{"id":16758,"date":"2024-01-15T07:43:06","date_gmt":"2024-01-15T07:43:06","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=16758"},"modified":"2024-02-11T12:36:39","modified_gmt":"2024-02-11T12:36:39","slug":"regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden-18-da-fiel-penelope-a-penelope-pos-moderna","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden-18-da-fiel-penelope-a-penelope-pos-moderna\/","title":{"rendered":"\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019 | 18 | Da fiel Pen\u00e9lope \u00e0 Pen\u00e9lope p\u00f3s-moderna"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><em>\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019<\/em> | Parceria com a revista <a href=\"http:\/\/www.movimento-acr.pt\/accao-catolica-portuguesa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">&#8216;Mundo Rural&#8217;<\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pela m\u00e3o de \u2018regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019, fizemos, ao longo de dezassete ensaios (este \u00e9 o d\u00e9cimo oitavo), a ponte entre a cultura cl\u00e1ssica e a crist\u00e3, estabelecendo la\u00e7os entre uma e outra, ora para vislumbrar pontos de converg\u00eancia, ora para identificar a singularidade do cristianismo perante a tragicidade da vis\u00e3o grega.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fizemos a viagem pela m\u00e3o de Ulisses, mas com o sonho do \u00c9den, enquanto par\u00e1bola da condi\u00e7\u00e3o humana entendida como \u2018el\u00e1stico\u2019 em tens\u00e3o entre um passado perdido e um futuro desejado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre a cultura cl\u00e1ssica e a cultura crist\u00e3 muito \u00e9 o que as une, muito \u00e9 o que as distingue, mas uma nota de converg\u00eancia \u00e9 irrefut\u00e1vel: a compreens\u00e3o do mundo como lugar de manifesta\u00e7\u00e3o do \u2018logos\u2019, da \u2018Palavra\u2019, da \u2018Verdade\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O homem da cultura grega e da cultura crist\u00e3 n\u00e3o \u00e9, nunca, apenas um ser de afetos e emo\u00e7\u00f5es f\u00fateis e ef\u00e9meras. A sua busca, ora tr\u00e1gica, ora elp\u00eddica (marcada pela esperan\u00e7a), n\u00e3o \u00e9, apenas, agorista e pontilhista (feita do \u2018agora\u2019 e de \u2018pontos\u2019 sem liga\u00e7\u00e3o, para evocar pensamento de Stephen Bertman e Zigmunt Baumann). O homem do cristianismo e da cultura cl\u00e1ssica n\u00e3o \u00e9 redut\u00edvel ao agora. Est\u00e1 numa tens\u00e3o entre o passado e o futuro, ora pendendo para o primeiro, ora projetando-se para o segundo. Mas nunca fixando-se no presente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso une as duas culturas e, por isso, a marca contempor\u00e2nea, p\u00f3s-moderna, traz algo de novo que coloca em crise n\u00e3o s\u00f3 a cultura crist\u00e3, mas tamb\u00e9m os fundamentos da cultura em que se fez a hist\u00f3ria ocidental. O homem contempor\u00e2neo poder\u00e1 definir-se como \u2018p\u00f3s-moderno\u2019 (Lyotard), hipermoderno (Lipovetsky), \u2018l\u00edquido\u2019 ou \u2018pontilhista\u2019 (Zigmunt Bauman), \u2018agorista\u2019 e \u2018apressado\u2019 (Stephen Bertman), e entregue \u00e0 \u2018tirania do momento\u2019 (Thomas Hylland Eriksen).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ilustra, de forma muito interessante, esta crise e esta \u2018novidade\u2019, uma can\u00e7\u00e3o de M\u00edsia, editada em 1995, com letra de Carlos T\u00ea. O t\u00edtulo \u00e9 \u2018Pen\u00e9lope: o engenho da costela\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sugiro ao leitor a escuta atenta desta can\u00e7\u00e3o, ap\u00f3s a qual proponho o regresso a esta aprecia\u00e7\u00e3o e leitura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(Deixo, aqui, uma proposta de link de acesso: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=i5VlP9l8MrU\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=i5VlP9l8MrU<\/a>)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O compositor da can\u00e7\u00e3o utiliza, em grande parte da m\u00fasica, um modo menor, criando um tom l\u00fagubre e sentido, modo que acompanha a descri\u00e7\u00e3o