{"id":16523,"date":"2023-11-12T07:00:37","date_gmt":"2023-11-12T07:00:37","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=16523"},"modified":"2023-12-10T16:48:48","modified_gmt":"2023-12-10T16:48:48","slug":"regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden-17-do-amaldicoado-edipo-ao-bendito-filho-do-altissimo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden-17-do-amaldicoado-edipo-ao-bendito-filho-do-altissimo\/","title":{"rendered":"\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019 | 17 | Do amaldi\u00e7oado \u00c9dipo ao Bendito Filho do Alt\u00edssimo"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><em>\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019<\/em> | Parceria com a revista <a href=\"http:\/\/www.movimento-acr.pt\/accao-catolica-portuguesa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">&#8216;Mundo Rural&#8217;<\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019 tem-nos levado a percorrer os caminhos que aproximam e distanciam a cultura cl\u00e1ssica, profundamente tr\u00e1gica, e a cultura surgida do cristianismo, redentora da tragicidade com que a vida se afigura. O tr\u00e1gico \u00e9 omnipresente e o \u2018ar que se respira\u2019, na cultura grega; o tr\u00e1gico \u00e9 o ponto de partida mas n\u00e3o o de chegada, na cultura emergente do acontecimento \u2018Cristo\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa e noutra, a consci\u00eancia da dualidade da vida existe, mas, numa, a vis\u00e3o tr\u00e1gica grega, ela converte-se num dualismo, de que Plat\u00e3o e os seus seguidores s\u00e3o o m\u00e1ximo expoente, que deseja o abandono do corpo e da mat\u00e9ria a que atribui a origem do mal; na outra, essa consci\u00eancia faz-se de um olhar atento que v\u00ea o mal habitar o cora\u00e7\u00e3o do homem, como express\u00e3o de um englobante livre arb\u00edtrio, mas que o redime para o superar, nada abandonando, mas tudo assumindo para o transcender.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos \u00e2mbitos em que essa tragicidade \u00e9 particularmente not\u00f3ria \u00e9 a que concerne \u00e0s rela\u00e7\u00f5es familiares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tragicidade com que os gregos veem a vida repercute-se nas rela\u00e7\u00f5es mais radicais da condi\u00e7\u00e3o humana. Veja-se qu\u00e3o central \u00e9, entre os mitos gregos, a hist\u00f3ria de \u00c9dipo e tudo o que a envolve. Dif\u00edcil ser\u00e1 imaginar maior trag\u00e9dia, toda ela verificada no \u00e2mbito das rela\u00e7\u00f5es familiares<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O mito de \u00c9dipo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recordemos os tra\u00e7os mais largos deste denso mito, com a consci\u00eancia da sua import\u00e2ncia para a cultura grega\u2026 Seguimos o que nos conta Pierre Grimal, no seu \u2018Dicion\u00e1rio da mitologia grega e romana\u2019 (edi\u00e7\u00e3o da Ant\u00edgona Editores, 2020)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9dipo \u00e9 filho de Laio, rei de Tebas, descendente de uma fam\u00edlia que reinou na cidade ao longo de gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 discuss\u00e3o sobre o momento em que \u00e9 anunciada a maldi\u00e7\u00e3o que impender\u00e1 sobre esta crian\u00e7a, mas seguindo a vers\u00e3o adotada por S\u00f3focles, ao nascer, um or\u00e1culo anuncia que esta crian\u00e7a matar\u00e1 o pai e casar\u00e1 com a m\u00e3e. Para evitar que o or\u00e1culo se concretizasse, Laio \u2018exp\u00f4s o filho\u2019 (p. 127), isto \u00e9, segundo uma das vers\u00f5es, foram-lhe atados os p\u00e9s (donde vem o nome dele \u2013 \u00c9dipo quer dizer \u2018p\u00e9s inchados\u2019) e atirado ao mar, e, segundo outra, foi deixado ao abandono num monte. De qualquer modo, sublinhe-se este \u2018desprezo\u2019 pelo filho, neste caso, por causa de um destino. Hoje esta cren\u00e7a no destino (vejam-se os pretextos para o aborto alegando-se que se vai ser pobre ou infeliz ou\u2026 ou\u2026 A l\u00f3gica \u00e9 semelhante. O destino est\u00e1 tra\u00e7ado e nada parece haver a fazer\u2026 A vis\u00e3o crist\u00e3 contrasta, radicalmente, com esta perspetiva\u2026) continua entre muitos, expressando a presen\u00e7a dessa vis\u00e3o tr\u00e1gica de que temos vindo a falar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas retomemos a hist\u00f3ria de \u00c9dipo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9dipo \u00e9, ent\u00e3o, exposto. Deixado ao abandono, contraria as expectativas do rei e sobrevive, tendo, segundo algumas vers\u00f5es, vivido na corte de Pol\u00edbio, soberano de Corinto (ou de outras localidades). O tempo passa e vem a dar-se o tr\u00e1gico encontro fortuito entre \u00c9dipo, que pensa, toda a vida, ser filho de Pol\u00edbio, e o rei de Tebas, Laio (seu pai verdadeiro). Desse encontro (tamb\u00e9m ele diverso nas v\u00e1rias vers\u00f5es conhecidas do mito) resulta a morte de Laio e a ida de \u00c9dipo para Tebas, onde se apaixona por Jocasta, a esposa de Laio (e, est\u00e1 f\u00e1cil de ver, m\u00e3e desconhecida dele) ou, noutras vers\u00f5es, casa com a mesma em virtude de ter conseguido livrar Tebas da esfinge que devorava, diariamente, um tebano, at\u00e9 que conseguissem decifrar o enigma em que ela perguntava \u2018qual o ser que caminha ora com dois p\u00e9s, ora com tr\u00eas, ora com quatro, e que, contrariamente ao normal, \u00e9 mais fraco quando usa o maior n\u00fameros de p\u00e9s\u2019. Descobrindo que era \u2018o homem\u2019, \u00c9dipo destr\u00f3i a esfinge e \u00e9-lhe dada a possibilidade de casar com a rainha vi\u00fava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A trag\u00e9dia prossegue e, em per\u00edodo de uma peste, \u00e9-lhe dado a conhecer que o respons\u00e1vel por ela \u00e9 o assassino do rei Laio. \u00c9dipo lan\u00e7a uma \u2018ca\u00e7a ao homem\u2019, at\u00e9 que descobre ser ele mesmo o dito assassino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9dipo cega-se e Jocasta suicida-se.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Leitura do mito em contraste com a vis\u00e3o crist\u00e3 da vida<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 dif\u00edcil imaginar maior trag\u00e9dia, sendo que a vis\u00e3o grega n\u00e3o consegue vislumbrar sa\u00edda. Nem os deuses gregos parecem escapar \u00e0 for\u00e7a do destino, o que deixa num beco sem sa\u00edda uma cultura que adote esta vis\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A densidade deste mito agudiza-se se tivermos em conta que ele exprime algo das pr\u00f3prias viv\u00eancias gregas. Valer\u00e1 a pena recordar, repercutindo o que nos conta Miguel Morgado no seu luminoso livro \u2018Guerra, imp\u00e9rio e democracia\u2019 (Publica\u00e7\u00f5es Dom Quixote, 2023), como eram tratadas as crian\u00e7as, no contexto da cidade-estado de Esparta, cidade grega rival da de Atenas. Diz Miguel Morgado: \u2018A educa\u00e7\u00e3o era p\u00fablica e, a partir dos sete anos, as crian\u00e7as eram retiradas aos pais, ricos e pobres, para serem sujeitas \u00e0 mais feroz prepara\u00e7\u00e3o militar. Eram entregues a um \u00abbando\u00bb &#8211; <em>ag\u00e9l\u00e9 \u2013 <\/em>de meninos da mesma idade. Aprendiam a sobreviver sozinhos, com pouca comida \u2013 e da\u00ed terem de roubar, apesar do risco de castigos corporais terr\u00edveis se apanhados em fragrante delito \u2013 e completamente expostos ao frio e ao calor. [\u2026] Os espartanos praticavam sistematicamente o infantic\u00eddio. N\u00e3o como controlo do crescimento da popula\u00e7\u00e3o, mas como t\u00e9cnica eug\u00e9nica. N\u00e3o podiam sobreviver em Esparta os rec\u00e9m-nascidos com deforma\u00e7\u00f5es ou debilidades f\u00edsicas.\u2019 (pp.226-227)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Repercutir estas constata\u00e7\u00f5es exp\u00f5e o alcance do \u2018regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019. Na verdade, pressentimos, nestas palavras algo do que vamos notando na cultura contempor\u00e2nea que, a pretexto de \u2018progressos\u2019, afinal, retoma pr\u00e1ticas que o cristianismo superara.