{"id":16952,"date":"2024-06-07T07:00:56","date_gmt":"2024-06-07T06:00:56","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=16952"},"modified":"2024-01-18T12:18:13","modified_gmt":"2024-01-18T12:18:13","slug":"sabes-leitor-5-marca-de-agua-do-livro-de-aldous-huxley-admiravel-mundo-novo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/sabes-leitor-5-marca-de-agua-do-livro-de-aldous-huxley-admiravel-mundo-novo\/","title":{"rendered":"Sabes, leitor&#8230; | 6 | Marca de \u00e1gua do livro de Aldous Huxley, &#8216;Admir\u00e1vel Mundo Novo&#8217;"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">Rubrica \u2018Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma p\u00e1gina\u2019** | <em>Marca de \u00e1gua de livros que deixam marcas profundas<\/em><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Parceria:<a href=\"https:\/\/www.federacaopelavida.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> <em>Federa\u00e7\u00e3o Portuguesa pela Vida<\/em><\/a> e<em> Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<pre style=\"padding-left: 80px;\"><strong>O autor e a obra\r\n<\/strong><\/pre>\n<h5 style=\"text-align: right; padding-left: 240px;\"><strong>Aldous Huxley, <em>Admir\u00e1vel mundo novo<\/em>, Lisboa, Edi\u00e7\u00e3o \u00ablivros do Brasil, S\/D. [Direitos de publica\u00e7\u00e3o reservados em 1932]<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aldous Huxley (1894-1963) \u00e9 um autor de origem inglesa, que tem em \u2018admir\u00e1vel mundo novo\u2019 a sua obra-prima, apesar de outras obras suas terem tido reputado reconhecimento, entre as quais poderemos destacar os ensaios \u2018as portas da perce\u00e7\u00e3o\u2019 e \u2018a filosofia perene\u2019, e o romance \u2018a ilha\u2019, j\u00e1 transposto para a tela do cinema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pertencendo a uma fam\u00edlia brit\u00e2nica de renome, tendo o seu av\u00f4, Thomas Henry Huxley (1825-1895), ficado na hist\u00f3ria pela sua defesa da teoria darwinista e pela cria\u00e7\u00e3o do termo \u2018agn\u00f3stico\u2019, Aldous evidencia uma atitude cr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o a estes ascendentes, posi\u00e7\u00e3o que se repercute nas suas obras, entre as quais \u2018admir\u00e1vel mundo novo\u2019 n\u00e3o \u00e9 exce\u00e7\u00e3o. Nesta obra, evidenciam-se sinais de demarca\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a esse agnosticismo e em rela\u00e7\u00e3o a uma qualquer ing\u00e9nua rece\u00e7\u00e3o do progresso cient\u00edfico como sendo intrinsecamente virtuoso. A omnipresen\u00e7a da ironia para com essa ingenuidade \u00e9 um dos tra\u00e7os marcante desta obra. O autor coloca no sujeito a decis\u00e3o final, mas confere-lhe todos os instrumentos para que possa ajuizar sobre o que fazer perante as inauditas aberturas que nos proporcionam a ci\u00eancia e a tecnologia. Recusar aprioristicamente n\u00e3o ser\u00e1 a decis\u00e3o, mas tamb\u00e9m o n\u00e3o ser\u00e1 a sua absoluta rece\u00e7\u00e3o. Ser cr\u00edtico \u00e9 o que se pede do individuo para que n\u00e3o se abata sobre a sociedade humana \u2018o admir\u00e1vel mundo novo\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A genialidade desta obra encontra-se, n\u00e3o apenas na narrativa fluente que prende o leitor, desde o in\u00edcio, mas tamb\u00e9m no facto de se tratar de um enredo escrito ainda na d\u00e9cada de 30, quando o mundo ainda n\u00e3o vivera os horrores da II Guerra Mundial, onde o totalitarismo se tornou evidente aos olhos de todos, e ainda muito poucos vislumbravam o que se escondia para l\u00e1 do que viria a ser a \u2018cortina de ferro\u2019. Da revolu\u00e7\u00e3o russa e do totalitarismo que ela criara muito poucos tinham consci\u00eancia. Ter\u00edamos de esperar por 1984 para que isso se tornasse not\u00f3rio\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o eugenismo, sendo pr\u00e1tica desde