social justice warriors<\/em>). Esta reflete o car\u00e1ter militante dos <em>wokes<\/em> e o facto de, para estes, que maioritariamente come\u00e7aram por ser estudantes, as universidades n\u00e3o deverem visar a procura da verdade, mas sim estabelecer uma verdadeira \u00abjusti\u00e7a social\u00bb, inclusivamente com recurso a meios coercitivos. \u00c9, contudo, evidente que a express\u00e3o \u00abjusti\u00e7a social\u00bb n\u00e3o est\u00e1 adaptada ao papel central que os militantes <em>woke<\/em> atribuem \u00e0s no\u00e7\u00f5es de g\u00e9nero e de ra\u00e7a, ao passo que a quest\u00e3o social \u00e9 substancialmente deixada de lado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma terceira express\u00e3o por vezes utilizada para designar a doutrina destes militantes <em>woke<\/em> \u00e9 <em>cancel culture<\/em>, \u00abcultura de anula\u00e7\u00e3o\u00bb ou de \u00abcancelamento\u00bb. Faz refer\u00eancia, neste caso tamb\u00e9m pejorativamente, n\u00e3o ao conte\u00fado, mas ao seu m\u00e9todo de a\u00e7\u00e3o. Este h\u00e1bito de \u00abcancelar\u00bb os advers\u00e1rios \u00e9 efetivamente um dos aspetos mais caracter\u00edsticos e mais detest\u00e1veis deste movimento. Esta vontade de aniquilar e de eliminar os advers\u00e1rios evoca necessariamente a forma como os \u00abinimigos do povo\u00bb iam sendo gradualmente apagados das fotografias sovi\u00e9ticas. Al\u00e9m do m\u00e9todo, esta no\u00e7\u00e3o de <em>cancel culture<\/em> n\u00e3o permite saber que ideias os <em>wokes<\/em> querem verdadeiramente promover.\u2019 (Pp. 27-28)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018<em>Woke<\/em>, na linguagem popular afro-americana, foi criado a partir de <em>woken<\/em>, o partic\u00edpio passado do verbo <em>wake<\/em>, despertar. Esta ideia de despertar ganhou muito rapidamente um sentido pol\u00edtico.\u2019 (p. 28)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O temo <em>woke <\/em>acabar\u00e1 por assumir um sentido mais pol\u00edtico com o \u00eaxito musical da <em>rapper<\/em> Erykah Badu, \u00abMaster Teacher\u00bb, em 2008 [\u2026] Poder\u00edamos ent\u00e3o traduzir o termo <em>woke<\/em> mais precisamente por \u00abconsciente\u00bb, \u00abinformado\u00bb acerca dos assuntos pol\u00edticos e sociais, ou at\u00e9, numa linguagem mais militante, \u00abconscientizado\u00bb. (P. 29)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] h\u00e1 outro termo que seria adequado para designar os militantes <em>woke<\/em>, o de \u00abeleitos\u00bb. [\u2026] Este car\u00e1ter muito elitista do movimento <em>woke<\/em> foi muito bem descrito por Rob Henderson, um jovem doutorando proveniente de um meio muito desfavorecido [\u2026] Foi esta exterioridade relativamente ao mundo das universidades de elite que o colocou no caminho de um conceito luminoso, o das \u00abcren\u00e7as de luxo\u00bb. Ele exp\u00f5e aquilo que entende por esta ideia: \u00abNo passado, os americanos de classe superior ostentavam o seu estatuto social com produtos de luxo. \u00c0 medida que os produtos de luxo se tornam mais acess\u00edveis, as elites precisam de encontrar uma outra forma de ostentar o seu estatuto social, e fazem-no com as suas \u201ccren\u00e7as de luxo\u201d [\u2026]. S\u00e3o ideias e opini\u00f5es que conferem um estatuto aos ricos em troca de pouco esfor\u00e7o, devastando a classe inferior.\u00bb Ao defenderem teses paradoxais, as classes superiores conseguem distinguir-se das classes inferiores. Henderson toma como exemplo uma colega, que lhe explicava que \u00abo casamento monog\u00e2mico est\u00e1 ultrapassado\u00bb. Tirando o facto de ela pr\u00f3pria ser origin\u00e1ria de uma fam\u00edlia tradicional e pretender tamb\u00e9m constituir uma fam\u00edlia monog\u00e2mica. Mas esta ideia de que \u00abo casamento monog\u00e2mico est\u00e1 ultrapassado\u00bb, quando se disseminou nas classes populares, conduziu \u00e0 explos\u00e3o do n\u00famero de nascimentos fora do casamento e \u00e0 multiplica\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias monoparentais entre os negros pobres, com as consequ\u00eancias dram\u00e1ticas que conhecemos, no plano do abandono escolar e da criminalidade.\u2019 (P. 37)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Atualmente, a universidade est\u00e1 a fabricar a sua pr\u00f3pria religi\u00e3o. O conte\u00fado da doutrina <em>woke<\/em>, quer se trate da teoria de g\u00e9nero, da teoria cr\u00edtica da ra\u00e7a ou da interseccionalidade, s\u00e3o \u00abestudos\u00bb de todo o tipo, que se converteram no \u00e2mago das atividades universit\u00e1rias atuais, e as velhas \u00abdisciplinas\u00bb cedem-lhes progressivamente o lugar. A pluralidade dos pontos de vista e a argumenta\u00e7\u00e3o racional j\u00e1 a\u00ed n\u00e3o s\u00e3o aceites, j\u00e1 que o unanimismo \u00e9 lei.