{"id":16353,"date":"2023-09-12T07:00:31","date_gmt":"2023-09-12T06:00:31","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=16353"},"modified":"2023-12-10T16:48:49","modified_gmt":"2023-12-10T16:48:49","slug":"regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden-16-cidadaos-entre-duas-cidades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden-16-cidadaos-entre-duas-cidades\/","title":{"rendered":"\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019 | 16 | Cidad\u00e3os entre duas cidades"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><em>\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019<\/em> | Parceria com a revista <a href=\"http:\/\/www.movimento-acr.pt\/accao-catolica-portuguesa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">&#8216;Mundo Rural&#8217;<\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Troia e \u00cdtaca\u2026 Os dois polos de uma tens\u00e3o terrena. Uma tens\u00e3o sempre resolvida, ao longo da hist\u00f3ria, com a derrota de uns e a vit\u00f3ria de outros. Assim foi\u2026 Assim parece que ser\u00e1, sempre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas assim tem de ser para sempre?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A viagem de Ulisses prolonga-se, ficcionadamente, na mente dos nossos leitores, at\u00e9 um momento da hist\u00f3ria humana em que a interroga\u00e7\u00e3o foi enfrentada, com deten\u00e7\u00e3o: 24 de agosto de 410 d.C..<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Roma, a cidade eterna, \u00e9 saqueada. (66 anos depois, ser\u00e1, mesmo, tomada\u2026)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alarico, o chefe dos visigodos, toma de assalto Roma e provoca um abalo, que volvidos mais de 1600 anos, poderemos equiparar (para que a compara\u00e7\u00e3o crie o modelo de constaste, diante do qual teremos de acrescentar densidade\u2026) ao abalo provocado pelo 11 de setembro de 2001.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como \u00e9 poss\u00edvel que Roma tenha sido saqueada? Abandonaram-na os deuses?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(Remeto para a leitura do inteligente livro de Miguel Morgado, \u2018Guerra, imp\u00e9rio e democracia\u2019 [Pub. D. Quixote, 2023] a recolha dos detalhes e do alcance deste evento\u2026)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perante este evento demolidor, prontamente \u00e9 recuperada a tese de que aos crist\u00e3os se deve esta derrota, pois o seu descomprometimento com a \u2018pol\u00edtica\u2019 romana e a sua indisponibilidade para a divinizar pareceram suavizar o imp\u00e9rio e favorecer o abandono de Roma por parte dos deuses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta acusa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 de hoje (o hoje de 410 d.C.), mas foi revitalizada com este susto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A circunst\u00e2ncia foi o pretexto para a escrita de uma das mais relevantes obras de toda a hist\u00f3ria da literatura ocidental (disponibilizada, em pdf, aos leitores portugueses em edi\u00e7\u00e3o rigorosa repetidamente publicada pela Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian: <a href=\"https:\/\/gulbenkian.pt\/publications\/a-cidade-de-deus-i\/\">https:\/\/gulbenkian.pt\/publications\/a-cidade-de-deus-i\/<\/a>), por um genial crist\u00e3o que bem conhecia os meandros do paganismo em que ele mesmo se movera antes de conhecer o cristianismo. \u2018A cidade de Deus\u2019, da pena de Santo Agostinho, uma extensa obra emerge como resposta a um duplo desafio, recordado por Miguel Morgado, na obra acima referida: \u00ab[\u2026] agora, que Roma mostrava as suas terr\u00edveis vulnerabilidades perante bandos de b\u00e1rbaros, a perplexidade era grande. Roma n\u00e3o tinha qualquer miss\u00e3o divina. Caso contr\u00e1rio, Deus n\u00e3o a teria deixado cair. Ou ent\u00e3o, blasf\u00e9mia das blasf\u00e9mias, o Deus que substitu\u00edra os deuses afinal n\u00e3o o era. Agostinho teve de desarmar ambos os lados, tantos os dependentes da tese de que Roma era o agente pol\u00edtico imprescind\u00edvel da reden\u00e7\u00e3o do mundo como os que viam na queda de Roma cristianizada a demonstra\u00e7\u00e3o de que o Deus dos crist\u00e3os era um \u00eddolo de barro incapaz de proteger a sua capital.\u00bb (pp. 211-212)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma leitura atenta desta s\u00edntese perceber\u00e1 as quest\u00f5es revisitadas, vez ap\u00f3s vez, na hist\u00f3ria destes dois mil anos de cristianismo: a tenta\u00e7\u00e3o da absolutiza\u00e7\u00e3o de um modelo pol\u00edtico e a sedu\u00e7\u00e3o da fuga do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agostinho encontrou uma via genial, sistematizando a leitura fina que o cristianismo trouxera e de que a c\u00e9lebre \u2018carta a Diogneto\u2019 era um exemplo a recordar: \u00abHabitando cidades Gregas e B\u00e1rbaras, conforme coube em sorte a cada um, e seguindo os usos e costumes das regi\u00f5es, no vestu\u00e1rio, no regime alimentar e no resto da vida, revelam unanimemente uma maravilhosa e paradoxal constitui\u00e7\u00e3o no seu regime de vida pol\u00edtico-social. Habitam p\u00e1trias pr\u00f3prias, mas como peregrinos: participam de tudo, como cidad\u00e3os, e tudo sofrem como estrangeiros. Toda a terra estrangeira \u00e9 para eles uma p\u00e1tria e toda a p\u00e1tria uma terra estrangeira.