{"id":16833,"date":"2023-12-20T07:00:10","date_gmt":"2023-12-20T07:00:10","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=16833"},"modified":"2023-12-22T15:28:12","modified_gmt":"2023-12-22T15:28:12","slug":"luis-manuel-pereira-da-silva-a-autodeterminacao-que-so-pode-ser-de-genero","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/luis-manuel-pereira-da-silva-a-autodeterminacao-que-so-pode-ser-de-genero\/","title":{"rendered":"Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva | A autodetermina\u00e7\u00e3o que s\u00f3 pode ser de g\u00e9nero\u2026"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo originalmente publicado no<a href=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> Correio do Vouga<\/a> e em <a href=\"https:\/\/teologicus.blogspot.com\/2023\/12\/a-autodeterminacao-que-so-pode-ser-de.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/teologicus.blogspot.com\/<\/a><\/h6>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 uma estrat\u00e9gia de l\u00f3gica que nos permite identificar a qualidade dos nossos pressupostos: o exerc\u00edcio de os levar at\u00e9 ao absurdo. Se resistirem a esse exerc\u00edcio, podemos d\u00e1-los como \u00fateis, eficazes e leg\u00edtimos. Se n\u00e3o resistirem, conv\u00e9m arrepiarmos caminho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, um qualquer b\u00e1sico exerc\u00edcio de l\u00f3gica permitir\u00e1 verificar se podemos contar com essa fiabilidade quando se trata de adotar para a vida em sociedade o que est\u00e1 definido como sendo \u2018autodetermina\u00e7\u00e3o de g\u00e9nero\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pressuposto desta \u2018teoria\u2019 ou \u2018ideologia\u2019, que por ser \u2018totalizante\u2019 (ousaria chamar-lhe \u2018totalit\u00e1ria\u2019) deixa sem resposta quem \u00e9 confrontado com o soundbite de quem a quer defender e pergunta \u2018mas \u00e9s a favor do sofrimento de uma crian\u00e7a que diz que \u00e9 de outro g\u00e9nero que n\u00e3o o seu?\u2019, \u00e9 o de que o g\u00e9nero que nos identifica s\u00f3 n\u00f3s podemos saber qual \u00e9, pois n\u00e3o \u00e9 observ\u00e1vel, de forma objetiva e a partir de indicadores biologicamente constat\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00f3 o sujeito, de dentro para fora, sabe qual o g\u00e9nero que o identifica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se tomarmos este pressuposto e o submetermos ao crivo do exerc\u00edcio \u2018ad absurdum\u2019, chegaremos \u00e0 conclus\u00e3o de que, se a autodetermina\u00e7\u00e3o de g\u00e9nero afirma que \u00e9 o indiv\u00edduo que determina qual o seu g\u00e9nero e n\u00e3o a biologia ou a natureza, teremos de concluir que assim ocorrer\u00e1, tamb\u00e9m, em termos de idade e de todas as outras mat\u00e9rias que concernem \u00e0 vida do referido indiv\u00edduo a quem se conferiu a qualidade de crit\u00e9rio primeiro e \u00fanico de toda a identidade que lhe concerne.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sendo assim, e aplicando \u00e0 vida da escola, \u00e2mbito sobre o qual determinou (!) o parlamento que deveriam aplicar-se, no imediato, decis\u00f5es que concernem \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o de g\u00e9nero (curioso que n\u00e3o se tenha definido isso em rela\u00e7\u00e3o, por exemplo, aos centros comerciais, \u00e0s institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas v\u00e1rias \u2013 hospitais, centros de sa\u00fade , servi\u00e7os de toda a natureza, etc\u2026), ent\u00e3o, as conclus\u00f5es a retirar sobre o impacto da aceita\u00e7\u00e3o de tal conceito de autodetermina\u00e7\u00e3o podem configurar-se em interroga\u00e7\u00f5es como estas: porque n\u00e3o pode, ent\u00e3o, um aluno de primeiro ano que sofre por estar nesse ano quando se sente mais identificado com os colegas de quarto ano ou de quinto ano, exigir que o coloquem num ano posterior? Porque n\u00e3o pode um aluno que se sente pobre (afinal, n\u00e3o tem telem\u00f3vel como tantos outros colegas, ou computador ou roupa desta ou daquela qualidade\u2026) exigir que lhe sejam atribu\u00eddos os benef\u00edcios pr\u00f3prios do sentimento profundo que tem? Porque n\u00e3o pode um aluno que tem dez anos, mas se sente com a responsabilidade de um de dezoito anos, votar ou receber um sal\u00e1rio (pois, afinal, n\u00e3o \u00e9 a sua profiss\u00e3o a de estudante?)