{"id":16647,"date":"2023-11-16T20:07:48","date_gmt":"2023-11-16T20:07:48","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=16647"},"modified":"2023-11-16T20:12:10","modified_gmt":"2023-11-16T20:12:10","slug":"bioetica-e-sociedade-dignificar-o-trabalho-na-era-digital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/bioetica-e-sociedade-dignificar-o-trabalho-na-era-digital\/","title":{"rendered":"Bio\u00e9tica e sociedade | Dignificar o trabalho na era digital [1]"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">Bio\u00e9tica e sociedade<br \/>\n(Parceria com o Centro de Estudos de Bio\u00e9tica)<\/h6>\n<hr \/>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Carlos Costa Gomes*<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-8127\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Carlos-Costa-Gomes.jpg\" alt=\"\" width=\"192\" height=\"250\" \/>A Hist\u00f3ria ensina-nos que a tecnologia \u00e9 algo inato \u00e0 atividade humana. Estamos sempre a inventar e a melhorar ferramentas para servir o ser humano. Agora as tecnologias &#8211; a Intelig\u00eancia Artificial (IA) &#8211; que criamos est\u00e3o a moldar-nos e a inventar-nos (Kuskis, A 2013). Nenhuma da tecnologia como a IA inventada at\u00e9 agora, pode mudar o homem integralmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas o que \u00e9 que nos torna humanos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que nos torna humanos n\u00e3o \u00e9 o matem\u00e1tico, nem mesmo o qu\u00edmico ou o biol\u00f3gico, mas o que nos envolve enquanto pessoas. Isto \u00e9, o que passa despercebido, o indiz\u00edvel, consci\u00eancia, a capacidade da intelig\u00eancia reflexiva em avaliar o bem e o mal das a\u00e7\u00f5es mediante a pondera\u00e7\u00e3o de valores morais. O sujeito, a pessoa, n\u00e3o \u00e9 uma coisa; n\u00e3o \u00e9 nem pode ser reific\u00e1vel, nem instrumentaliz\u00e1vel e nem objetiv\u00e1vel. A pessoa como fim em si mesma n\u00e3o compar\u00e1vel nem equivalente. A sua natureza, porque humana, adquire intrinsecamente a autonomia, a liberdade e a dignidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 em raz\u00e3o da capacidade da intelig\u00eancia reflexiva que a pessoa sabe que tem a liberdade e autonomia para questionar a bondade, ou n\u00e3o, da tecnologia. O homem atual, se quiser dominar o confronto entre a IA e a Humanidade ter\u00e1 de usar as normas \u00e9ticas b\u00e1sicas:\u00a0<em>ser exigentes na avalia\u00e7\u00e3o sobre a IA e ao mesmo tempo compreender que a sua miss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a de impedir o progresso, mas humaniz\u00e1-lo<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como dignificar o trabalho na era digital<\/strong>\u00a0&#8211;\u00a0<strong>ver, julgar e agir<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A compreens\u00e3o sobre a exponencialidade da tecnologia e o que representa para o futuro da humanidade \u00e9 fundamental. Temos que aprender a imaginar e depois a viver com as mudan\u00e7as. No futuro imediato, que \u00e9 o nosso, esperar para\u00a0<em>ver<\/em>\u00a0\u00e9 t\u00e3o mau como fazer sem pensar. Temos que\u00a0<em>ver<\/em>\u00a0o horizonte, pois o futuro \u00e9 uma constante defini\u00e7\u00e3o e n\u00e3o algo que simplesmente acontece. E ver o horizonte \u00e9 ver o C\u00e9u a esbater na terra e ver a terra a entrar no C\u00e9u.\u00a0 Significa que temos que olhar para a tecnologia e questionar sobre a sua necessidade e uso adequado. O tempo atual j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o da capacidade de usar uma tecnologia, mas sobretudo como aplicar a \u00e9tica na t\u00e9cnica; ou dito de outra forma que a t\u00e9cnica corresponda \u00e0s exig\u00eancias \u00e9ticas da humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">A t\u00e9cnica, \u201c<em>esta maravilhosa obra do esp\u00edrito humano, porque, entre as maravilhosas inven\u00e7\u00f5es da t\u00e9cnica que, principalmente nos nossos dias, o engenho humano extraiu, com a ajuda de Deus, das coisas criadas [\u2026], aquelas que dizem respeito, antes de mais, ao esp\u00edrito humano abriram novos caminhos para comunicar facilmente not\u00edcias, ideias e