{"id":16839,"date":"2023-12-22T15:27:38","date_gmt":"2023-12-22T15:27:38","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=16839"},"modified":"2023-12-22T15:27:38","modified_gmt":"2023-12-22T15:27:38","slug":"luis-manuel-pereira-da-silva-natal-a-celebracao-da-uniao-que-nao-funde-nem-cinde","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/luis-manuel-pereira-da-silva-natal-a-celebracao-da-uniao-que-nao-funde-nem-cinde\/","title":{"rendered":"Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva | Natal: a celebra\u00e7\u00e3o da uni\u00e3o que n\u00e3o funde nem cinde&#8230;"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo originalmente publicado no<a href=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> Correio do Vouga<\/a> e em <a href=\"https:\/\/teologicus.blogspot.com\/2023\/12\/a-autodeterminacao-que-so-pode-ser-de.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/teologicus.blogspot.com\/<\/a><\/h6>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mist\u00e9rio, na perspetiva crist\u00e3, n\u00e3o \u00e9 sin\u00f3nimo de \u2018enigma\u2019, de \u2018c\u00f3digo indecifr\u00e1vel\u2019 ou \u2018indecifrado\u2019. Antes, o entendimento crist\u00e3o de uma realidade como \u2018mist\u00e9rio\u2019 recupera o que a sua etimologia evoca: a ideia de uma densidade perante a qual se faz sil\u00eancio. N\u00e3o o sil\u00eancio do desconhecimento, mas o sil\u00eancio do \u2018deixar-se abarcar\u2019 pela grandiosidade da realidade que suscita esse \u2018espanto misterioso\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Natal \u00e9, a esta luz, mist\u00e9rio; realidade densa perante a qual nos despojamos de certezas para nos deixarmos emudecer de surpresa e espanto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A perspetiva crist\u00e3 acrescenta-lhe, ainda, uma nota: essa densidade da realidade que se nos afigura como mist\u00e9rio confere sentido \u00e0quele que se emudece. A densidade do mist\u00e9rio densifica a realidade que emudece e se emudece.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O homem n\u00e3o se fecha, perante o mist\u00e9rio: abre-se a um novo horizonte que, sem o mist\u00e9rio, lhe ficaria definitivamente encerrado, criando um aparente paradoxo com a ideia difundida de mist\u00e9rio que o identifica com enigma. Mist\u00e9rio, na leitura crist\u00e3, n\u00e3o \u00e9 \u2018fechamento\u2019, mas o sil\u00eancio para que a Palavra seja pronunciada e confira nome ao que \u00e9, antes do mist\u00e9rio, um nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mist\u00e9rio crist\u00e3o \u00e9, por isso, realidade densa que torna significativa a exist\u00eancia. O mist\u00e9rio diz da realidade a que se reconhece tal condi\u00e7\u00e3o (de mist\u00e9rio) que ela \u00e9 t\u00e3o densa que podemos recolher mais e mais significado para o nosso existir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do Natal essa foi a experi\u00eancia ao longo dos tempos. A densidade mist\u00e9rica do Natal fez desse evento que \u00e9 a Encarna\u00e7\u00e3o de Deus uma realidade de que se recolhem sempre novos significados para a exist\u00eancia humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No hoje da hist\u00f3ria dos Homens, o Natal afigura-se como realidade que se pronuncia como esc\u00e2ndalo: o de um Deus que n\u00e3o \u00e9 confin\u00e1vel aos limites da tenta\u00e7\u00e3o de O encerrar nas categorias com que pretendemos conceber o divino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se f\u00f4ssemos n\u00f3s Deus, hoje, \u00e0 maneira do entendimento contempor\u00e2neo, jamais encarnar seria uma prioridade ou, sequer, uma possibilidade. De Deus esperar\u00edamos que permanecesse na dist\u00e2ncia de um absoluto isolado, insuscet\u00edvel de se \u2018contaminar\u2019 com a humanidade e, por isso, amoral e indiferente \u00e0 cria\u00e7\u00e3o. Jamais, ali\u00e1s, o \u2018pensar\u00edamos\u2019 criador: talvez \u2018for\u00e7a\u2019, talvez \u2018energia\u2019, mas jamais rela\u00e7\u00e3o e menos, ainda, amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O esc\u00e2ndalo n\u00e3o \u00e9, contudo, original nos nossos tempos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O esc\u00e2ndalo da encarna\u00e7\u00e3o \u00e9-o de todos os tempos desde que, no tempo, Deus ousou intrometer-se com a Sua cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u2018kenose\u2019, o \u2018abaixamento\u2019 de que fala S. Paulo [\u2018Ele, que \u00e9 de condi\u00e7\u00e3o divina, n\u00e3o considerou como uma usurpa\u00e7\u00e3o ser igual a Deus; no entanto, esvaziou-se a si mesmo, tomando a condi\u00e7\u00e3o de servo. Tornando-se semelhante aos homens e sendo, ao manifestar-se, identificado como homem, rebaixou-se a si mesmo, tornando-se obediente at\u00e9 \u00e0 morte e morte de cruz.