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vis\u00e3o pessimista sobre a crian\u00e7a, presumindo a \u2018indignidade\u2019 da crian\u00e7a d\u00e9bil e fr\u00e1gil, contrasta com a vis\u00e3o crist\u00e3 que, olhando a densidade da realidade humana, a debilidade e vulnerabilidade dos rec\u00e9m-nascidos, reconhece, at\u00e9 no infante fr\u00e1gil depositado na manjedoura, (o mesmo que, volvida uma semana, ser\u00e1 reconhecido como sinal de contradi\u00e7\u00e3o), a presen\u00e7a do divino entre os homens. Na vis\u00e3o crist\u00e3, o tr\u00e1gico redime-se com a transpar\u00eancia do eterno no ef\u00e9mero. Aquela crian\u00e7a, aumentando-se o contraste com a vis\u00e3o tr\u00e1gica, \u00e9, n\u00e3o apenas sinal, mas o pr\u00f3prio Deus, na pessoa do Filho, superando a for\u00e7a negativa que a trag\u00e9dia colocava nos filhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O caminho que nos leva de \u00cdtaca (aqui tomado como s\u00edmbolo da cultura grega) at\u00e9 ao futuro sonhado no \u00c9den mostra-nos, em contraste, as duas matrizes que a nossa cultura continua a fazer conviver, nem sempre consciente do alcance de uma e outra. Regress\u00e1mos, com Ulisses, enquanto Pen\u00e9lope tecia e desfazia o tecido, fiel e resistente, esperando pelo marido, que ela cria vivo e a caminho de casa. Muito da cultura grega nos chega, positivamente, mas a vis\u00e3o tr\u00e1gica precisa da reden\u00e7\u00e3o, para que Pen\u00e9lope n\u00e3o tenha tecido, em v\u00e3o, a esperan\u00e7a do retorno sempre desejado. O \u00c9den n\u00e3o \u00e9 um mito do passado: \u00e9 o futuro nascido das m\u00e3os de um Deus que cria bom, mas cuja cria\u00e7\u00e3o, existente no ef\u00e9mero, sente a sedu\u00e7\u00e3o da decad\u00eancia. O sonho do \u00c9den vitaliza o bem e supera o mal, n\u00e3o como dois princ\u00edpios em conflito, mas como a total concretiza\u00e7\u00e3o diante da insuficiente realiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, como sempre, ao longo destes dois mil anos, as duas matrizes convivem, mas as implica\u00e7\u00f5es de uma e outra s\u00e3o distantes nos seus resultados. Muitos sentem a sedu\u00e7\u00e3o da trag\u00e9dia, mas o beco sem sa\u00edda deveria acordar do torpor. Acordar\u00e1 Ulisses a tempo? Ou n\u00e3o lhe restar\u00e1 sen\u00e3o cegar-se, como \u00c9dipo, e deitar termo \u00e0 vida, como Jocasta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No cristianismo, \u2018espada que trespassar\u00e1 o cora\u00e7\u00e3o da m\u00e3e\u2019 n\u00e3o \u00e9 a \u00faltima palavra, mas o passo anterior \u00e0 reden\u00e7\u00e3o. Que espada escolhemos? A tr\u00e1gica de Jocasta ou a redentora da M\u00e3e com o Filho no rega\u00e7o?<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura e autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\"><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/%C3%89dipo#\/media\/Ficheiro:Oedipus_and_the_Sphinx_MET_DP-14201-023.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00c9dipo e a Esfinge<\/a> | Gustave Moreau [1826-1898] &#8211; Museu Metropolitano de Arte<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2018Regresso a \u00cdtaca<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":16524,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,177],"tags":[],"class_list":["post-16523","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16523","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16523"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16523\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16761,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16523\/revisions\/16761"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16524"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16523"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16523"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16523"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}