\u2019 (p. 38)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O argumento da autoridade cient\u00edfica \u00e9 uma arma de for\u00e7a excecional para impor estas ideias absurdas ou perigosas, que ser\u00e3o deste modo validadas pela \u00abci\u00eancia\u00bb. Por exemplo, a ideia de que o sexo \u00e1 \u00abatribu\u00eddo\u00bb arbitrariamente \u00e0 nascen\u00e7a ou de que a biologia n\u00e3o \u00e9 uma ci\u00eancia ser\u00e1 assim validade pela \u00abci\u00eancia\u00bb que se arrogam ser os \u00abEstudos de G\u00e9nero\u00bb. [\u2026] Cobre os seus dogmas com as vestes de garantia da universidade tradicional. \u00c9 por este motivo que os <em>wokes<\/em>, neste momento, se deleitam incessantemente com designa\u00e7\u00f5es como \u00abci\u00eancia\u00bb, \u00abepistemologia\u00bb, \u00abperitos\u00bb e outros \u00abespecialistas\u00bb. D\u00e1 um ar s\u00e9rio \u00e0 coisa. Basta encontrar um qualquer professor, da Sorbonne ou outra, que afirme que \u00e9 preciso indemnizar os descendentes de escravos ou que o g\u00e9nero por ser mudado \u00e0 vontade de cada um, para que os deputados proponham uma mudan\u00e7a da lei neste sentido ou que um ministro da Educa\u00e7\u00e3o franc\u00eas recomende um \u00abacompanhamento\u00bb das transi\u00e7\u00f5es de g\u00e9nero dos alunos.\u2019 (p. 41-42)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Para explicar este falso \u00abatestado de cientificidade\u00bb que a universidade confere ao militantismo <em>woke<\/em>, Bret Weinstein, o professor de Biologia que foi o \u00fanico a opor-se \u00e0 tomada do poder pelos <em>wokes<\/em> na sua Universidade de Evergreen, arranjou uma f\u00f3rmula muito bem conseguida. Explicou que a universidade, atualmente, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 um local de elabora\u00e7\u00e3o e transmiss\u00e3o de conhecimentos, mas antes uma oficina de \u00abbranqueamento de ideias\u00bb (idea laundering). A\u00ed se faz uma lavagem das ideias do mesmo modo que, ali\u00e1s, se \u00ablava\u00bb dinheiro sujo.\u2019 (p. 42)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O mais caracter\u00edstico desta religi\u00e3o <em>woke<\/em> \u00e9 o facto de ser \u00absem perd\u00e3o\u00bb.\u2019 (p. 47)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O zelo chega por vezes muito longe, como no caso em que a Universidade de Wisconsin-Madison, a pedido de um associa\u00e7\u00e3o de estudantes negros e de uma organiza\u00e7\u00e3o amer\u00edndia, mandou remover, em Agosto de 2021, um rochedo de 10 toneladas, a pretexto de ter sido designado, uma vez, em 1925, num artigo do <em>Wisconsin State Journal, <\/em>por \u00abcabe\u00e7a de negro\u00bb, numa \u00e9poca em que o Ku Klux Klan estaria presente no <em>campus.<\/em>\u2019 (P. 57)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Nas universidades, em particular, estamos em tempo de reescrita da hist\u00f3ria e de apagamento dos seus \u00abmomentos obscuros\u00bb. A heran\u00e7a pr\u00e9-<em>woke<\/em> deve ser totalmente reescrita. \u00c9 preciso expurgar a cultura e a universidade de todos os vest\u00edgios de privil\u00e9gio branco ou masculino para recome\u00e7ar do zero e reconstruir uma nova cultura, virgem de qualquer opress\u00e3o. Daqui decorre a vontade de acabar com todas as disciplinas brancas e virilistas, isto \u00e9, com mais ou menor toda a heran\u00e7a da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental: fim \u00e0s humanidades gregas e romanas, fim \u00e0 m\u00fasica ou \u00e0 dan\u00e7a cl\u00e1ssicas, fim \u00e0 pintura e \u00e0 literatura virilistas, fim \u00e0 ci\u00eancia e \u00e0 filosofia brancas.\u2019 (P. 57)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Do lado dos te\u00f3ricos de g\u00e9nero mais radicais, como Donna Haraway, n\u00e3o h\u00e1 sequer de todo um futuro para a humanidade. Segundo ela, a humanidade deve aspirar apenas a desaparecer. [\u2026] A humanidade deve, por conseguinte, parar. Para alguns GINK (<em>Green Inclination No Kids)<\/em>, a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o para salvar o planeta \u00e9, com efeito, deixar de fazer beb\u00e9s.