\u2019 (Flp 2, 6-8)] \u00e9 reconhecido pelo mesmo Paulo como \u2018esc\u00e2ndalo para os judeus e loucura para os gentios\u2019 (1 Cor 1, 23). E \u00e9-o, percebemo-lo, ao longo da hist\u00f3ria, n\u00e3o apenas por escandalizar que Deus aceite \u2018reduzir-se\u2019 \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana, mas principalmente porque tal ocorra sem que se opere qualquer \u2018reducionismo\u2019, conduzindo a um desfecho em que uma das naturezas (a humana ou a divina) fique numa condi\u00e7\u00e3o em que \u2018n\u00e3o seja mais do que\u2026\u2019, para citar o que diz Viktor Frankl para definir todos os reducionismos<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A novidade crist\u00e3 do Natal est\u00e1 precisamente em que a encarna\u00e7\u00e3o n\u00e3o reduza Deus ou o Homem ao que a outra natureza \u00e9. Uma e outra unem-se sem se fundir nem cindir. Assim o afirma o Conc\u00edlio de Calced\u00f3nia: \u2018[Este Conc\u00edlio] op\u00f5e-se aos que procuram separar numa dualidade de filhos o mist\u00e9rio da divina economia da salva\u00e7\u00e3o; exclui da ordem clerical os que se atrevem a afirmar sujeita a sofrimento a divindade do Unig\u00e9nito; resiste aos que pensam numa mistura ou confus\u00e3o das duas naturezas de Cristo; expulsa os que t\u00eam necessidade de considerar celestial, ou de qualquer outra subst\u00e2ncia, aquela forma humana de servo que assumiu de n\u00f3s; e excomunga, finalmente, os que contam f\u00e1bulas sobre duas naturezas do Senhor antes da uni\u00e3o, e de uma s\u00f3 depois da uni\u00e3o.\u2019 Conc\u00edlio de Calced\u00f3nia<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, <em>Credo de Calced\u00f3nia<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sublinhe-se, com o Cardeal Newman, que \u2018[\u2026] os cat\u00f3licos n\u00e3o vieram a acreditar nisso por ter sido definido, mas [\u2026] foi definido porque eles j\u00e1 acreditavam.\u2019 (John Henry Newman, <em>Apologia<\/em>, S\/L: Editorial Verbo, s\/d, p. 285). N\u00e3o foi Calced\u00f3nia que definiu, determinando o que passaria a ser a f\u00e9 cat\u00f3lica, mas, antes, foi ponto de converg\u00eancia para o qual conflu\u00edram quase cinco s\u00e9culos de f\u00e9 celebrada e vivida, assente no reconhecimento de que o Homem Jesus Cristo era totalmente Homem ao mesmo tempo que Deus Verbo era a Palavra total de Deus, em si mesmo Amor, na Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Unir fundindo numa s\u00f3 natureza desrespeitaria a autonomia da cria\u00e7\u00e3o; cindir sem unir impediria a realiza\u00e7\u00e3o da salva\u00e7\u00e3o. S\u00f3 uma uni\u00e3o que \u00e9 aut\u00eantica rela\u00e7\u00e3o, encontro, di\u00e1logo, movimento de converg\u00eancia constante, preserva o todo que a encarna\u00e7\u00e3o afirma e \u00e9 t\u00e3o significativo nos tempos em que nos cabe celebrar o Natal: tempos que ou fundem ou cindem, mas t\u00eam tanta dificuldade em realizar efetivo encontro que s\u00f3 o amor sabe concretizar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Celebrar o natal constitui-se como paradigma da condi\u00e7\u00e3o genuinamente humana: que se faz do encontro de identidades que s\u00e3o mais aut\u00eanticas quando ocorre di\u00e1logo (a circula\u00e7\u00e3o da palavra de um para outro, sem que um dos dois se perca nesse fluxo; seja por \u2018arrefecimento\u2019 resultante de dist\u00e2ncia excessiva; seja por fus\u00e3o resultante da perda das identidades). Os tempos tendem a ser de mon\u00f3logos ou de \u2018par\u00e1logos\u2019 (evocando a etimologia de \u2018contra a palavra\u2019).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Natal \u00e9 a \u2018Palavra a circular entre n\u00f3s\u2019; sem dividir nem fundir: habitando-nos!<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Cfr. Viktor Frankl, <em>A voz que grita por um sentido<\/em>, Alfragide, Lua de Papel, 2021, p. 57.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Conc\u00edlio de Calced\u00f3nia, Quinta sess\u00e3o (22 de outubro de 451) Credo de Calced\u00f3nia, [<em>Pro\u00e9mio da defini\u00e7\u00e3o. Depois dos dois s\u00edmbolos de f\u00e9 de Niceia e de Constantinopla<\/em>] \u2013 Tradu\u00e7\u00e3o a partir da edi\u00e7\u00e3o espanhola de Heinrich Denzinger e Peter H\u00fcnermann<em>, El Magisterio de la Iglesia [Enchiridion Symboloum definitionum et declarationum de rebus fidei et morum]<\/em>, 1999, n.\u00ba 301.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;, &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem: <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Georges_de_La_Tour#\/media\/Ficheiro:Georges_de_La_Tour_-_Newlyborn_infant_-_Mus%C3%A9e_des_Beaux-Arts_de_Rennes.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Cristo rec\u00e9m-nascido<\/a> | Georges de La Tour [c. 1645\u20131648]<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo originalmente publicado<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":16840,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,14],"tags":[],"class_list":["post-16839","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-temas-para-debate"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16839","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16839"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16839\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16841,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16839\/revisions\/16841"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16840"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16839"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16839"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16839"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}