ordens\u201d<strong>[2]<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tempo atual obriga-nos a ver, estarmos despertos e atentos, emergir em cen\u00e1rios futuros, descobrir como seria viver nesse futuro, porque a tecnologia pode ser o para\u00edso ou o inferno, pelo que temos que ser cautelosos e perguntar o que est\u00e1 em jogo: o como, o quando, o quanto e para quem. O futuro n\u00e3o \u00e9 uma resposta de sim e n\u00e3o, mas antes, depende. Se as perguntas do porqu\u00ea e para qu\u00ea forem ouvidas a tecnologia ser\u00e1 mais equilibrada, mas para que isto aconte\u00e7a \u00e9 necess\u00e1rio perguntar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A resposta passa por nos tornar melhores gestores da humanidade. Qualquer um de n\u00f3s &#8211; um trabalhador, um l\u00edder empresarial ou qualquer pol\u00edtico na sua condi\u00e7\u00e3o representante p\u00fablico -, tem de aceitar esta tarefa e\u00a0<em>agir<\/em>\u00a0com responsabilidade, honestidade e verdade. Gerar confian\u00e7a no presente e no futuro da humanidade, porque sem uma \u00e9tica de confian\u00e7a a tecnologia, a IA:<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\">\n<li>A tecnologia sem \u00e9tica condena a sociedade;<\/li>\n<li>Agir para impedir que as tecnologias n\u00e3o passem de bestiais a bestas, de forma a alcan\u00e7ar o justo meio de Arist\u00f3teles;<\/li>\n<li>Agir de forma a exigir dos que inventam e investem nas novas tecnologias ofere\u00e7am formas mais eficazes para reduzir ou limitar consequ\u00eancias indesejadas;<\/li>\n<li>Agir para que a tecnologia e a humanidade devam fazer parte dos planos de estudos da mesma sala de aula;<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para dignificar o trabalho temos que preservar uma clara distin\u00e7\u00e3o entre o que \u00e9 real e o que \u00e9 c\u00f3pia ou simula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual o papel das organiza\u00e7\u00f5es neste novo tempo e qual o modelo social que responde eticamente ao n\u00e3o-trabalho?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As organiza\u00e7\u00f5es e institui\u00e7\u00f5es t\u00eam o dever \u00e9tico de avaliar e julgar se esta tecnologia vai diminuir a humanidade. Avaliar e julgar se esta tecnologia ir\u00e1 promover a felicidade humana. Avaliar e julgar os efeitos colaterais involunt\u00e1rios e potencialmente desastrosos e verificar se esta tecnologia assumir\u00e1 muito poder em si mesma. Por fim, \u00e9 um imperativo \u00e9tico da precau\u00e7\u00e3o de perceber se esta tecnologia vai servir o homem ou vai servir-se a si mesma. Dito de outra forma, se a tecnologia (IA) estar\u00e1 ao servi\u00e7o do homem ou o homem ao servi\u00e7o da tecnologia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As organiza\u00e7\u00f5es e institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas ou privadas t\u00eam o dever \u00e9tico da solidariedade avaliando, nesta perspetiva, a necessidade de moldar novos contratos sociais que abordem os efeitos negativos para humanidade. Por isso, n\u00e3o basta pensar uma \u00e9tica m\u00ednima, que \u00e9 a de acautelar o rendimento m\u00ednimo necess\u00e1rio, mas a partir de uma \u00e9tica de m\u00e1ximos elaborar novo contrato social para compensar o n\u00e3o-trabalho. Uma \u00e9tica de m\u00e1ximos que possa promover um di\u00e1logo transparente promova a confian\u00e7a e a justi\u00e7a como equidade. Tal \u00e9tica de m\u00e1ximos deve partir dos seguintes pressupostos:<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\">\n<li>Essas m\u00e1quinas ter\u00e3o limites de hor\u00e1rio de trabalho?<\/li>\n<li>Pagar\u00e3o impostos?<\/li>\n<li>Pagar\u00e3o taxa para Seguran\u00e7a Social?<\/li>\n<li>Provocar\u00e3o mudan\u00e7as no funcionamento da Seguran\u00e7a Social?<\/li>\n<li>Como pagar o n\u00e3o-trabalho das pessoas com trabalho das m\u00e1quinas inteligentes?<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Os crist\u00e3os e a evangeliza\u00e7\u00e3o do mundo do trabalho. O que fazer para que o trabalho humano seja uma fonte de realiza\u00e7\u00e3o humana?