\u2019 (P. 59)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O termo que surgiu para designar este <em>wokes<\/em> fr\u00e1geis \u00e9 o de \u00abflocos de neve\u00bb. [\u2026] Este termo \u00abflocos de neve\u00bb \u00e9, efetivamente, certeiro. Estes jovens flocos de neve acham-se todos excecionais e iluminados, ignorantes que s\u00e3o da hist\u00f3ria e da literatura. Consideram-se muito belos, muito puros, muito luminosos. Acham-se todos singulares quando, na verdade, n\u00e3o s\u00e3o em nada diferentes uns dos outros. . E, como flocos de neve, podem constituir, todos juntos, uma massa indiferenciada que, por vezes, se revela bastante pesada e dif\u00edcil de movimentar. Mas, felizmente, est\u00e3o tamb\u00e9m sujeitos a derreter-se muito rapidamente sob o efeito do sol.\u2019 (P. 64)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O primeiro autor que usou, em 1955, o termo \u00abg\u00e9nero\u00bb no seu sentido contempor\u00e2neo foi o psic\u00f3logo John Money. [\u2026] Segundo ele, deveria ser poss\u00edvel modelar a identidade sexual da crian\u00e7a, qualquer que seja o seu sexo biol\u00f3gico de nascen\u00e7a, em fun\u00e7\u00e3o da maneira como for educada. Money teria ocasi\u00e3o de verificar as suas teorias quando os pais de um rapaz, cujo sexo foi cortado numa opera\u00e7\u00e3o malsucedida, v\u00eam ter com ele e lhe perguntam se, se o criassem como uma menina, n\u00e3o seria poss\u00edvel transform\u00e1-lo numa menina. Money explica-lhe que \u00e9 perfeitamente poss\u00edvel, na condi\u00e7\u00e3o de agirem muito depressa, antes dos dois anos e meio ou tr\u00eas anos de idade. Os pais aceitam. Money fica entusiasmado com este caso, ainda mais porque o rapaz, David Reimer, tem um irm\u00e3o g\u00e9meo, o que lhe poder\u00e1 permitir fazer compara\u00e7\u00f5es rigorosas sobre a evolu\u00e7\u00e3o das sexualidades. Money acompanha esta crian\u00e7a durante alguns anos e publica um livro em que relata o \u00eaxito total da sua experi\u00eancia com este jovem David, que ele torna num exemplo perfeito que valida a no\u00e7\u00e3o de g\u00e9nero. O <em>New York Times<\/em> considera ent\u00e3o que Money demonstrou que a cultura se sobrep\u00f5e \u00e0 natureza: \u00abSe dissermos a um rapaz que \u00e9 uma rapariga e se o educarmos como uma mulher, ele ir\u00e1 comportar-se como uma mulher.\u00bb Os pensadores do g\u00e9nero saudaram elogiosamente o trabalho de Money. Para Beatriz Preciado: \u00abMoney est\u00e1 para a hist\u00f3ria da sexualidade o que Hegel est\u00e1 para a hist\u00f3ria da filosofia e Einstein para o conceito de espa\u00e7o-tempo. O princ\u00edpio do fim, a explos\u00e3o do sexo-natureza, da natureza-hist\u00f3ria, do tempo e do espa\u00e7o como linearidade e extens\u00e3o.\u00bb [\u2026]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ui! Esta tentativa foi um fracasso em toda a linha e uma comprovada fraude cient\u00edfica: a crian\u00e7a continuou a fazer brincadeiras de rapaz, a comportar-se como um rapaz, a sentir-se um rapaz. David Reimer recusa-se cada vez mais a ir \u00e0s consultas m\u00e9dicas de Money, que o pressiona para que fa\u00e7a a opera\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7a de sexo, contra a sua vontade. David s\u00f3 acabaria por conseguir interromper o tratamento mediante a amea\u00e7a de se suicidar. O que Money apresentava como um \u00eaxito emblem\u00e1tico era, na verdade, um fracasso e uma fraude cient\u00edficos, mas tamb\u00e9m um esc\u00e2ndalo deontol\u00f3gico, j\u00e1 que tinha exercido fortes press\u00f5es sobre esta crian\u00e7a [David Reimer] na tentativa de validar a sua teoria. O jovem David acabaria por se suicidar alguns anos mais tarde, depois de ter tentado, em v\u00e3o, com uma opera\u00e7\u00e3o, recuperar o seu sexo de nascen\u00e7a, aquele sexo masculino que ele n\u00e3o queria abandonar. Money, por seu lado, reconheceu o erro cient\u00edfico e as suas falhas deontol\u00f3gicas e limitou-se a acusar os seus advers\u00e1rios de serem reacion\u00e1rios.\u2019 (Pp. 74-75)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018\u2019A partir daqui, o conceito de g\u00e9nero, definido como um sentimento distinto do sexo biol\u00f3gico, ir\u00e1 cada vez mais autonomizar-se, at\u00e9 pesar mais do que o sexo. Money foi, efetivamente, nada mais do que o iniciador desta revolu\u00e7\u00e3o de g\u00e9nero, que vai continuar o seu caminho, independentemente do fracasso do seu inventor, acabando por conduzir progressivamente a uma verdadeira evapora\u00e7\u00e3o do corpo.\u2019 (p. 76)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Para Judith Butler, \u00e9 tamb\u00e9m o g\u00e9nero que tem a primazia sobre o sexo. Contudo, Butler vai ainda mais longe do que os seus antecessores: j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 apenas a exist\u00eancia do sexo que \u00e9 colocada em causa, mas tamb\u00e9m a exist\u00eancia do corpo. O corpo, para ela, n\u00e3o tem realidade objetiva.