{"id":16882,"date":"2024-05-07T07:07:20","date_gmt":"2024-05-07T06:07:20","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=16882"},"modified":"2026-06-29T15:42:48","modified_gmt":"2026-06-29T14:42:48","slug":"sabes-leitor-4-marca-de-agua-do-livro-de-viktor-frankl-dizer-sim-a-vida-apesar-de-tudo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/sabes-leitor-4-marca-de-agua-do-livro-de-viktor-frankl-dizer-sim-a-vida-apesar-de-tudo\/","title":{"rendered":"Sabes, leitor&#8230; | 5 | Marca de \u00e1gua do livro de Viktor Frankl, &#8216;Dizer sim \u00e0 vida apesar de tudo&#8217;"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">Rubrica \u2018Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma p\u00e1gina\u2019** | <em>Marca de \u00e1gua de livros que deixam marcas profundas<\/em><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Parceria:<a href=\"https:\/\/www.federacaopelavida.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> <em>Federa\u00e7\u00e3o Portuguesa pela Vida<\/em><\/a> e<em> Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<pre style=\"padding-left: 80px;\"><strong>O autor e a obra<\/strong><\/pre>\n<h5 style=\"text-align: right;\">Viktor Frankl, <em>Dizer sim \u00e0 vida apesar de tudo<\/em>, Lisboa, Editora Pergaminho, 2021<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Dizer sim \u00e0 vida apesar de tudo\u2019 \u00e9 o t\u00edtulo de um livro que re\u00fane tr\u00eas confer\u00eancias proferidas por Viktor Frankl [1902-1994], em mar\u00e7o de 1946, poucos meses depois da sua liberta\u00e7\u00e3o de quatro sucessivos campos de concentra\u00e7\u00e3o nazis. Fora libertado em mar\u00e7o de 1945. Estas confer\u00eancias, feitas numa universidade oper\u00e1ria, em Viena, sua cidade natal, s\u00e3o proferidas no rescaldo de uma densa e dram\u00e1tica experi\u00eancia a que se somou a not\u00edcia de que a guerra o deixara s\u00f3 no mundo, pois perdera a mulher, a m\u00e3e e o irm\u00e3o, v\u00edtimas do genoc\u00eddio dos judeus, perpetrado pelos nazis. As circunst\u00e2ncias densificam a import\u00e2ncia deste livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ler este livro humaniza quem o l\u00ea, na medida em que \u00e0 autoridade cient\u00edfica resultante de se tratar de um autor a que muitos reconhecem a autoria da chamada \u2018terceira escola de psicoterapia vienense\u2019 (tendo em conta que as duas outras eram a psican\u00e1lise de Freud e a psicologia individual de Adler) se soma a autoridade de quem viveu experi\u00eancias em que a sua vis\u00e3o da exist\u00eancia se confirmou como oportuna e \u00fatil enquanto \u2018terapia em a\u00e7\u00e3o\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Viktor Frankl \u00e9 um autor de leitura obrigat\u00f3ria para quem n\u00e3o desistiu de reconhecer que t\u00eam sentido a exist\u00eancia humana e a a\u00e7\u00e3o moral humanizante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O t\u00edtulo da edi\u00e7\u00e3o portuguesa, que retoma o que, originalmente, tinha escolhido o pr\u00f3prio Frankl, mas que muitas edi\u00e7\u00f5es deixaram de adotar, reproduz o verso de uma can\u00e7\u00e3o de esperan\u00e7a, cantada pelos prisioneiros de Buchenwald, e que, completo, ainda diz \u2018Ah, Buchenwald, nem uma voz ser\u00e1 ouvida, sem lamentos aceitamos o que vir\u00e1, apesar de tudo, dizemos sim \u00e0 vida, seremos livres: o dia chegar\u00e1!\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O t\u00edtulo explicita a ideia fundamental sustentada no livro: toda a vida tem sentido; todo o sofrimento tem sentido; toda a doen\u00e7a tem sentido; toda a morte, se a morrermos como a nossa morte, tem sentido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A capa da edi\u00e7\u00e3o portuguesa \u00e9, tamb\u00e9m ela, merecedora de refer\u00eancia. A autora da capa, Marta Teixeira, transfigura o arame farpado cortado em leves e livres aves ondulantes ao vento\u2026 O design prepara para a leitura!