{"id":16727,"date":"2023-12-05T07:00:08","date_gmt":"2023-12-05T07:00:08","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=16727"},"modified":"2023-12-05T09:46:55","modified_gmt":"2023-12-05T09:46:55","slug":"luis-manuel-pereira-da-silva-o-tempo-e-advento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/luis-manuel-pereira-da-silva-o-tempo-e-advento\/","title":{"rendered":"Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva | O tempo \u00c9 advento"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo originalmente publicado na <a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/opiniao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ag\u00eancia Ecclesia<\/a><\/h6>\n<h2 style=\"text-align: center;\">O tempo \u00c9 advento<\/h2>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00f3 um olhar crente pode reconhecer, no tempo, a sua condi\u00e7\u00e3o de \u2018advento\u2019, entendido como \u2018aproxima\u00e7\u00e3o\u2019, \u2018chegada\u2019, \u2018vinda\u2019<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, termo que traduz, para latim, o que se dizia, em grego (no Novo Testamento) com \u2018parous\u00eda\u2019, evocando a ideia de \u2018presen\u00e7a\u2019, \u2018chegada\u2019, \u2018ocasi\u00e3o favor\u00e1vel\u2019<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qualquer que seja a op\u00e7\u00e3o de tradu\u00e7\u00e3o que tomemos, permanece a ideia da novidade que emerge, na hist\u00f3ria, assomando ao esp\u00edrito humano como expectativa e realidade maior (divina) que se antecipa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O termo n\u00e3o \u00e9, originariamente, crist\u00e3o, antes, \u00e9 cristianizado, sendo utilizado [na] \u2018linguagem cultual primitiva [para designar] a vinda anual da divindade ao seu templo para visitar os seus fi\u00e9is. Segundo a cren\u00e7a pag\u00e3, cada deus permanecia no meio dos seus devotos durante o tempo em que a sua est\u00e1tua estava exposta ao culto por ocasi\u00e3o da festa anual em sua honra. Na linguagem cortes\u00e3 o advento designava tamb\u00e9m a primeira visita oficial de uma personagem importante com atributos divinos.\u2019 <a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com \u2018advento\u2019 evoca-se esta tens\u00e3o entre o tempo e o eterno, o ef\u00e9mero e o definitivo, sendo que a hist\u00f3ria da cristianiza\u00e7\u00e3o deste termo nos evidencia que \u00e9 a original surpresa pela realidade maior que gera, nos sujeitos humanos, a atitude de expectativa. A anterioridade \u00e9 a da realidade esperada, n\u00e3o a da espera, em si.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com efeito, a hist\u00f3ria da emerg\u00eancia, na liturgia crist\u00e3, confirma-o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria da consolida\u00e7\u00e3o, na liturgia crist\u00e3, da celebra\u00e7\u00e3o do advento, cujas primeiras refer\u00eancias nos aparecem em S. Hil\u00e1rio de Poitiers, por volta de 360, que fala de \u2018um per\u00edodo de tr\u00eas semanas de prepara\u00e7\u00e3o do natal, a come\u00e7ar no dia 17 de dezembro at\u00e9 ao dia 6 de janeiro\u2019<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> e, depois refor\u00e7adas, no conc\u00edlio de Sarago\u00e7a, em 380, que \u2018determina que ningu\u00e9m falte \u00e0 igreja nas tr\u00eas semanas que precedem a Epifania\u2019<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>, fixando-se, definitivamente, com a reforma gregoriana (s\u00e9c. VII), com as caracter\u00edsticas que tem hoje, depois de ter chegado a ser de quarenta dias \u2013 que lhe valera o nome de \u2018quaresma de inverno\u2019 (indo desde a festa de S. Martinho at\u00e9 \u00e0 Epifania)<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>-, evidencia que, primeiramente, o olhar se concentra na festa do Natal, s\u00f3 assente nas viv\u00eancias crist\u00e3s muito ap\u00f3s a centralidade consolidada da P\u00e1scoa, criando-se, s\u00f3 depois, o estado de expectativa e esperan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, retomemos, por isso, a ideia inicialmente exposta de que \u201cs\u00f3 um olhar crente pode reconhecer, no tempo, a sua condi\u00e7\u00e3o de \u2018advento\u2019\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caminhamos\u2026 Como diz Gabriel Marcel, somos \u2018homo viator\u2019. Mas que natureza tem este nosso caminhar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o o sabemos, previamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O caminhar humano pode n\u00e3o ser mais do que um \u2018errare\u2019, termo que significa, simultaneamente, \u2018vaguear\u2019, \u2018deambular\u2019, \u2018andar ao acaso\u2019, e, tamb\u00e9m, \u2018afastar-se da verdade\u2019, \u2018estar em erro\u2019, \u2018errar\u2019, \u2018cometer um erro\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A densidade sem\u00e2ntica do termo, que se mant\u00e9m na nossa l\u00edngua, \u00e9 particularmente significativa. Definir-se-\u00e1 o caminhar humano como o de um ser que \u2018erra\u2019?