da Pen\u00e9lope que conhecemos da Odisseia. Ela \u00e9 a mulher de Ulisses que espera, anos a fio, pelo regresso do marido, distante, em Troia, a travar a c\u00e9lebre guerra entre gregos (que ele representa) e troianos (que haviam raptado a bela Helena). Sendo alvo de muitos pretendentes, Pen\u00e9lope assegura-lhes que aceitar\u00e1 entregar-se a um deles quando terminar a pe\u00e7a que tem em m\u00e3os no seu tear. S\u00f3 que n\u00e3o \u00e9 sua inten\u00e7\u00e3o entregar-se-lhes, pelo que, de noite, desfaz o que fizera de dia, tornando intermin\u00e1vel a sua \u2018obra\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pen\u00e9lope constitui-se, assim, como o paradigma da mulher fiel e determinada a permanecer vinculada a um amor eterno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vers\u00e3o de M\u00edsia traz, por\u00e9m, uma novidade tipicamente p\u00f3s-moderna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na sua hist\u00f3ria, n\u00e3o s\u00f3 Ulisses n\u00e3o regressa a casa, \u2018perdido entre as ilhas\u2019 (fazendo uma revis\u00e3o da hist\u00f3ria que nos chegou e em que Ulisses se prendera ao mastro do seu barco para poder chegar ao seu destino\u2026), como a pr\u00f3pria Pen\u00e9lope desistiu de esperar e parte, \u2018sozinha e sem her\u00f3i\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O regresso de Ulisses a casa j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 esperado, e, se tal deveria ser motivo de inquieta\u00e7\u00e3o e inc\u00f3modo, o autor da can\u00e7\u00e3o encarrega-se de nos dizer como \u00e9 que o \u2018p\u00f3s-moderno\u2019 olha para tudo isto: a m\u00fasica muda de modo (passa a modo maior, f\u00fatil e \u2018trauliteiro\u2019) e a letra diz-nos que \u2018Ulisses est\u00e1 perdido; n\u00e3o tem quem lhe cosa as meias\u2019 (n\u00e3o \u00e9 j\u00e1 a infidelidade que o incomoda; \u00e9 a efemeridade das meias rotas\u2026).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este \u00e9 o drama do nosso tempo: n\u00e3o ter j\u00e1 no\u00e7\u00e3o da dramaticidade da exist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tragicidade com que os gregos respondiam foi superada pela esperan\u00e7a crist\u00e3, mas em ambas as leituras havia a coragem de enfrentar a verdade da exist\u00eancia: respondia-se-lhe com tragicidade ou com esperan\u00e7a, mas olhava-se, frontalmente, para a condi\u00e7\u00e3o humana. O p\u00f3s-moderno, o hipermoderno, parece ter desistido da dramaticidade vital, iludindo-se em viagens sem rumo, alienado e distra\u00eddo, at\u00e9 que a vida se encarrega de o acordar, talvez j\u00e1 demasiado tarde para ainda se assumir peregrino de um horizonte de realiza\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cabe, por isso, hoje, ao cristianismo o denso desafio de despertar do torpor que adormeceu, coletivamente, a humanidade num remendar de meias rotas, pois de que serve a esperan\u00e7a se n\u00e3o se ruma para lado nenhum e n\u00e3o se est\u00e1 na expectativa de coisa alguma?<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;, &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\"><i>Pen\u00e9lope e os pretendentes |<\/i>\u00a0<a title=\"John William Waterhouse\" href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/John_William_Waterhouse\">John William Waterhouse [<\/a>1912]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2018Regresso a \u00cdtaca<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":16759,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,177],"tags":[],"class_list":["post-16758","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16758","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16758"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16758\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17272,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16758\/revisions\/17272"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16759"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16758"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16758"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16758"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}