que, em 1883, se criara o termo, pela pena de F. Galton, era comummente aceite, sem grande consci\u00eancia cr\u00edtica (exceto, como recordam Andr\u00e9 Pichot<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> e Matt Ridley<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, nos pa\u00edses de influ\u00eancia cat\u00f3lica, onde o respeito pela dignidade humana se aplicava a todos, sem exce\u00e7\u00e3o dos portadores de defici\u00eancia). Ter\u00edamos de esperar pelo que nos mostraria a segunda grande guerra para despertar desse torpor. Mas \u2018admir\u00e1vel mundo novo\u2019 fora um agu\u00e7ado alerta\u2026 E continua a s\u00ea-lo, hoje!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Pichot, Andr\u00e9, <em>O eugenismo: geneticistas apanhados pela filantropia<\/em>, Lisboa, Instituto Piaget, 1997.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Ridley, Matt, <em>Genoma: autobiografia de uma esp\u00e9cie em 23 cap\u00edtulos<\/em>, Lisboa, Gradiva, 2001<\/p>\n<pre style=\"padding-left: 80px;\"><strong>\r\nMarcas de \u00e1gua <\/strong><strong>(o que fica depois de se deixar o livro)<\/strong><\/pre>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Admir\u00e1vel Mundo Novo\u2019 conta-nos a vida da sociedade na Londres de 2540 (no ano 632 DF \u2013 depois de Ford \u2013 muitos dos nomes escolhidos s\u00e3o alus\u00f5es a nomes reais; Ford (que aparece aludindo ao trocadilho de \u2018our Ford\u2019 com \u2018Our Lord\u2019 (Nosso Senhor) poder\u00e1 aludir, ainda, a uma sociedade freudiana, mais do que \u2018fordiana\u2019, ainda que possa supor-se uma intencional equivocidade..). A natureza desta narrativa, contr\u00e1ria \u00e0 de uma vis\u00e3o ut\u00f3pica, situa-a no \u00e2mbito das chamadas \u00abdistopias\u00bb, em que \u20181984\u2019, \u2018O triunfo dos porcos\u2019 s\u00e3o outros ilustrativos exemplos, desta feita, da pena de George Orwell, j\u00e1 analisado nesta rubrica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O autor recolhe o t\u00edtulo da obra de uma cita\u00e7\u00e3o de Shakespeare, \u2018oh, admir\u00e1vel mundo novo\u2019, come\u00e7ando, logo a\u00ed, a ironia desdenhosa que caracteriza toda a narrativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As personagens desta distopia esquivam-se a toda a emo\u00e7\u00e3o, s\u00e3o programadas e socialmente categorizadas (por letras do alfabeto grego: os \u2018alfas\u2019, os \u2018betas\u2019, os \u2018\u00e9psil\u00f5es\u2019, etc.) de acordo com o que geneticamente est\u00e1 previsto e devidamente controlado. S\u00f3 o \u2018selvagem\u2019 parece esquivar-se a essa programa\u00e7\u00e3o, ou outras vagas mem\u00f3rias que tudo no sistema pede que se apague. H\u00e1 salas de predestina\u00e7\u00e3o social, e um \u2018soma\u2019 que os habitantes desta distopia tomam para combater a infelicidade, pois esta \u00e9 uma sociedade onde sofrer n\u00e3o pode ter lugar. Ficar infeliz \u00e9 proibido, sendo, por isso, inevit\u00e1vel combater tudo o que o possa gerar, como, por, exemplo, vincular-se aos outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta sociedade, n\u00e3o h\u00e1 infelicidade, mas tamb\u00e9m todas as emo\u00e7\u00f5es s\u00e3o controladas para que tudo seja devidamente controlado e mantido dentro de uma ordem previamente definida. O leitor como que sente o cheiro \u00e0 \u2018desinfe\u00e7\u00e3o\u2019 das emo\u00e7\u00f5es, pois tudo \u00e9 ass\u00e9tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sentimo-nos perante uma sociedade feita de seres que continuam a ter a designa\u00e7\u00e3o de \u2018humanos\u2019, mas que n\u00e3o o s\u00e3o, por estarem impedidos (ainda que sem consci\u00eancia disso \u2013 foi intencionalmente apagada) de se relacionarem comprometidamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma leitura cr\u00edtica de tal sociedade permite-nos constatar que estamos perante \u2018indiv\u00edduos\u2019 