<\/p>\n<pre style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\"><strong>Marcas de \u00e1gua <\/strong><strong>(o que fica depois de se deixar o livro)<\/strong><\/pre>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Dizer sim \u00e0 vida apesar de tudo\u2019 \u00e9 uma ode \u00e0 vida, ao sentido da vida, \u00e0 decis\u00e3o de se tomar nas m\u00e3os a exist\u00eancia que \u00e9 reconhecida como dom recebido e acolhido e apreciado e amado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Viktor Frankl parte da sua pr\u00f3pria experi\u00eancia existencial (ela perpassa por cada linha escrita, mas \u00e9 particularmente vis\u00edvel na terceira e \u00faltima confer\u00eancia, em que ele come\u00e7a, precisamente, por recordar a sua viv\u00eancia, no campo de concentra\u00e7\u00e3o de Kaurering), mas, tamb\u00e9m como terapeuta, fazendo das suas confer\u00eancias, n\u00e3o apenas reflex\u00f5es bem argumentadas, mas tamb\u00e9m existencialmente muito fundamentadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sua ideia fundamental \u00e9 a de que a vida vale a pena ser vivida, mesmo quando as circunst\u00e2ncias s\u00e3o muito adversas, sendo que, perante o destino que cabe a cada um viver, restam duas formas de abordar: \u2018mudar, desde que seja poss\u00edvel, ou aceitar de boa vontade, desde que seja necess\u00e1rio.\u2019<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Frankl constata que, como referia Nietzsche, \u2018quem tiver um porqu\u00ea para viver, suporta quase qualquer como\u2019, o que confere \u00e0 exist\u00eancia a condi\u00e7\u00e3o de uma responsabilidade que projeta o sujeito humano para diante. Assumir a vida como uma responsabilidade significa, na perspetiva de Frankl, que o sujeito humano tem um \u2018algu\u00e9m\u2019 ou \u2018uma inst\u00e2ncia\u2019 diante do\/da qual responde pela sua vida. Isso lan\u00e7a-o para diante, para o futuro, fazendo emergir um sentido que, na linha da constata\u00e7\u00e3o que ele mesmo fez, ao criar a logoterapia, \u00e9 condi\u00e7\u00e3o para se sobreviver \u00e0s maiores adversidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Coerente com estes pressupostos, Frankl defende que \u00e9 insustent\u00e1vel a posi\u00e7\u00e3o dos que entendem que h\u00e1 vidas indignas, pois, na sua perspetiva, toda a vida humana tem sentido, toda a doen\u00e7a tem sentido e toda a morte, quando \u00e9 vivida como morrer assumido pelo sujeito, tem sentido. O sentido \u00e9 anterior ao sujeito a quem cabe descobri-lo. Ele n\u00e3o \u00e9 o seu criador; descobre-o! A vida define-se, para Frankl, como um interrogar o sujeito humano que, pelo viver, corresponde, \u2018respondendo\u2019. Viver \u00e9 responder. O sentido est\u00e1 em responder, no pr\u00f3prio ato de viver que \u00e9, sempre, um encaminhar-se para diante e um responder perante algu\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Afigura-se, assim, coerente a sua posi\u00e7\u00e3o de que a eutan\u00e1sia seria um reconhecimento de que haveria \u2018vidas indignas de serem vividas\u2019, contrariando as constata\u00e7\u00f5es a que a sua reflex\u00e3o nos levara. Numa clara e l\u00fadica argumenta\u00e7\u00e3o, Frankl leva o leitor \u00e0 constata\u00e7\u00e3o de como a aceita\u00e7\u00e3o desta significaria a perda da confian\u00e7a inabal\u00e1vel no sentido da vida, assim como a aceita\u00e7\u00e3o de que ao m\u00e9dico competiria o poder de determinar o destino de algu\u00e9m (negando que o destino \u00e9 exterior aos sujeitos, perante o qual todos se posicionam) redundando numa altera\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria miss\u00e3o do m\u00e9dico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A raz\u00e3o \u00faltima para a sua recusa desta, assim como da legitimidade do suic\u00eddio, est\u00e1 no reconhecimento da intr\u00ednseca dignidade de toda a vida humana, assumida como responsabilidade pessoal e insuscet\u00edvel de qualquer redu\u00e7\u00e3o ao crit\u00e9rio da \u2018utilidade\u2019. O sentido da vida humana est\u00e1 acima e para al\u00e9m de toda a qualifica\u00e7\u00e3o resultante da sua utilidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Interpelam estas conclus\u00f5es, n\u00e3o apenas pela sua atualidade, mas principalmente pela sua intemporalidade, sustentada em experi\u00eancia real em que a certeza do sentido conferiu a \u2018for\u00e7a\u2019 para a supera\u00e7\u00e3o dos maiores limites algum dia vividos.<\/p>\n<pre style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\"><strong>Na mesma p\u00e1gina que o autor (cita\u00e7\u00f5es)<\/strong><\/pre>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Frankl conseguiu sobreviver ao tifo, que quase o levou \u00e0 morte, e resistiu \u00e0 fome, ao frio e \u00e0 doen\u00e7a, gra\u00e7as a uma objetiva\u00e7\u00e3o da dor, ou seja, \u00e0 capacidade de se autodistanciar daquele mundo que o circundava, enveredando pela \u00abautotranscend\u00eancia\u00bb, compreendida como \u00aborienta\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia humana para al\u00e9m de si, orientada para algo ou para algu\u00e9m\u00bb.