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Evangelho \u00e9 a palavra-chave, porque o extraordin\u00e1rio e completo conhecimento pessoal; a verdadeira medida do conhecimento, para o crist\u00e3o, vem de Deus. Para se conhecer\u00a0<em>como se deve<\/em>, n\u00e3o basta o conhecimento preso \u00e0 terra e que da terra nasce. \u00c9 necess\u00e1rio o amor que ajuda perceber o processo fr\u00e1gil do conhecimento, uma vez que n\u00e3o podemos conhecer verdadeiramente algu\u00e9m ou alguma coisa, sem um processo humilde e fr\u00e1gil de procura e encontro e sem olharmos com os olhos que ve\u00eam de uma outra maneira essa coisa e essa pessoa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Evangelho \u00e9 a palavra-chave porque nos d\u00e1 uma luz nova que vem de fora e que se contrap\u00f5e \u00e0 met\u00e1fora da luz que em n\u00f3s mora, a luz da nossa pequena e insuficiente raz\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Evangelho mostra que na pessoa que em n\u00f3s mora, mora tamb\u00e9m uma outra pessoa que d\u00e1 sentido \u00e0 vida. A pessoa em si n\u00e3o \u00e9 completamente realizada se n\u00e3o sentir que produz obra e que \u00e9 co-criadora, com Deus, na realiza\u00e7\u00e3o do mundo\u201d. \u201cTudo aquilo que \u00e9 fruto do trabalho das obras humanas tem um sentido quase divino, que s\u00f3 os humanos conseguem dar a cada um desses atos, e que n\u00e3o passar\u00e1 nunca para uma m\u00e1quina\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tecnologia (mesmo que reproduza o nosso c\u00e9rebro, todo o nosso mundo emocional) nunca poder\u00e1 dar sentido ao trabalho. S\u00f3 a pessoa consegue. E esse continuar\u00e1 a ser o sentido profundo do trabalho, tenha o trabalho a configura\u00e7\u00e3o que tiver\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A robotiza\u00e7\u00e3o industrial e a IA n\u00e3o s\u00e3o apenas inevit\u00e1veis; n\u00e3o podemos encarar este mundo tecnol\u00f3gico como uma fatalidade, mas olhar para a tecnologia como uma finalidade. A tecnologiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 nem pode ser uma fatalidade, mas sim um instrumento cuja finalidade \u00e9 a de servir o homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tecnologia e as ferramentas de intelig\u00eancia artificial t\u00eam grandes virtualidades, mas tamb\u00e9m s\u00e3o pass\u00edveis de erros. Existe uma via entre o humano e a IA, onde o papel do ser humano \u00e9 fundamental. Pois, se por um lado temos a responsabilidade \u00e9tica de n\u00e3o impedir o progresso, por outro, temos o dever \u00e9tico de perguntar sobre a sua finalidade: para qu\u00ea, para quem, quando e como.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">[1] Comunica\u00e7\u00e3o: \u201cDignificar o trabalho na era digital?\u201d \u2013 XVII Congresso Nacional. F\u00e1tima, 8 e 9 de junho de 2019.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">[2]\u00a0IGREJA CAT\u00d3LICA &#8211; Decreto Inter Mirifica sobre os meios de comunica\u00e7\u00e3o social.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><i><b>* Presidente do Centro de Estudos de Bio\u00e9tica | P\u00f3s-Doc e PhD em Bio\u00e9tica\u00a0<\/b><\/i><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/computerizer-4588466\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2301646\">Lukas<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2301646\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bio\u00e9tica e sociedade<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":16648,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[72,136],"tags":[],"class_list":["post-16647","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-bioetica-e-sociedade","category-carlos-costa-gomes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16647","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16647"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16647\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16651,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16647\/revisions\/16651"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16648"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16647"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16647"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16647"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}