{"id":16380,"date":"2023-09-06T19:07:38","date_gmt":"2023-09-06T18:07:38","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=16380"},"modified":"2023-09-06T19:07:38","modified_gmt":"2023-09-06T18:07:38","slug":"in-memoriam-doutor-pinho-ferreira-um-gigante-com-coracao-simples","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/in-memoriam-doutor-pinho-ferreira-um-gigante-com-coracao-simples\/","title":{"rendered":"In Memoriam | Doutor Pinho Ferreira, um gigante com cora\u00e7\u00e3o simples"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fui aluno do Doutor Pinho Ferreira em dois momentos distintos do meu percurso acad\u00e9mico: em Coimbra, entre 1992 e 1996, no ISET, instituto que funcionava no Semin\u00e1rio da Sagrada Fam\u00edlia, e no Porto, na Faculdade de Teologia, em 1997-98. Desde a primeira hora, suscitou-me espanto e assombro o contraste entre o distinto professor, que suscitava respeito e um quase temor (era um gigante diante de todos n\u00f3s\u2026), e o verdadeiro esp\u00edrito po\u00e9tico de um contemplativo que constat\u00e1vamos em cada uma das suas aulas. Recordo-me de que, em Coimbra, as aulas come\u00e7avam sempre com uma improvisada ode \u00e0 tranquilidade do Semin\u00e1rio, \u00e0 pureza do ambiente, \u00e0 melodia natural que se ouvia, em contraste com o bul\u00edcio da cidade. As suas palavras leves e de grande lirismo (quando n\u00e3o mesmo de humor muito fino \u2013 \u2018can\u00f3nico!\u2019 diz\u00edamos) contrastavam com o aspeto aparentemente pesado que o primeiro olhar captava. Fazia-nos sentirmo-nos como que regressados ao \u00c9den\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem o via e se fixava no que via errava na avalia\u00e7\u00e3o do homem que aquele corpulento andar parecia acompanhar. A lentid\u00e3o do seu andar n\u00e3o era a do peso de quem n\u00e3o quer ir longe ou de quem n\u00e3o consegue andar, mas a da pondera\u00e7\u00e3o de quem sabe que \u00e9 perdido o andar que n\u00e3o se rege pela verdade. Os seus passos, comedidos e compassados, expressavam o car\u00e1cter de um professor que nunca deixava nenhum aluno sem resposta, sempre num profundo respeito pela pessoa aprendente. Muito guardei para mim, para o professor que hoje sou, do que observei no Doutor Pinho. Nunca o vi dizer a um aluno que a resposta estava errada: media, com pedagogia, as palavras, de modo a levar o aluno a concluir que errara. Tratava-nos sempre na terceira pessoa. Interpreto-o (porque assim o senti, ent\u00e3o!) como franco sinal de respeito por n\u00f3s. Respeito que \u00e9 particularmente ilustrado no que sempre ocorria numa determinada aula de direito sacramental em que se discutiriam os impedimentos dirimentes e n\u00e3o dirimentes e em que se definiriam os conceitos de matrim\u00f3nio \u2018rato e consumado\u2019, \u2018rato e n\u00e3o consumado\u2019. Em aula determinada desse tema, o Doutor Pinho falaria do ato pr\u00f3prio (a rela\u00e7\u00e3o sexual) pelo qual se \u2018consumaria\u2019 o sacramento (Ouvi, um dia, num casamento, que \u00edamos assistir \u00e0 consuma\u00e7\u00e3o do matrim\u00f3nio. Felizmente, era apenas erro em mat\u00e9rias de direito sacramental por parte do presidente da celebra\u00e7\u00e3o e n\u00e3o se confirmou o que as palavras faziam prever\u2026). Porque essa aula poderia ferir suscetibilidades, autorizava a aus\u00eancia a quem pudesse sentir-se perturbado pela descri\u00e7\u00e3o (n\u00e3o tenho mem\u00f3ria de ningu\u00e9m faltar, sendo que estou certo de que correspondia a uma estrat\u00e9gia pedag\u00f3gica feita de um humor inteligente que podemos confirmar todos os que com ele priv\u00e1mos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Poder\u00e1 pensar quem n\u00e3o p\u00f4de ter a honra de contar com o doutor Pinho por professor que, por tratar de mat\u00e9rias do direito, as abordagens eram fechadas e os assuntos encerrados. Recordo-me de que nos \u2018levava pela m\u00e3o\u2019, atrav\u00e9s de interroga\u00e7\u00f5es, a abrir linhas de reflex\u00e3o que sempre baseava em argumentos l\u00f3gicos e coerentes. Assim aconteceu, por exemplo, ao abordar, na mesma cadeira de direito sacramental, a problem\u00e1tica do trabalho pastoral com quem se encontra unido sem ser pelo v\u00ednculo do sacramento celebrado em contexto eclesial. N\u00e3o dava uma resposta. Suscitava uma interroga\u00e7\u00e3o: \u00abdever\u00e1 ser a mesma a abordagem perante quem est\u00e1 apenas \u2018junto\u2019 (as \u2018uni\u00f5es de facto\u2019 s\u00e3o posteriores) de quem decidiu casar-se pelo civil?\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A interroga\u00e7\u00e3o ficava, antecipando, percebemos hoje, em algumas d\u00e9cadas, as mesmas interroga\u00e7\u00f5es da \u2018Amoris Laetitia\u2019, sempre sublinhando que o direito \u00e9 din\u00e2mico e existe para que, respeitando a verdade, se possa criar as condi\u00e7\u00f5es para que o caminho (que envolve a pessoa toda e toda a pessoa) da salva\u00e7\u00e3o seja percorrido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Doutor Pinho era, a um primeiro olhar, t\u00edmido\u2026 possu\u00eda a timidez pr\u00f3pria dos grandes s\u00e1bios, sempre preocupados em que a sua participa\u00e7\u00e3o no mundo seja servi\u00e7o e respeito pelo outro. O outro era lugar de liberdade, a liberdade que, como homem do Direito, t\u00e3o bem sabia ser a condi\u00e7\u00e3o para a realiza\u00e7\u00e3o do humano, mas tamb\u00e9m marcada pela possibilidade da sua deteriora\u00e7\u00e3o. Esse foi, provavelmente, um dos seus maiores legados: dizer-nos que a dimens\u00e3o jur\u00eddica da Igreja n\u00e3o \u00e9 ap\u00eandice ou acess\u00f3ria, mas a garantia de que, por ela, o caminho pode ser percorrido por todos, porque todos podem e a todos deve ser garantida condi\u00e7\u00e3o para a procura da verdade. De outro modo, ficaria entregue \u00e0 discricionariedade dos poderosos ou dos mais demagogos a reserva dessa procura da Verdade, do pr\u00f3prio Jesus Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Obrigado, Doutor Pinho. Deus, o \u00fanico Justo, o guarde junto de Si.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;, &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lu\u00eds Manuel Pereira<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":16370,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11,156,55],"tags":[],"class_list":["post-16380","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-acontece","category-efemerides","category-luis-manuel-pereira-da-silva"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16380","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16380"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16380\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16381,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16380\/revisions\/16381"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16370"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16380"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16380"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16380"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}