\u2019 (Pref\u00e1cio de D. Nuno Almeida, pp. 14-15)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018A reconcilia\u00e7\u00e3o com a vida [\u2026], segundo Frankl, acontece mediante a busca e a ativa\u00e7\u00e3o do sentido para a exist\u00eancia pessoal e coletiva. Para que isto se realize, h\u00e1 que desenvolver a capacidade pessoal de entrega, de sa\u00edda de si mesmo, e percorrer as vias da autotranscend\u00eancia.\u2019 (Pref\u00e1cio de D. Nuno Almeida, p. 16)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Encontra-se em Frankl n\u00e3o somente um honesto e rigoroso estudioso da alma humana, mas sobretudo algu\u00e9m que, com assertividade, proclama a dignidade inalien\u00e1vel de cada ser humano. Apesar do sofrimento, da culpa e da transitoriedade da vida, \u00e9 poss\u00edvel renascer, recome\u00e7ar sempre.\u2019 (Pref\u00e1cio de D. Nuno Almeida, p. 17)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O homem e a mulher, pela sua dimens\u00e3o espiritual, podem distanciar-se tanto de disposi\u00e7\u00f5es internas como de posi\u00e7\u00f5es externas. Por isso, o ser humano \u00e9 um ser essencialmente livre, podendo decidir livremente sobre a sua vida, gra\u00e7as a uma capacidade n\u00e3o possu\u00edda por nenhum outro ser, uma faculdade especificamente humana: o autodistanciamento, ou seja, a capacidade que o ser humano tem de se distanciar n\u00e3o s\u00f3 do mundo, mas tamb\u00e9m de si mesmo. O importante n\u00e3o \u00e9 a nossa disposi\u00e7\u00e3o nem a nossa situa\u00e7\u00e3o exterior, mas sim a atitude que se adota, a qual \u00e9 sempre escolhida livremente por cada um de n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As circunst\u00e2ncias biol\u00f3gicas, psicol\u00f3gicas, sociais podem condicionar, mas n\u00e3o determinar, o desenvolvimento da exist\u00eancia humana.[\u2026]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A liberdade humana, n\u00e3o sendo omnipot\u00eancia, pois o ser humano n\u00e3o pode fazer tudo o que quer realizar, nem \u00e9 t\u00e3o pouco arbitrariedade, pois h\u00e1 de responder perante a sua decis\u00e3o, possibilita que a pessoa possa ser respons\u00e1vel.\u2019 (Pref\u00e1cio de D. Nuno Almeida, p. 18)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Para a logoterapia, o impulso prim\u00e1rio da pessoa n\u00e3o \u00e9, como pensou Freud, a vontade de prazer; tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 a vontade de poder, como preconiza Adler, mas a vontade de sentido. Este sentido n\u00e3o se inventa, mas descobre-se: numa obra, num amor, numa tarefa a realizar. No fundo, cada um tem de perguntar: o que \u00e9 que a vida quer de mim? Em \u00faltima inst\u00e2ncia, viver significa assumir a responsabilidade de encontrar a resposta correta para os problemas que a vida coloca e cumprir as tarefas que ela continuamente aponta a cada pessoa.\u2019 (Pref\u00e1cio de D. Nuno Almeida, p. 19)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] a felicidade n\u00e3o deve, n\u00e3o pode nem consegue nunca ser um objetivo, mas apenas um resultado; resultado precisamente do cumprimento (<em>Erf\u00fcllung<\/em>) daquilo que no poema de Tagore se chama dever e que n\u00f3s, mais \u00e0 frente, iremos esfor\u00e7ar-nos por definir melhor. De qualquer forma, toda a busca da felicidade da pessoa humana est\u00e1 condenada a falhar na medida em que a felicidade s\u00f3 lhe pode cair no colo, deixando-se jamais \u00abca\u00e7ar\u00bb. Foi Kierkgaard que expressou a s\u00e1bia par\u00e1bola: a porta para a felicidade abre \u00abpara fora\u00bb, isto \u00e9, ela fecha-se justamente para aquele que, por assim dizer, a tenta for\u00e7ar para dentro.\u2019 (Pp. 33-34)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] impunha-se efetuar aquilo a que, com Kant, se poderia chamar uma viragem \u00abcopernicana\u00bb, uma viragem de pensamento de 180 graus, de acordo com a qual a pergunta n\u00e3o pode ser: \u00abO que posso eu ainda esperar da vida?\u00bb, mas sim: \u00abO que espera a vida de mim?\u00bb Que tarefa na vida espera por mim?\u2019 (P. 34)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Viver em si nada mais \u00e9 do que ser interrogado (Befragt-sein), todo o nosso ser nada mais \u00e9 do que uma resposta \u2013 uma assun\u00e7\u00e3o da responsabilidade da vida.