\u2019 (P. 77)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018A teoria de g\u00e9nero assemelha-se [\u2026] muito \u00e0 gnose, aquela heresia crist\u00e3 do s\u00e9culo II que considerava que o corpo, tal como o mundo material, \u00e9 o mal de que temos de nos libertar. Como observou Bruno Chaouat, o movimento transg\u00e9nero recupera efetivamente a utopia gn\u00f3stica: \u00abEncontramos no indiv\u00edduo trans (aqui no sentido de transg\u00e9nero, mas tamb\u00e9m de transhumano) esta experi\u00eancia de um corpo distinto de mim e que \u00e9 preciso negar e superar, ou substituir. O inc\u00f3modo do corpo reflete assim o mart\u00edrio do mundo.\u2019 (P. 79)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Segundo Stock, o g\u00e9nero \u00e9 uma \u00abilus\u00e3o\u00bb, e a cren\u00e7a na possibilidade de existirem trans, que teriam \u00abmudado de g\u00e9nero\u00bb, mantendo-se no mesmo corpo, pressup\u00f5e a ades\u00e3oa\u00a0 um verdadeiro \u00abmundo imagin\u00e1rio\u00bb.\u2019 (P. 83)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] como sublinhou muito bem Helen Joyce, se suprimirmos tudo o que comp\u00f5e a defini\u00e7\u00e3o habitual do que \u00e9 uma mulher, se suprimirmos, em particular, tudo o que constitui a sua identidade sexual, mesmo se mantivermos este termo de \u00abmulher\u00bb, j\u00e1 n\u00e3o far\u00e1 mais sentido nenhum que seja intelig\u00edvel. \u00abFicamos com uma palavra esvaziada do seu significado objetivo \u2013 uma palavra que s\u00f3 pode ser definida utilizando a pr\u00f3pria palavra, ou seja, atrav\u00e9s de uma defini\u00e7\u00e3o circular: \u201cUma mulher \u00e9 qualquer pessoa que queira ser uma mulher.\u201d\u00bb Mas isto n\u00e3o nos diz nada sobre o que \u00e9 uma mulher. Joyce sugere experimentar outra coisa: \u00abExperimentem \u201cum squawm\u201d \u00e9 qualquer pessoa que se identifica como um \u201csquawm\u201d, ou \u201ctodos os lazap\u201d s\u00e3o \u201clazap\u201d. Agora j\u00e1 saber\u00e3o dizer o que \u00e9 um squawm ou um lazap?\u00bb. A destrui\u00e7\u00e3o da linguagem comum \u00e9 uma das consequ\u00eancias, se n\u00e3o for mesmo um dos objetivos, do projeto trans.\u2019 (P. 89)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Para colocar em pr\u00e1tica na perfei\u00e7\u00e3o este mundo do g\u00e9nero, ser\u00e1 preciso que a medicina apague a exist\u00eancia de um sexo masculino e de um sexo feminino. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 conveniente fazermos refer\u00eancia ao sexo do rec\u00e9m-nascido, mas sim ao \u00absexo atribu\u00eddo \u00e0 nascen\u00e7a\u00bb. Esta f\u00f3rmula tende a generalizar-se, apesar de ser absurda: como o sexo masculino ou feminino n\u00e3o fosse, na quase totalidade dos casos, evidente \u00e0 nascen\u00e7a. Este termo \u00abatribui\u00e7\u00e3o\u00bb quer fazer crer que existe a possibilidade de escolha social, uma decis\u00e3o arbitr\u00e1ria, e n\u00e3o uma simples observa\u00e7\u00e3o. E permite dar tamb\u00e9m a entender que existe uma limita\u00e7\u00e3o do ponto de vista daquele a quem este sexo \u00e9 atribu\u00eddo. A escolha do sexo seria ent\u00e3o arbitr\u00e1ria e imposta \u00e0 crian\u00e7a que acaba de nascer, e algumas crian\u00e7as poder\u00e3o ver-lhes atribu\u00eddo, contra a sua vontade, este ou aquele sexo. [\u2026] Como se o sexo da crian\u00e7a n\u00e3o pudesse ser determinado antes do nascimento, na ecografia ou mediante uma simples colheita de sangue e um teste gen\u00e9tico. Como se as parteiras e os obstetras, e tamb\u00e9m os pais, n\u00e3o soubessem que as coisas n\u00e3o acontecem assim. \u2018 (Pp. 89-90)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018As consequ\u00eancias destas tentativas de fazer desaparecer as mulheres fazem-se sentir ao mais alto n\u00edvel. Durante o procedimento de confirma\u00e7\u00e3o, pelo Senado, da nomea\u00e7\u00e3o de Ketanji Brown Jackson como ju\u00edza do Supremo Tribunal dos Estados Unidos, em Mar\u00e7o de 2022, uma senadora, por ocasi\u00e3o de uma discuss\u00e3o sobre o ensino do g\u00e9nero, perguntou-lhe se podia \u00abdizer a defini\u00e7\u00e3o da palavra \u201cmulher\u201d\u00bb. A ju\u00edza, desconcertada, respondeu: \u00abN\u00e3o posso faz\u00ea-lo\u00bb, e depois acrescentou: \u00abN\u00e3o neste contexto, n\u00e3o sou bi\u00f3loga.