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vis\u00e3o crente antep\u00f5e a esta met\u00e1fora do errante uma outra, na qual se repercute a densidade da ideia do advento: a do peregrino\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O peregrino vive em advento. O seu tempo, o seu caminhar n\u00e3o \u00e9 o do errante, mas o de quem se encaminha, expectante, para um horizonte. N\u00e3o um horizonte que ele cria, mas que se abre, diante dos seus olhos, como realidade que o \u2018invade\u2019 e o projeta para a frente (precisamente o que afirma a ideia de \u2018projeto\u2019 \u2013 \u2018lan\u00e7ar-se para diante\u2019). Sendo o tempo um advento, tudo adquire um outro significado, tornando-se a pr\u00f3pria realidade j\u00e1 n\u00e3o um \u2018objeto\u2019, uma realidade exposta, sem densidade, mas o lugar de uma tens\u00e3o; a realidade torna-se toda ela, no dizer de W. Pannenberg, prol\u00e9ptica, antecipat\u00f3ria<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caminha-se\u2026 mas n\u00e3o se caminha sem rumo. Caminha-se para algures\u2026 E, em cada express\u00e3o, mesmo que diminuta, de significado e de sentido, densifica-se a realidade como experi\u00eancia simb\u00f3lica, experi\u00eancia que une o \u2018j\u00e1\u2019 e o \u2018ainda n\u00e3o\u2019. Como dizia o ent\u00e3o Professor Joseph Ratzinger, numa luminosa homilia na Catedral de M\u00fcnster (em 1964), \u2018estamos no Advento. Todas as nossas respostas continuam a ser pe\u00e7as soltas, fragmentos parciais. A primeira coisa que temos de aceitar \u00e9, sempre, esta realidade do Advento permanente.\u2019<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desta constata\u00e7\u00e3o aparentemente t\u00e3o simples resultam duas consequ\u00eancias muito significativas: sendo tudo um advento, sendo o tempo <em>lugar<\/em> da espera e da esperan\u00e7a, resulta daqui que, por um lado, o absoluto n\u00e3o \u00e9, ainda, o agora (quantas consequ\u00eancias para a leitura sobre o fundamentalismo e a presun\u00e7\u00e3o da total posse da verdade! Na senda do que entende o mesmo professor Ratzinger, o advento \u00e9, aqui, um \u2018ainda n\u00e3o\u2019<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>), pois o absoluto encontra-se para al\u00e9m da Hist\u00f3ria, como eterno para o qual se encaminha o tempo; e, em segundo lugar, o tempo tamb\u00e9m se densifica, pois, nele, prepara-se o eterno ou, como diz Leonardo Boff, no tempo \u2018transparece\u2019<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a> o eterno (Ah, quantas consequ\u00eancias para os relativismos e todas as indevidas err\u00e2ncias p\u00f3s-modernas e hipermodernas! De acordo com esta segunda conclus\u00e3o, a condi\u00e7\u00e3o de \u2018advento\u2019 diz do tempo que ele \u00e9, tamb\u00e9m, um \u2018j\u00e1\u2019.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tempo \u00e9 advento\u2026 \u00c9 um longo advento. Algo se aproxima, Algu\u00e9m se revelar\u00e1 quando, definitivamente, o tempo der lugar ao eterno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, at\u00e9 l\u00e1, somos peregrinos. N\u00e3o erramos!<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;, &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Cfr. <em>Dicion\u00e1rio de Latim-Portugu\u00eas<\/em>, Porto, Porto Editora, 2001, 2.\u00aa edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Isidro Pereira, <em>Dicion\u00e1rio grego-portugu\u00eas e portugu\u00eas-grego<\/em>, Braga, Livraria A.I, s\/d, 8.\u00aa edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Pedro Ferreira, OCD, \u2018O tempo do advento\u2019, in <em>A celebra\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio do Natal,<\/em> Coimbra, Gr\u00e1fica de Coimbra, p. 47.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Art. Cit,, p. 48.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Ibidem, p. 48.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Cfr. Ibidem, pp. 48-49.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Cfr. Lu\u00eds Silva, <em>Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para uma defini\u00e7\u00e3o do estatuto cient\u00edfico da teologia segundo W. Pannenberg<\/em>, Coimbra, Gr\u00e1fica de Coimbra, 2004, p. 102.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Joseph Ratzinger, <em>Do sentido do ser crist\u00e3o<\/em>, Cascais, Principia, 2009, pp. 35-36.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> A cita\u00e7\u00e3o mais completa da homilia do prof. Ratzinger (Papa Bento XVI) evoca esta ideia de que, por estarmos em Advento, estamos num tempo de incompletude, \u2018antes de Cristo\u2019: \u2018A primeira coisa que temos de aceitar \u00e9, sempre, esta realidade do Advento permanente. Se o fizermos, vamos come\u00e7ar a reconhecer que a fronteira entre \u00abantes de Cristo\u00bb e \u00abdepois de Cristo\u00bb n\u00e3o \u00e9 exteriormente transversal ao tempo hist\u00f3rico e n\u00e3o pode ser registada no mapa, mas que atravessa o nosso pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o. Enquanto vivermos do ego\u00edsmo, da concentra\u00e7\u00e3o em n\u00f3s pr\u00f3prios, estaremos, ainda hoje, \u00abantes de Cristo\u00bb.\u2019 &#8211; Joseph Ratzinger, <em>op. Cit.<\/em>, p.36.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Cfr. Leonardo Boff, <em>Os sacramentos da vida e a vida dos sacramentos<\/em>, Petr\u00f3polis, Vozes, 1993.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/leolo212-15013188\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=5539524\">Antonio L\u00f3pez<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=5539524\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo originalmente publicado<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":16729,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,14],"tags":[],"class_list":["post-16727","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-temas-para-debate"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16727","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16727"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16727\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16743,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16727\/revisions\/16743"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16729"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16727"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16727"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16727"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}