\u2019 (P. 34)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[] costumo habitualmente contar a hist\u00f3ria que apareceu numa breve not\u00edcia de jornal: um negro condenado \u00e0 pris\u00e3o perp\u00e9tua foi deportado para a Ilha do Diabo. Quando o navio, o <em>Leviat\u00e3<\/em>, se encontrava no alto mar deflagrou um inc\u00eandio. Naquela emerg\u00eancia, o prisioneiro foi libertado das suas correntes, tendo participado na opera\u00e7\u00e3o de salvamento. Este senhor salvou a vida de 10 pessoas. Mais tarde, em consequ\u00eancia disso, o prisioneiro foi amnistiado. Eu pergunto: se se tivesse, antes do embarque, isto \u00e9, no cais de Marselha, perguntado a este prisioneiro se a sua vida futura poderia ainda ter algum sentido \u2013 ele teria obviamente abanado a cabe\u00e7a: havia alguma coisa que estivesse ainda \u00e0 espera dele? Mas nenhum de n\u00f3s sabe o que est\u00e1 ainda \u00e0 nossa espera, que grande momento, que oportunidade \u00fanica para um ato sem igual est\u00e1 ainda \u00e0 sua espera \u2013 tal como o salvamento de 10 pessoas estava \u00e0 espera desse negro do navio <em>Leviat\u00e3<\/em>.\u2019 (p. 35)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Damos sentido \u00e0 vida atrav\u00e9s de a\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m atrav\u00e9s do amor \u2013 e finalmente atrav\u00e9s do sofrimento. Pois \u00e9 a forma como uma pessoa lida com a limita\u00e7\u00e3o das suas possibilidades de vida, enquanto elas afetam o seu agir e a sua capacidade de amar, a forma como se comporta com esta limita\u00e7\u00e3o \u2013 a forma como assume o seu sofrimento sob tal limita\u00e7\u00e3o, em tudo isto ela \u00e9 ainda capaz de realizar valores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Portanto, \u00e9 na forma como lidamos com as dificuldades que se v\u00ea quem somos, e \u00e9 tamb\u00e9m isso que nos torna capazes de viver uma vida plena de sentido.\u2019 (Pp. 39-40)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O destino, portanto, aquilo que nos acontece, pode, [\u2026], de qualquer forma, ser modelado \u2013 duma ou doutra maneira. \u00abN\u00e3o existe nenhuma situa\u00e7\u00e3o que se n\u00e3o deixe enobrecer, seja atrav\u00e9s da realiza\u00e7\u00e3o seja atrav\u00e9s da resili\u00eancia\u00bb, diz Goethe. Ou <em>n\u00f3s alteramos o destino \u2013 se for poss\u00edvel \u2013 ou ent\u00e3o aceitamo-lo de boa vontade \u2013 se for necess\u00e1rio<\/em>. Interiormente, em ambos os casos podemos crescer atrav\u00e9s da infelicidade. E agora compreendemos tamb\u00e9m o que o poeta alem\u00e3o H\u00f6lderlin quer dizer quando escreve: \u00abSe eu piso a minha infelicidade, fico mais alto.\u00bb.\u2019 (p. 40)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[Esta \u00e9] a grande realidade fundamental do que \u00e9 pessoa humana \u2013 a pessoa humana n\u00e3o \u00e9 outra coisa sen\u00e3o: ser consciente (<em>Bewusst-Sein<\/em>) e ser respons\u00e1vel (<em>Verantwortlich-Sein<\/em>)!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas se a vida, tendo em conta a possibilidade, tem sempre sentido, se, portanto, depende unicamente de n\u00f3s quanto \u00e0 vida ser cumprida a cada momento com este poss\u00edvel sentido \u2013 que est\u00e1 em permanente mudan\u00e7a -, se \u00e9 da nossa inteira responsabilidade e depende da nossa decis\u00e3o a concretiza\u00e7\u00e3o deste sentido, ent\u00e3o sabemos tamb\u00e9m com certeza o seguinte: h\u00e1 uma coisa seguramente sem sentido, que n\u00e3o tem sentido nenhum, que \u00e9 deitar fora a vida. O suic\u00eddio n\u00e3o \u00e9, por conseguinte, de forma alguma uma resposta a uma qualquer pergunta; o suic\u00eddio nunca ser\u00e1 capaz de resolver algum problema.\u2019 (Pp. 42-43)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] o suicida infringe as regras do jogo da vida; estas regras do jogo n\u00e3o exigem de n\u00f3s que ven\u00e7amos a todo o custo \u2013 por\u00e9m, elas exigem de n\u00f3s que em nenhum caso desistamos da luta.\u2019 (p. 44)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] o facto e apenas o facto de sermos mortais, de a nossa vida ter fim, de o nosso tempo ser limitado e as nossas possibilidades serem limitadas, faz com que pare\u00e7a ter sentido realizar qualquer coisa, aproveitar uma possibilidade e concretiz\u00e1-la, realiz\u00e1-la, aproveitar o tempo e preench\u00ea-lo. A morte representa aqui uma compuls\u00e3o. \u00c9 justamente sobre o pano de fundo da morte que o nosso ser constitui, pois, um ser respons\u00e1vel.