\u00bb A senadora n\u00e3o ficou convencida com esta resposta, que, segundo ela, ilustra os perigos de uma educa\u00e7\u00e3o <em>woke<\/em>. A mulher torna-se algo misterioso e que s\u00f3 se poderia definir ap\u00f3s estudos cient\u00edficos muito aprofundados. O sentido corrente da palavra \u00abmulher\u00bb parece ter-se definitivamente perdido. A ironia da hist\u00f3ria reside no facto de a ju\u00edza Brown Jackson se ter regozijado aquando destas audi\u00e7\u00f5es por ser a primeira \u00abmulher\u00bb negra candidata ao Supremo Tribunal e ter usado este termo 14 vezes em dois dias de audi\u00e7\u00f5es. Mas como pode ela utilizar uma palavra cujo significado desconhece? Se quisermos evitar discrimina\u00e7\u00f5es contra as mulheres, n\u00e3o ser\u00e1 necess\u00e1rio saber o que \u00e9 uma mulher? Quest\u00f5es dif\u00edceis para uma ju\u00edza do Supremo Tribunal americano que n\u00e3o \u00e9 bi\u00f3loga.\u2019 (Pp. 94-95)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Com o g\u00e9nero, lidamos pela primeira vez com o desenvolvimento de uma esp\u00e9cie de solipsismo radical que promove a ideia de que existem apensar consci\u00eancias, mas tamb\u00e9m de que estas consci\u00eancias fabricam o mundo. E este solipsismo torna-se numa ilus\u00e3o de massas, encorajada pelo desenvolvimento da vida virtual.\u2019 (p. 101)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O mundo torna-se assim numa ilus\u00e3o e, para quem continua ligado \u00e0 realidade, um verdadeiro caos, tanto mais que estas identidades ser\u00e3o permanentemente sujeitas a revis\u00e3o: a fluidez do g\u00e9nero implica que possamos ser isto ou aquilo ou ainda outra coisa, de um dia para o outro. O que, at\u00e9 recentemente, apelid\u00e1vamos de del\u00edrio ou perturba\u00e7\u00e3o da personalidade torna-se hoje em dia numa \u00abidentidade fluida\u00bb.\u2019 (p. 101)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Esta perda de contacto com o real n\u00e3o tem por \u00fanica consequ\u00eancia a diminui\u00e7\u00e3o da nossa sensibilidade e a nossa capacidade de sentir a beleza e a diversidade do mundo. As nossas intera\u00e7\u00f5es, por vezes \u00e1speras, com o mundo real levavam-nos a apreciar a nossa depend\u00eancia do mundo e a nossa relativa capacidade de a superar. Estas intera\u00e7\u00f5es eram simultaneamente uma escola de aten\u00e7\u00e3o ao particular e \u00e0 diversidade do mundo, um encorajamento \u00e0 assun\u00e7\u00e3o de riscos e \u00e0 coragem, e permitiam-nos apreciar a nossa liberdade que era continuamente posta \u00e0 prova nesta rela\u00e7\u00e3o com o mundo. O real existe e, quando nos afastamos demasiado, perdemos o controlo da nossa pr\u00f3pria vida, de uma vida verdadeiramente humana. Diante do nosso ecr\u00e3, todos estes valores est\u00e3o em vias de desaparecer rapidamente.\u2019 (Pp. 104-105)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O outro t\u00f3pico que inflama os <em>wokes<\/em> \u00e9 o da ra\u00e7a. Tamb\u00e9m neste caso se faz quest\u00e3o de exacerbar as clivagens na sociedade. Tamb\u00e9m neste caso as propostas contradit\u00f3rias s\u00e3o a norma. Os militantes <em>wokes<\/em> apresentam-se como \u00abanti-racistas\u00bb, mas sobretudo n\u00e3o querem acabar com a obsess\u00e3o da ra\u00e7a, algo que permanece h\u00e1 demasiado tempo no centro das nossas sociedades. Num momento em que as teorias racistas estavam completamente desacreditadas, estes militantes, que se apresentam como \u00abracialistas\u00bb, desenvolvem, pelo contr\u00e1rio, uma nova \u00abdisciplina\u00bb, a teoria cr\u00edtica da ra\u00e7a (<em>critical race theory<\/em>, abreviado com CRT), que reafirma incessantemente a necessidade de analisar as rela\u00e7\u00f5es sociais e o conjunto da vida humana sob o ponto de vista da ra\u00e7a. Querer esquecer esta quest\u00e3o da ra\u00e7a, ser \u00abcego diante da cor\u00bb, seria a forma contempor\u00e2nea mais disseminada e mais grave de racismo. [\u2026] E para combater as desigualdades entre as ra\u00e7as, estes mesmos militantes n\u00e3o prop\u00f5em acabar com as discrimina\u00e7\u00f5es; prop\u00f5em, ao inv\u00e9s, novas discrimina\u00e7\u00f5es, que s\u00e3o simplesmente invertidas.\u2019 (P. 107)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Este novo e estranho \u00abanti-racismo\u00bb articula-se principalmente em torno de dois conceitos, o de \u00abracismo sist\u00e9mico\u00bb e o de \u00abprivil\u00e9gio branco\u00bb. Falar de \u00abracismo sist\u00e9mico\u00bb pressup\u00f5e que os brancos s\u00e3o necessariamente racistas, que isso n\u00e3o depende de modo nenhum da sua decis\u00e3o e da sua responsabilidade individual. E a afirma\u00e7\u00e3o de um \u00abprivil\u00e9gio branco\u00bb visa convencer os brancos de que, logo \u00e0 nascen\u00e7a, s\u00e3o culpados desta brancura ou, como dizem os racialistas, da sua \u00abbranquitude\u00bb.