\u00bb (<a href=\"https:\/\/www.snpcultura.org\/pedras_angulares_a_diogneto.html\">https:\/\/www.snpcultura.org\/pedras_angulares_a_diogneto.html<\/a>)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na s\u00edntese de Agostinho, recorda-se que \u00ab[\u2026] estas duas cidades est\u00e3o mutuamente entrela\u00e7adas e mescladas uma na outra neste s\u00e9culo, at\u00e9 que no \u00faltimo ju\u00edzo ser\u00e3o separadas.\u00bb (A cidade de Deus, volume I, livro I, cap\u00edtulo XXXV). No cap\u00edtulo IV do livro XIV, Santo Agostinho define a natureza das duas cidades: \u00abexistem duas cidades diferentes e contr\u00e1rias- porque uns vivem em conformidade com a carne e outros em conformidade com o esp\u00edrito; ou ainda do mesmo modo se pode dizer que uns vivem em conformidade com o homem, e outros em conformidade com Deus.\u00bb E, mais adiante, no cap\u00edtulo XXVIII do livro XIV (II volume da edi\u00e7\u00e3o da FCG), precisa: \u00abDois amores fizeram as duas cidades: o amor de si at\u00e9 ao desprezo de Deus &#8211; a terrestre; o amor de Deus at\u00e9 ao desprezo de si &#8211; a celeste.\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recuperando o paralelismo que temos vindo a construir, ao longo desta rubrica \u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019, poderemos constatar que, se Ulisses sossegar\u00e1 quando chegar a \u00cdtaca, uma cidade geograficamente localiz\u00e1vel, no caso do crist\u00e3o, essa \u2018tens\u00e3o\u2019 nunca ser\u00e1 definitivamente resolvida, neste tempo e nesta \u2018geografia\u2019. E essa \u00e9 a genialidade de Santo Agostinho: assegurar-nos a certeza de que as duas cidades convivem, coexistem, na hist\u00f3ria, faz-nos sempre cidad\u00e3os comprometidos, mas como peregrinos (para utilizar a terminologia da carta a Diogneto). \u00c9, por isso, infundada a acusa\u00e7\u00e3o dos pag\u00e3os de que o (suposto) descomprometimento pol\u00edtico dos crist\u00e3os tenha sido o respons\u00e1vel pela queda de Roma, mas sim a coincid\u00eancia de Roma com a cidade terrestre, a cidade do \u2018amor a si pr\u00f3prio\u2019. A causa da queda de Roma est\u00e1 na sua pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o decadente e n\u00e3o no amor ao outro, proposto pelo cristianismo. A n\u00e3o diviniza\u00e7\u00e3o da cidade terrena \u2018Roma\u2019 n\u00e3o \u00e9, por isso, express\u00e3o de uma falta de compromisso pol\u00edtico, pois, como defende Santo Agostinho, \u2018o bom crist\u00e3o \u00e9 pura e simplesmente o melhor dos cidad\u00e3os\u2019 (Miguel Morgado, p. 212). \u00c9, antes, a assun\u00e7\u00e3o de que a cidade terrena n\u00e3o \u00e9, ainda, a cidade definitiva. Na cidade terrena transparece (mesmo que sob muita opacidade) a cidade de Deus se nela se praticar a justi\u00e7a e o amor ao outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A queda de Roma (e as suas perplexidades) continua a latejar no cora\u00e7\u00e3o do mundo e dos crist\u00e3os. A sedu\u00e7\u00e3o e a tenta\u00e7\u00e3o de cair para a diviniza\u00e7\u00e3o das novas \u2018Romas\u2019 ou para a fuga do mundo por nada nele haver da cidade de Deus continuam vivas como no tempo do bispo de Hipona. E ent\u00e3o, como hoje, a consci\u00eancia de que ser crist\u00e3o \u00e9 viver essa tens\u00e3o de se ser cidad\u00e3o de duas cidades emergia luminosa e esclarecida perante todos os saques e acusa\u00e7\u00f5es dos pag\u00e3os\u2026<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura e autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Joseph-No%C3%ABl_Sylvestre#\/media\/File:Sylvestre_Le_Sac_de_Rome_1890.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Saque de Roma pelos visigodos em 24 de agosto de 410<\/a> | Joseph-No\u00ebl Sylvestre [1890]<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2018Regresso a \u00cdtaca<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":16354,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,177],"tags":[],"class_list":["post-16353","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16353","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16353"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16353\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16762,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16353\/revisions\/16762"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16354"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16353"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16353"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16353"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}