\u2019 (p. 44)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018A unicidade s\u00f3 pode ter valor quando ela n\u00e3o constitui uma unicidade para si mesma, mas sim uma unicidade para a comunidade humana. O simples facto de que todo o indiv\u00edduo possui impress\u00f5es digitais \u00ab\u00fanicas\u00bb nas polpas dos dedos tem quando muito relev\u00e2ncia para os criminologistas, para a investiga\u00e7\u00e3o criminal ou para descobrir um criminoso; mas esta \u00abindividualidade\u00bb de cada indiv\u00edduo n\u00e3o faz dele, sem mais nem menos, uma \u00abpersonalidade\u00bb, isto \u00e9, uma pessoa humana que na sua unicidade tem valor para a comunidade.\u2019 (p. 49)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] a vida em si significa ser interrogada, significa responder \u2013 cada um responsabilizar-se pela sua exist\u00eancia. A vida assim j\u00e1 n\u00e3o surge como uma realidade (<em>Gegebenheit<\/em>), mas sim uma realidade incumbida (<em>Aufgegebenheit<\/em>) \u2013 \u00e9 em cada momento uma tarefa.\u2019 (p. 50)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O ponto de vista que se nos oferece pode expressar-se acertadamente com as palavras de Hebbel: \u00abA vida n\u00e3o \u00e9 alguma coisa \u2013 ela \u00e9 uma oportunidade para alguma coisa!\u00bb.\u2019 (p. 51)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Uma das conclus\u00f5es a que quisemos chegar na nossa primeira conversa \u00e9 a seguinte: se a vida tem sentido \u2013 ent\u00e3o o sofrimento tamb\u00e9m tem de ter sentido.\u2019 (p. 55)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018A doen\u00e7a faz parte do sofrimento. Dizemos \u00abfaz parte\u00bb; pois \u00abo sofrimento\u00bb e a \u00abdoen\u00e7a\u00bb n\u00e3o s\u00e3o a mesma coisa. A pessoa humana pode sofrer sem estar doente; e pode estar doente sem sofrer. O sofrimento \u00e9 de tal forma um assunto humano, pertencendo-lhe de certo modo como tal, que, em determinadas circunst\u00e2ncias, justamente o n\u00e3o sofrer pode ser uma doen\u00e7a. Vemos isso sobretudo no caso das doen\u00e7as que qualificamos de doen\u00e7as mentais que s\u00e3o nada menos que doen\u00e7as ligadas \u00e0 mente.\u2019 (p. 55)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] a realiza\u00e7\u00e3o de sentido \u00e9 poss\u00edvel em tr\u00eas dire\u00e7\u00f5es principais: a pessoa humana \u00e9 capaz de atribuir sentido \u00e0 sua exist\u00eancia, em primeiro lugar, fazendo algo, agindo, criando algo \u2013 concretizando uma obra; em segundo lugar, experienciando algo \u2013 a natureza, a arte, amando pessoas; e, em terceiro lugar, finalmente, pode atribuir sentido \u00e0 vida, encontrar sentido nela tamb\u00e9m onde nem na primeira nem na segunda dire\u00e7\u00e3o lhe \u00e9 dada essa possibilidade \u2013 a saber, justamente quanto toma posi\u00e7\u00e3o sobre a limita\u00e7\u00e3o inalter\u00e1vel, fat\u00eddica, inescap\u00e1vel e inevit\u00e1vel das suas possibilidades, a forma como lida com ela, como se comporta com ela, como aceita este destino. No decurso do tempo, a pessoa tem de estar preparada para alterar sempre a dire\u00e7\u00e3o desta realiza\u00e7\u00e3o de sentido, muitas vezes abruptamente, tendo em conta as \u00abexig\u00eancias espec\u00edficas da hora\u00bb.\u2019 (Pp. 60-61)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[Um designer gr\u00e1fico publicit\u00e1rio, com doen\u00e7a oncol\u00f3gica em fase terminal] sabia perfeitamente que os seus dias, em \u00faltima an\u00e1lise, as suas horas, estavam contados. Lembro-me nitidamente da visita que tive de fazer como m\u00e9dico de servi\u00e7o naquele hospital na \u00faltima tarde da sua vida. Quando passei pela cama dele, fez-me sinal para eu me aproximar. Falando com esfor\u00e7o, deu-me a entender que, durante a visita do chefe de servi\u00e7o, tinha percebido que o Prof. G dera ordens para, nas derradeiras horas, lhe ser administrada uma inje\u00e7\u00e3o de morfina a fim de aliviar os estertores da morte iminentes. Continuou dizendo que, como tinha motivos para acreditar que na noite seguinte \u00abchegaria a sua hora\u00bb, me pedia que lhe desse a inje\u00e7\u00e3o j\u00e1, durante a visita \u2013 de modo que a enfermeira do turno da noite n\u00e3o tivesse de incomodar o meu sono de prop\u00f3sito por causa dele\u2026 Nas \u00faltimas horas da sua vida, este homem estava ainda preocupado em poupar os outros, em vez de os \u00abincomodar\u00bb! [\u2026] H\u00e3o de me compreender se eu agora afirmar: nenhum cartaz de publicidade espl\u00eandido nem o melhor e mais belo do mundo que este nosso doente tivesse conseguido fazer ainda durante a plena atividade profissional equivaleria como realiza\u00e7\u00e3o a esta singela realiza\u00e7\u00e3o humana que se viu no comportamento descrito relativo \u00e0s suas \u00faltimas horas.