\u2019 (p. 109)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O paradoxo destes novos anti-racistas que professam a \u00abteoria cr\u00edtica da ra\u00e7a\u00bb \u00e9 que j\u00e1 n\u00e3o querem acabar com a no\u00e7\u00e3o pseudocient\u00edfica de ra\u00e7a, como acontecei com os anti-racistas tradicionais. Depois de a cultura ocidental, ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, ter conseguido livrar-se desta ideia t\u00f3xica, eis que faz o seu regresso nas Ci\u00eancias Sociais e num militantismo anti-racista obcecado pela ra\u00e7a. [\u2026] Os novos anti-racistas racistas defendem, pelo contr\u00e1rio, que as ra\u00e7as existem, que \u00e9 essencial considera-las para compreender o mundo social e que, para combater o racismo, \u00e9 adequado n\u00e3o tratar todos os humanos da mesma forma.\u2019 (p. 110)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Para racialistas como DiAngelo, \u00e9 preciso ir ainda mais longe e impor a proposta paradoxal e revolucion\u00e1ria de que, se os brancos se defendem da acusa\u00e7\u00e3o de serem racistas, isso prova que o s\u00e3o. [\u2026] Vemo-nos ent\u00e3o plenamente numa situa\u00e7\u00e3o <em>double bind<\/em>, o duplo v\u00ednculo t\u00e3o caro ao antrop\u00f3logo Gregory Bateson. Diga-se o que se disser, estamos em falta [\u2026]. No caso de algumas pessoas acusadas de racismo, n\u00e3o h\u00e1 prova alguma, j\u00e1 que n\u00e3o cometeram nenhum ato nem pronunciaram nenhuma palavra racista. Mas isto n\u00e3o basta, elas podem ser assim qualificadas pelo simples facto de jurarem n\u00e3o ser racistas. A teoria cr\u00edtica da ra\u00e7a tem a vantagem de ser irrefut\u00e1vel. Uma disciplina que n\u00e3o possa ser refutada por nada n\u00e3o \u00e9 uma ci\u00eancia, como t\u00e3o bem demonstrou Karl Poppel, e a teoria cr\u00edtica da ra\u00e7a \u00e9 a mais descomplexada destas pretensas disciplinas.\u2019 (p. 114)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Exigir dos alunos que mostrem o seu trabalho ou que levantem a m\u00e3o antes de falar seria [segundo os promotores da matem\u00e1tica equitativa] racista.\u2019 (p. 126)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018A fra\u00e7\u00e3o mais militante dos racialistas, pelo menos em Fran\u00e7a, define-se como \u00abinterseccional\u00bb. [\u2026] Como demonstraram Pluckrose e Lindsay, \u00e9 com a interseccionalidade que come\u00e7a o verdadeiro wokismo pol\u00edtico, que qualificam de \u00abp\u00f3s-modernismo aplicado\u00bb. [\u2026] A inven\u00e7\u00e3o desta no\u00e7\u00e3o de interseccionalidade \u00e9 da jurista negra Kimberl\u00e9 Crenshaw. [\u2026] Crenshaw esp\u00f4s a sua teoria em dois artigos, em 1989 e 1991, que conheceram um extraordin\u00e1rio sucesso, fazendo dela um \u00edcone mundial.\u2019 (p. 128)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[Para] Sally Haslanger, a investiga\u00e7\u00e3o feminista teria como primeira vantagem o facto de acabar com a no\u00e7\u00e3o de racionalidade. [\u2026] Com efeito, \u00aba ideia central \u00e9 de que uma posi\u00e7\u00e3o racional \u00e9, em si, uma posi\u00e7\u00e3o de opress\u00e3o ou de domina\u00e7\u00e3o, e que os ideais aceites da raz\u00e3o refletem e refor\u00e7am as rela\u00e7\u00f5es de poder em proveito dos homens brancos privilegiados.\u2019 (Pp. 152-153)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Para estes militantes <em>woke<\/em>, a raz\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma aliada, mas sim uma advers\u00e1ria: as duas no\u00e7\u00f5es cient\u00edficas essenciais de objetividade e racionalidade teriam tomado o partido do virilismo, do racismo ou do colonialismo. Para eles, \u00e9 simplesmente preciso \u00abeliminar o g\u00e9nero\u00bb, \u00abdesmasculinizar\u00bb, \u00abdescolonizar\u00bb ou \u00abdesbranquear\u00bb a ci\u00eancia.\u2019 (p. 153)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018\u00c9 a \u00abgrande descoberta\u00bb das epistem\u00f3logas feministas, racialistas ou interseccionais, s\u00f3 existe conhecimento de um determinado \u00abponto de vista\u00bb e n\u00e3o existe conhecimento neutro e objetivo.\u2019 (p. 153)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O interesse destes epistem\u00f3logos consiste em dar uma pretensa justifica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u00e0s fantasias <em>woke<\/em>.