? Porque n\u00e3o pode um aluno que sofre e foge da escola por causa desse sofrimento, exigir que lhe permitam abandonar de vez a escola, mas o for\u00e7am a frequentar uma imposi\u00e7\u00e3o chamada \u2018escolaridade obrigat\u00f3ria\u2019? Porque n\u00e3o pode um aluno, que sofre por ter essa malfadada matem\u00e1tica, exigir deixar de a ter, assim como todas as disciplinas que detesta e lhe causam sofrimento?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E poder\u00edamos continuar\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para todas estas quest\u00f5es, sabemos que a resposta n\u00e3o \u00e9 a legitima\u00e7\u00e3o do \u2018sentir\u2019 individual, mas o acompanhamento e o discernimento entre indiv\u00edduo e sociedade, numa articula\u00e7\u00e3o em que a preval\u00eancia nunca \u00e9 absoluta de um s\u00f3 dos lados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na autodetermina\u00e7\u00e3o de g\u00e9nero esse equil\u00edbrio perdeu-se, prevalecendo, de forma absoluta, o indiv\u00edduo, fechado sobre si, sem hist\u00f3ria nem natureza, sem heran\u00e7a mas todo autogerado, tornado o centro exclusivo e cabendo a todo o mundo mudar-se para se conformar a ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma vis\u00e3o deste g\u00e9nero mata a sociedade, mata as rela\u00e7\u00f5es, obriga a esperar que o indiv\u00edduo diga quem \u00e9, havendo um absoluto sil\u00eancio pr\u00e9vio. Torna imposs\u00edvel saber quem \u00e9 o outro, enquanto heran\u00e7a e acolhimento. N\u00e3o h\u00e1 reciprocidade: h\u00e1 um movimento de \u00fanico sentido: do indiv\u00edduo para os outros. N\u00e3o pode, por isso, sen\u00e3o ser fonte de lit\u00edgios, pois toda a ousadia de dizer que o outro \u00e9 quem conhecemos, porque \u00e9 portador de uma hist\u00f3ria, \u00e9 tomada como um insulto e uma agress\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Imagine-se o que seria a sociedade se a todas as rela\u00e7\u00f5es se aplicasse este princ\u00edpio: nada poderia pressupor-se, antes de que todos os dados fossem facultados por cada indiv\u00edduo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 por tudo isto que a lei sobre a autodetermina\u00e7\u00e3o de g\u00e9nero, nas escolas, \u00e9 grave e trai a confian\u00e7a em que assentam as rela\u00e7\u00f5es: a confian\u00e7a de que quem eu tenho diante de mim \u00e9 algu\u00e9m que eu conhe\u00e7o. Uma sociedade em que a autodetermina\u00e7\u00e3o que, agora, \u00e9 de g\u00e9nero, fosse de todas as condi\u00e7\u00f5es, seria uma sociedade \u2018alzheimer\u2019, uma sociedade de amn\u00e9sia total. Nada do que fomos estaria em cada presente, pelo que nada do que somos seria futuro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 isto que queremos?<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;, &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/mohamed_hassan-5229782\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=5690627\">Mohamed Hassan<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=5690627\">Pixabay<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo originalmente publicado<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":16834,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[146,55,14],"tags":[],"class_list":["post-16833","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-letra-viva-valores-de-uma-cultura-que-cuida-e-nao-mata","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-temas-para-debate"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16833","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16833"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16833\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16836,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16833\/revisions\/16836"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16834"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16833"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16833"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16833"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}