\u2019 (Pp. 62-63)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] Rilke exige de toda a pessoa humana ou desejou para toda a pessoa humana: \u00abpoder morrer a sua morte!\u00bb Dito doutra forma, integrar tamb\u00e9m a morte com sentido no todo da vida, mais ainda, realizar o sentido da vida at\u00e9 na pr\u00f3pria morte.\u2019 (Pp. 64-65)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Se ap\u00f3s tudo isso se comprovou que at\u00e9 a vida com doen\u00e7a, ou melhor, a vida condenada \u00e0 morte n\u00e3o representa de modo algum uma vida sem sentido, ent\u00e3o agora temos de nos virar para a quest\u00e3o de saber com que direito se p\u00f4de alguma vez afirmar que o homem doente ou um homem que sofre de doen\u00e7a terminal era um homem sem valor, sendo a sua vida \u00abuma vida indigna de ser vivida\u00bb. Queremos aqui p\u00f4r de lado todo o tipo de valor no sentido de \u00abutilidade\u00bb, que at\u00e9 as vidas de pessoas doentes, ali\u00e1s precisamente as suas vidas, poderiam ter, na medida em que podem contribuir para a descoberta de novas doen\u00e7as ou o desenvolvimento de novos tratamentos; [\u2026]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se, portanto, se levanta a quest\u00e3o do simples valor utilit\u00e1rio da vida doente para a sociedade humana e para o progresso cient\u00edfico, ent\u00e3o esta quest\u00e3o revela j\u00e1 um ponto de vista inumano (<em>un-menschlich<\/em>) e, por conseguinte, tamb\u00e9m um ponto de vista n\u00e3o m\u00e9dico (<em>un-\u00e4rtslich<\/em>), um ponto de vista de um radical coisifica\u00e7\u00e3o e degrada\u00e7\u00e3o do ser humano, que recusamos adotar por uma quest\u00e3o de princ\u00edpio. Nem sequer o doente ps\u00edquico \u00ab\u00e9\u00bb para n\u00f3s uma doen\u00e7a, mas sim em primeiro lugar uma pessoa humana, que \u00abtem\u00bb uma doen\u00e7a. E como esta pessoa humana pode ser humana, ainda que esteja t\u00e3o doente, como pode ser humana n\u00e3o apenas apesar da e na sua doen\u00e7a, mas tamb\u00e9m na sua atitude face \u00e0 doen\u00e7a.\u2019 (Pp. 70-71)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Temos de nos questionar sobre o seguinte: suponhamos que de facto \u00e9ramos de tal forma omniscientes, como seria ali\u00e1s necess\u00e1rio, ao ponto de podermos falar com absoluta seguran\u00e7a da incurabilidade n\u00e3o apenas moment\u00e2nea, mas tamb\u00e9m duradoura: quem, mesmo nesse caso, d\u00e1 ao m\u00e9dico o direito de matar? Estar\u00e1 alguma vez o m\u00e9dico como tal designado para isso pela sociedade humana? N\u00e3o ter\u00e1 ele antes a tarefa de salvar, onde puder, ajudar, onde puder, e tratar quando n\u00e3o for j\u00e1 poss\u00edvel curar? [\u2026] O m\u00e9dico enquanto m\u00e9dico n\u00e3o \u00e9 com certeza um juiz sobre o ser e o n\u00e3o ser dos doentes que lhe s\u00e3o confiados ou mesmo dos que confiam nele. Por isso, n\u00e3o lhe assiste de antem\u00e3o o direito de \u2013 e jamais deve arrogar-se possuir esse direito \u2013 formar um ju\u00edzo sobre o suposto valor da vida, ou a falta dele, de doentes supostamente ou de facto incur\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Imagine-se onde ir\u00edamos parar se a este \u00abdireito\u00bb (que n\u00e3o tem de facto) se desse for\u00e7a de lei (ainda que fosse apenas uma lei n\u00e3o escrita). Digo-lhes o seguinte: a confian\u00e7a dos doentes e dos seus familiares na classe m\u00e9dica ficaria destru\u00edda duma vez por todas! Pois ningu\u00e9m saberia ao certo se o m\u00e9dico se aproxima dele como algu\u00e9m que presta cuidados e algu\u00e9m que cura \u2013 ou j\u00e1 como juiz ou algoz.