\u2019 (p. 154)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018A ideia de base da epistemologia do ponto de vista, em Haraway ou depois em Sandra Harding ou Helen Longino, \u00e9 que a ci\u00eancia \u00e9 sempre feita de um \u00abponto de vista\u00bb particular, neste caso, para j\u00e1, o dos homens brancos dominantes que comp\u00f5em essencialmente o conjunto dos cientistas.\u2019 (p. 155)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] Harding faz o seu grande elogio aos saberes populares ou aut\u00f3ctones, que ter\u00e3o sido, at\u00e9 agora, demasiado negligenciados. O seu golpe de g\u00e9nio ter\u00e1 disso o de dotar estes conhecimentos comprometidos com o nome de \u00abobjetividade forte\u00bb, enquanto estes s\u00e3o, precisamente, conhecimentos que se vangloriam da sua subjetividade e da sua parcialidade, e que declaram n\u00e3o querer perder esse estatuto. A \u00abobjetividade forte\u00bb \u00e9, com efeito, a afirma\u00e7\u00e3o descomplexada da recusa do ideal de objetividade e da preemin\u00eancia atribu\u00edda a \u00abci\u00eancias identit\u00e1rias\u00bb, express\u00e3o contradit\u00f3ria, no m\u00ednimo. Contudo, o car\u00e1cter m\u00e1gico do pensamento <em>woke<\/em> faz com que baste usar esta f\u00f3rmula de \u00abobjetividade forte\u00bb para pretender ter respondido a todas as acusa\u00e7\u00f5es de relativismo que tais pretens\u00f5es evidentemente implicam.\u2019 (Pp. 157-158)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018H\u00e1 muito que os cientistas t\u00eam consci\u00eancia de que as condi\u00e7\u00f5es sociais ou t\u00e9cnicas, ou at\u00e9, nalguns casos, pol\u00edticas ou pessoais podem interferir nos seus conhecimentos, mas o princ\u00edpio por excel\u00eancia da investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u00e9 procurar, ao m\u00e1ximo, libertarmo-nos desta marca social, minimiz\u00e1-la e n\u00e3o comprazermo-nos nela com deleite.\u2019 (p. 158)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O objetivo dos <em>wokes<\/em>, em contrapartida, n\u00e3o \u00e9 melhorar a ci\u00eancia, mas sim destruir as suas funda\u00e7\u00f5es. Vemo-lo na \u00faltima ideia da moda, a de \u00abinjusti\u00e7a epist\u00e9mica\u00bb, inventada por Miranda Fricker.\u2019 (p. 159)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Como sublinha a epistem\u00f3loga rigorosa que \u00e9 Cassandra Pinnick, \u00aba epistemologia feminista n\u00e3o deve ser levada a s\u00e9rio\u00bb, na medida em que cede ao paradoxo muito conhecido de dizer que \u00aba verdade n\u00e3o existe\u00bb, contradizendo-se atrav\u00e9s desta mesma afirma\u00e7\u00e3o.\u2019 (p. 160)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018\u00c9 preciso que os cientistas e a sociedade percebam que se trata de uma iniciativa deliberada de destrui\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia, contra a qual \u00e9 preciso resistir. \u00c9 na ci\u00eancia que a tomada do poder pelos <em>wokes<\/em> produziria o seu efeito mais nefasto.\u2019 (p. 161)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018A religi\u00e3o <em>woke<\/em> n\u00e3o se limita ao mundo universit\u00e1rio, j\u00e1 que visa atualmente o ensino prim\u00e1rio e secund\u00e1rio. \u00c9 o que acontece h\u00e1 algum tempo nos Estados Unidos e no mundo anglo-sax\u00f3nico, e est\u00e1 atualmente a acontecer em Fran\u00e7a. Na medida em que os <em>wokes <\/em>s\u00e3o crentes convictos, s\u00e3o tamb\u00e9m proselitistas. Querem fazer triunfar as suas ideias e formas novas gera\u00e7\u00f5es, mais male\u00e1veis. Como nem sempre \u00e9 f\u00e1cil convencer os adultos de que a identidade sexual n\u00e3o tem nada que ver com o corpo ou que o racismo \u00e9 inerente ao facto de se ser branco, os <em>wokes<\/em> v\u00e3o fazer por persuadir as crian\u00e7as, desde a mais tenra idade. A aposenta\u00e7\u00e3o dos professores <em>boomers<\/em> deixar\u00e1 muito em breve a costa livre.\u2019 (p. 170)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Uma aluna do secund\u00e1rio da regi\u00e3o parisiense testemunha que, numa aula de Educa\u00e7\u00e3o Moral e C\u00edvica, uma professora militante falou sobre o \u00abracismo sist\u00e9mico\u00bb e o \u00abprivil\u00e9gio branco\u00bb e convidou os alunos a definir-se como \u00abracizados\u00bb ou \u00abn\u00e3o racizados\u00bb. O resultado fez-se ver logo: \u00abAt\u00e9 a\u00ed, entend\u00edamo-nos bem, havia solidariedade, respeito e benevol\u00eancia entre todos. Mas alguns come\u00e7aram a ver-se como v\u00edtimas de racismo, a falar s\u00f3 disso. O grupo de <em>WhatsApp<\/em> da turma tornou-se num campo de batalh, com duas fa\u00e7\u00f5es em confronto. Havia os brancos acusados de racismo e os \u201cmorenos\u201d da turma que falavam de escravatura, colonialismo, desigualdade.