que pensam agir em liberdade, mas que n\u00e3o s\u00e3o, em verdade, \u2018pessoas\u2019 (apesar de o termo ser utilizado, n\u00e3o representa o que diz\u2026) que lutam e ambicionam algo maior do que o que j\u00e1 s\u00e3o; ambicionar \u00e9 algo que lhes est\u00e1 vedado\u2026 \u2018As pessoas s\u00e3o felizes, conseguem o que querem e nunca querem aquilo que n\u00e3o podem obter. Sentem-se bem, est\u00e3o em seguran\u00e7a, nunca est\u00e3o doentes, n\u00e3o receiam a morte, vivem numa serena ignor\u00e2ncia da paix\u00e3o e da velhice, n\u00e3o s\u00e3o sobrecarregadas com pais e m\u00e3es, n\u00e3o t\u00eam mulheres, nem filhos, nem amantes, pelos quais poderiam sofrer emo\u00e7\u00f5es violentas, est\u00e3o de tal modo condicionados que, praticamente, n\u00e3o podem deixar de se portar como devem. E se por acaso alguma coisa corre mal, h\u00e1 o soma, que o senhor atira friamente pela janela em nome da liberdade [\u2026].\u2019 (p. 230)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A leitura desta obra gera em quem a l\u00ea algo semelhante ao que nos faz o despertador, pela manh\u00e3. Quando Huxley a pensou, o descomprometimento era, ainda, um cen\u00e1rio que surpreendia. O pr\u00f3prio autor, no pref\u00e1cio escrito em 1946 e recolhido na edi\u00e7\u00e3o que aqui seguimos, mostra ficar surpreendido por \u2018a promiscuidade sexual do Admir\u00e1vel Mundo Novo [n\u00e3o lhe parecer] estar muito afastada\u2019, sendo que \u2018\u00e0 medida que a liberdade econ\u00f3mica e pol\u00edtica diminui, a liberdade sexual tem tend\u00eancia para aumentar, como compensa\u00e7\u00e3o\u2019 (p. 17). Esta \u2018previs\u00e3o\u2019 \u00e9 elucidativa de quanto se transformou a sociedade, no sentido do que narrava o \u2018admir\u00e1vel mundo novo\u2019 como uma distopia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estar\u00e1 o mundo dist\u00f3pico?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<pre style=\"padding-left: 80px;\"><strong>Na mesma p\u00e1gina que o autor (cita\u00e7\u00f5es)<\/strong><\/pre>\n<p style=\"text-align: justify;\">(Do pref\u00e1cio de 1946) \u2018Existem j\u00e1 certas cidades americanas onde o n\u00famero de div\u00f3rcios \u00e9 igual ao n\u00famero de casamentos. Dentro de alguns anos, sem d\u00favida, passar-se-\u00e3o licen\u00e7as de casamento como se passam licen\u00e7as de c\u00e3es, v\u00e1lidas para um per\u00edodo de doze meses, sem nenhum regulamento que pro\u00edba a troca do c\u00e3o ou a posse de mais de um animal de cada vez. \u00c0 medida que a liberdade econ\u00f3mica e pol\u00edtica diminui, a liberdade sexual tem tend\u00eancia para aumentar, como compensa\u00e7\u00e3o. E o ditador (a n\u00e3o ser que tenha necessidade de carne para canh\u00e3o e de fam\u00edlias para colonizar os territ\u00f3rios desabitados ou conquistados) far\u00e1 bem em encorajar esta liberdade. Juntamente com a liberdade de sonhar em pleno dia sob a influ\u00eancia de drogas, do cinema e da r\u00e1dio, ela contribuir\u00e1 para reconciliar os seus s\u00fabditos com a servid\u00e3o que lhes estar\u00e1 destinada.\u2019 (p. 17)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Vendo bem, parece que a Utopia est\u00e1 mais pr\u00f3xima de n\u00f3s do que se poderia imaginar h\u00e1 apenas quinze anos. Nessa \u00e9poca coloquei-a \u00e0 dist\u00e2ncia futura de seiscentos anos. Hoje parece praticamente poss\u00edvel que esse horror se abata sobre n\u00f3s dentro de um s\u00e9culo. Isto se nos abstivermos, at\u00e9 l\u00e1, de nos fazermos explodir em bocadinhos. Na verdade, a menos que nos decidamos a descentralizar e a utilizar a ci\u00eancia aplicada n\u00e3o com o fim de reduzir os seres humanos a simples instrumentos, mas como meio de produzir uma ra\u00e7a de indiv\u00edduos libres, apenas podemos escolher entre duas solu\u00e7\u00f5es: ou um certo n\u00famero de totalitarismos nacionais, militarizados, tendo como base o terror da bomba at\u00f3mica e como consequ\u00eancia a destrui\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o (ou, se a guerra for limitada, a perpetua\u00e7\u00e3o do militarismo), ou um \u00fanico totalitarismo internacional, suscitado pelo caos social resultante do r\u00e1pido progresso t\u00e9cnico em geral e da revolu\u00e7\u00e3o at\u00f3mica em particular, desenvolvendo-se, sob a press\u00e3o da efici\u00eancia e da estabilidade, no sentido da tirania-provid\u00eancia da Utopia. \u00c9 pagar e escolher.