\u2019 (Pp. 74-75)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[H\u00e1 quem interrogue] se o Estado n\u00e3o teria o dever de conceder ao m\u00e9dico o direito de aniquilar indiv\u00edduos sup\u00e9rfluos e in\u00fateis. [\u2026]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois bem, quanto ao \u00abconsumo\u00bb de bens como os g\u00e9neros aliment\u00edcios, as camas dos hospitais, o trabalho realizado pelos m\u00e9dicos e enfermeiros, etc., qualquer discuss\u00e3o deste argumento torna-se sup\u00e9rflua se tivermos em conta o seguinte: um Estado que economicamente est\u00e1 numa situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o miser\u00e1vel que tem necessidade de eliminar uma percentagem relativamente reduzida dos seus doentes incur\u00e1veis para assim poupar nos gastos referidos acima \u2013 um Estado destes n\u00e3o tem hip\u00f3teses nenhumas em termos econ\u00f3micos!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No que diz respeito ao outro lado da quest\u00e3o, isto \u00e9, o facto de que os doentes incur\u00e1veis j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o \u00fateis para a comunidade humana, de que a assist\u00eancia para eles \u00e9 uma assist\u00eancia \u00abimprodutiva\u00bb, seria necess\u00e1rio lembrar que a utilidade para a comunidade n\u00e3o \u00e9 nunca o \u00fanico padr\u00e3o que temos o direito de aplicar a um ser humano.\u2019 (Pp. 75-76)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Quando n\u00f3s, na nossa primeira confer\u00eancia, fal\u00e1vamos de que a unicidade e a singularidade de toda a pessoa humana constitu\u00eda o valor da sua pessoa, que este valor tinha de estar relacionado com uma comunidade, \u00abpara a qual\u00bb esta unicidade tinha uma import\u00e2ncia valiosa, ent\u00e3o est\u00e1vamos todos a pensar especialmente em termos de servi\u00e7o prestado \u00e0 comunidade; mas agora verifica-se que existe ainda um segundo caminho em que a pessoa humana como um ser \u00fanico e singular se real\u00e7a nesta sua unicidade, em que, portanto, o valor da sua personalidade se concretiza e, nessa medida, o seu sentido da vida pessoal e concreto se realiza: \u00e9 o caminho do amor \u2013 ou melhor, de ser amado. [\u2026] No caminho do amor \u00e9 concedido \u00e0 pessoa humana, \u00abpela via da gra\u00e7a\u00bb, aquilo por que doutra forma tem de se esfor\u00e7ar, que tem de obter atrav\u00e9s da a\u00e7\u00e3o: a realiza\u00e7\u00e3o tanto da sua unicidade como da sua singularidade. Pois, a ess\u00eancia do amor consiste em fazer com que a pessoa amada se nos torne vis\u00edvel justamente na sua unicidade e singularidade.\u2019 (Pp. 76-77)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] defendo o ponto de vista de que no caso duma tentativa de suic\u00eddio, o m\u00e9dico tem n\u00e3o s\u00f3 o direito como a obriga\u00e7\u00e3o de intervir medicamente, e isto significa: a obriga\u00e7\u00e3o de salvar e de ajudar, tanto quanto lhe for poss\u00edvel. [\u2026] o que eu contrapus aos cr\u00edticos morais do meu m\u00e9todo [\u2026] foi o seguinte: n\u00e3o sou eu quem pretende desempenhar o papel do destino, mas sim \u00e9 o m\u00e9dico que tenta desempenhar o papel do destino, que deixa o suicida entregue ao seu destino, que deixa o destino \u00abem roda livre\u00bb e, onde talvez pudesse intervir, ajudando, cruza dos bra\u00e7os. [\u2026] uma vez que foi colocado nas m\u00e3os do m\u00e9dico, ent\u00e3o este deve agir como m\u00e9dico e n\u00e3o cair nos bra\u00e7os <em>deste<\/em> destino, deste destino \u00abmisericordioso\u00bb.\u2019 (Pp. 80-81)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Espero agora, atrav\u00e9s da discuss\u00e3o de todos os argumentos aparentes que poderiam falar em favor da eutan\u00e1sia, ter-lhes mostrado como \u00e9 incondicional o sentido da exist\u00eancia e, consequentemente, como deve ser tamb\u00e9m inabal\u00e1vel a nossa cren\u00e7a no sentido da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[\u2026] Relembrando, grosso modo, o nosso resultado principal, fizemos a constata\u00e7\u00e3o b\u00e1sica de que a vida em si significa que a questionemos e que, deste modo, n\u00e3o de pode, justificadamente, perguntar pelo seu sentido, pois este sentido consiste em dar uma resposta. As respostas, como diz\u00edamos, que temos de dar \u00e0s perguntas concretas da vida j\u00e1 n\u00e3o podem ser dadas em palavras, mas sim em atos, mais ainda: na nossa viv\u00eancia, em todo o nosso ser! As quest\u00f5es \u00abda\u00bb vida s\u00f3 podem ser respondidas, quer\u00edamos n\u00f3s dizer, sendo \u00abcada um de n\u00f3s\u00bb respons\u00e1vel pela pr\u00f3pria vida.