\u00bb\u2019 (p. 172)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Muitos pais tomaram consci\u00eancia da ditadura suave que se estava a instalar nas nossas sociedades: compreenderam que tinham de lutar para que os filhos fossem instru\u00eddos e n\u00e3o endoutrinados.\u2019 (p. 174)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Numa sequ\u00eancia memor\u00e1vel em Loundoun County, na Virg\u00ednia, que mostra que Orwell n\u00e3o estava enganado quando contava com a \u00abdec\u00eancia comum\u00bb das pessoas simples, vemos o pai de um aluno, imigrante cat\u00f3lico caldeu, que n\u00e3o hesita em falar sem rodeios aos membros do conselho acerca da quest\u00e3o do g\u00e9nero e dos pronomes. Ele observa que, mesmo sob a ditadura iraniana, os seus professores n\u00e3o o tinham endoutrinado, ensinado-o pelo contr\u00e1rio a ler, a escrever e a fazer contas. Fica indignado por os professores perguntarem \u00e0s crian\u00e7as por que pronomes querem ser tratadas: \u00abVoc\u00eas pensam que s\u00e3o despertos [<em>woke<\/em>] mas, bom, deixem-me que vos desperte um pouco mais [\u2026]. Agora querem que aceitemos parvo\u00edces como os pronomes [\u2026] Isso ajuda-os em qu\u00ea? Isso ensina-os a somar? Voc\u00eas querem impingir esses disparates aos meus filhos? Eu digo-vos como devem tratar os meus filhos: \u201cRei\u201d e \u201cRainha\u201d. \u00c9 assim que passar\u00e3o a tratar o meu filho e a minha filha.\u00bb E termina: \u00abQuanto a mim, quando olharem para mim, tratem-me por \u00ab\u201dmestre\u201d.\u00bb\u2019 (p. 175)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Para [algumas] empresas, ser <em>woke<\/em> se calhar j\u00e1 n\u00e3o compensa, de acordo com a f\u00f3rmula \u00ab<em>get woke, go broke<\/em>\u00bb &#8211; \u00abser <em>woke<\/em> \u00e9 estar falido\u00bb.\u2019 (p. 176.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Apesar da import\u00e2ncia que lhe atribu\u00edmos, \u00e9 preciso n\u00e3o esquecer que a vaga <em>woke<\/em> inundou para j\u00e1 apenas o mundo ocidental. O resto do planeta satisfaz-se em observar com espanto. Muito veem nesta onda um sinal de esgotamento da nossa civiliza\u00e7\u00e3o e ficam espantados ao ver que os herdeiros de uma cultura t\u00e3o rica como a nossa se obstinem em destru\u00ed-la.\u2019 (p. 177)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Como observou, e bem, a jornalista Bari Weiss: \u00abCheg\u00e1mos aqui por cobardia. S\u00f3 daqui sa\u00edmos com coragem. Digam n\u00e3o \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o <em>woke<\/em>.\u00bb Est\u00e1 mais do que na hora de o Ocidente acordar e desmentir o diagn\u00f3stico pessimista de Soljenitsyne<em>, <\/em>que comentava, em Harvard, em 1978, que \u00abo decl\u00ednio da coragem \u00e9 possivelmente o que espanta mais um olhar estrangeiro sobre o Ocidente atual\u00bb. Paradoxalmente, \u00e9 a amea\u00e7a da religi\u00e3o <em>woke<\/em> que nos deveria permitir redescobrir e reafirmar o valor da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental.\u2019 (p. 180)<\/p>\n<h5 style=\"text-align: right;\"><strong>*(T\u00edtulo retirado de Daniel Faria, <em>Dos l\u00edquidos<\/em>, Porto, Edi\u00e7\u00e3o Funda\u00e7\u00e3o Manuel Le\u00e3o, 2000, p. 137)<\/strong><\/h5>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217;, &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rubrica \u2018Sabes, leitor,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":17001,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9,55,198],"tags":[],"class_list":["post-17000","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-programa-diocesano-de-livros-e-leituras","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-sabes-leitor-que-estamos-ambos-na-mesma-pagina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17000","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17000"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17000\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17230,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17000\/revisions\/17230"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17001"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17000"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17000"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17000"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}