\u2019 (pp. 17-18)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018N\u00e3o nos contentamos unicamente em incubar os embri\u00f5es: isso qualquer vaca \u00e9 capaz de fazer. Tamb\u00e9m os predestinamos e condicionamos. Decantamos os nossos beb\u00e9s sob a forma de seres vivos socializados, sob a forma de Alfas, ou de \u00c9psil\u00f5es, de futuros varredores ou de futuros\u2026\u2019 (p. 29)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018- N\u00e3o sente o desejo de ser livre, Lenina?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; N\u00e3o percebo o que quer dizer. Eu sou livre. Livre para gozar \u00e0 vontade, para gozar o mais poss\u00edvel. \u00abAgora todos s\u00e3o felizes!\u00bb.\u2019<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele riu-se.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Sim. \u00abAgora todos s\u00e3o felizes!\u00bb Come\u00e7amos a impingir isso \u00e0s crian\u00e7as de cinco anos. Mas n\u00e3o sente o desejo de ser livre de outra forma, Lenina? De uma maneira pessoa, por exemplo, e n\u00e3o \u00e0 maneira de todos.\u2019 (p. 103)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] a civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 a esteriliza\u00e7\u00e3o [\u2026]\u2019 (p. 119)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018- Velho? \u2013 repetiu ela. \u2013 Mas o Director tamb\u00e9m \u00e9 velho, e h\u00e1 muita gente que \u00e9 velha e, apesar disso, n\u00e3o \u00e9 assim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Porque n\u00f3s n\u00e3o lhes permitimos que o sejam. Preservamo-los das doen\u00e7as; mantemos artificialmente as suas secre\u00e7\u00f5es internas ao n\u00edvel do equil\u00edbrio da juventude; n\u00e3o deixamos cair o seu \u00edndice de magn\u00e9sio e de c\u00e1lcio abaixo do que era aos trinta anos; fazemos-lhes transfus\u00f5es de sangue novo; mantemos o seu metabolismo permanentemente estimulado. Assim, evidentemente, eles n\u00e3o t\u00eam este aspecto. Em parte \u2013 acrescentou \u2013 porque a maioria de entre eles morre muito antes de ter atingido a idade deste velho. A juventude quase intacta at\u00e9 aos sessenta anos. Depois, tr\u00e1s! O fim.\u2019 (p. 120)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Parece-me frequentemente que \u00e9 poss\u00edvel que nos tenha faltado qualquer coisa por n\u00e3o termos tido m\u00e3e.\u2019 (p. 121)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Ela contava-lhe como toda a gente era feliz, sem nunca haver pessoas tristes ou zangadas, como cada um pertencia a todos. Falava-lhe de caixas onde se podia ver e ouvir o que se passada do outro lado do mundo, os beb\u00e9s em bonitas provetas bem limpas \u2013 tudo t\u00e3o limpo, sem mais cheiros, sem a menor porcaria!\u2019 (P. 137)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Partindo da sala de Predestina\u00e7\u00e3o Social, os <em>escalators<\/em> desciam ruidosamente para o subsolo, onde, na obscuridade vermelha, aquecendo-se no seu colch\u00e3o de perit\u00f3nio e fartos de pseudo-sangue e de hormonas, os fetos cresciam, cresciam, ou ent\u00e3o, envenenados, estiolavam-se no estado definhado dos \u00c9psil\u00f5es.\u2019 (p. 157)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Em mil e oitocentos biber\u00f5es, mil e oitocentos beb\u00e9s, cuidadosamente etiquetados, mamavam simultaneamente o seu meio litro de secre\u00e7\u00e3o externa pasteurizada.