\u2019 (p. 81)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] o deixar-se cair psiquicamente por falta de suporte espiritual, sobretudo pela perda de um suporte no futuro, conduz tamb\u00e9m \u00e0 decad\u00eancia f\u00edsica.\u2019 (p. 97)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Recordando-me das palavras de Nietzsche, que uma vez disse: \u00abQuem tiver um porqu\u00ea para viver, suporta quase qualquer como\u00bb.\u2019 (P. 97)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Era necess\u00e1rio morrermos a nossa morte \u2013 e n\u00e3o, por exemplo, a morte que as SS nos tinham imposto! Somo respons\u00e1veis tanto por esta tarefa como pela tarefa de viver. Respons\u00e1veis \u2013 perante quem, perante que inst\u00e2ncia? Pois ent\u00e3o, quem poderia responder a esta pergunta pelo outro? N\u00e3o ter\u00e1 cada um de n\u00f3s de decidir por si pr\u00f3prio sobre essa quest\u00e3o? Que importa se, por exemplo, uma pessoa na barraca se sentia respons\u00e1vel perante a sua consci\u00eancia e uma outra perante Deus e uma terceira perante uma pessoa humana, que estava naquele momento distante? Em todo o caso, cada um deles sabia que existia, de alguma forma, algures, algu\u00e9m que olhava, invis\u00edvel, por ele, algu\u00e9m que exigia dele \u00abque ele se mostrasse digno do seu sofrimento\u00bb &#8211; como Dostoi\u00e9vski disse uma vez \u2013 e que esperava dele que ele \u00abmorresse a sua morte\u00bb.\u2019 (Pp. 98-99)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] em cada momento sou respons\u00e1vel pelo pr\u00f3ximo; [\u2026] cada decis\u00e3o, a mais pequena como a maior, \u00e9 uma decis\u00e3o \u00abpara a eternidade\u00bb; [\u2026] em cada momento realizo uma possibilidade, a possibilidade de um momento, ou perco-a. Cada momento alberga milhares de possibilidades \u2013 e eu posso escolher apenas uma para a realizar; ao t\u00ea-la, por assim dizer condenei todas as outras ao nunca-ser \u2013 e tamb\u00e9m isto; \u00abpara toda a eternidade\u00bb! Mas \u00e9 maravilhoso: saber que o futuro, o meu pr\u00f3prio futuro e, conjuntamente com ele, o futuro das coisas, das pessoas \u00e0 minha volta \u2013 dependente em cada momento da minha decis\u00e3o. O que eu realizo atrav\u00e9s dela, o que eu \u00abcoloco no mundo\u00bb, como dissemos \u2013 salvo-o para dentro da realidade e assim protejo-o da transitoriedade.\u2019 (p. 107)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O problema \u00e9 que em m\u00e9dia as pessoas s\u00e3o demasiado indolentes para assumir a sua responsabilidade. E \u00e9 aqui que come\u00e7a a educa\u00e7\u00e3o para a responsabilidade: a carga \u00e9 pesada; \u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o s\u00f3 reconhecer a responsabilidade como ser partid\u00e1rio dela. Dizer-lhe sim a ela e \u00e0 vida.\u2019 (p. 107)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Dizer sim \u00e0 vida tem n\u00e3o s\u00f3 sentido sob qualquer circunst\u00e2ncia \u2013 a pr\u00f3pria vida tem-no -, mas sim, \u00e9 poss\u00edvel sob qualquer circunst\u00e2ncia.\u2019 (p. 107)<\/p>\n<h5 style=\"text-align: right;\">**(T\u00edtulo retirado de Daniel Faria, Dos l\u00edquidos, Porto, Edi\u00e7\u00e3o Funda\u00e7\u00e3o Manuel Le\u00e3o, 2000, p. 137)<\/h5>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217;, &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rubrica \u2018Sabes, leitor,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":16883,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9,55,198],"tags":[],"class_list":["post-16882","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-programa-diocesano-de-livros-e-leituras","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-sabes-leitor-que-estamos-ambos-na-mesma-pagina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16882","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16882"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16882\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16999,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16882\/revisions\/16999"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16883"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16882"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16882"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16882"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}