\u2019 (pp. 157-158)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Linda morria acompanhada \u2013 acompanhada e com todo o conforto moderno. O ar era constantemente vivificado por alegres melodias sint\u00e9ticas. Junto de cada leito, diante do ocupante moribundo, havia um recetor de televis\u00e3o. Deixava-se funcionar a televis\u00e3o, como se fosse uma torneira aberta, de manh\u00e3 \u00e0 noite. De quarto em quarto de hora o perfume dominante na sala era automaticamente mudado.\u2019 (P. 209)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018- Mas porque est\u00e1 ele proibido? [\u2026]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[\u2026] Porque \u00e9 velho, eis a raz\u00e3o principal. Aqui n\u00e3o temos o culto das coisas velhas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Mesmo quando s\u00e3o belas?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Sobretudo quando s\u00e3o belas. A beleza atrai, e n\u00f3s n\u00e3o queremos que as pessoas sejam atra\u00eddas pelas coisas velhas. Queremos que amem as coisas novas.\u2019 (P. 229)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018As pessoas s\u00e3o felizes, conseguem o que querem e nunca querem aquilo que n\u00e3o podem obter. Sentem-se bem, est\u00e3o em seguran\u00e7a, nunca est\u00e3o doentes, n\u00e3o receiam a morte, vivem numa serena ignor\u00e2ncia da paix\u00e3o e da velhice, n\u00e3o s\u00e3o sobrecarregadas com pais e m\u00e3es, n\u00e3o t\u00eam mulheres, nem filhos, nem amantes, pelos quais poderiam sofrer emo\u00e7\u00f5es violentas, est\u00e3o de tal modo condicionados que, praticamente, n\u00e3o podem deixar de se portar como devem. E se por acaso alguma coisa corre mal, h\u00e1 o soma, que o senhor atira friamente pela janela em nome da liberdade [\u2026].\u2019 (p. 230)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Nosso Ford fez muito para tirar \u00e0 verdade e \u00e0 beleza a import\u00e2ncia que lhe concediam, transferindo essa import\u00e2ncia para o conforto e para a felicidade.\u2019 (P. 237)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] apesar de tudo [\u2026] \u00e9 natural acreditar-se em Deus quando se est\u00e1 s\u00f3, sozinho, \u00e0 noite, quando se pensa na morte\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Mas agora nunca se est\u00e1 s\u00f3 [\u2026].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Procedemos de forma que as pessoas detestem a solid\u00e3o e dispomos a vida de tal maneira que seja mais ou menos imposs\u00edvel conhec\u00ea-la.\u2019 (P. 245)<\/p>\n<h5 style=\"text-align: right;\"><strong>**(T\u00edtulo retirado de Daniel Faria, <em>Dos l\u00edquidos<\/em>, Porto, Edi\u00e7\u00e3o Funda\u00e7\u00e3o Manuel Le\u00e3o, 2000, p. 137)<\/strong><\/h5>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217;, &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rubrica \u2018Sabes, leitor,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":16953,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9,55,198],"tags":[],"class_list":["post-16952","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-programa-diocesano-de-livros-e-leituras","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-sabes-leitor-que-estamos-ambos-na-mesma-pagina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16952","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16952"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16952\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16998,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16952\/revisions\/16998"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16953"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16952"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16952"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16952"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}